Staub Und aschen
7 Capítulo 6
Uma terceira guerra mundial quase eclodiu no apartamento de Schuldig na manhã seguinte, quando Ken decidiu que queria correr pelo bairro como sempre fizera pouco depois do nascer do sol, independente do que seu guardião quisesse. O policial praguejou em voz alta, possivelmente acordando alguns vizinhos, sabendo que se o moreno disparasse porta afora, ele teria de segui-lo de qualquer jeito.
Os dois foram até um parque onde o alemão fazia os seus exercícios matinais antes de assumir o posto de tenente e perder grande parte do seu tempo dedicado aos esportes. O cigarro, um vício que ele adquirira quando o stress aumentou na polícia, também não contribuía para que ele tivesse o mesmo fôlego de antes. — Schuldig! Vamos, ânimo! Você teve uma noite inteira de descanso! — o moreno gritou à sua frente, sorrindo e mantendo seu ritmo animado. A única coisa boa que o oficial conseguia pensar àquela hora da manhã era que as suas roupas de ginástica ficavam um pouco justas em Ken, delineando muito bem o seu corpo visto de trás. Alguns minutos mais tarde os dois pararam em uma padaria, onde tomaram café. O japonês comeu bastante, e Schuldig pagou tudo com uma cara que não emanava exatamente felicidade. Afinal, ele não estava recebendo nenhuma ajuda adicional para bancar mais uma pessoa morando com ele. E com aquele apetite. — Estive pensando em escrever uma história sobre tudo. — História? — É, sobre tudo que está acontecendo. Acho que se eu trocar os nomes e mascarar algumas coisas quando estiver escrevendo, vira uma boa obra de ficção. — Ken. A jovem testemunha olhou para o tenente então, estranhando tanto a seriedade da voz do alemão como o fato dele ter usado seu primeiro nome, fato inédito até então. Engolindo um último pedaço de bolo, ele respondeu: — Sim? — Eu acho que você ainda não percebeu a gravidade da situação em que você está. — o tenente chegou mais perto dele, inclinando-se sobre a pequena mesa que dividiam — Tentaram matar você. Não temos a mínima idéia de quem tentou fazer isso, mas essa pessoa é esperta. E você está correndo risco de vida enquanto não prendermos esse cara, até mesmo agora, comendo aqui comigo. O moreno ficou quieto, olhando para os pratos vazios sobre a mesa, Schuldig retomando sua refeição. Suspirando, o jornalista apoiou o rosto na mão direita e falou: — Eu sei, Schuldig. Mas eu não quero pensar nisso. Melhor pensar que estou de férias ou sei lá... Aquelas fotos do meu quarto eram horríveis. Os dois homens ficaram em silêncio até o final do café da manhã, saindo para a rua e retornando para o prédio do policial logo depois. Assim que chegaram na portaria do mesmo, no hall social próximo aos elevadores havia um homem elegantemente vestido, de aparência exótica e semblante sério. O mesmo virou-se na direção do policial e do seu protegido, levantando-se imediatamente da cadeira que ocupava. — Tenente Schuldig? A voz era grave e confortável, com um inconfundível sotaque. Ken piscou, achando o timbre conhecido, e a aparência... Onde ele já havia visto aquele homem antes? — Ja. E o senhor, quem é? — Fujimiya Ran. Primeiro-secretário do Ministério de Relações Exteriores do Japão. — o outro respondeu com firmeza na voz, piscando seus olhos... Violetas. Os olhos daquele homem eram estranhamente da cor de ametistas, cobertos por mechas de cabelo vermelho escuro, numa tonalidade meio cereja, que chegavam no máximo até os seus ombros cobertos por um terno impecável. — E o quê o senhor deseja? — Conversar com o senhor, tenente. E com Hidaka-san também. — ele acrescentou o final em japonês, seus olhos caindo sobre o moreno que parecia confuso, sorrindo de leve — Já faz alguns anos desde a última vez que nos vimos, mas você não mudou muito, Ken-san. De repente, algo na cabeça do jornalista pareceu funcionar e dar um estalido, memórias do seu tempo de Iwata voltando rapidamente. -...Ran! Acirrando os olhos, o tenente interrompeu a conversa dos dois jovens japoneses, encerrando a conversa com um gesto e apontando para o elevador: — É melhor conversamos em casa. Schuldig estava irritado com a situação, embora não soubesse exatamente por quê. Assim que abriu a porta do apartamento ele sinalizou para que os dois japoneses sentassem, ele mesmo preferindo ficar encostado contra uma parede. — Bom... Pode falar, Fujimiya-san. — o tenente replicou em japonês, surpreendendo o diplomata por alguns segundos antes de retomar sua postura inicial mais rígida, sentado em um perfeito ângulo de noventa graus no sofá: — O governo japonês me enviou à sua procura, Hidaka-san. — ele iniciou, olhando para o moreno — Depois do acidente envolvendo Nakamura Hiroki, soubemos que está sendo mantido em solo alemão e impedido de retornar para casa. Entendemos isso como uma agressão ao direito de ir e vir da sua pessoa por parte do governo local. — O quê? — o oficial se deslocou da sua posição inicial, ficando no meio da sala e de frente para o ruivo que havia feito a acusação contra seu país com palavras cheias de floreios, mas ainda sim, uma acusação — Ken concordou em permanecer aqui até o final da investigação. Ele assinou um documento!
