Starved

3 O Certo e o Errado


Notas iniciais
Demorei pra postar mas ela chegou! Amém irmãos!


Acordei desnorteado. Aparentava ser tarde da noite.

Meu peito doía a cada respiração ou simples movimento que eu fazia. Aquilo me deixou agoniado.

Eu sabia que estava no recinto privado da loja, agora nosso refúgio. Mas não podia olhar melhor ao meu redor, pois não conseguia me mexer por conta daquela maldita dor.

Estava coberto por um pano velho, com cheiro de mofo, mas bem quente. Sabia também que estava sem camisa e algo envolvia a parte do ferimento.

Me sentia desgastado e levemente tonto. E com muita fome.

Mas muito mais preocupado.

Ouvi o barulho da porta do recinto se abrir e me comprimi um pouco.

– Finalmente você acordou! – exclamou alguém, era Michael.

Não respondi, apenas fiquei fitando o teto. Afinal, era o único local que eu tinha minha visão livre.

Agora eu podia vê-lo, sorrindo tranquilamente e agachando-se ao meu lado.

Ele aproximou um tipo de frasco com vários comprimidos brancos no seu interior. O fitei com o rosto franzido.

– São analgésicos. – respondeu ele a minha pergunta não pronunciada. – Conseguimos achar a duas quadras daqui... não foi fácil.

Novamente, eu não respondi. Apenas abri a boca, e ele abriu a tampa do frasco, deixando cair um comprimido para dentro dela. Engoli a contragosto. Era um pouco ruim tomar comprimido sem água acompanhando.

– Está muito dolorido? — questionou ele, guardando o frasco no bolso.

– Acredite... dói... muito... – respondi com dificuldade. Até para falar meu peito doía. Aquela sensação era horrível. – por quanto... tempo eu...

– Três dias. – respondeu ele, cortando minha fala. Eu odiava quando cortavam minha fala. Mas naquele momento, quis agradece-lo por isso.

– Joana... – sussurrei, mais eu já sabia a resposta.

– Não sabemos. – respondeu ele, em tom melancólico.

Respirei fundo.

Eu não entendia porquê. O que ele queria com a garota? Não havia abandonado ela e a própria esposa?

Ele era líder daquelas pessoas?

Minha cabeça zunia. Tanto que começou a doer também.

Houve outra vez um rangido da porta se abrindo. Pela intensidade que a porta bateu de volta, soube imediatamente quem havia chegado: John.

– Acordado? Deu o remédio? – questionou ele à Michael.

Ouvi seus passos, se aproximando, mas não ele entrou no meu campo de visão.

– Sim, dei. – respondeu Michael.

– Onde está o Bruno? – perguntei agora com meu modo de costume. A dor não estava tão forte. O analgésico estava agiu rápido.

– Procurando suprimentos. Passamos mais tempo que o necessário aqui. Não há mais nada para aproveitar. – respondeu John, e pude sentir sua mão áspera e gelada em minha testa, medindo a temperatura.

– Não era melhor alguém estar com ele?... – questionei preocupado, mas franzi o rosto percebendo que o que acabei de pronunciar era de certa forma estupido.

– Sério? O cara parece uma montanha e é sargento da polícia civil local. Quem precisa de proteção é quem ter a má sorte de encontra-lo. – respondeu Michael, rindo baixo.

– Ele está um pouco irritado com você, na verdade. — disse John. – Acho que você vai pegar um torcicolo se ficar com a cabeça desse jeito. Consegue sentar ou precisa de ajuda?

– Seria bom uma ajuda. – respondi, mas ainda não conseguia mexer meu pescoço. Meus músculos pareciam ter adormecido.

John colocou as mãos em meus ombros com cuidado, mas firmeza, e me puxou com vagarosidade para frente. A dor ficou aturada.

Quando finalmente estava sentado no sofá, que era muito pequeno para o meu tamanho, lentamente joguei meu pescoço para um lado, e depois para o outro, ouvindo os estalos. E então, relaxei com facilidade.

