Stella
51 Bode expiatório
Notas iniciais
O coração de Diana estava saindo pela boca quando os seus olhos encontraram a figura de Michelle saindo do elevador e entrando na conversa como se fosse só mais uma investigadora. O seu cérebro não demorou para concluir que Michelle seria o bode expiatório perfeito, e com um sorriso maldoso, ela matou dois coelhos com uma única cajadada.
A facilidade com que a conversa se voltou para a arquivista foi impressionante, e em segundos os três estavam expondo suas teorias acerca da verdadeira identidade do assassino de Hannah, com Stella dizendo:
— Eu não consigo parar de pensar nesse caso nem por um segundo...
— Eu sei. – Uma risada escapou de Will. – E isso está acabando com a minha vida conjugal...
Os olhos de Michelle foram de um para o outro.
— Mas alguém aqui encontrou alguma pista nova sobre o verdadeiro assassino da Hannah?
— Estamos estudando algumas teorias... – Os seus olhos encontraram os do marido, e ambos limparam a garganta. – Mas nada tão importante para que sejamos ouvidos por um juiz.
Michelle engoliu em seco e assentiu.
— Mas tem alguma coisa que vocês possam me contar?
— Eu acho que é melhor esperarmos um pouco. – Os seus ombros caíram enquanto ela passava a mão na nuca, lançando olhares nervosos para eles. – Eu cometi um erro uma vez, e o prefeito foi parar atrás das grades, e você foi... – As mulheres se encararam em constrangimento mútuo. – Arrastada para esse escândalo todo...
— Nem se culpe. – A sua mão foi parar no ombro dela. – Fui eu quem dormi com um homem casado, mesmo que tenha sido só por uma única noite.
Um sorriso orgulhoso brotou no rosto de Will.
— Mas a minha adorada esposa aqui até que tem um ponto. – A sua mão foi parar no outro ombro dela, que ele sacudiu com um entusiasmo quase infantil. – O prefeito pode mesmo ser inocente, e podemos estar apontando o nosso dedo para a pessoa errada.
— E eu não quero apontar o meu dedo para mais ninguém antes de ter certeza...
— E eu te entendo, mas por que você acha que tudo isso não é culpa do prefeito?
— Eu acho que, se ele realmente amasse a Hannah, então meio que ele não teria nenhum motivo para matá-la. – Olhou para o marido, procurando algum sinal de apoio em seu rosto. – Mas eu sei lá. – Apertou os lábios, deixando os dentes fazerem uma pressãozinha no lábio inferior. – Você conhece o prefeito muito melhor do que nós dois. O verdadeiro homem por trás daquele personagem. – Inclinou a cabeça sobre o ombro esquerdo, semicerrando os olhos para olhar para ela. – Você acha que ele seria mesmo capaz de matar uma pessoa com toda aquela frieza?
Os ombros de Michelle endureceram e ela balançou a cabeça.
— Eu... sei que ele é um político linha dura, mas também sei que ele foi capaz de ser um cara muito legal comigo em um momento muito delicado da minha vida. Mesmo assim, eu... ainda não consigo enxergar nenhum outro suspeito.
Ouvindo isso, Diana foi embora.
O caso de Hannah acabou ficando em segundo plano quando a paixão entre os dois detetives se fez presente naquela noite. As mãos de Will passeando pelas suas costas e ombros com toda aquela delicadeza produziam uma intensa vontade de chorar no fundo do seu peito. Os seus olhos se encontraram enquanto elas desciam por seu corpo, chegando até suas coxas, tirando um suspiro baixo dela. A boca dela se abriu em um gemido contido quando ele as apertou, e ele sorriu. A sensação era boa demais para ser ignorada, então ela simplesmente fechou os olhos e tentou se concentrar no que as mãos dele estavam fazendo; sempre gostou de homens que sabiam trabalhar com as mãos, e ele era um excelente exemplo disso.
