Stay Alive

2 Capítulo 1 — Dèjá vu


Notas iniciais
Mais um capítulo para vocês, espero que gostem! Essa imagem bem no início do capítulo, é o formato que o Pedro acha debaixo do travesseiro. P.S.: Nomes de ruas, colégios, esse tipo de coisa, eu vou inventar ao longo da Fic. Por mais que se passe no Rio de Janeiro, preciso desses detalhes inventados para que eu possa desenvolver a história como eu quero. Obrigada.

Acordei às 6:30 da manhã suando.

Aquele sonho parecia tão real. Estava ofegante, fora o fato de a coberta ter ido parar do outro lado do meu quarto, que, por sinal, é um pouco grande. O lençol que forrava a cama também estava no chão e apenas o travesseiro estava no lugar. Fiquei olhando para a janela. Estava chovendo e ventando. A minha vontade de sair da cama era a mesma que eu tinha de acordar cedo: inexistente. Mesmo assim, tive que fazer essas duas coisas.

Fui arrumar minha cama, como sempre faço. Puxei a coberta para cima do travesseiro e logo reparei que ele estava com um cheiro um tanto quanto familiar... Levantei o travesseiro e embaixo dele tinha um pó marrom em um formato estranho.

— Mas o que... — Tentei perguntar para mim mesmo.

Fui até o pó e senti um cheiro de canela. Procurei em todo o meu quarto se tinha mais algum lugar com vestígios de canela e não achei nenhum. Escuto minha mãe gritar "Pedro, acorda!" de algum lugar da casa e respondo que já estou acordado. Continuo olhando para o travesseiro tentando entender de onde aquilo surgiu.

— Filho, você não pegou seu uniforme ontem no varal, então está meio molhado por causa da chuva — Ela começou a falar enquanto entrava no quarto com um jeans, a minha blusa do colégio e um par de meias em suas mãos.

Rapidamente coloquei o travesseiro em cima do símbolo que estava em cima da cama. Provavelmente posso estar fazendo a escolha errada, mas não acho que a minha mãe seja a melhor pessoa para que eu possa contar qualquer coisa. Ela tem quarenta e sete anos e seus cabelos estavam ficando grisalhos. Fora o gênio forte, sempre fora uma mulher maravilhosa. Seu único defeito era ser descrente em qualquer coisa que eu lhe contasse. Preferi resolver isso do meu jeito mesmo.

— Ah, obrigado. — Agradeci a ela enquanto a mesma saia do quarto.

Peguei as roupas e vesti-as. Eu continuava pensando o que poderia ser aquilo e o porquê de estar debaixo do meu travesseiro. Descendo as escadas, mandei uma mensagem para o Leo, pedindo para que me encontrasse na rua 12, que ficava perto da escola. Se tem alguém que pode me ajudar a resolver tudo isso só pode ser o Leo. Somos melhores amigos há pouco tempo — uns seis meses —, mas ele é como um irmão para mim. Ele sempre sabe como me ajudar, não importa a situação e o quanto estranha ela seja.

*

*

Encontrei um Leo ofegante e irritado.

— O que é tão importante para você ter mandado uma mensagem "CARA, VOU MORRER, CORRE PARA A RUA 12, PRECISO DE AJUDA!"? — Falou pausando sempre que possível para recuperar o fôlego. Com um ar de irritado falou: — Eu achei que você estava morrendo. Literalmente.

— Pelo menos, assim eu sei que eu ainda tenho moral com você. — Falei rindo e ele revirou os olhos. — É importante mesmo, durante o caminho eu vou te contando.

Expliquei para ele todo o meu sonho, com todos os detalhes possíveis. Logo reparei que me aproximando do fim do sonho, ele já não estava tão animado para ouvir como antes. Mesmo assim, cheguei a contar sobre o pó que estava debaixo do meu travesseiro. Ele disse que alguém poderia ter posto lá com algum propósito anormal. Algo que a ciência não poderia explicar, mas nada muito fantasioso.

