Stay Alive

3 Capítulo 2 – Testando línguas antigas


Notas iniciais
Oi, gente! Desculpem por postar só agora, depois de tanto tempo, mas essas semanas foram bem corridas para mim, fora que eu tive semana de provas. Está aqui o segundo capítulo, espero que gostem.

Fiquei durante todas as aulas pensando quem poderia ter mandado aquele bilhete.

Nem no próprio intervalo eu consegui relaxar e esvaziar a mente, ou até mesmo conversar com alguém. Não vi mais a Marina e o professor de geografia estava normal de novo.

— Espera. Você quer dizer que você escutou a conversa deles? — Leo me perguntou, assim que a última aula terminou, quando já estávamos indo à biblioteca para mexer em um dos computadores que tinha lá.

— Sim. Eu acabei de te contar a conversa toda, ainda não captou, não? — Perguntei.

— É que isso é tão estranho, mas vou te ajudar, claro. — Falou— Como que ela poderia fazer alguma chantagem com o diretor?

— Não sei, não tenho a mínima ideia. Porém, como eu ouvi aquelas palavras estranhas que eles falaram, vamos procurar isso no computador da biblioteca.

— Você sabe que vamos passar o resto do século esperando aquela fila acabar, certo?

— Ah, vem logo. — Puxei o Leo para dentro da sala rodeada de livros.

A biblioteca do colégio era muito tradicional; fileiras e mais fileiras de estantes com livros, uma bibliotecária bem velhinha e um armário trancado com cadeado com livros de conteúdo ou adulto ou qualquer outra coisa que não faço ideia que ficavam atrás da bancada da bibliotecária. Nunca tinha reparado bem, mas o armário que ficava trancado, lembrava muito ao armário da sala do diretor. A única diferença era o vidro ao invés de portas de madeira.

Por mais que eu odiasse admitir isso, o Leo tinha razão, não sairíamos dali tão cedo se quiséssemos mesmo mexer no computador. Havia uma fila com umas dez pessoas na nossa frente. E todas elas já tinham agendado certo horário para usar o computador.

— Posso falar? Posso falar? — Leo perguntou meio risonho — Eu te avisei! — E então soltou uma risada catastrófica, o porquê de ser catastrófica é o jeito dele de rir. Era muito alto e parecia um elefante parindo. A bibliotecária colocou o dedo indicador em sinal de silêncio e fez o famoso "shhhhh" com uma cara de quem estava ficando bem irritada. Ela nunca gostou do Leo. Muitos professores também não gostam, principalmente por ele ser bem alvoroçado.

Quando a bibliotecária se virou, Leo fez uma careta e disse:

— "Shhhh" para você também! — E revirou os olhos. A mulher olhou para trás como se soubesse que o Leo havia feito algo e abaixou os óculos que usava, como se dissesse "eu estou de olho em você, moleque" e saiu andando. Não pude deixar de rir um pouco.

— Leo, vê se cresce. — Falei.

— Eu deixo para usar meu salto de quinze centímetros só depois da meia-noite, querido. — Nós rimos.

Olhei para aquela fila enorme. Já estava ficando desanimado. Cada pessoa tinha trinta minutos para usar o computador. E havia umas dez pessoas na nossa frente.

— Vamos procurar em alguns livros. Essa fila não nos levará a lugar nenhum. Vem. — Puxei o Leo que veio tropeçando até a parte de plantas.

— Quais são as palavras mesmo? — Leo perguntou.

— Você procura por agrimônia e eu por canela.

Ficamos procurando por algum tempo, até que um dos livros me chamou atenção. Ele tinha uma capa bem dura, era azul marinho com detalhes dourados e seu título era: "Plantas e seus efeitos". Mas o que me chamava atenção nele, não era nada disso. Era o seu cheiro. Estava com cheiro de canela. Peguei o livro enquanto o pó marrom ia caindo no chão.

