Staub Und aschen
6 Capítulo 5
Bocejando e correndo uma mão pelos longos fios de cabelo laranja, Schuldig praguejou em voz baixa ao perceber que a noite não havia sido nem de longe proveitosa como deveria; ele ainda estava com sono, sentia dores no corpo e... Havia cheiro de café pela sua casa.
Arregalando os olhos, o policial se colocou em alerta e foi devagar até a sua cozinha, onde encontrou o repórter japonês sentado à mesa, brincando com o conteúdo de uma xícara e com a cafeteira logo na sua frente. O tenente suspirou, prendendo o cabelo e puxando uma cadeira para si mesmo depois de pegar uma caneca grande e enchê-la com o líquido quente.
— Eu preciso telefonar para a minha chefe.
O alemão piscou:
— Sua chefe? Você é quase morto e quer falar com a sua chefe? Não tem namorada, pais ou amigos com quem gostaria de falar antes?
Ken lançou um olhar surpreendentemente venenoso para aquela hora da manhã.
— Se você conhecesse a minha chefe, entenderia.
— Ah, se vamos brincar de \"quem tem o pior chefe\", cuidado. Eu ganho fácil com Crawford. — ele respondeu tomando um longo gole do café e fazendo uma careta; ele não esperava que o mesmo estivesse tão quente.
— Crawford?
— Coronel Crawford. É o responsável pela nossa unidade.
— Não parece um nome alemão.
— Porque não é alemão.
— De onde ele é, então?
— Estados Unidos. Mas tem dupla nacionalidade para exercer o cargo que tem.
— E ele sabe quem incendiou meu quarto no hotel?
— Mein Gott, Hidaka! — Schuldig exclamou, batendo a caneca contra o tampo de madeira da mesa — Todo jornalista precisa mesmo fazer perguntas quando não está trabalhando? É óbvio que não sabemos, senão já tínhamos prendido o sujeito, extraído uma confissão e devolvido você para casa.
O moreno não gostou de ser tratado como um objeto a ser despachado pelo correio.
— Escute aqui, Schuldig...
— Tenente Schuldig.
Ken abriu um sorriso sarcástico.
— Você não está trabalhando. E eu só estou fazendo perguntas porque você não me deu explicação alguma noite passada.
— Ah, claro. Porque realmente faz parte do meu trabalho detalhar tudo que está acontecendo com o suspeito do crime depois de cinco horas passadas do término do meu turno, ainda mais porque... — os dois foram interrompidos pelo telefone do policial que começou a tocar, Schuldig levantando-se com um solavanco para atender o aparelho que parecia vivo sobre uma mesa na sala.
A conversa se desenrolou em alemão, idioma que para o moreno sempre parecera agressivo. Mas naquela hora, Ken também tinha certeza de quem quer que estivesse conversando com o tenente estava nervoso e conseqüentemente havia deixado o já estressado policial com mais raiva da vida ainda. O jeito como Schuldig bateu o telefone só confirmou as suspeitas dele.
— O quê...
— Não termine. Já sei o que você vai dizer e não quero ouvir você fazer perguntas. — o policial informou, mau-humorado. — Era Crawford.
Ken arregalou os olhos.
— Seu chefe.
— Ja. Trazendo notícias da sua chefe. Aparentemente, você não deu qualquer notícia desde que chegou aqui, ela não conseguiu entrar em contato e a morte de Nakamura já foi anunciada no seu país, então ela estava furiosa. Ficou mais ainda ao saber dos últimos acontecimentos, e ameaçou tomar providências legais.
— Providências legais contra um país estrangeiro?
— Sei tanto quanto você. — o tenente deu de ombros, inclinando-se na cadeira para abrir a sua geladeira e observar o conteúdo, retirando um sanduíche já meio comido de lá de dentro — Ah. E acho que você vai ter de se acostumar com a minha presença. Crawford me nomeou seu guardião enquanto o caso Nakamura está em aberto.
— O quê? Eu sei me cuidar muito bem! — Ken se levantou, batendo com as mãos espalmadas contra a mesa — O quê vocês estão pensando de mim? Eu quero e vou voltar para casa, e não queira ficar no caminho.
