Stella
52 Fome de poder
Notas iniciais
As mãos de Diana estavam muito ocupadas com a mensagem que ela estava escrevendo para o marido, em nome de Michelle, mas os seus olhos faziam uma espécie de jornada dupla: focados no e-mail redigido e vigiando as escadas para não ser surpreendida pelo aparecimento repentino da filha de sua vítima.
A mensagem precisava apenas de alguns retoques quando ela ouviu uma voz adolescente ressoando do segundo andar. Em seguida, veio o som de uma porta sendo fechada e, em segundos, a jovem estava descendo as escadas. A invasora nem pensou muito, correndo silenciosamente para a porta, fora do alcance daqueles olhos. Maeve acendeu a luz da sala, mas não largou o celular nem deixou que a conversa morresse, mesmo tendo estranhado a forma como as coisas de sua mãe estavam distribuídas sobre a mesa.
Esse notebook estava fechado, não estava? Não se lembrava, mas tinha quase certeza.
A curiosidade havia feito morada em sua mente, então ela encerrou a ligação e se sentou na cadeira, arrumando uma posição confortável para usar o notebook da mãe. A mão foi ao mouse como se fazer aquilo fosse um sacrilégio, mas não tinha mais volta. Os olhos se semicerraram automaticamente por conta da claridade vinda do aparelho.
A primeira coisa que leu foi o e-mail do prefeito e, mais abaixo, o da mãe. O assunto estava vago, mas havia uma mensagem escrita no último campo. A mensagem dizia:
(sem assunto)
De: ajhubbard@gmail.com
Para: michelleorourke@gmail.com
9 de março de 2010 · 18:37
Estou cansado de você e dessa sua maldita obsessão! Eu quero que você me deixe em paz! Me deixe viver a minha vida!
Embasbacada com o primeiro e-mail, ela arrumou a posição na cadeira e abriu o próximo, que dizia:
(sem assunto)
De: michelleorourke@gmail.com
Para: ajhubbard@gmail.com
9 de março de 2010 · 19:58
Não me diga que não sente o mesmo que eu. Nós dois sabemos que é muito bom quando estamos juntos; nossa filha é a prova viva disso. Me encontre essa noite no Hotel Even, e, AJ, não se preocupe em inventar uma desculpa para a sua esposa. Eu não ligo se ela descobrir sobre nós.
A incredulidade cobria o seu rosto a cada palavra lida naquele e-mail, mas ela não teve tempo nem para sentir nojo, pois, em segundos, sua mãe já estava entrando novamente pela porta. Em um movimento de puro reflexo, ela fechou a página e olhou para a matriarca, que disse:
— O que você está fazendo mexendo no meu notebook outra vez?
A revolta ainda acelerava os seus batimentos, mas ela fez o melhor que pôde para controlar os próprios sentimentos e respondeu à mãe com um sorrisinho dissimulado.
— Eu só... queria ouvir música, mas meu notebook está descarregado, então usei o seu. – Michelle entrou, colocando as coisas em cima da mesinha. – O que está fazendo aqui tão cedo? – Fechou o notebook e saiu da cadeira, indo em direção à progenitora. – Onde a Melissa está?
— Fomos até a casa da amiga dela, e ela ficou lá assistindo a um filme.
Ela abraçou a primogênita quando ela chegou mais perto, e a filha respondeu com um abraço igualmente apertado, fechando os olhos e passando as mãos nas costas dela, enquanto as imagens dos e-mails sufocavam sua mente.
— Mas eu achei que ela estivesse doente.
— Ela melhorou. – Afastou a filha, segurando suas mãos com todo o carinho. – E você? Você não pode mais ficar usando meu notebook, tá? Eu tenho alguns arquivos de trabalho nele, e se alguém achar que você está bisbilhotando, estarei em maus lençóis.
— Isso não vai mais acontecer. Eu só... estava mandando mensagem para a Chelsea e essas coisas...
— E por que não usou o seu celular? Ligue para ela, ou mande uma mensagem. – Imitou o movimento que os dedos da filha faziam no aparelho. – Não é assim que vocês conversam com as pessoas hoje em dia, hein?
Ela segurou o rosto de Maeve entre dois dedos, apertando com carinho. Em seguida, foi até o sofá, sentou e tirou os saltos para massagear os calcanhares doloridos. A filha cruzou os braços, contraindo o rosto numa careta antes de se aproximar mais dela.