— E sob quais circunstâncias? — o diplomata redargüiu com uma calma e tranqüilidade que estavam deixando Schuldig mais e mais irritado com cada segundo que passava — Eu acredito que um acordo assinado sem tradução para o idioma de Hidaka-san, ainda mais sem qualquer tempo para o exame do mesmo e feito sob pressão... — Que pressão! Ken não estava sendo coagido, se é o que você está implicando. — o tenente bufou, jogando seu cabelo longo para trás depois da terceira vez em que o mesmo havia atrapalhado seus movimentos — Ele é a testemunha de um crime, que poderia já ter sido morta e... — Mas é um cidadão japonês e como tal deve ser colocado sob a nossa proteção, e não a sua. — Sendo que o crime ocorreu aqui? — Todos os envolvidos são japoneses. Nakamura Hiroki, a vítima; Hidaka Ken, a testemunha. E possivelmente, pelo que sabemos das investigações, o assassino também é de nosso país. — Qual parte de \"o crime ocorreu aqui\" você não entendeu, Fujimiya? — Schuldig agora estava visivelmente bravo; seus olhos azuis brilhavam com um sentimento que embora não fosse exatamente fúria, tinha um empenho que Ken não havia presenciado neles até então; seu japonês, normalmente sem falhas e apenas com seu sotaque analasado, tinha ficado mais complicado de entender também — Eu achei que todo bom diplomata soubesse da lei da territorialidade? Não importa que todos eles sejam japoneses, mas o assassinato ocorreu aqui, em solo alemão. — ele bateu o pé contra o chão para ênfase — São as nossas leis, procedimentos e penas que serão aplicados a todos os envolvidos, e não as suas. Então, por favor, retire-se. Sua presença não é necessária. Ran ficou sentado onde estava, seus lábios pressionados em uma fina linha. Seus olhos cor de ametista brilhavam com uma intensidade semelhante a que Ken enxergara nos olhos do alemão, antes do diplomata se levantar, arrumar seu terno e fazer uma mesura na direção do oficial, dando um breve e quase imperceptível sorriso na direção do moreno. — Espero que tenha ciência dos seus atos, tenente. Represento um país aqui, e suas palavras podem ofender uma nação diretamente. Cuidado. Fujimiya Ran saiu do apartamento e rumou para os elevadores, Schuldig batendo a porta depois do ruivo com estrondo. Resmungando em alemão, o policial se enfiou na cozinha, de onde voltou com um cigarro aceso que ele fumava com uma tensão palpável. Ken, sentado no sofá, sentia como se ele tivesse ido a nocaute em uma luta que ele nem mesmo participara. — Crawford falando. — Crawford, o quê aquela vaca fez? O americano ergueu uma sobrancelha, colocando de lado qualquer documento que estivesse lendo e usando a mão livre para massagear sua cabeça em antecipação. Quando Schuldig ligava diretamente no seu escritório fora do horário de trabalho, o assunto não podia ser bom. — Schuldig, defina \"vaca\". A menos que estejamos falando, sem motivo aparente, do mamífero malhado. — Ha-ha, Brad. Muito engraçado. — a voz seca e ríspida do alemão chegou aos ouvidos do coronel, tratado pelo primeiro nome — Escuta aqui, Brad. Hoje apareceu um diplomata no meu prédio. Um tal de Fujimiya Ran, para falar sobre as condições ilegais da permanência de Ken na Alemanha, dando a entender de que ele está sendo forçado a ficar aqui e que por isso vai aplicar cada sanção imbecil que ele conseguir pensar com aquela cabeça ruiva dele! O oficial mais graduado piscou, segurando o telefone com mais força na sua mão esquerda. — Schuldig, acalme-se. — o americano demandou, sabendo que aquilo era impossível, no entanto — Se eu entendi direito, um oficial do governo japonês foi até a sua casa? — Foi! O maldito veio até a portaria do meu prédio. A chefe do Ken, aquela Kitada Hanae... Ela não disse que iria tomar providências legais a respeito do caso? O coronel já havia se levantado da cadeira confortável da sua sala, seu olhar concentrado nos próximos passos que deveria tomar. Respirando profundamente, ele replicou: — Preciso desligar. E você, Schuldig... — Já