– Porque ele estaria irritado comigo? — quis saber, intrigado.

– Bem... você estava lá fora. Podia ter ficado dentro do mercado pelo menos. Assim não teria chamado atenção. – respondeu Michael, sem delongas.

– Eu achei que vocês não iriam demorar muito! – exclamei sem querer, me defendendo.

– Não adianta, de qualquer forma. Uma hora iriam nos encontrar por causa dela. – falou John, sentando-se no outro sofá.

– É, tem razão. – concordou Michael, tirando um saco de doce do bolso.

– Quanto tempo ficaremos aqui? — perguntei, querendo fugir do assunto.

Havia uma janela no recinto, mas estava tampada por tábuas. Estranhei aquilo. Não me lembrava de ter algo do gênero antes.

– Porque há tábuas na janela? — perguntei, por fim.

– Achamos bastante coisa nos fundos daqui, então decidimos fazer uma barricada na frente e tamparmos as janelas. – respondeu John com tranquilidade.

– No mínimo três semanas. Se der. – respondeu Michael a minha pergunta anterior.

Silêncio.

Aquele ambiente era tão estranho.

Eu não conseguia imaginar como eles estavam se sentindo em relação a Joana também.

Desde o início a trataram bem, sem abusos, como se fosse aquela sobrinha distante que veio visita-los nas férias.

Mas dava para perceber que nossas mentes estavam bem distantes.

– Preciso com urgência de uma ducha. – comentou John, após um tempo. – Mas o encanamento daqui tá totalmente inútil.

– Sinto que há uma casca de sangue se formando na minha pele. – comentei, e aquilo era verdade.

– E olha que tentamos tirar o sangue o máximo possível... – respondeu Michael distraído, comendo o pacote de doces.

– Obrigado por terem cuidado de mim. – respondi com sinceridade, coçando a nuca.

– Sem problemas. Nos juntamos para isso, não acha? – disse Michael, dando um leve sorriso.

– Sim, mas... eu levei um tiro. – comentei, perplexo com a própria afirmação como se fosse inédita.

– Sim, nos juntamos para ajudar uns aos outros quando são baleados. – comentou John, sem mudar sua feição. Tive que me controlar para não rir, pois meu peito ainda doía.

– Na verdade o Bruno que fez a maior parte do salvamento. – respondeu Michael, rindo.

– Imaginei que sim. – respondi, fazendo uma careta.

– O que faremos, exatamente? – quis saber Michael, por fim. – Vamos procura-la?

E assim, silêncio perpetuo outra vez.

Não éramos parentes. Não a conhecíamos de longa data. Podíamos simplesmente seguir nossos caminhos e se manter a salvo.

Mas eu não conseguia achar aquilo certo.

Se fosse um velho rabugento com 65 anos que tivesse sido levado, eu não daria a mínima. Não daria mesmo, por mais errado que fosse também. As circunstancias nos tornaram frios, mesmo que não admitimos isso.

Mas criamos um laço com aquela garota.

Ela confiou em nós desde o início. Pessoas estranhas. Homens. Homens velhos, ainda por cima. Em nenhum momento achou que nós teríamos alguma má intensão com ela. E realmente não tivemos.

Joana era inocente.

E é claro: a ideia de ela estar esperando que nós a achemos martelava na minha cabeça.

– Procuraremos ela sim. – respondeu John, convicto, me surpreendendo. – É antiético não ir. Ainda mais sabendo que talvez não seja feito nada com ela. O pai dela está no meio também.

– Concordo, John. – respondi o fitando com certa solidariedade. Estava claro em sua voz que ele sentia falta do seu filho, como havia mencionado bem antes. – Temos Bruno conosco, um mestre em estratégia. Não somos experientes, mas... não dá para simplesmente aceitar que ela foi levada.

– E precisamos acabar com isso. – falou Michael, decidido. – Esses caras são malucos fanáticos. Deveríamos acabar logo com eles também.

