Stella
35 Capítulo 35 – Eu Sou Assim Parte II
Notas iniciais
POV da Melody
Eu e o Zack estávamos na cozinha da minha casa, preparando cookies pra levar pra vovó no domingo à tarde. A bancada tava toda bagunçada de farinha, pedaços de chocolate e tigelas sujas. Ele misturava a massa com uma colher de pau, concentrado como se fosse uma prova de matemática.
— Não mexe tão forte, Zack! — eu ri, empurrando o ombro dele de leve. — Vai ficar duro que nem pedra.
Ele fez cara de ofendido, mas sorriu.
— Tá bom, chef Melody. Você que manda. Eu só tô aqui pra te agradar.
Eu peguei um pedaço de chocolate e enfiei na boca dele pra calar.
— Distrair é o que você faz melhor.
Ele riu, mastigando, e me puxou pela cintura, sujando minha blusa de farinha e passando a farinha no meu nariz.
— Olha só, agora você tá toda branquinha. Combina com você.
— Idiota — eu murmurei, mas não me afastei. Na verdade, encostei a testa no peito dele por um segundo, sentindo o cheiro de chocolate e do sabonete dele. Era tão normal. Tão nosso.
A gente continuou trabalhando juntos. Eu colocava os pedaços de chocolate na massa, ele fazia as bolinhas e arrumava na forma. De vez em quando ele roubava um pedaço de massa e eu batia na mão dele.
— Z-ZACK! ESSE É PRA VOVÓ.
— Vovó não vai sentir falta de um pouquinho — ele disse, lambendo o dedo. Depois me olhou de lado, com aquele sorriso que eu amava. — Além do mais eu mereço uma recompensa por estar sendo um namorado tão útil né.
Eu revirei os olhos, mas não consegui segurar o riso.
— Namorado útil? Você quase quebrou a batedeira amor.
— Detalhes.
Ele me abraçou por trás de repente, os braços fortes ao redor da minha cintura, queixo apoiado no meu ombro. Senti o beijo dele no meu pescoço, devagar, quente.
— Senti falta disso — murmurou contra minha pele. — De você na cozinha, de você rindo, de você me xingando … senti falta de nós.
Eu virei o rosto e beijei ele. Foi um beijo apaixonado, daqueles que fazem a gente esquecer que tem massa de cookie na mão. A farinha voou um pouco quando eu segurei o rosto dele. A gente riu no meio do beijo, testa encostada, nariz roçando.
— Eu também senti — eu sussurrei. — Muito.
Ele me apertou mais contra o corpo, o beijo ficando mais lento, mais doce. Por um momento o mundo inteiro sumiu. Só existia a cozinha, o cheiro de chocolate, a gente.
Até que a porta da cozinha abriu com tudo.
Stella entrou chorando, cabelo bagunçado, olhos inchados, toda judiada.
— O que houve? — eu perguntei, me soltando do Zack e correndo pra ela.
Zack, ainda com farinha na cara, só zoou:
— Mais um draminha da Stella, aposto.
— Cala a boca, Zack! — ela xingou, mas sentou na cadeira e desabafou tudo: o ciúme da Malia, a briga com o Dean, como ela saiu correndo e agora não sabia como consertar.
Eu ouvi tudo, dei carinho na cabeça dela. É... realmente ela vacilou.
— Stella… você cagou feio dessa vez. Exagerou muito. Nem deixou o cara se explicar. Você tá com ciúme porque gosta dele de verdade, mas tá agindo como a velha Stella que explode antes de pensar.
Ela discordou no começo, defendeu o ponto dela, mas eu e o Zack conseguimos abrir os olhos dela.
– Mas porra ele quem me convenceu a topar me apresentar nesse diacho de concurso. Eu nem faria questão, sério Melody. Custa focar? Custa?
Zack deu um abraço de lado.
— Maninha, talvez você precise se ouvir antes de ouvir o Dean. Toma atitude logo sobre seus sentimentos. Ele merece.
– Também acho, Ste. – Falei. – Você sabe seus verdadeiros sentimentos sobre ele. Sabe que o ama muito. Sabe que quer ele. Então por que segurar? Tome atitude garota, você já fez isso antes.
Stella ficou reflexiva, lágrimas caindo.
– Eu sei. – Ela disse. – Não sei o motivo de estar travada. Mas... eu vou tentar, sério. Eu vou realmente tentar.
– Você sabe que tem nosso apoio Ste. – Falei a abraçando.
Dei um soquinho no Zack pra que ele a abraçasse mais também.
– Aliás, nós estamos. Então confie em nós, e principalmente, confie em você e em seus sentimentos, Ste. – Falei enquanto estávamos abraçados. – Eles vão te levar longe.
– ... obrigada gente. – Ela disse.
Fim do POV da Melody.
Saí com o peito apertado, olhos ainda vermelhos e o coração parecendo um liquidificador ligado. A conversa com ela e o Zack tinha sido um soco no estômago. Eles estavam lá, fofos pra caralho, fazendo cookies, rindo, se beijando… e eu entrei feito um furacão. Mais uma vez eu sendo a Stella de sempre.
Eu precisava de ar. De distração. De qualquer coisa que não fosse pensar no Dean, na Malia, na briga, no concurso, em tudo.
Fui pro mercado. Só pra andar entre as prateleiras, olhar preço de shampoo, fingir que eu tava escolhendo biscoito. Qualquer coisa pra não ficar parada pensando que eu tinha estragado tudo de novo.
