— Não é ele, Schu. Veja. — um jovem oficial comentou da sua posição em frente a um monitor que exibia um gráfico. Ele então apontou linhas coloridas distintas, uma sinalizada como \"Hidaka\" e a outra como \"X\" — Gravamos a voz de Hidaka com o próprio gravador dele, e comparamos com o resto da fita. Os timbres não batem... Não é possível que ele tenha feito a ameaça a Nakamura.

— Droga. — o oficial murmurou, seu cabelo laranja agora caindo do rabo de cavalo que normalmente mantinha as mechas longe do seu rosto — Não temos realmente nada para detê-lo aqui, então.

— Não só não temos nada para prendê-lo como temos a prova de que há um terceiro envolvido. Schu... Ele pode ter falado a verdade no interrogatório. — um oficial da polícia alemã que mais parecia um garoto se virou na cadeira que ocupava, encarando o amigo e colega de profissão — Ele pode realmente ter gravado tudo por acidente.

— Nagi. — o tenente falou, suspirando de forma cansada e dando as costas para o computador, apoiando-se na bancada onde o moreninho passava horas a digitar e analisar todos os tipos de provas e evidências tecnológicas. Naoe Nagi era um dos peritos da polícia de Berlim, e a história de como havia chegado à corporação era entrelaçada com a de Schuldig — Ele conversou com Nakamura antes e conseguiu acesso ao vestiário. Ninguém mais estava lá, exceto pelo próprio jogador, Ken e esse terceiro. Achamos folhas de papel e a caneta dele por lá, cheia de impressões digitais.

— Ele não fez isso, Schu. — Nagi balançou a cabeça — Não é plausível nem provável. Ele sabe que é a matéria da carreira dele, acha mesmo que ele colocaria tudo a perder? E depois, ele não deixaria pistas tão óbvias para trás como as coisas dele, ou chamaria você para dizer que Nakamura estava morto. Ele não agiu como um assassino.

— Nem todos cometem o crime perfeito de cara, Nagi. E se ele fosse, não sei... — o tenente coçou a cabeça, caindo por fim numa cadeira desocupada ao lado do colega de profissão — Um iniciante? Vai ver ele se arrependeu de ter disparado o tiro e...

— Onde está a arma?

Olhos azuis se arregalaram ante o tom de urgência na voz do perito. Espreguiçando-se na cadeira, Schuldig respondeu depois prender novamente o cabelo:

— Não encontramos a arma.

— Revistaram todo o vestiário?

— Uma equipe de dez homens procurou em todo o vestiário e nas redondezas do mesmo. Não está lá, senão já teriam achado.

— E junto com Ken?

— Não. — o tenente acirrou os olhos, encarando seu amigo de forma estranha — Obviamente não havia arma nenhuma com Hidaka, fizemos a...

Um silêncio pesado se fez no pequeno cômodo cheio de computadores onde Nagi trabalhava diariamente. O moreno então concordou rapidamente com a cabeça, cruzando as mãos sobre o colo.

— Se Nakamura foi morto com um tiro e não encontramos a arma nos únicos locais onde Ken poderia tê-la escondido, isso quer dizer que...

— Hidaka Ken é inocente.

Schuldig olhou para a porta fechada da saleta que era a única saída dali; ele odiava quando estava errado.

— Scheiße.

Naquela hora, a porta da sala foi aberta com ímpeto, a figura alta e imponente do coronel responsável por aquele batalhão da polícia de Berlim examinando atentamente seus subordinados. Nagi e Schuldig rapidamente se colocaram de pé, fazendo as saudações necessárias.

— Coronel Crawford, acabamos de descobrir que...

— Hidaka não matou Nakamura?

Perito e tenente olharam surpresos para o americano que ainda estava na porta de entrada da saleta escura, normalmente iluminada apenas pela claridade dos monitores. Suspirando, Crawford caminhou até os outros dois oficiais, mostrando um documento.

— Esse é um fax enviado minutos atrás pelo hotel onde Hidaka está hospedado. O vizinho do nosso prisioneiro acordou no meio da noite sentindo um cheio estranho, e ao sair na janela, viu que o quarto ao lado estava pegando fogo. Os bombeiros já controlaram o incêndio, mas tudo que estava no quarto foi destruído.

Schuldig olhou para o seu relógio de pulso enquanto Nagi corria os olhos negros e astutos pelo documento: era pouco mais que três da manhã. O tenente grunhiu por estar acordado até essa hora, mas ao mesmo tempo, deduziu o que seu colega falava ao coronel:

— Foi um atentado.