– Não acho uma boa ideia. – pronunciou uma voz, vinda da porta. Era Bruno, entrando no recinto, com uma sacola pequena em mãos. Não aparentava ter encontrado o que queria pela feição em seu rosto.

– Por quê? – quis saber John.

– Vão se arriscar por causa de uma garota que mal conhecem? Vocês têm quantos anos? 15? Precisamos sair daqui. Quase não temos mais mantimentos.

– Queríamos ter salvo a Esther. Ela era uma ótima pessoa. Mas provavelmente foi queimada, como muitas outras e mais muitas outras passarão pela mesma experiência. Tem certeza que o que estamos querendo fazer é infantil? Olha o que fizeram Carl passar. Ele levou um tiro no peito sem mais nem menos! – vociferou John, exaltado.

– Não importa. Em breve estaremos passando fome se vocês continuarem com essa palhaçada. – respondeu Bruno, prontamente. – Ela foi levada pelo próprio pai. Ela não é de maior. Quem decide se ela fica ou não, não é nós. É ele. Que moral vamos ter se formos pega-la? Não vai fazer sentido.

– Não importa. – repetiu John, levantando-se do sofá. – Um pai não deixa a filha sozinha quando um desastre acontece bem na frente de seus olhos. Não atira em um homem bem na sua frente a sangue frio, sabendo que poderia ser um conhecido dela. Isso não é ser pai, Bruno. Isso é ser um monstro. Você quer deixar a garota com um monstro? – argumentou ele com firmeza.

– Estou dizendo que não há como! A menos que você queira passar alguns dias em jejum! E não fazemos a mínima ideia de onde ela esteja! – exclamou Bruno, perdendo a paciência.

Eu queria me levantar para me por entre os dois, mas meu peito ainda doía e mal tinha forças para efetuar tal ato.

Felizmente, Michael pareceu ter lido meus pensamentos.

– Chega. Bruno, você realmente não achou nada? — quis saber ele.

– Andei por mais de dez quarteirões e mal achei um saco de bolacha. – respondeu Bruno, seco, ainda fitando John, que não mudou sua postura séria.

– Merda. – praguejou Michael.

– Estamos aqui ainda por minha causa, certo? – quis confirmar. Todos me fitaram um pouco indecisos se respondiam ou não, então prossegui sem ligar. – Vejam o que vocês estão fazendo. Vocês podiam muito bem ir embora e me deixar aqui. Mal nos conhecemos. Não tem o porquê. Mas da mesma forma estão aqui, me ajudando e ajudando um ao outro. Por que tem que ser diferente com Joana? – questionei, por fim.

E mais outro momento de silencio. Só que desta vez, me senti confortável em não ouvir nenhuma pronuncia.

– É. É verdade. – disse Michael após um breve tempo, quebrando o gelo.

– Fizemos isso sem ao menos questionar. – comentou John, insistindo à Bruno. – Estamos juntos nessa. E você é a nossa maior chance de conseguir pega-la.

Bruno fitava um ponto qualquer do recinto, até pronunciar:

– Eu realmente não gosto de me arriscar. Mas simplesmente pelo fato de ser um soldado, é algo arriscado. Entendo vocês, porém eles estão armados, e nós não. Isso é o que me preocupa.

– Mas você tem as pistolas... – começou Michael.

– Duas pistolas. – cortou Bruno, fitando Michael de soslaio. – Com pouca munição, contra um bando de loucos armados até os dentes. É como se estivesse dando boas-vindas a morte.

– Eu não sei se realmente é, mas... me lembro de ver algum tipo de ver um lugar parecido com uma delegacia. Parece ser algumas quadras atrás antes de nos juntarmos a vocês. – comentou John, pensativo. – Haveria algo lá que poderíamos usar?

– É uma delegacia. É obvio que tem algo para usar. – respondeu Bruno, em tom grosso, como se não acreditasse na pergunta de John. – Você tem certeza que era uma delegacia?

