Stay Alive
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Notas iniciais
— Então... o que você está achando da festa? — Mauren perguntou para mim.
Por um momento, tudo parou. Eu não tinha nenhuma ideia do que ela estava falando. Eu já não estava bem desde que essa festa tinha começado. Mesmo que eu gritasse mentalmente o meu nome para mim mesmo, milhões de vezes — "Pedro! Pedro! Pedro!" —, eu não conseguia me concentrar no presente. Tinha algo muito errado e eu estava sentindo isso.
A festa na qual eu estou era feita pelo meu colégio todos os anos no dia 31 de outubro. Sim, festa do "Dia das Bruxas". Eles alugavam um salão enorme, colocavam alguns monitores e professores para ver se não tinha ninguém fazendo sexo no meio do salão ou se tinha alguém fazendo alguma pegadinha, escolhiam um tema — o desse ano era Filmes de Tim Bourton — e faziam os alunos pagarem cinco reais pelo ingresso. O meu colégio fazia outras festas assim durante o ano (como festa de início de ano e de final) e o dinheiro era "doado para a caridade" (mesmo que todos saibamos que parte desse dinheiro, grande parte, ia para o bolso do diretor).
Como o tema era do Tim Bourton, tinham áreas específicas para cada filme. A parte onde todos estavam dançando, era "Pais das Maravilhas", onde haviam flores e plantas enormes e vários sorrisos espalhados pelas paredes. A entrada era rodeada de tesouras de plásticos de todos os estilos e tamanhos (Edward mãos de tesoura). A área aberta, tinha os temas "O estranho mundo de Jack" e "Noiva cadáver", continha vários bonecos e o cenário era de um cemitério e onde as comidas estavam, o tema era "A fantástica fábrica de chocolates". Fora isso, tinha o cenário normal de uma festa de Halloween, como abóboras e teias de aranha. Eu não sabia por quê haviam escolhido esse tema, mas lembro-me de falarem que foi uma garota chamada Marina que escolheu. Eu nunca havia visto essa garota até ontem, quando a mesma estava conversando com o professor, enquanto fazia uns gestos com as mãos e não parecia algo normal. Parecia proposital.
A Mauren me olhava, esperando alguma resposta, mas já tinha esquecido o que a mesma tinha perguntado. Ela era baixa, seus cabelos eram curtos e loiros. Admito que às vezes ela parecia se fazer de sonsa, mesmo sem eu entender o porquê e isso me atraia nela. O que ela teria a esconder? Mas hoje isso não estava me atraindo em nada, o que era um pouco incomum. Acho que todos sabem que eu sou apaixonado por ela. A música soava alto (estávamos ao som de Do I Wanna Know) e ela mexia em seu cabelo. Tentava demonstrar que não estava incomodada com seu salto alto enquanto mexia o corpo, de um lado para o outro em passos lentos e curtos.
Nota: minha paixão por ela começou desde a quinta série (deixando claro que já estamos no primeiro ano), apesar disso, ela nunca ligou para mim. Apenas agora ela resolveu tentar conversar comigo, há algumas semanas atrás. E eu consigo perceber muito bem que ela só está me usando para fazer ciúmes no Douglas, já que eles terminaram há algumas semanas atrás.
— É, sim. — Respondi, mesmo sem saber qual era a pergunta.
— Sim o que?! — Ela perguntou piscando os olhos várias vezes e os revirando sem parar, como sempre fazia para deixar claro que estava irritada. Distraí-me de novo. — Pedro! — Ela estalou os dedos em frente ao meu rosto — Você pode prestar atenção em mim?
— É, claro... Vou pegar umas bebidas para a gente. — Ela tentou me seguir, mas eu fui me perdendo ao meio da multidão que dançava sem se importar com o que acontecia ao seu redor.Se aquele salão pegasse fogo agora, eles já estariam queimados.
Fui até a mesa onde tinham vários doces — principalmente chocolates — e refrigerantes e peguei um copo. Eu não estava entendendo, fui ao baile com a garota pela qual sempre fui apaixonado, por interesse dela, aliás, e mesmo assim não conseguia me importar com isso. Eu tinha um pressentimento de que algo estava por vir.
— Cara, você está maluco? Você deixou a Mauren sozinha ali. Qual o teu problema? — Meu melhor amigo, Leo veio reclamar comigo.
— Você não deveria estar dançando com a Tessa? Sua namorada, se você se esqueceu. Me deixa. — Saí andando, deixando-o reclamar sozinho.
Tinha definitivamente algo errado comigo. O Leo voltou e me puxou pelo braço.
— Desculpa, cara, mas é que você está muito estranho. E a Tessa tá conversando com umas amigas.
— Eu sei, mas tem alguma coisa muito errada.
— Como assim? — Ele fez uma cara de confuso enquanto seus olhos olhavam para lados opostos. Ele era estrábico, por isso, às vezes eu não sabia para onde ele olhava.
— Não sei, é só um pressentimento. — Nesse exato momento eu vi um vulto. Tentei prestar atenção, cocei meus olhos, vi uma menina nua correndo. Ok, deve ser coisa da minha cabeça. A de cima. Lá de cima.— Você por acaso viu algo?