— Se for assim, se for algo anormal... No sonho, eu tinha visto a Marina, aquela garota ruiva de olhos verdes.

— E aí?

— E aí que no sonho ela, no dia anterior ao da festa, conversava com o Felipe, nosso professor de Geografia fazendo uns gestos um tanto quanto propositais. — Falei e o Leo riu.

— Você diz assim? — Ele começou a fazer uns gestos indecentes enquanto ria.

Ótimo.

Como vou explicar para esse ser sem que ele ria da minha cara ou diga que eu estou maluco?

— Eu quis dizer que ela não estava gesticulando involuntariamente enquanto falava, era proposital. Como se ela fosse...

— Uma bruxa? — Ele fez a pergunta que eu temia. Para mim nenhuma dessas coisas sobrenaturais existiam. Talvez não existam mesmo e seja alguma coisa da minha cabeça.

— Você está falando sério? Você acha que pode ser mesmo? — Falei um pouco ansioso.

— Claro que não, seu lerdo. Bruxas e todos esses seres sobrenaturais não existem. Até onde eu tenha visto, né. — Ele deu um tapa acima da minha nuca. — Mas eu acho que você deve falar com a tal Marina. Vai que ela pode solucionar esse mistério aí.

Estávamos na rua do Colégio e eu nem tinha reparado. Conseguia ver a Tessa, namorada do Leo de longe. Ele fez uma cara de desânimo, ao vê-la. Às vezes eu achava que só ela o namorava e não vice-versa. Ele tinha esses dias onde nada para ele importava e em outros tudo importava. Hoje ele parecia estar em um meio termo. Ela veio correndo para ele e o abraçou.

— Estava com saudades! — Ela disse de um jeito dramático. O fato de ser dramático é que eles se viram ontem, segunda, domingo... Isso porque eles estudam na mesma escola e se vêem todo santo dia.

— É, eu também — Leo falou um pouco desanimado enquanto a abraçava.

Deixei os dois sozinhos e entrei na escola. Já não tinha mais nada para falar com o Leo, só me restava fazer uma coisa: falar com a Marina.

Cheguei no corredor dos armários e peguei as apostilas necessárias para hoje no meu.

Comecei a andar pelo resto dos corredores do colégio. Como eu iria falar com ela? Não tinha nenhuma ideia de como começar uma conversa. "Ah, oi. Sonhei com você outro dia, você fazia uns gestos propositais, não indecentes, propositais, com o Felipe, e eu acho que você pode me ajudar a entender por que tinha pó de canela na minha cama de manhã.", definitivamente não. Ela provavelmente iria achar que eu sou um maluco e sair andando. "Oi, você tem alguma ideia do que significa sonhar com uma menina correndo nua e dizendo o seu nome?", ok, agora eu seria um tarado maluco, melhorou muito.

Parei em um dos corredores perto da sala da minha turma, 1002, quando a vi. Estava falando no canto oposto ao que eu estava do corredor com o professor Felipe. Assim como no meu sonho, fazendo exatamente os mesmo gestos que eu tinha visto. Não estava entendendo. Era como um dèjá vu. Ela saiu pelo outro lado e o professor se virou, na minha direção. Parecia estar em transe, sem expressão facial alguma. Quando estava bem próximo de mim, o mesmo sorriu.

— Não vai para a sala, não?

Depois de dar um riso leve pelo nariz, logo a inexpressividade do rosto dele voltou.

Esperei-o virar o corredor para segui-lo. Após uns três minutos de "perseguição", ele entrou na sala do diretor, olhando de um lado para o outro, para ver se tinha alguém por perto. No exato momento que ele virou para a minha direção, recuei uns cinco passos, quase voltando para o corredor anterior. Esperei alguns segundos e fiquei próximo a porta do diretor, com o ouvido colado nela, tentando captar todos os sons que eu conseguia ouvir. A conversa entre eles começou.

