Jogando as credenciais para o lado, Ken rapidamente remexeu na sua mala e ligou o gravador, mesmo sem estar sequer dentro do vestiário; ele não poderia perder tempo nem qualquer palavra do outro jogador, e sabe-se lá como estaria o vestiário depois do jogo.

A partida havia sido espetacular. Ninguém diria que Nakamura poderia ter uma função tão decisiva logo no seu jogo de estréia, mas ele havia sido o autor dos passes dos dois gols marcados pelo seu time. No final, o placar de 2x0 havia impressionado os repórteres locais e aparentemente, Nakumura era o assunto do dia, embora o moreno não tivesse certeza; o nome do seu conterrâneo era a única coisa que ele entendia na língua ríspida dos alemães.

Ken virou à esquerda e encontrou uma escada que descia para os vestiários, mas segurança nenhum estava ali. Franzindo o cenho, o moreno decidiu que ele provavelmente havia ido comer alguma coisa ou então fazer a troca do seu turno, e desceu os degraus com passos leves porém rápidos, olhando o gravador nas mãos e descontando mentalmente os minutos que já havia perdido por ter ligo muito cedo o aparelho.

O repórter então sorriu, feliz ao ver que ninguém havia chegado ao vestiário ainda; não haveria muito barulho nem interrupções na sua entrevista. Enquanto ele abria a bolsa para pegar lápis e papel, suas orelhas captaram o som de alguém caminhando por ali, seguido de vozes.

Andando bem mais devagar e instintivamente em silêncio, Ken deu alguns passos, chegando próximo à parede de armários que o isolava da área onde estavam Nakamura e mais alguém. Piscando, tudo que ele ouviu foi o resto da frase de um desconhecido:

— ...Sorte.

— O que você pensa que está fazendo? — redargüiu a voz do jogador japonês, aflito.

— Algo que eu deveria ter feito há muito tempo!

Então Ken ouviu um estampido alto e forte, além do barulho seco de algo pesado atingindo uma superfície dura. O moreno não era nenhum policial, mas sabia que aquele era o universal som de uma bala sendo disparada... E provavelmente, o atingido era Nakamura.

Sem pensar em qualquer coisa além da sua própria sobrevivência, o moreno deu meia-volta e saiu correndo, a caneta e as folhas de papel que tinha na suas mãos ficando para trás enquanto ele fugia desesperadamente para longe dali. Ele subiu os degraus que o levariam de volta ao resto do estádio de três em três, virando à direita e então dolorosamente batendo contra algo que não estivera ali quando ele descera para fazer a sua entrevista.

O impacto desligou o gravador de Ken, que foi ao chão junto com seus pertences. Tonto, confuso e com a adrenalina ainda em grandes concentrações no seu sangue, ele precisou da ajuda do estranho com quem havia colidido para ser erguido do chão gelado daquela parte do estádio, encontrando olhos profundamente observadores e azuis.

Uma frase então escapou dos lábios do estranho, mas ele não fazia a menor idéia do que lhe havia sido dito. O outro homem, Ken observou o uniforme dele, parecia um policial, e sua mão direita estava apertando seu braço esquerdo, como se tivesse receio de que o moreno fosse disparar correndo.

Outra frase em alemão se seguiu e o repórter sacudiu a cabeça, passando o que ele esperava que fosse uma mensagem compreensível de que ele não estava entendendo nada. Puxando o braço e tentando se livrar do estranho, ele falou:

— Me larga! Eu não estou te entendendo, não vê?

— Você poderia ter falado mais cedo em japonês, ajudaria.

O repórter congelou, desistindo de desvencilhar-se do policial. Era japonês aquilo que chegava aos seus ouvidos? A surpresa que ele sentiu ficou de lado quando seu cérebro deu um estalo e voltou a funcionar, fazendo com que ele se agitasse novamente:

— Nakamura! Nakamura foi assassinado!

— O quê?

O policial então largou Ken e saiu correndo escada abaixo, o moreno permanecendo onde estava sem saber porque tomara tal atitude. Momentos depois, o policial voltava, um olhar duro no seu rosto. Ele havia terminado de falar no telefone com alguém e colocou sua mão direita enluvada sobre o ombro de Ken:

— Você vem comigo.

Depois de um copo de água com açúcar e duas xícaras de café, o moreno estava relativamente calmo. Não demorou muito, no entanto, para que ele fosse convidado a entrar numa pequena sala que imediatamente foi reconhecida como sendo destinada a interrogatórios.

Passados vários minutos naquela saleta, sozinho, o policial em que ele esbarra antes entrou, a sua expressão séria e profissional. Ele estava sem as luvas e sem o quepe que trajava anteriormente, o longo cabelo de cor laranja preso em um rabo que caía pelo lado esquerdo do seu uniforme.