— Esse livro está tão empoeirado assim? Deve ser mais velho que a Fátima. — Ele falou, comentando sobre a bibliotecária.

Ignorei-o e continuei a observar o livro. Abri-o e encontrei uma carta presa a ele. Escrito no centro dela estava "Pedro de Oliveira".

Era o meu nome.

— Cara... o que é isso? — Ele falou um pouco assustado.

— Não sei. Pode não ser eu. Existem vários Pedro de Oliveira no mundo.

Continuei olhando para a carta em minha mão. Resolvi fazer a mesma coisa com aquele bilhete que recebi na sala de aula. Fiquei virando de um lado para o outro durante alguns segundos e depois parei. Meu nome tinha sumido e no lugar dele apareceu "Eu sei onde está o que você procura".

— Pedro. O que está acontecendo? — Leo tornou a me perguntar e o ignorei novamente.

— Onde está então? — Perguntei à pequena carta.

— Pedro, o que você está fazendo? — Ele estava ficando assustado, não entendia o que estava acontecendo, mas eu não queria explicar agora.

Virei a carta mais algumas vezes até que a mesma respondeu "No armário trancado".

— Quem é você? — Eu sabia que não podia ser uma carta "falante". Tinha que ser alguém falando através dela.

Comecei a virar a carta de novo várias vezes e todas as letras da última resposta sumiram, mas não apareceu nenhuma resposta para a minha pergunta. Tornei a virar e nada acontecia.

— Você vai ou não vai me explicar o que acabou de acontecer? — Leo perguntou um pouco aborrecido e um pouco confuso ao mesmo tempo.

— Desculpe, não quis te ignorar. É que eu descobri onde nós vamos achar algo sobre agrimônia e canela. A carta me "falou", digamos assim.

— Eu vi, mais ou menos. Só que estava de cabeça para baixo aos meus olhos e palavras apareciam e sumiam. Eu estou um pouco assustado com isso tudo. — Leo falou.

— Calma. Eu sei que é muita coisa, mas eu preciso da sua ajuda. Eu tenho que pegar um dos livros no armário e a Fátima não vai me dar a chave, graças a você. Ela nunca dá essas chaves para ninguém, mas tinha alguma chance por ser quieto, mas não. Você tinha que rir daquele jeito. O que faremos agora?

— Eu acho... Eu acho que eu posso distrair a Fátima enquanto você pega o livro. Eu consigo distrai-la por algum tempo, antes de ela me matar. Confio em você. — Ele falou um pouco dramático, brincando, tentando se soltar, já que estava um pouco amedrontado da situação anterior. — Ela sempre deixa as chaves em alguma daquelas gavetas. Já ajudei a organizar a biblioteca uma vez. Culpa do professor de Física que não entende minha piadas científicas dentro de sala. — Ele falou essa última frase já andando em direção a bancada onde ela ficava. — OLÁ, FÁTIMA. A senhora sabe o quanto eu te amo, certo? — Ela abaixou os óculos até a ponta do nariz e ficou encarando o Leo. — Estou precisando da sua ajuda. Uns delinquentes estão jogando alguns livros no chão, enquanto outros estão jogando tinta nas estantes. Lá na outra ponta da biblioteca.

Ela colocou as mãos na cintura e continuou encarando o Leo.

— É sério, Fátima. Juro por toda a minha beleza estonteante. Ok, ok. Estou falando sério mesmo.

Ela saiu da bancada e os dois foram andando, enquanto ele tentava colocar o braço nos ombros dela. Tentativa falha já que ela sempre acabava batendo na mão dele.

Sorrateiro, fui até a parte de dentro da bancada. Procurei nas duas primeiras gavetas e não achei nada. Apenas lápis, papéis, grampeadores, pastas...

— Parece que tem um novo bibliotecário aqui. — Escutei uma voz bem familiar falar e me levantei bem rápido. Mauren.

— É que... É... Eu... — Tentei me explicar. Tentativa falha.