— Ela me mandou vir aqui. — Felipe começou.

— Hum... O que ela quer dessa vez? Se for mais uma chantagem...

— Ela disse que sabe onde a chave está.

— Então diga. — A voz do diretor soou um pouco ansiosa.

— Antes, ela quer que você faça alguns favores. — O diretor bufou ao escutar isso — A chave estará na festa, portanto, você precisa fazê-la o quanto antes. Sexta-feira, no caso. Você deve cercar todo o salão com o pó de agrimônia que você tem no seu armário. Aquele ali. — Agrimônia? O que seria isso?

Eu já tinha visto um armário um pouco exótico em seu escritório. Ele era feito de madeira, com alguns detalhes dourados de plantas e flores. Tinha um metro e meio de altura e era protegido por um cadeado. Provavelmente o tal pó ficava ali.

— Como você sabe que... — O diretor tentou falar. Sua voz demonstrava que ele estava um pouco confuso.

— Não importa como ela sabe. Ela me pediu apenas para lhe falar isso. — Escutei uns passos vindo na direção da porta, afastei-me e os passos haviam parado. Voltei a encostar o ouvido na porta. — Ela disse que espera que você faça exatamente o que eu lhe falei, senão...

— Tudo bem, tudo bem. Eu já entendi. — Roberto, o diretor, falou um pouco irritado.

A porta abriu e eu me afastei, andando um pouco rápido, como se nada tivesse acontecido e que estava andando ali por acaso. Virei-me e encontrei um Felipe ainda inexpressivo olhando para frente, segundos depois, ele fez uma expressão confusa, como se não soubesse o que estava fazendo ali. Balançou a cabeça e notou que eu estava ali olhando.

— Você não tem que ir para aula, não? Já tinha falado com você, o monitor vai acabar te pegando. — Ele falou rindo um pouco.

Fui andando para minha sala, de volta aos ninhos de corredores.

Ele provavelmente tinha sido manipulado pela Marina, de alguma forma ele foi. Mas que chave seria essa? Fora o tal pó de agrimônia e o armário misterioso do diretor... Cheguei em minha sala e sentei na penúltima cadeira da segunda fileira, com o Leo do meu lado direito. A professora Talita de português já estava escrevendo e por mais que eu tenha entrado em sala atrasado, ela não falou nada.

— Cara, você foi aonde? Sumiu e ainda chegou atrasado. Você está bem? Algum problema? — Leo perguntou.

Nesse instante, a garota que estava sentada do meu lado esquerdo passou um bilhete para mim.

"Seria melhor se você parasse de se intrometer no assunto dos outros, antes que isso te cause problemas"

Procurei em todos os cantos do papel e não achei nenhum nome ou algum resquício de quem poderia ter escrito aquilo. Apesar de que estava em letra de forma. Fiquei com certa dúvida se teria sido a Marina, mas ela não estuda no primeiro ano, ela já está no terceiro.

De repente o diretor entra na sala. Meu coração acelera, mas percebo que ele não está olhando para mim. E sim para todos.

— Com licença, Srtª. Talita. — A professora meneou a cabeça, como se dissesse "pode prosseguir" e voltou a escrever no quadro. — Bom dia. Vim aqui comunicar a vocês que a festa que seria realizada no dia 1º de novembro, em um sábado, será realizada amanhã, dia 31, no mesmo horário. Espero que todos vocês comprem os ingressos para doarmos estes para a caridade. Obrigado, professora. Até breve. — E então ele saiu.

A turma começou a gritar, com uma animação enorme. Continuei olhando o bilhete, virando-o: frente, verso, frente, verso, frente, verso. De repente, o que estava escrito no papel sumiu. Comecei a procurar pelo papel qualquer letra feito um doido.

— Tem certeza que você está bem, Pedro? — Leo tornou a perguntar.

— Sim — Falei —, está tudo bem.

Notas finais
Espero que tenham gostado o/