Schuldig se levantou também.
— Escute aqui, Hidaka. Eu não gosto de bancar a babá e estou tão insatisfeito com a situação como você, mas você virou a testemunha principal de um caso que, graças à gente da sua profissão, é midiático e está colocando uma grande pressão em todos nós. Então, o mínimo que você pode fazer para colaborar com a situação em que você se meteu é ficar quieto e não reclamar. E sobretudo... Não mexa na minha cafeteira.
Ken estava vermelho de raiva mas não disse nada, bufando e marchando na direção do banheiro de Schuldig, onde se trancou e ligou o chuveiro. O policial praguejou com fluência em alguns idiomas, atirando o resto do sanduíche que não lhe era mais interessante numa lata de lixo.
— Maldito. Eu ia tomar banho agora.
Passava das onze horas da manhã quando Ken e Schuldig chegaram à delegacia, o moreno nada feliz em voltar ao local de trabalho do alemão. O policial havia relutantemente emprestado uma muda de roupas suas para o outro, apenas porque eles estavam atrasados para o início do turno.
O jornalista foi guiado até a sala do tenente, onde Schuldig obrigou-o a se sentar e depois saiu, trancando a sala por fora; ele definitivamente não queria a única testemunha do caso fugindo enquanto estivesse sob a sua guarda. Ken gritou e muito de dentro do escritório do outro homem, só silenciando quando o mesmo retornou, acompanhado de Crawford.
— Hidaka Ken, este é o Coronel Crawford, o chefe desta unidade.
O jovem japonês então se levantou e cumprimentou o alto americano, os três homens sentando-se por fim. Embora a sala fosse de Schuldig, foi o coronel quem ocupou a poltrona solitária atrás da mesa, deixando os outros dois homens lado a lado nas cadeiras restantes do escritório.
— Bom dia, Hidaka-san. — o americano começou em japonês, e o repórter arregalou os olhos — Sim, eu falo japonês. Na verdade, sou fluente em japonês, inglês e alemão, mas minhas habilidades lingüísticas não vêm ao caso. — ele pontuou a frase colocando fotos sobre a mesa de Schuldig, e Ken reconheceu como sendo os destroços do quarto que ocupara por alguns dias — Seu quarto. Como pode ver, tudo foi queimado.
— Kami-sama...
— Os peritos conseguiram determinar que o fogo começou perto da porta, no painel que controlava a energia elétrica do quarto. Ou seja, se você estivesse dormindo, o que era plausível pela hora do incêndio, você não teria conseguido sair do quarto devido à pane nesse controle, que também abre e fecha a porta do quarto por meio das travas eletrônicas.
O moreno engoliu em seco, vendo então os dedos ágeis do coronel colocaram as fotos de lado. Schuldig parecia ligeiramente entediado com aquilo, como se já soubesse de tudo; o que era possível. O americano então entrelaçou os dedos das mãos, deixando as mesmas repousando sobre a mesa.
— Hidaka-san, estamos certos de que o assassino de Nakamura sabe da sua existência e da sua importância. É óbvio de que a sua integridade física e mental é essencial para este caso, e a medida racional a ser tomada seria colocá-lo no serviço de proteção à testemunha, mas... Isso requer algum tempo e o assassino já começou a agir. E depois, há o problema da barreira do idioma. Por isso, decidi que o tenente Schuldig irá vigiá-lo, já que ele vem cuidando de tudo desde o início.
O oficial menos graduado falou alguma coisa em alemão que fez Crawford olhar duro para ele e que produziu um semblante de confusão em Ken.
— Você deve assinar aqui, atestando que concorda em permanecer em território alemão até o final das investigações, submetendo-se à vontade do seu guardião, ou seja, Schuldig. Você também não poderá pensar em fugir e terá de acompanhá-lo sempre. Qualquer tempo que você passe sozinho pode fazer com que seja enquadrado como suspeito novamente até tudo ter terminado.