— Calma, não vou te delatar. O que você está procurando? — Ela perguntou já se abaixando para procurar comigo o que quer que fosse. Essa foi a situação mais estranha de todas. Estranha num sentido bom, mas estranha. Ela nunca ligou para mim e agora estava falando comigo.

— As chaves do armário. — Apontei para o tal armário.

Ela abriu a última gaveta e pegou uma chave bem velha.

— Essa?

— Como que você...

— Anda logo, daqui a pouco a bibliotecária vai voltar. Eu passei por ela e o seu amigo.

Peguei a chave e fomos juntos até o armário. Abri-o e dei de cara com um conjunto de uns trinta livros. E o melhor de tudo: os livros estavam em línguas que eu nunca tinha visto antes. A Mauren levantou, provavelmente procurando pela Fátima.

— Pedro, pega logo o que você precisa. Ela está chegando. — Ela falou apressada.

— Mas eu não sei qual é o livro!

— Como assim você não sabe? Pega qualquer um então! — Disse uma Mauren indignada voltando ao chão.

— Eu não posso, tem que ser o certo. — Tentei explicar meu empasse.

— LEONARDO FIGUEIREDO, EU JÁ FALEI QUE EU PRECISO VOLTAR A TRABALHAR. — A Fátima falou, exasperada enquanto vinha até a bancada.

A Mauren pegou um livro roxo com detalhes prateados e fechou o armário. Ela estava bem irritada, assim como a Fátima. Eu deveria ter sido ágil como ela foi. Levantamos e nesse momento, a bibliotecária virou também. Antes que entrássemos numa situação de risco e ela nos visse, Leo segurou a Fátima e beijou-a. Foi a cena mais estranha que eu já tinha visto. Eu e a Mauren saímos correndo.

— VOCÊ ESTÁ LOUCO? — Fátima perguntou ao Leo quase gritando.

Ele colocou o dedo indicador em frente a boca dela, disse "shhh" e saiu correndo. Ela tentou correr, mas era velha, não servia mais para isso, acabou desistindo e se sentou em frente ao seu computador na bancada.

Fomos até a entrada da biblioteca com o livro em mãos e encontramos um Leo cuspindo no chão e tentando "limpar" a língua.
Não conseguimos não rir.

— Você está me devendo uma. Ou mil. Nunca mais servirei de distração para você. — Ele falou.

Uns garotos do terceiro ano passaram por nós para sair e um deles falou:

— Necrofilia é crime, garoto.

E todos os garotos riram juntos. Tentamos segurar a risada, mas não tinha como.

Fomos andando até a parte de fora do colégio.

— Mas por que vocês queriam esse livro? — Mauren indagou.

— Umas pesquisas pessoais. — Respondi.

— Ah, entendi... Espero ter ajudado. — Ela falou quando, de repente, seu olhar mudou, como se tivesse visto algo que não gostaria de ter visto. — Tenho que ir. Beijos, gente. — E se despediu do Leo e de mim.

O mais estranho é que ela deu um beijo no canto da minha boca e não na bochecha. Eu corei, ela deu um sorriso e foi andando.

— Isso realmente aconteceu ou estou em um sonho seu? — Leo perguntou.

— Acho que estou passando mal.

— Ela tem mau hálito?

— Não, seu idiota. Claro que não. É que é a Mauren. Ela nunca fala comigo, muito menos dá mole para mim.

— Acho que alguém vai acordar de madrugada com um amiguinho bem alegre. — Leo me zoou e bati nele.

De repente, vejo uma Tessa correndo em direção ao Leo.

— Amor! Te procurei um tempão! Onde você estava?

— Testando umas línguas antigas. — Falei rindo, enquanto me afastava dos dois, indo em direção a minha casa.

— Você não presta, Pedro! — Ele gritou, o que só me fez rir mais.

Notas finais
Espero que tenham gostado! O terceiro capítulo já já estará aqui. Xx