– Tinha muitos escombros na frente, né? Quase não dá pra ver... – comentou Michael.

– Vai ser difícil entrar por causa dos escombros. E mesmo assim, vai depender muito de como a estrutura do local está...

– Dane-se. Nós vamos. Temos uma chance de ter algo pra nos proteger. – falou Bruno convicto, jogando o saco plástico que trouxe na minha direção.

Depois ele caminhou até a mim, retirando algo no bolso de trás da calça. Me exaltei quando percebi que era uma arma, e ele pousou-a em minha mão.

– O quê? Pra que você está me dando isso?

– Proteção, horas. – respondeu Bruno, franzindo o cenho. – Você vai ficar sozinho aqui e não pode se levantar. Eu tenho a outra pistola aqui, então você fica com essa.

– Eu nem ao menos sei como usar isso! – falei exaltado. Era estranho segurar aquele material em mãos. Até seu formato passava certo perigo.

– A trava de segurança. – sinalizou ele, para uma parte de cima do objeto. – Você puxa ela para trás para destravar. Mira no alvo do melhor jeito que puder, e depois puxe o gatilho. Eu até diria para você treinar, mas não temos munição para brincar. Mas não destrave ela sem necessidade, muito menos fique puxando o gatilho toda hora também. Armas podem falhar. – alertou ele, me fazendo ficar mais aflito ainda.

– Está bem. – respondi, engolindo um seco.

– Voltamos em breve. A mantenha perto e coma. – falou ele por fim, sinalizando com a cabeça para a sacola.

E então, os três se retiraram do recinto. O baque da porta se fechando foi a única coisa audível.

Eu comi o que havia na sacola. Dois sacos de amendoim. Era enjoativo, mas eu estava realmente com fome.

Decidi me deitar, fitando o local vazio e silencioso. Aos poucos, meus olhos foram se fechando, e desta vez, me permiti dormir sem que alguém precise bater ou atirar em mim para isso.


–--

Vozes e mais vozes. Abri um dos olhos, ainda sonolento.

Eram vozes masculinas. Provavelmente os rapazes já tinham voltado.

Eles pareciam bem animados.

E aquilo já era estranho o suficiente.

Bruno quase não falava. John só respondia. Michael conversava.

Mas não conversavam tanto, não igual estavam naquele momento.

Se é que era eles que estavam lá naquele momento.

Pousei a mão na arma, que havia deixado encima do braço do sofá, e fiquei atento. Me sentei tentando ignorar as pequenas pontadas de dor que meu peito dava e não fazer barulho.

As vozes estavam ficando mais altas, enquanto eu levantava. E quando constatei na fresta da porta as sombras, soube quem eram a hora.

Destravei a arma e a mantive apontada para a porta com a melhor firmeza que eu podia.

Pelo menos eu estava definitivamente sozinho agora.

Eles entraram.

Mas eu reconheci um deles.

Esse cara parecia me perseguir. Porém não atirei de imediato pelo simples fato de que...

Ele poderia me levar até Joana.

– Parem aí! Desta vez, eu tenho uma arma! – gritei.

– E nós temos um rifle. Quer mesmo ver qual faz o maior estrago? – ironizou ele, dando um sorriso perverso.

Ele meneou a cabeça para o parceiro do lado, que estava com o rifle, e ele se aproximou rápido para perto de mim, aproximando o rifle em meu peito. Engoli um seco.

– Pensamos que você estava morto. – admitiu o líder, me fitando com desprezo. – Então você realmente não estava só com Joana.

– E que diferença faz agora, seu inútil? – deixei escapar. Eu iria morrer de qualquer forma mesmo.

– Nenhuma, pra ser sincero. Mas você escapou duas vezes da morte certa. É um cara sortudo. – comentou ele, colocando as mãos nos bolsos.

– O que quer de mim agora?

– Nada. Só voltamos para tentar achar suprimentos, levando em conta se vocês estavam aqui, é porque tinham como se manter. Só que não quiser dizer que deixarei você aqui. Quando ele souber que você ainda está vivo... vai querer fazer algo com as próprias mãos. Ou... vou deixar que ele simplesmente decida.