Agora o tenente tinha a sombra de um sorriso no rosto, claramente gostando da idéia de poder controlar o outro à vontade, mas nenhum dos dois estava contente com a perspectiva de conviver vinte e quatro horas juntos. Suspirando, Ken compreendeu que não tinha alternativas e assinou o documento, somente aí se lembrando da ligação que havia sido feita por Hanae.
— E a minha chefe?
O semblante de Crawford repentinamente ficou mais sisudo, algo que impressionou até mesmo o tenente ao seu lado.
— Kitada Hanae será informada sobre o que considerarmos pertinente, Hidaka-san. Schuldig. — ele se virou para o outro policial — Você está liberado dos seus turnos até isso tudo ser resolvido. Está claro?
— Sim, senhor.
— Muito bem, então. Passar bem.
O coronel então se retirou do escritório, Ken acompanhando os movimentos do americano com os olhos e por fim observando Schuldig, que parecia tão entusiasmado quanto ele a respeito dos dias seguintes.
— Vamos. — o tenente disse de repente, levantando-se — Se você vai ficar em casa, precisamos comprar coisas para você. E é a sua chefe que vai pagar depois.
Ken rolou os olhos.
— Eu estava assistindo isso.
— Não está mais. — o policial replicou, jogando-se no sofá ao lado do moreno enquanto mordia uma torrada que parecia coberta de geléia — A televisão é minha, eu escolho o canal... E com tudo isso acontecendo, a última coisa que eu quero ver é futebol.
O tenente então usou o controle para pular para vários canais, passando por filmes, telejornais, documentários e finalmente parando em um seriado onde uma equipe de cientistas forenses parecia ocupada com a solução de um crime.
— Ah, claro. Não vamos ver futebol, mas vamos ficar vendo isso?
— Você não precisa assistir televisão se não quiser. — o homem de cabelos flamejantes respondeu, terminando a torrada e limpando a mão direita das migalhas na sua calça de moletom desbotada — E depois, são pessoas como essas que salvaram sua pele, Hidaka. Se Nagi não tivesse demonstrado a impossibilidade da voz que ameaçou Nakamura ser a sua, você ainda estaria dentro de uma cela.
— Nagi? — o outro ecoou, encarando o alemão. Schuldig virou-se para o jovem japonês ao seu lado também.
— Naoe Nagi, nosso perito. E sim, estou vendo a pergunta se formar na sua cabeça, mas não precisa fazê-la, eu respondo. — o outro continuou, sorrindo ao ver a expressão frustrada do moreno — Nagi é japonês. Um jovem prodígio do seu país, só fui conhecê-lo quando estava fazendo um curso por lá.
— Você já esteve no Japão? — o moreno perguntou com interesse, mudando de posição no sofá de forma a ficar com o corpo totalmente voltado para Schuldig. Já que ele teria de conviver direto com o irritante oficial, descobrir mais sobre ele poderia ser pelo menos um passatempo.
— Hai. Acha que eu aprendi japonês como? — o outro respondeu, por fim abaixando o volume da televisão e virando-se também para a sua visita por tempo indeterminado. Ken interpretou aquele gesto como sendo um de boa-vontade — A polícia japonesa é uma das melhores do mundo e uma das mais bem treinadas também. Vocês empatam com os americanos, eu acho. — ele pausou, seus olhos procurando o teto como se nele estivesse gravada a resposta — De qualquer forma, Crawford gosta de mandar alguns oficiais para treinamento no exterior, para aprender novas práticas e métodos.
— Hmmm. E você foi para o Japão. Onde ficou?
— Eu fiquei em Tokyo, Kyoto e Osaka. E alguns dias em Kobe, mas foi rápido. — o outro respondeu, juntando o cabelo com as mãos e dando um nó no mesmo, que momentos depois começou a se desfazer sozinho, mas o policial não pareceu ligar — Encontrei Nagi enquanto estava em Tokyo. Ele é realmente um gênio, tinha acesso a computadores de última geração e na época, ele havia descoberto uma pista importante para um caso. Fiquei tão impressionado que contei tudo a Crawford em um telefonema, e logo ele conseguiu a transferência dele. Nagi concordou, claro. Quem não gostaria de trabalhar na Europa e melhorar o currículo, certo?