sei, já sei. Ficar calmo e não fazer besteira. — Se é que isso é possível com você. Batendo o telefone e sabendo que o oficial menos graduado havia feito o mesmo, Crawford deixou sua sala e caminhou rapidamente até o pequeno cômodo onde Nagi ficava, batendo duas vezes contra a porta e depois entrando na saleta sempre escura. — Nagi, o quê sabemos sobre um diplomata japonês, Fujimiya Ran? — Nada... Ainda. Me dê alguns minutos, coronel. O americano concordou com a cabeça e sentou-se em uma cadeira que sempre ficava próxima a porta, observando seu perito trabalhar. Os dedos do jovem nipônico a sua frente se movimentavam em uma velocidade que mal parecia humana, os olhos amendoados do prodígio da polícia não baixando nem por um segundo para olhar o teclado. — Fujimiya... Ran, não é? — Exato. — Só tenho os dados básicos dele registrados aqui. Natural de Iwata, Shizuoka. Tem vinte e quatro anos e começou a trabalhar ano passado para o corpo diplomático japonês. Teve uma ascensão meteórica na carreira, se já é primeiro-secretário. — O quê mais pode descobrir? — o oficial mais graduado se mexeu da sua posição. Eles precisavam de mais detalhes, alguma coisa que indicasse porque aquele diplomata havia sido enviado ou algo para usar contra ele. — Hmmm. Posso tentar acessar os bancos de dados do governo japonês. — Nagi falou, seus dedos deslizando pelas teclas novamente — Pronto. Fujimiya Ran... Ah. Temos mais informações sobre ele aqui. Excelente esgrimista, tem uma irmã dois anos mais nova, que mora no Japão. Sem pais ou quaisquer outros parentes vivos. — Você invadiu a base de dados, Nagi? — Crawford perguntou, se levantando e chegando mais perto da tela que exibia uma foto do diplomata e mais vários outros detalhes sobre ele. Ele era realmente ruivo, e dono de uma aparência muito marcante. — Não... Eu ainda tenho meu cadastro antigo da polícia. Não me deletaram do sistema de Tokyo ainda, grande erro. — o jovem japonês respondeu com um pequeno sorriso no rosto, que agora era copiado por Crawford. A foto da página de repente mudou, exibindo a imagem de uma garota que lembrava o rapaz anterior, especialmente no tocante aos olhos. — Quem é? — Fujimiya Aya. A irmã de Ran... Os dois são da mesma cidade natal que Hidaka. Franzindo o cenho, Crawford agradeceu os esforços de Nagi e saiu da sala, rapidamente ligando do seu próprio celular para o tenente que cuidava da sua testemunha. Schuldig atendeu pouco depois do terceiro toque, grunhindo. — O quê é? — Escute, Schuldig... Por acaso Hidaka reconheceu Fujimiya? — Sim. O senhor diplomata sabichão fez questão de dizer que não sabia se Ken lembrava dele, mas que eles haviam se visto antes. — Qual a ligação entre eles? — Eu sei lá, Crawford! — Pergunte então, Schuldig. Agora. Ele ouviu a voz do seu subordinado conversando com Ken, que pareceu relutante em compartilhar a informação de início, suspeitando da pergunta repentina. No final, acabou revelando a resposta, e o coronel ouviu um grito indignado do seu tenente. — Hah. Ken conhece Ran há anos... Ele namorou a irmã dele durante um tempo, freqüentavam a mesma escola. — Eu sabia. Laços pré-estabelecidos de confiança. Schuldig, eles estão fazendo de tudo para levar Hidaka embora e jogar a culpa na polícia. — Sério, Brad? — o cinismo corrosivo do alemão não conseguia ser mascarado nem mesmo pelo telefone — Não tinha percebido. Ele me acusou de ofender um país, Crawford! — Schuldig. Nunca ninguém se intrometeu nas minhas investigações, e não é agora que as regras vão mudar. Continue de olho em Hidaka. Desligando sem maiores palavras, o coronel suspirou. O quê ele deveria fazer agora? Olhando de relance para um relógio preso à parede, ele sentia que os pequenos ponteiros do mesmo corriam contra ele. Mas Brad Crawford não era um homem que aceitava derrotas ou provocações facilmente. Na verdade, derrota era uma palavra que simplesmente não fazia parte do seu vocabulário.Continua...
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