Stella

34 Capítulo 34 – Eu Sou Assim Parte I


Notas iniciais
E vamos de drama :')

Dean me encurralou no corredor depois da aula de Educação Física, com aquele sorriso matador que eu já sabia que ia me ferrar.

— Stella, você tem que participar do concurso de talentos da escola. Ou melhor, nós dois. Juntos.

Eu ri, nervosa.

— Eu? Cantar na frente da escola? Dean, você tá louco. Uma coisa é cantar num casamento e num bar, outra é na frente de geral da escola, nem lascando, macho.

– Ei, ei, ei! Você não confia no nosso potencial? – Ele continuou.

– Confio né Dean, não é essa a questão. A questão é que, eu não sei não.

Mas claro, o Dean é incrivelmente persistente. Ele não desistiu. Passou dias insistindo: bilhetes no caderno, mensagens no WhatsApp, até uma serenata ridícula com violão de brinquedo na cantina.

Eu estava na cantina, sentada sozinha, tentando comer um pão de queijo em paz quando ouvi um barulho ridículo de cordas de plástico.

Levantei o olhar.

Dean.

No meio do pátio, com um violão de brinquedo rosa-choque (daqueles que criança ganha no aniversário de 5 anos), queria muito saber da onde ele tirou esse trem. Dedilhando as cordas com a maior cara de pau do mundo.

Ele começou a cantar, voz grave contrastando com o som de brinquedo:

— “Stella, Stella… não me deixa na mão… participa do concurso ou eu vou ficar aqui o dia inteiro tocando isso…”

A cantina inteira parou. Pessoas rindo, gravando, apontando.

Eu fiquei vermelha até a raiz do cabelo.

— CARALHO DEAN — eu falei, mas ele só sorriu mais e continuou:

— “Eu sei que você canta bem… eu sei que você tem medo… mas comigo do lado, a gente faz o show inteiro… por favor, Stella… topa?”

Ele terminou com um “plim” dramático no violão de plástico e fez uma reverência exagerada.

A cantina explodiu em aplausos e gritos de “aceita! aceita!”.

Eu cobri o rosto com as mãos, morrendo de vergonha, mas rindo.

— Você é um idiota. I-D-I-O-T-A. — eu falei quando ele se aproximou.

— Um idiota que não vai desistir até você dizer sim — ele respondeu, estendendo o violão de brinquedo pra mim como se fosse um buquê e piscando logo em seguida.

Eu suspirei, derrotada, mas com o coração batendo forte.

— TÁ BOM. Eu topo. Mas se der merda, a culpa é sua e desse violão ridículo.

Dean abriu o maior sorriso do mundo.

— Combinado. Vai ser épico. Confie em mim.

E foi assim que eu, Stella Carter, aceitei participar do concurso de talentos da escola.

Por causa de um violão de brinquedo rosa-choque e de um coreano insistente demais.

Quando eu e Dean fomos nos inscrever juntos, trombamos literal e figurativamente com a Sunny.

— Olha só… a Carter e o rebeldinho aí. — ela disse, com Camily e Melissa do lado. — Vão cantar o quê? “Dumb Girl”?

Eu revidei, mas sem o veneno de antes. Percebi uma leveza estranha entre nós.

— E você, Sunny? Vai humilhar quem dessa vez? A Malia, imagino.

Ela deu um sorrisinho.

— Exatamente. Minha performance vai ser focada nisso. Quero ver se ela aguenta.

– Duvido que ela vai aguentar o rajadão da Sunny. – Disse Camily, confiante.

– Old que não né migs. – Melissa completou.

Eu suspirei.

— Boa sorte, então. Mas avisa que eu vou acabar com você no palco.

Ela riu de verdade. Foi… estranho. Quase amigável.

Os dias passaram voando. A escola inteira pirou com o concurso. Até as gêmeas Becky e Jenny se inscreveram juntas pra fazer um número de piadas (eu já tava com pena do público). Todo mundo tava se mobilizando: ensaios no auditório, cartazes, fofoca rolando solta.