Ken sentiu que aquilo fora dirigido a ele também, de forma que ele se limitou a um aceno de cabeça, suspirando contra o sofá. Ele viu o outro aumentar novamente o som da televisão e o moreno deu o assunto por encerrado, levantando-se do sofá e deitando-se na sala acapertada de Schuldig, entre a porta de entrada do apartamento e a sala de estar.
— O quê está fazendo? — o outro perguntou, vendo Ken começar uma série de abdominais.
— Malhando. — o outro respondeu com uma voz que beirava o sarcástico — Não entendo nada do que está acontecendo na televisão mesmo.
— E você faz exercício quando fica desorientado?
— Quando fico nervoso. Ajuda a descarregar a tensão. — o moreno respondeu, subindo e descendo o tórax sem qualquer dificuldade aparente — Descobri enquanto treinava.
— Treinava?
— Futebol. Eu sou de Iwata, em Shizuoka. Fiquei lá até a faculdade, quando me mudei para Tokyo. Antes, eu estudava e jogava futebol, participava do time da escola e era um dos destaques. Mas meu pai me forçou a escolher entre educação ou esporte, e deixou bem claro que, para ele, jogar futebol não era uma carreira.
— Conservador?
— Pode-se dizer que sim. Então eu resolvi que se era para levar em frente a faculdade, que ela pelo menos fosse a melhor. E fui para Tokyo... Onde eu trabalho para pagar a faculdade e o apartamento, e se eu não voltar... — ele parou, fazendo alguns abdominais antes de responder — Provavelmente terei problemas. E você fez quatro perguntas seguidas.
Schuldig fez um barulho com o fundo da garganta e voltou a atenção para a tela, continuando a observar Ken com o canto do olho quando este retirou a camisa enquanto ainda fazia os exercícios no chão, trocando em seguida para flexões.
A trama do seriado em inglês e legendado em alemão ficou totalmente esquecida, o tenente então percebendo que o seu hóspede não mentira quando falou sobre treinamento intenso na época de colegial; os resultados da época em que ele havia praticado esporte eram mais que evidentes no corpo do outro, algo que definitivamente não deixou de despertar a atenção do policial.
— Como acha que o assassino descobre a existência de uma testemunha?
Schuldig piscou, balançando a cabeça.
— Não sei. Não estava acompanhando...
— Não, não estou falando da série, Schuldig. Tenente Schuldig. — o outro acrescentou em um tom de clara gozação na voz, ajoelhando-se no chão e respirando fundo, a pouca luz da sala iluminando o contorno dos músculos abdominais de Ken, brilhando por causa do suor — Estou falando de mim. Como será que descobriram qual era meu quarto?
— Ah, isso. — o tenente acabou desligando a televisão, virando-se para o outro homem — Também estive pensando nisso na última noite, e acho que deve ter sido pelas coisas que você derrubou. As folhas que você deixou para trás eram timbradas com o nome do seu jornal. Você é o único jornalista do seu jornal aqui, não?
— Hai... Mas... Schuldig. — Ken falou, subitamente percebendo uma coisa. Ele apanhou a camisa e voltou para o sofá, o olhar de Schuldig acompanhando o japonês discretamente — Isso é um dado interno do jornal. Apenas minha chefe, Yuushi e Yohji sabiam da viagem. Nem mencionamos ao resto dos jornalistas para evitar problemas.
— Problemas? — o tenente indagou.
— Ah, Kitada não presenteia seus funcionários assim. — Ken fez uma careta — Na verdade, eu achei que ela fosse me demitir quando me ofereceu a viagem. Então o assassino... Além de ser japonês para decifrar os kanjis da folha timbrada, conseguiu entrar em contato com alguém que me conhece e que passou os dados corretos.
A dedução do jornalista parecia ter sido perfeita, mas o tenente estivera meio ocupado observando o modo como o corpo trabalhado de Ken subia e descia conforme o moreno respirava. E essa desatenção iria lhe custar muito caro mais tarde.
Continua...
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