O gravador de Ken foi colocado em cima da mesa da sala, a fita rebobinada e então executada várias vezes. O moreno se assustou ao ouvir tudo, desde os seus passos rápidos até o vestiário, passando pelo misterioso diálogo que só então ele notara ser em japonês e depois pela sua corrida desesperada.

O repórter não havia conferido o conteúdo da sua gravação até aquele momento, ficando verdadeiramente surpreso com a sua revelação. O policial então perguntou como aquela gravação havia sido conseguida e Ken relatou os detalhes, fazendo tudo de novo quando o oficial reproduziu a fita outras vezes e refez a pergunta mais tarde.

Logo em seguida ele saiu do cômodo, deixando o jovem japonês sozinho lá dentro. Cansado e sem saber que horas eram sem o seu celular, Ken cruzou os braços sobre a mesa e deitou a cabeça, fechando os olhos por alguns instantes enquanto buscava esquecer os últimos minutos da sua vida.

Mas era impossível. Tudo parecia normal até ele descer as escadas do vestiário, quando as coisas haviam ficado borradas e transcorrido numa velocidade impressionante. De um repórter agraciado com uma exclusiva, ele havia provavelmente passado a suspeito de um assassinato.

Hanae iria matá-lo se ele escapasse daquilo, com certeza.

— Herr Hidaka?

Ken ergueu a cabeça na direção da porta, onde um policial diferente daquele que o interrogara estava. Ele olhou para o homem com uma profunda expressão de dúvida, relaxando quando o oficial de antes retornou pela porta aberta anteriormente pelo seu colega; pelo menos aquele tenente falava japonês, como ele havia descoberto.

— Bem, bem... Hidaka-san, odeio ser o portador de más notícias... — o homem cujo nome preso ao uniforme lia \"Schuldig\" informou, seu tom de voz neutro — Mas o senhor está preso.

Encostado contra a parede, o moreno tentava acreditar que tudo aquilo não era apenas uma cena de um filme mal-feito. Seus braços estavam apoiados sobre os joelhos, sua cabeça descansado contra a superfície gelada que estava atrás de si.

Ele ouviu passos no corredor que passava no meio das pequenas celas daquela delegacia, mas não deu maior atenção ao fato; o mesmo barulho antes representara apenas uma nova adição em uma das celas do seu lado direito, onde um sujeito com cara de estar bêbado havia sido atirado com pouca cortesia.

Seus olhos fechados mentalizavam a paisagem que ele via todos os dias da sua janela, tentando lembrar cada detalhe possível, incluindo os ruídos costumeiros que Yohji fazia pelo apartamento no dia a dia. Um leve sorriso chegou a tocar seus lábios, mas foi imediatamente desfeito quando o som de um par de botas militares batendo contra o concreto chegou ao seu ouvido, vindo da sua frente.

— Hidaka-san.

Era o tenente de antes. Ele achava que não seria normal tanto contato com o mesmo policial, mas provavelmente os outros não sabiam japonês. Piscando seus olhos turquesa, o moreno suspirou antes de replicar:

— O quê foi agora?

— Existe algum advogado que queira contratar para defendê-lo aqui na Alemanha ou prefere que a polícia nomeie um?

O moreno riu então, primeiro baixinho e para si mesmo, mas não conseguiu conter a ironia que sentia naquela situação e terminou gargalhando abertamente. Schuldig pareceu estranhar aquele comportamento, uma sobrancelha sendo erguida no rosto do outro homem.

— O senhor está achando isto engraçado, Hidaka-san?

— Iie, Schuldig-san. Mas... Pense comigo. — ele se levantou da sua posição da sala, aproximando-se das barras de metal que o separavam do guarda — Você vem para um país estrangeiro fazer a matéria dos seus sonhos quando de repente você é preso, acusado sem prova alguma do assassinato de um ídolo. O que mais eu posso fazer senão rir?

A última frase foi dita com um ímpeto que fez o policial dar alguns passos para trás, surpreso. Era a primeira vez que o repórter nipônico demonstrava mais vigor em alguma coisa que ele dizia; até então, ele havia estado muito cansado e assustado para imprimir qualquer ênfase a uma declaração sua.

— Por quanto tempo podem me prender aqui?

— Até amanhã. É uma prisão preventiva, Hidaka-san. Sem provas, como senhor observou, não podemos mantê-lo por mais tempo sob detenção. — redargüiu o oficial, seu tom de voz ligeiramente seco. De repente, ele colocou a mão em um bolso e observou o que parecia um pager, seus olhos se arregalando antes dele encarar o moreno uma última vez — Bom, se o senhor não precisa de nada, nos vemos amanhã.

Conforme os passos cadenciados do policial foram se afastando, Ken deixou seu corpo cair para frente, apoiando-se nas grades da sua cela. Ele não via a hora daquelas vinte e quatro horas passarem logo para ele poder retornar ao seu país.

Mas infelizmente para Ken, a simplicidade não era sua companheira; as coisas prometiam ficar ainda mais complicadas.

Continua...