— Escuta, mamãe... tem certeza de que está tudo bem com você? As últimas semanas foram... meio estranhas para você.
A testa de Michelle se franziu.
— Estou bem.
— Eu só estava pensando sobre tudo que você disse sobre o prefeito. Aquilo tudo não passou de um erro, não é?
— É.
— Então é por isso que você tem sido tão aberta em dizer que ama o prefeito, não é?
Michelle levantou a cabeça, endireitando a postura e olhando para ela com uma careta.
— Eu não amo o prefeito.
— Mas eu vi no seu notebook...
— O que você viu no meu notebook?
Maeve abaixou a cabeça, encolhendo os ombros.
— Foram só umas coisas sobre o escândalo. Em um desses sitezinhos...
A mãe colocou a almofada do outro lado, dando palmadinhas no espaço vago à sua frente.
— Vem cá. – Ela obedeceu. – O prefeito e eu somos o assunto do momento. E eu te disse que seria um período muito delicado em nossas vidas. Eu sabia que ele era um homem casado na época em que me envolvi com ele. E sim, fizemos sexo e você nasceu. Mas concordamos em nunca mais mencionar nada disso.
— Mas ele não cumpriu a parte dele.
— As coisas não são como nós queremos, amor. – Umedeceu os lábios. – Eu acho que temos que tentar ignorar isso até que esse assunto esfrie. Eu sei que o que fiz foi errado, e acho que ele também sabe. Essa é toda a verdade.
A manhã seguinte chegou com a sensação de que algo mais deveria ser feito; por isso, Stella e o marido se levantaram mais cedo do que estavam acostumados e foram até o apartamento de Sage para descobrir o que mais ele sabia sobre a misteriosa senhora Hubbard.
O encontro com ele foi meio estranho no início, com Stella fazendo uma careta ao encontrar o amigo com uma bolsa térmica amarrada à cabeça. Ele informou que estava com muita dor de cabeça para manter uma conversa. No entanto, ela não estava disposta a entregar os pontos e, mesmo com as reclamações, foi entrando no apartamento sem esperar convite.
Os três começaram a discutir o caso como se estivessem em mais uma manhã de trabalho no laboratório, e logo tiveram a ideia de chamar o jovem Axton para auxiliá-los na parte tecnológica da coisa. O rapaz chegou meio desconfiado, mas se juntou aos companheiros com um certo entusiasmo, abrindo o notebook como quem sabia exatamente o que estava fazendo. O problema veio logo em seguida, quando Stella pediu que ele invadisse os arquivos da prefeitura: o que era, obviamente, um crime.
Ele nem precisou abrir a boca para mostrar que discordava da ideia, pois o seu corpo falava por si só. Impaciente com a recusa, Stella chegou a oferecer dinheiro em troca do serviço, mas a resposta fora a mesma. Ele explicou que o problema não era dinheiro, mas sim o fato de que aquilo era um crime, pois nenhum deles tinha autorização judicial para tal, e ela, como uma agente da lei, deveria saber disso. Em um impasse, os três decidiram que ficariam de olho na misteriosa primeira-dama, mesmo que não fosse pelo meio tecnológico.
A tarde estava se impondo na cidade, quando o casal decidiu ir até o Hotel Even para almoçar; afinal, não ficava tão longe e seria a oportunidade perfeita para tentar visitar a sua cena do crime outra vez. A conversa entre eles estava mais do que descontraída quando Diana Hubbard, em pessoa, passou por eles, cumprimentando-os com um breve “olá” e indo direto para o bar. A detetive chegou mais perto do marido e sussurrou:
— Eu não sei como essa mulher não tem vergonha de vir aqui depois do assassinato da Hannah. – Retirou o cabelo da frente do rosto, mantendo os olhos na outra mulher. – Eu daria tudo para descobrir a ligação dela com tudo isso.
Ele acariciou a mão esquerda dela, que estava sobre a mesa.
— É só ter um pouquinho mais de paciência, temos muita gente trabalhando nisso agora.
Ela concordou com a cabeça.
— Assim espero. – Riu. – E também espero que nenhuma mulher acabe distraindo o Axton.
O homem riu, apertando a mão dela.