— Não, por quê? — Ele perguntou com uma das sobrancelhas arqueada.
— Não sei, é que — Nesse momento senti um vento, como se alguém tivesse corrido bem atrás de mim, virei-me e só consegui ver um cabelo voando atrás de mim, que parecia ser da mesma garota que vi. — Tem certeza que você não viu nada?
— Pedro, você está muito estranho. Vem aqui, vamos para a área aberta.
Continuamos andando ao longo do salão até a área aberta, passando por ela, tropecei em uma lápide de plástico a qual estava escrito "Talia Forger | 1998 — 2014" e logo depois o que estava escrito sumiu e a lápide ficou lisa. Comecei a olhar as outras lápides, mas todas estavam igualmente cinzas e lisas. Levantei-me e esbarrei em alguém.
Marina.
Ela olhou para mim e logo depois saiu andando às pressas, como se não quisesse manter nenhum contato visual.
— O que você ficou procurando aí no chão? Não tem nada aí. — Leo falou.
— Nada não. Vamos ficar ali naquele banco. — Enquanto falava, olhei para o tal banco marrom escuro e a menina nua estava lá, sentada, gritava, mas não saia som. Cocei o meu olho e ela não estava mais lá.
— Talvez você esteja meio cansado. Quando a gente está cansado fica assim mesmo.
— Deve ser. — Apesar de não acreditar em nenhuma palavra que eu tinha dito, repeti-as. — Deve ser.
Fiquei olhando para o resto da festa. As pessoas andando, dançando, tudo vinha em câmera lenta. Eu não sei o que eu ainda estava fazendo ali, parecia que algo estava me prendendo. Estava muito repetitivo, indo para um lado e para outro da festa, vendo e sentindo coisas estranhas... Estava começando a pensar que eu era maluco. É, definitivamente isso parecia loucura.
Olhei para o céu e a lua pairava sobre mim, com sua luz radiante. A música ainda tocava e parecia não parar. As pessoas conversavam sobre os mesmos assuntos todos os anos: como a roupa de tal menina estava feia; quem era o mais louco da festa; como o tema era original; o casal de monitores estavam "se pegando" novamente; Jhonny, o Bêbado bebendo sem parar — grande novidade. Eu estava cansado disso. Muito cansado. Era sempre a mesma coisa. O Leo estava conversando comigo sobre a Tessa e eu apenas dava conselhos muito úteis como "uhum", "pois é", "aham", "é".
Nós sempre fomos melhores amigos, era muito raro eu não prestar atenção no que ele dizia, mas esse pressentimento de que algo estava por vir não saia.
— Cara, eu acho muito legal esse seu interesse na minha história, eu sei que você quer fazer uma biografia minha, eu entendo, é muito interessante. Tão interessante que você está quase dormindo. Tem como você prestar atenção em mim? — Acho que eu tinha escutado essa última parte em algum lugar.
— Sim. Eu estou prestando atenção.
— Qual foi a última coisa que eu falei sobre a história que estava contando? — Leo perguntou.
— Tudo bem, não tenho a mínima ideia sobre o que você estava falando.
— Você pegou alguma coisa com o Jhonny, o Bêbado?
— Não, mas acho que vou para casa. — Respondi.
— Eu te acompanho. Dá para voltar antes que a Tessa sinta a minha falta.
Fomos andando em silêncio até a Mauren nos encontrar quando estávamos entrando na parte fechada do salão.
— Você já está indo? A festa nem começou direito. — Mauren falou fazendo charme.
Nesse instante, ouvi um barulho estridente, era descomunal. Logo percebi que não tinha sido só eu que havia escutado esse som. Todos estavam com as mãos nos ouvidos, alguns copos de vidro que estavam jogados no chão quebraram. O som vinha de trás de mim. De repente, todos da festa resolveram vir para a parte aberta, tentando descobrir o que era. Vários monitores estavam reunidos ao redor do nosso professor de Biologia, o Carlos, que segurava alguém.“Rápido, peguem alguma coisa! Essa menina está nua!“, ouvi o professor gritar enquanto um monitor buscava por algum pano.
Fui me aproximando da roda que se formava, não acreditando que aquilo poderia ser mesmo verdade.“Essa menina está nua“. Ele falou isso, tenho certeza. Cheguei mais perto, empurrando algumas pessoas, até que vi o seu rosto. Ela tinha os cabelos ruivos, quase loiros, sua pele era pálida e estava cheia de plantas por entre os cabelos, fora os machucados que foram cobertos pelo pano. Seus olhos estavam quase se fechando.
— Qual o seu nome, menina?— O professor perguntou.
— Talia Forger.— A menina respondeu.
Não estava acreditando... Como ela veio parar aqui? Tem algo muito errado, algo que não se encaixa. Esse não pode ser o nome dela. Foi o nome que vi na lápide. Com muita movimentação de professores e monitores tentando ligar para a ambulância, a menina parecia querer dizer algo. Ninguém estava prestando muita atenção nela, queriam apenas saber o que estava acontecendo. Nem o próprio Carlos estava prestando atenção. Ouvi algumas vozes em minha mente e a menina estava com os olhos fixos em mim.
— Pedro.
Com um salto, abri os meus olhos.
Era só um sonho.
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