– Ele quem?

– Cale a boca. – vociferou ele, me dando um soco intenso no estômago. – Me cansei de você.

Senti uma tontura instantânea, me cedendo ao chão. A dor no meu peito só se intensificou.

Um deles pegou meu casaco pela gola e me levantou com violência para ficar de pé, mas eu não tinha força nas pernas. Sem se importar com a minha situação, ele começou a me arrastar até a porta do recinto, depois no corredor do mercado até a frente, acompanhado com os outros parceiros.

Lá fora estava muito claro, meus olhos demorando para se acostumar. Consegui ver um carro a nossa frente. Com o fato da neve estar diminuindo, achei viável ser possível que um carro consiga se locomover. Mesmo com a provável falta de gasolina. Os postos com certeza estavam aos pedaços.

Eles me jogaram no porta malas, e fecharam sem delongas. Eu não via mais nada.

Ouvi o motor sendo ligado e o carro começar a mover. Minha cabeça martelava nas paredes do porta malas a toda curva que ele fazia.

Na minha situação atual, talvez seria melhor que eu achasse um meio de me matar.

Um meio rápido e não muito doloroso. Pois seja lá o que eles iriam fazer ou a onde estavam me levando... seria pior do que morrer, sem dúvidas.

Mas eu não tinha forças para nada.

Então o carro parou e ouvi as portas se abrindo com o baque se fechando.

Quando abriram o porta malas outra vez, veio aquela claridade outra vez, me fazendo fechar os olhos.

Este que me tirou de dentro do porta malas me tirou rapidamente de lá, mas não com violência, diferente dos outros dois. Parecia que não queria me machucar.

Ao me acostumar com a claridade, fitei melhor o prédio a nossa frente, que nos aproximávamos da portaria. Havia um sinal de “+” vermelho no começo do nome do edifício, e pude constatar que era um hospital.

Não entendi porque diabos estávamos indo para um hospital.

Estavam querendo me salvar para depois me torturar até a morte?

Animador.

Ao entrarmos no edifício, todas as lâmpadas possíveis estavam ligadas, mesmo que houvesse poeira e pedaços de móveis e concreto para todo lado.

– Me surpreende o fato do gerador funcionar neste local. – sussurrei pensando alto.

– Se acostume a se surpreender conosco, bastardo. – disse o outro que havia me pego pela gola antes. Ele retirou uma algema da jaqueta e prendeu em meus pulsos.

– E onde conseguiram todas essas armas? — quis saber. Era muito armamento de porte alto para um bando de religiosos ter disponível.

– Alguns de nós são policiais. Temos este tipo de deposito para uso. – respondeu o cara que meio me arrastava e me levava junto.

– Não o responda sem necessidade. – repreendeu o líder, empurrando uma das portas do corredor que caminhávamos. – Queria que Deus não tivesse nos punido com tanta veemência. Que pelo menos tivesse perdoado os que o seguem com fervura.

– E quando menos esperávamos, tudo isso aconteceu... – comentou o outro, que não era o que me carregava. Os dois usavam um capuz que mal dava para ver um palmo de suas faces.

– Nós lutaremos para fazer o mundo crescer novamente. Houve tantas mortes. Aliás, – disse o líder, me fitando nos olhos. – Você não vai querer nos atrapalhar. Ou vai? – quis saber ele. Mas havia um tom de ameaça em sua voz.

Eu não disse nada. Apenas observei o salão que nos encontrávamos agora.

O ambiente atual estava mais agradável que o anterior. Certamente melhor só pelo simples fato de não conter cheiro de poeira ou que a cada passo que eu desse, sentisse que dez quilos de mofo impregnassem minha roupa.

Caminhamos até outra porta que havia uma placa escrito “Recepção”. Esta era bem mais iluminada do que os lugares que tínhamos passado antes no hospital.