— É isso que uma linda mulher pode fazer com um homem.
O sorriso dela cresceu quando ele levou sua mão até os lábios e a beijou. Os seus olhos não desgrudaram da figura da mulher sentada no bar, mas ela tentou disfarçar a própria curiosidade, pois ela também lançava alguns olhares desconfiados para eles.
No momento em que a detetive se distraiu, sorrindo e falando com o marido, Diana sacou o celular da bolsa e ligou para Michelle: aquela seria a oportunidade perfeita para executar o restante do seu plano na presença das duas pessoas que estavam suspeitando dela.
A desculpa usada por ela para atrair a rival foi a de que a mulher ainda lhe devia algumas explicações sobre tudo o que havia acontecido entre ela e seu marido. Ela passou prontamente o endereço do hotel onde estava e exigiu que ela fosse encontrá-la naquele exato momento.
A vontade de encontrar aquela mulherzinha era praticamente nula, mas a curiosidade acabou levando a melhor sobre ela. O que estava mexendo com o seu estômago não era nem o encontro iminente, mas sim a possibilidade de ser vítima de outro escândalo.
— Então, você queria me ver?
A outra não se virou imediatamente para ela, deixando os dedos brincarem com a borda do copo por mais alguns segundos. Alguma coisa na sua postura disse aos olhos experientes dos detetives que ela estava se preparando para realizar uma grande performance.
— E você vai continuar fingindo que não sabe o motivo?
Os dois acompanharam atentamente o momento em que Diana se virou para encarar Michelle. Ao perceber a maneira com que ela olhava para a outra, Will trocou um olhar preocupado com a esposa e sussurrou:
— Isso não me cheira nada bem.
— E você acha que deveríamos avisar a Michelle que a Diana é uma das suspeitas?
— Não, pelo menos não ainda. – Negou com a cabeça. – Não temos provas.
Stella assentiu, mantendo os olhos nas duas.
— Então tá certo. – Mordiscou os lábios. – Mas não vamos embora daqui até aquela louca sumir da nossa frente.
Os braços de Michelle estavam nervosamente cruzados à frente do corpo quando ela criou coragem para olhar para a mulher intimidadora que estava à sua frente. Ainda meio sem saber como iniciar uma conversa, abriu a boca e disse a primeira coisa que passou pela sua cabeça, que foi:
— Eu queria, primeiramente, dizer que sinto muitíssimo mesmo. – À primeira vista, parecia que a primeira-dama estava realmente inclinada a aceitar o pedido de desculpas, então ela simplesmente continuou falando: – Eu sei que causei um desconforto enorme com toda aquela situação, mas espero que saiba que estou...
— Essa coisa toda é muito embaraçosa! – Os olhos de metade do restaurante se voltaram para elas, fazendo a arquivista ficar ainda mais confusa do que já estava, pois não conseguia entender o motivo de toda aquela gritaria. – Ficar seguindo o meu marido, todos aqueles telefonemas e aqueles malditos e-mails!
O rosto de Michelle se contraiu numa careta, e ela negou com a cabeça.
— Eu não...
— Isso tudo só tem piorado com esse seu comportamento. – A outra tentou retrucar, mas foi impedida pelo olhar de vítima que ela estava fazendo. – Então, pelo amor de Deus, para com isso! Eu sinto muito por você. – Levou a mão ao peito. – Eu realmente sinto, acredite em mim. Eu juro por tudo que é mais sagrado! – Os demais olhavam para elas com o queixo caído, enquanto Michelle tentava falar, mas era fatalmente cortada pela outra. – Eu sei que a sua vida está desmoronando, mas eu quero que pare de perseguir o meu marido! Não me faça te obrigar a parar! Eu não queria ser obrigada a fazer nada disso.
Olhando para os lados, Michelle segurou firme a bolsa que carregava e, antes de sair, disse:
— Eu não devia ter vindo até aqui. Estou dando um fora.
A performance de Diana havia acabado exatamente como ela esperava, e um sorriso maldoso decorava os seus lábios enquanto ela escondia o rosto dos demais e fingia estar profundamente abalada com o acontecido. Os detetives ainda estavam pensando no que fazer quando Stella indicou a Will o que ele deveria fazer apenas com um único olhar, e ele obedeceu, indo até a mulher.