Enquanto empurrava o carrinho vazio, minha cabeça não parava:
“Eu sou assim mesmo. Ciumenta, explosiva, imatura pra caralho. O Dean me convence a participar de um concurso, me faz sentir especial e eu explodo porque ele riu com a Malia. Nem deixei ele explicar. Eu sempre faço isso. Sempre assumo o pior. Como eu vou mudar se eu continuo sabotando as coisas boas que aparecem na minha vida?”
Parei na frente da prateleira de chocolates, a bolacha de chocolate Nikito. Peguei um pacote aleatório e fiquei olhando sem ver nada.
Eu vi o Zack e a Melody na cozinha, eles se olhavam daquele jeito. Como se o mundo tivesse só os dois. Eu quero isso. Eu quero alguém que me abrace por trás mesmo quando eu tô toda suja de farinha e drama. E o Dean… ele podia ser esse alguém. Mas eu corro. Eu grito. Eu fujo.
Guardei o chocolate no carrinho sem nem olhar o preço. Paguei tudo no caixa automático e saí.
A chuva começou do nada.
Primeiro fina, depois grossa, depois torrencial. Eu nem abri a mochila pra pegar o guarda-chuva. Deixei a água bater no rosto, misturando com as lágrimas que ainda caíam. Continuei andando pela calçada, molhada até os ossos, o cabelo grudando na testa, o tênis fazendo barulho de esponja.
Eu mudei tanto, mas ainda sou a mesma garota que explode de ciúme. Dean me faz querer ser melhor, mas eu continuo sendo a desgraçada que estraga tudo. O que eu tô fazendo com a minha vida? Eu quero ele, mas e se eu estragar tudo de novo? É... realmente não tô nada okay.
A chuva lavava meu rosto. Lavava a raiva. Lavava um pouco da tristeza. Eu parei no meio da rua, olhando pro céu cinza, sentindo cada gota como um tapa de realidade.
Foi aí que trombei com alguém.
— Stella?
Levantei o olhar. Luke. Com um guarda-chuva enorme e uma expressão fofa de preocupado.
— Tá tudo bem? Você tá molhada ensopada.
Eu ri, meio chorando, meio histérica.
— Não. Não tá tudo bem.
Ele não perguntou mais nada. Só me puxou pra debaixo do guarda-chuva com ele, enquanto eu chorava com ele.
— Vem. Vamos pro Space Bar. Tá chovendo demais pra ficar aqui no meio da rua como filme dramático.
Eu não discuti. Fomos andando juntos, eu pingando, ele tentando me proteger com o guarda-chuva. Quando chegamos no bar, as luzes neon coloridas pareciam um outro mundo. Sentamos na mesma mesa de sempre. Luke pediu dois chocolates quentes.
– Luke, não precisa, de verdade. – Falei
— Relaxa, é por minha conta. Agora, conta tudo — ele disse, simples.
E eu contei. A briga com o Dean, o ciúme da Malia, como eu saí correndo, como eu não deixei ele explicar nada, como eu me sinto uma idiota imatura que nunca vai aprender.
Luke ouviu tudo em silêncio. Depois sorriu de leve.
— Stella… você tá no limite. Eu passei muito tempo escondendo o que eu sentia pelo Christopher.
– Sim. Me lembro que você contou.
– Agora que estamos juntos, parece que eu tô vivendo um sonho.
– Eu tô tão feliz que vocês estão indo bem. Como está o namoro de vocês?
– Está incrível. – Ele disse abrindo um sorriso. Logo em seguida, a garçonete nos trouxe um chocolate quente. Não vi nem a Lanna e nem sua mãe ao redor.
Sopramos e começamos a tomar.
– Ele é carinhoso da maneira dele. Ele não é muito de dizer “Eu te amo” ou coisas fofinhas, sabe? Acho que eu sou o mais meloso da relação. – Luke diz. – Mas estou feliz. Porque ele é do tipo que demonstra seu carinho por atitudes. Me leva pra comer, me dá mimos, e caramba... ele é manda muito bem na cama.
– EITA PORR... – Cospi chocolate quente na mesa. – MEU DEUS, PERDÃO LUKE.
Luke começou a rir muito. A garçonete trouxe um paninho e prontamente limpou.
– É surpreendente, né? Acho que não esperou que eu fosse safadinho. – Luke diz.
– É... parece que os com cara de santo são os piores. – Começamos a rir juntos.
– Não espera demais pra falar o que sente pro Dean. Manda ver Stella, eu tô torcendo muito por vocês dois. Sei que ele te ama também, dá pra notar.
– Nossa... Luke. – Comecei a lacrimejar, sem saber o que responder.
A gente se emocionou junto. Eu nunca imaginei que teria uma amizade tão genuína com o cara que um dia foi meu crush.
— Você sempre foi incrível, Stella — ele disse, apertando minha mão. — Essa insegurança que você tá sentindo não conta nem 1% de quem você é.
– Obrigada, Luke. Você também é incrível. Por mais doida que tenha sido nossa história, não me arrependo de ter gostado de você um dia. Você é um cara incrível e muito carinhoso, merece toda felicidade do mundo. E se o Christopher não fizer jus, pode contar comigo pra acabar com a raça dele.
– Valeu, mas pode ficar tranquila que ele me faz feliz. – Ele sorriu.
Eu abracei ele forte, ali mesmo na mesa do Space Bar.
Depois de toda essa conversa com o Luke, Zack e a Melody, senti que talvez… talvez eu ainda pudesse consertar as coisas.
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