Tinha várias macas posicionadas em uma fileira em um canto no local e vários sofás de espera do outro.

O homem que caminhava a nossa frente com o líder, finalmente retirou o capuz, revelando sua aparência. Ele tinha cabelos castanho e uma pele clara. Possuía um semblante que... era extremamente inexpressível.

O que me acompanhava também retirou o capuz. Ele tinha a pele bem pálida e cabelos escuros lisos. Havia curvas de possivelmente tatuagens aparecendo no pescoço. Ao me fitar, percebi na hora que ele tinha ascendência asiática.

– Preferiria que permanecessem com os capuzes. – comentei um pouco sarcástico, e recebi um grande tapa no rosto. Tão forte que me desequilibrou, e sem as mãos para me auxiliar, fui direto ao chão.

– Ninguém se importa com a sua opinião.

O líder e o moreno sinalizaram com a cabeça para o asiático, e se afastaram, caminhando até uma escadaria próxima.

Este que permaneceu, se aproximou de mim, que ainda permanecia no chão estirado, e me levantou.

– Você está bem? – perguntou ele, me fazendo estranhar. Por que diabos algum deles se importariam em eu estar bem ou não?

– Na medida do possível... – respondi seco, ainda intrigado.

Ele deu de ombros e passou meu braço esquerdo por cima do seu pescoço, para que eu tivesse um apoio e caminhar.

– Sabe que não vai poder fugir neste estado, né?

Até parecia que ele queria que eu fugisse. O que estava acontecendo, afinal?

– Eu ficaria feliz se você não repetisse tais constatações tão obvias. – respondi com ignorância.

– Talvez eles tratem você, dependendo do que o líder decidir. – falou ele, em fazendo o olhar mais intrigado ainda.

– Me tratar para depois me matar? É a opção mais provável. – respondi.

– Não seja tão pessimista. – comentou ele.

Antes de abrir a porta para o outro recinto, ele parou e deixou de ser meu apoio. Mas eu já conseguia me manter em pé. Porém não por muito tempo.

– Não fale sobre planos de fuga ou qualquer coisa que possa fazer com que eles desconfiem. Mantenha-se quieto na sua. Falarei com você mais tarde. – assegurou ele, me deixando mais perplexo ainda.

No entanto, pelo jeito, aquele grupo não tinha entes totalmente fiéis.

É a primeira vez que fico feliz em ver um ato de deslealdade. Pelo menos iria apreciar aquele fato até eu dar o fora dali.

Ele abriu a porta, e pude ver dezenas de rosto desconhecidos. Todos me encaravam com certa desconfiança e crítica no olhar. Nada com que já não estivesse me acostumado até o momento.

A sala era igualmente a anterior, a diferença era somente as pessoas presentes.

Um senhor de jaleco encardido me fitava com curiosidade a alguns metros de distância. Quando olhei para o lado, constatei que havia uma pessoa conversando com ele, e era um dos caras que haviam me levado até lá.

O senhor então veio até mim, ajustando os óculos que pousado no nariz, cruzando os braços.

– Nome? – perguntou ele. Mais de perto, pude ver o símbolo do tão proclamado “+” vermelho estampado no bolso do jaleco, então provavelmente era algum médico do local.

– Carl. – respondi, o olhando com desconfiança.

– Fui informado que você foi baleado. Quais foram os procedimentos usados após o ocorrido?

– Não faço ideia. – respondi com sinceridade. Não sabia mesmo. Passei esses “procedimentos” apagado, e nem ao menos quis ou tive tempo de perguntar ao Bruno como foi que conseguiram me salvar.

– Certo. Vamos precisar analisa-lo antes de qualquer novo procedimento. Ponha ele numa maca e o traga para minha sala. – falou ele, comandando o meu agora possível cumplice. Mas o moreno de antes que me estapeou, veio para ajudar. Ou melhor, me fazer sentir mais dor do que eu já sentia.