A imagem de outro homem acabou tomando conta de sua mente contra a sua vontade, e a vontade de chorar aumentou: o homem em questão estava morto, mas a sua figura estava cada vez mais viva em seus pensamentos naqueles últimos dois anos. O ambiente foi tomado por uma carga dramática imensa, mas seu marido sabia exatamente o que estava fazendo, e não demorou para que seu corpo respondesse de acordo: o contato com o corpo dele, misturado com as imagens da sua primeira vez nublaram os seus sentidos, e o seu corpo se agitou quando aquela sensação conhecida se espalhou pelo seu estômago. O nome do marido ecoou pela sala, e ela relaxou enquanto ele a abraçava.
— Eu acho que a nossa filha nunca mais vai poder se sentar nesse tapete. – Uma risada saiu do fundo do seu peito enquanto ela olhava para o homem que a segurava em seus braços. – Vamos ter que mandar lavar tudo.
— Esse é um ótimo tapete. – Os olhos dele emitiram um brilho lascivo. – Ela quase foi feita bem aqui, sabia?
— É? – Ele confirmou com a cabeça. Ela segurou as mãos dele que estavam na sua barriga. – Eu adoro homens que sabem trabalhar com as mãos, sabia?
Ele riu.
— Então, nesse caso, eu adoro ser um trabalhador manual. – Beijou a testa dela. – Está cansada?
Ela fechou os olhos e riu.
— Mais ou menos. – Aconchegou a cabeça na curva do braço dele. – Amo você.
Um sorriso maravilhado se formou no rosto dele enquanto observava a amada cair no sono.
— E eu te amo muito mais, minha querida.
No outro lado da cidade, mais especificamente na casa de Michelle, as filhas dela também tentavam seguir em frente sem tocar naquela famigerada polêmica. As irmãs ficaram mais próximas naquelas últimas horas, e Maeve estava gostando da intimidade com a caçula, mesmo que tentasse negar isso.
— Eu não sabia que o Messenger servia para isso. – A irmã mais velha lançou um olhar inquisitivo para ela, que deitou a cabeça de lado e fez biquinho enquanto cruzava os braços. – Eu sei que você gosta desse lance de flertar pela internet.
Maeve riu.
— Isso é um absurdo. – Segurou a jarra com as duas mãos, colocando suco para ela e para a irmã. – Eu nem conheço aquele cara.
— E por que seria tão errado assim flertar com ele?
A outra franziu a testa para ela.
— Isso nem é assunto para criança.
— Ah. – Umedeceu os lábios. – Eu queria saber o que a mamãe diria.
— Eu acho que nunca saberemos, porque nunca contaremos a ela sobre isso, não é mesmo?
— Tá bom.
Maeve esticou o dedo mindinho para ela.
— Então jura de dedinho.
Melissa entrelaçou seu dedo com o da irmã, balançando os dois com um sorrisinho.
— Eu juro. – Maeve sorriu para ela e foi se sentar no sofá, esticando as pernas sobre a mesinha e bebendo o suco. A outra bebeu apenas um gole da própria bebida e se virou para ela. – Ei. A mamãe te disse mais alguma coisa sobre... ter beijado o prefeito?
— Eu acho que não deveríamos mais falar sobre isso. – A menina se aproximou e ela segurou sua mão. – A mamãe ficou muito chateada quando todo mundo... ficou sabendo disso. – Colocou o copo na mesinha. – Então se você quer mesmo ajudar ela... tenta não ficar mais falando sobre isso.
A menina concordou com a cabeça.
— Ok.
— Oi, meninas. – Michelle cumprimentou as filhas com um sorriso. – Eu já disse que é para deixarem essa porta trancada. – O rosto dela se contraiu numa careta ao ver a caçula na sala. – O que você está fazendo aqui, Melissa? Eu achei que você fosse dormir na casa da sua amiga.
Os lábios da menina se comprimiram em tristeza.
— Ela estava doente. A mãe dela me trouxe de volta para casa.
Michelle deixou as coisas no sofá ao lado da filha.
— Ah, não. Eu sinto muito, meu bem. Eu sei o quanto você estava ansiosa para ver aquele filme com ela. – Observou o rostinho triste da filha, então uma ideia passou pela sua cabeça. – E o que acha de irmos agora?