— Ja. Quem quer que tenha matado Nakamura sabe de Hidaka, e tentou eliminá-lo antes que ele volte para seu país de origem.

— Como sabemos que isso não foi combinado, Crawford? — Schuldig indagou, sua voz ligeiramente ríspida por causa do cansaço e conseqüentemente abandonando o tratamento formal que deveria ter utilizado. O americano ficou em silêncio por alguns momentos, antes de abrir a boca novamente:

— Hidaka não teve contato com ninguém depois que encontrou com você, Schuldig. Você esteve do lado dele direto, e depois, o único meio disponível para uma eventual comunicação seria pelo celular. E o aparelho de Hidaka não está funcionando aqui.

Nagi devolveu o fax ao coronel, os três homens em silêncio antes do mesmo ser quebrado pelo alemão revoltado e cansado:

— Maravilha. De suspeito principal a testemunha que deve ser protegida. Ele vai querer me matar.

O alemão de cabelo laranja saiu rapidamente da sala, esquecendo seu quepe e par de luvas que havia retirado horas antes para o interrogatório sobre a bancada do perito. Nagi deu de ombros e esboçou um sorriso fraco, que foi refletido nos olhos do coronel.

— Tem certeza de que Schuldig deveria cuidar disso?

— Hai. — o americano respondeu, falando no idioma natal do seu perito. Ele raramente optava por falar em uma língua que não fosse alemão, mas ele fazia concessões ao pequeno gênio que havia trazido do Japão juntamente com o término de um curso de Schuldig — Ele precisa aprender a aceitar seus erros.

— Não sei se tenho mais pena de Hidaka ou dele.

O fantasma de um sorriso tocou o rosto geralmente estóico do coronel, que fez um gesto na direção dos computadores:

— Vá para casa, Nagi. Amanhã continuamos.

Cansado, com fome e precisando de um bom cigarro, Schuldig não foi exatamente cordial ao bater com força contra a grade da cela de Hidaka Ken, que acordou assustado com a voz ríspida do outro.

— Rápido. Pegue suas coisas. — ele não ofereceu maiores explicações enquanto abria a porta da cela, ignorando os xingamentos que vinham em alemão de uma cela ao canto, provavelmente do bêbado que agora deveria estar com uma ressaca formidável.

— O quê aconteceu? — o moreno perguntou, apanhando o seu casaco do chão e saindo da cela, feliz ao ver a mesma ser trancada sem ele lá dentro. O oficial nada respondeu no entanto, fazendo o caminho que Ken havia trilhado quando fora preso no sentido oposto, saindo do prédio da delegacia.

Olhando para um relógio de rua, o jornalista observou que a noite já ia alta, e que provavelmente o policial deveria estar cansado. O moreno parou de andar quanto notou que o outro homem havia retirado a corrente que prendia uma moto a um poste e estava montando na mesma, sinalizando para que ele não demorasse.

— O quê aconteceu? Por que estamos aqui? — o moreno demandou antes de fazer qualquer movimento para subir na moto. De repente, o alemão se virou e jogou a bolsa com os pertences de Ken sem aviso, somente aí o jovem nipônico notando que o outro vinha de fato carregando alguma coisa nos braços.

— Vamos, Hidaka. Não tenho a noite inteira.

— Para onde vamos?

— Eu não sei você, mas eu trabalhei o dia inteiro e quero descansar. E você está liberado...

— Então por que não posso ir para o hotel?

— Aschen.

O moreno piscou, seus olhos azuis exprimindo óbvia confusão:

— Nani?

O tenente suspirou, batendo-se mentalmente. Ele não conseguia ser eloqüente em outros idiomas que não o seu natal quando estava extremamente cansado.

— Cinzas, Hidaka. Você não matou Nakamura, esclarecemos isso. Mas antes de ficar feliz com o prospecto, saiba que tentaram assassiná-lo minutos atrás incendiando seu quarto no hotel. Ou seja, você não tem para onde ir. Agora suba rápido nessa garupa antes que eu abandone você aqui.

Engolindo as notícias e o nervosismo que haviam se apoderado dele, Ken subiu na moto como Schuldig havia instruído e se prendeu ao alemão, sua mente desejando de novo que tudo aquilo fosse apenas um mal-entendido.

Continua...