Antes de me levarem, me injetaram algo no braço. Pouco a pouco, pude ver meus olhos pesando, e então, não vi mais nada.

–--

Sentia meu corpo mole e adormecido, mesmo estando acordado. Foi dificultoso até abrir os meus próprios olhos.

O recinto estava com a luz muito forte. Ou era apenas eu que também estava com dificuldade de me acostumar a ela.

Automaticamente, mesmo que numa velocidade quase “slow motion”, coloquei meu braço na frente dos olhos, a fim de tampar aquela claridade.

Olhei para o lado e havia um criado mudo, com um copo d’água cheio encima.

Senti meu estomago roncar. Realmente já tinha passado muito tempo desde que eu comi algo e depois pudesse dizer “estou satisfeito”.

Parecia até “The Walking Dead”. Mas nesta versão não tem walkers.

Levantei meu braço e peguei o copo d’água que estava no criado mudo, o bebendo com calma.

Percebi que eu usava uma roupa diferente de antes. Quase que em um reflexo, suspendi a blusa, checando o que possivelmente haviam feito em mim.

Na parte do peito, tinha um grande curativo. E eu também não sentia a dor que me assolava antes.

Vi também que haviam trocado minhas roupas íntimas.

E sinceramente...

Não vou nem comentar. Apenas uma palavra: desnecessário.

E outra: por que tudo isso?

Porque estariam cuidando de mim?

Eles realmente queriam acabar com a minha raça depois ou só estão de zombando da minha cara?

Sentei-me na cama. Meu corpo estava mais pesado que o normal. Mas eu me sentia bem melhor do que antes.

E nesta hora me veio mais outro questionamento.

Onde estava Joana? Ela estava realmente aqui? Ou...

Não importava quantas vezes eu tentava imaginar, apenas não conseguia imaginar. Não conseguia imaginar algo ruim acontecendo com aquela garota. Ela não merece. E duvido que vá merecer passar por algo do gênero.

No entanto, merecer não é o foco.

Ouvi passos altos, vindo de fora do quarto. Me permiti ficar alerta.

E torci para que seja lá quem estivesse vindo, que apenas seguisse em frente, não olhasse nem para a porta do recinto.

Ou que simplesmente não fosse um lunático.

Ou não fosse o pai de Joana.

A maçaneta girou, quebrando o silêncio que predominava no lugar. A porta deu um leve rangido ao ser aberta.

Eu me virei lentamente para constatar quem era. E senti minha boca abrir com surpresa.

Era Joana.

– Carl? – quis confirmar ela, me olhando da mesma forma.

– Joana. – foi simplesmente o que consegui pronunciar.

Ela correu de encontro a mim e me abraçou. Talvez eu nunca tivesse tido um abraço tão intenso como aquele.

Me senti aliviado. Ela parecia estar bem.

– Não acreditei quando me disseram que você estava vivo! – exclamava ela, e eu pude ouvir seus soluços.

– Os rapazes me ajudaram a tempo. Com certeza eu não estaria vivo sem eles. – respondi, e era verdade.

– Eu vi você levar o tiro na minha frente! Ainda não posso acreditar! – falava ela, pressionando o abraço com mais força ainda. Agora a minha ferida no peito até se fez viva, ardendo.

– Calma, Joana. – falei, tranquilizando-a. – Estou bem. E como você me achou?

– O Erick me contou. Ele disse que tinha ajudado a trazer você até aqui.

Erick então era o nome do meu cumplice. Suspirei com mais alivio ainda.

– Você tem certeza que veio sozinha? – quis confirmar, minha voz séria. Ela meneou a cabeça, negando.

E continuava com a cara enfiada no meu peito. Eu podia sentir minha blusa ficando úmida pelo seu choro.

Mas aquilo de certa forma me deixou feliz. Me preocupava com ela, porém não sabia que ela se preocupava tanto comigo.

– Vamos fugir. E quando fugirmos, iremos para bem longe. Não se preocupe. – falei, acariciando seus cabelos. Eram bem sedosos e macios.