Um brilho animado surgiu em seus olhinhos.
— É sério?
— Mais é claro. Todas nós podemos ir, por que não?
Melissa abriu um sorriso.
— Isso seria maravilhoso!
— Ótimo. Agora vem aqui dar um beijo de comemoração na mamãe. – A menina correu até a mãe, que se abaixou para receber um beijo no rosto. – Agora vai se vestir, coloque um casaco e nós podemos comer pipoca de jantar. – Maeve observou a irmã subir as escadas com entusiasmo e abriu uma revista, se acomodando no espaçoso sofá. Michelle se sentou à mesa e abriu o notebook, colocando os óculos para voltar a trabalhar. – Certo, então... mais alguma coisa aconteceu por aqui enquanto estive fora? Eu espero que todo esse falatório já tenha acabado.
— Não. Você estava esperando por mais alguma coisa?
— A imprensa tem me pressionado bastante, então meio que estou em estado de alerta. – Começou a digitar. – Mas se eles te incomodarem, você sabe o que fazer, não sabe?
A adolescente ergueu a mão com amargura.
— Eu chamo a polícia.
— Boa menina. – Os seus dedos pararam de trabalhar e seus pensamentos se voltaram para a mais nova. – E quanto à Melissa? Ela perguntou mais alguma coisa sobre o prefeito?
— A Melissa não sabe muito sobre o que está acontecendo com o prefeito. – Levantou, ficando de frente com a mãe. – E eu nem sei se ela entende...
— Eu sei que essas semanas têm sido muito difíceis, mas espero que tudo isso acabe logo.
— E você acha que vai ser tão fácil assim? O assunto vai simplesmente parar debaixo do tapete?
— Na hora certa...
— Será que você não percebe? Esse assunto é muito nojento! – O seu rosto ficou vermelho por conta do esforço para segurar o choro. – Especialmente para mim!
A filha voltou para o sofá no exato momento em que a mais nova desceu.
— Tudo pronto. – Olhou da mãe para a irmã. – Podemos ir?
Maeve sussurrou:
— Eu não vou, maninha.
— Tem certeza, amor? Faz muito tempo que nós três não fazemos nada juntas. – A mãe se levantou, passando as mãos na roupa. – Tem certeza?
— Eu tenho certeza.
As outras duas abaixaram a cabeça, e Michelle colocou a mão sobre a cabeça da mais nova.
— Certo. – Empurrou suas costas, pegando a bolsa e as chaves. – Então vamos nessa, meu bem. – Abriu um sorriso triste para a primogênita. – Você sabe o meu número, amor. Fecha a porta para mim, tá?
Maeve esperou elas saírem para fazer o que a mãe pediu, desligando a luz no processo e indo para o quarto. Elas não sabiam, mas a mulher do prefeito estava espreitando silenciosamente a casa, esperando que a rival saísse para que ela pudesse colocar o seu plano em prática. Olhando para os lados, correu para a porta e se abaixou para procurar a chave reserva que sabia que estava em algum lugar. A encontrou debaixo do tapete e a colocou na fechadura, girando-a umas duas vezes e abrindo a porta. Empurrou com o máximo de cuidado para não fazer barulho e alertar a menina no andar de cima, fechou com o mesmo cuidado.
O porta-retrato da família em cima da lareira chamou sua atenção, e ela o segurou com mãos enluvadas e respiração ofegante. O seu peito apertou quando sua mente lhe disse que aquela ao lado de Michelle poderia muito bem ser sua filha com seu marido, mas não era; ela era uma árvore seca. Os pensamentos foram colocados de lado quando avistou o notebook esquecido em cima da mesa. Com passos cuidadosos, foi até ele e o abriu, sentando-se na cadeira.
Os seus olhos brilharam quando constatou que o e-mail dela estava convenientemente aberto. Os seus dedos começaram a trabalhar na mensagem no mesmo instante. Foi extremamente satisfatório confirmar que ela era mesmo o mais perfeito dos bodes expiatórios.
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