— Está tudo bem? – Evitou tocar nela, mantendo as mãos em frente ao corpo. – Senhora Hubbard?
— Estaria muito melhor se não tivesse que lidar com ela. – As suas mãos tremiam quando ela tomou um gole da própria bebida. – Mas ela parecia tão desesperada pelo telefone. – Ela se virou para ele e, em um tom mais baixo, disse: – Essa mulher está obcecada pelo meu marido.
Os olhos de Stella estavam semicerrados enquanto ela analisava a postura da outra e trocava um olhar desconfiado com o marido.
Os próximos dois dias passaram como um borrão para eles, enquanto ambos tentavam continuar trabalhando no caso. Na verdade, aquilo estava virando meio que uma obsessão para Stella, que estava mais do que determinada a limpar o nome da amiga. Michelle, por outro lado, estava mais do que exausta de tudo aquilo e não sabia se seria capaz de aguentar mais uma semana de todo aquele falatório envolvendo o seu nome. Mas o que mais a machucava era a chegada em casa, e o relacionamento, obviamente danificado, com sua primogênita. Naquela tarde, ao entrar em casa, mais uma vez não encontrou a mais velha. O seu rosto se iluminou ao ser recebida por Melissa, que largara seu livro só para ir abraçar a mãe.
— Você está em casa.
Ela sorriu.
— E isso é bom?
— É claro. – A menina abraçou mais forte a mãe. – É incrível!
— Ah. – Retribuiu com a mesma intensidade, dando um beijo em sua testa. – Eu devo ser muito especial para você largar o livro que você ama para vir me dar um abraço.
— Mas você é especial. – Uma careta surgiu em seu rostinho enquanto observava a mãe colocar as coisas em cima do sofá. – Você é a minha mãe. – Mostrou a roupa para ela, dando uma voltinha. – Você é tão importante quanto estar vestida de roxo.
— É claro! – Brincou de beliscar a filha. – E onde está a sua irmã?
Melissa voltou para onde estava sentada.
— Ela saiu.
— Com quem?
— Ela disse que queria tomar limonada com os amigos dela.
— Ótimo. E como foi o seu dia na escola?
— Legal.
— Só legal?
O seu rostinho ganhou uma expressão mais triste.
— Umas meninas estavam falando sobre... você estar mandando e-mails para o prefeito...
Michelle largou as coisas no outro sofá e foi sentar ao lado da filha.
— Escuta, meu bem. A mamãe sente muito. – Colocou a mão em sua cabeça. – A última coisa que eu queria era que você ou a Maeve ficassem bravas comigo.
Ela negou com a cabeça.
— Mas eu não estou brava com você.
Michelle sorriu.
— A única coisa que eu quero que você saiba é que essas coisas que estão dizendo sobre mim não são verdade. Então tente ser forte e focar em... nas coisas que podemos fazer agora, entende?
— Entendo. Mas e você, mamãe? O que você vai fazer?
Michelle fez uma careta.
— O que está tentando dizer?
— As pessoas estão mentindo sobre você e você vai deixar?
O seu cérebro pareceu reiniciar com aquela pergunta.
— Não. – As duas sorriram quando a mãe colocou o indicador na testa dela. – Será que a senhorita poderia ficar sozinha com essa sua mente brilhante enquanto a mamãe vai resolver uma coisinha e volta daqui a pouco? – A menina assentiu, recebendo um beijo na testa. – Você é muito espertinha. – E, mandando um beijo para a filha, ela pegou a bolsa e saiu.
O encontro foi com Eileen, que a recebeu com um sorriso enorme e um abraço afetuoso. As duas falaram sobre o prefeito, sobre a esposa dele e sobre as estratégias que poderiam adotar para lidar com todo o caos que estava engolindo a vida de Michelle. A falta de testemunhas era um problema enorme, pois tinham entrevistado todos os presentes no hotel na fatídica data, e nenhuma havia dito nada que pudesse ser usado a seu favor.
A única pessoa que não haviam pensado em interrogar fora Olívia, a secretária do prefeito, mas alguém tinha pensado nisso e descobrira coisas inimagináveis nesse breve encontro. A conversa fora de fato muito produtiva, armando Jas contra Diana e lhe dando a possibilidade de acabar com toda aquela sua fome de poder.
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