Nos ensaios no auditório, a gente escolheu “I Love You” da Avril Lavigne, uma das melhores musicas que existem. Dean com guitarra, eu cantando. Era perfeito. Até que as garotas da escola começaram a paquerar ele descaradamente. E a pior de todas era a Malia Knight.

Ela ficava encostada na parede, conversando e rindo alto com ele entre uma música e outra.

— Você toca bem pra caralho, Dean. Me ensina um dia?

Ele riu, respondeu algo que eu não consegui ouvir direito, e os dois trocaram mais uma faísca, como se fossem velhos amigos. O som do riso dela ecoou no auditório inteiro.

Eu senti o estômago revirar. No final do ensaio, quando Malia deu tchau com um “até amanhã, Dean” e um sorriso que durou dois segundos a mais do que o necessário, eu explodi.

— Você não tá levando isso a sério, né?! — gritei, jogando o microfone no chão com força, fazendo um ruído alto, a ponto de nos fazer tampar os ouvidos. — MERDA. Tá vendo? Foi você que me convenceu a participar desse concurso idiota, passou dias me enchendo o saco com violão de brinquedo, e agora fica rindo e conversando com a Malia como se eu nem existisse?

Dean piscou, confuso, ainda com a guitarra na mão.

— Stella, peraí, pera aí...

— Peraí nada! Eu tô aqui me esforçando pra caralho, ensaiando, me arriscando na frente da escola inteira e você fica paquerando ela no meio do ensaio? MAS QUE PORRA DEAN.

Minha voz saiu mais alta do que eu queria. O auditório já tinha esvaziado, mas quem ainda estava por ali parou pra olhar.

Dean colocou a guitarra no suporte, o maxilar apertado.

— Eu não tava paquerando ninguém. A Malia é só amiga, a gente conversa sobre basquete e skate. Você tá vendo coisa onde não tem.

— Amiga? Ela fica colada em você, rindo de tudo que você fala, batendo no seu ombro e você acha que eu sou burra? — eu dei um passo pra trás, lágrimas já queimando nos olhos. — Eu confiei em você. Eu topei isso tudo por sua causa!

Ele passou a mão no cabelo, visivelmente irritado agora.

— Stella, você tá exagerando pra caralho. Você sempre faz isso: assume o pior antes mesmo de me deixar falar. Eu convenci você a participar porque eu queria fazer isso com você, não com a Malia, não com ninguém. Só com você.

— Então por que você ri tanto com ela? Por que parece que você se diverte mais com ela do que comigo? — minha voz falhou. — Eu sou a desastrada, a que derruba café, a que sempre estraga tudo e você fica ali, todo charmoso, como se eu fosse só mais uma na fila.

Dean deu um passo na minha direção, voz mais alta:

— Porque você não me deixa explicar porra nenhuma! Você explode, sai correndo, e agora tá me acusando de algo que eu nem fiz! Eu gosto de você, Stella. De você. Não da Malia. Mas se você não confia em mim nem um pouco, então pra que a gente tá fazendo isso?

Eu senti o peito apertar. As lágrimas caíram de vez.

— Talvez porque eu seja uma idiota que estraga tudo.— eu sussurrei, voz tremendo. — Talvez eu não devesse ter topado nada disso.

Antes que ele pudesse responder, eu peguei minha mochila e saí correndo do auditório, batendo a porta com força. Dean gritou meu nome atrás de mim, mas eu não parei.

No corredor vazio, ele me alcançou, segurando meu braço com cuidado.

— Stella, para, sério.

Eu me soltei, virando pra ele.

— Me deixa em paz, Dean! Eu não quero mais saber desse concurso, nem de você, nem de nada!

Ele ficou parado, respirando pesado, olhos cheios de frustração e mágoa.

— Você nem me deu chance de falar. Você sempre faz isso. Sempre. E eu tô cansado de correr atrás de alguém que não confia em mim.

Eu bati o pé no chão, irritada, triste, com o coração em pedaços.

— Então para de correr! — gritei, voz embargada. — Eu sou assim mesmo. Caótica, imatura. Talvez eu nunca mude.

Ele abriu a boca pra responder, mas eu já tinha virado as costas e corrido pra fora da escola, chorando sem parar.

Não voltei mais aquela semana.