– Não posso. – respondeu ela repentinamente, se desprendendo de mim. – Ele matou minha mãe quando ela tentou fugir. Faria a mesma coisa comigo se eu tentasse. Não faço ideia do porquê que ele ainda me mantém ao seu lado. Só o vejo mandando fazer coisas ruins com outras pessoas... sinceramente seria mais fácil se eu me matasse. – disse ela, seca.

Eu a fitei por um momento.

Tudo bem que há uma parcela de adolescentes que pensam em se suicidar, mas ela não estava querendo fazer aquilo por um motivo qualquer. Estava querendo porque não tinha opção.

Ou porque pensava que não tinha.

– Eu quase fui queimado vivo, fui baleado, quase morri, fui socado, estapeado e ainda estou aqui, Joana. Nós vamos fugir. Não vou deixar que você decida o que fazer. Por enquanto não agora. E eu duvido que você me faça mudar de ideia. – eu disse, ríspido.

Ela me fitou por algum tempo, parecendo que media o que eu tinha acabado de falar.

Finalmente então, ela assentiu e me abraçou outra vez.

– Obrigada. – agradeceu ela.

Eu só não entendi o motivo daquele agradecimento.

Entretanto, ela me deu um beijo na bochecha e saiu rapidamente do recinto, não dando nem tempo de eu me despedir.

Ela aparentava estar diferente.

Mas vindo de Joana, eu não imaginava que aquilo fosse ruim.

Cerca de dois dias se passaram até que eu pudesse ter permissão de sair do quarto.

Ao decorrer de todo estabelecimento do prédio, havia pessoas de guarda o tempo inteiro.

Me esbarrei com o Erik de guarda no caminho até o refeitório, porém ele não veio até a mim para conversar sobre nada.

Pelo menos ainda não.

Chegando no salão do refeitório, tornei a me sentar em uma das mesas. A maioria não estava em bom estado, mas dava para o uso.

Eles serviam uma quantidade de comida igualada, visando que já não havia muito suprimento. Quando eu dei a primeira colherada, percebi que talvez alguns itens no prato não fariam bem para saúde.

Alguém se sentou na mesa enquanto eu comia minha refeição. Quando levantei o olhar, era Erick, me fitando com uma cara tensa.

Eu olhei ao redor, checando se alguém estranharia de um guarda estar conversando com um... prisioneiro, mas todos continuavam alheios a aquilo.

Desorganização pura.

– Estamos com tudo pronto. – falou ele, num tom baixo. – Vou abrir a sua cela a meia noite.

– Você tem certeza que quer fazer isso? Nem ao menos nos conhecemos. – falei, constatando o obvio. Ele não parecia ser uma má pessoa, porém aprendi a desconfiar facilmente das pessoas nos últimos dias.

– Você é confiável. Fiquei sabendo do que aconteceu antes. Preciso de alguém do gênero comigo. Lá fora não vai ser igual, mas não quer dizer que vai ser fácil.

Eu assenti a cabeça. Certamente era verdade. Até que lembrei.

– Eu preciso levar alguém comigo. – falei, olhando para os lados.

– Certo, mas... quem é? – questionou ele.

– Uma garota chamada Joana. Sabe quem é?

– Você está maluco? O Roberto iria nos caçar feito cão. – disse ele, perplexo.

– Não quer dizer necessariamente que ele irá nos encontrar. – respondi.

– Certo. – respondeu ele, com um tom um pouco preocupado ainda. – Meia noite. Você, Joana, eu e minha irmã iremos escapar. Não vacile. – alertou ele. Eu assenti. E ele levantou-se da mesa, voltando ao seu posto.

Eu estava ansioso. Mas estava preocupado com os rapazes, Michael, John e Bruno. Não faço ideia de onde estevam. E o fato de seguir sem eles me deixava um pouco angustiado.

Notas finais
O que achou do capítulo? Por favor, deixe sua opinião. Escrever não mata, minha fic está ai para provar -q