Narração Sofia.

Meus pulsos doem e ainda estão marcados. Por isso, coloco uma blusa de lã preta, mesmo que o tempo lá fora não esteja tão frio. Saio em direção a mais um dia miserável, com pessoas estúpidas e matérias para decorar. No caminho, ouço alguma música incompreensível para os ouvidos do mundo, mas que cabe perfeitamente em meu mundo. E no fim, é isso que vai importar de verdade. O meu mundo e de mais ninguém. Porque, sinceramente, que se foda todo mundo. Chego à escola agradecendo aos ventos gélidos que tocam minha pele. Assim, não ficarei tão completamente estranha usando lã em um dia ensolarado. Paro em sentido e direção opostos em relação às pessoas uniformizadas que me olham como se eu fosse algum tipo de monstro. Sinto meu celular vibrar por de dentro do bolso na calça rasgada. Quem diabos seria a essa hora da manhã? Bufando, atendo a chamada.

Com a resposta vinda do outro lado da linha, minha lenta cabeça tem um clique. Porra, a droga! Ando rapidamente ao local combinado; só não corro para não chamar tanta atenção. Na esquina, posso avistar o que eu chamo de \"amigos\". Enfio a mão dentro da bolsa e toco o saco plástico. Ufa, isso eu não esqueci, pelo menos. Arranco-o a força, pouco me importando se rasguei alguma folha de meu caderno. Foda-se. Eu preciso é fumar. Entrego o saquinho na mão de Vinícius, que me olha sorrindo. Faz algum tipo de sinal com Greg e me dá a maconha, pronta para ser fumada. Sento lá na calçada mesmo, e foda-se a porra da aula.

Narração Victor.

Chego à escola e é a mesma porra de sempre. Meninas se rastejando pelos meninos bonitos, esfregando seus pseudo-peitos nos meninos mais velhos e tentando seduzir algum monitor gatinho. Paralelamente, meninos trocando ofensas para ver quem pegou mais meninas gostosas. Olho em volta. Bruna já chegou e se senta no fundo, como sempre. Do lado dela, suas súditas. Gostosinhas, mas sem cabeça. Raíssa já chegou. Tem cabeça, mas é feia. Um pouco para o lado dela, Eliza, que é feia e burrinha. Coitada, e ainda paga de emo. Tsc, tsc. Falando nisso, cadê a emo? Ou drugs/sex/rock\'n\'roll da Sofia? Estranho. Ela sempre chega cedo e fica sentada com fones no ouvido. Muito estranho mesmo. Sentei do lado de Giovanna, que pagava de nerd e bonitona, mas não era nem um nem outro. Ela era amiga de Julia, que era uma loira oxigenada com piercieng no umbigo. E no nariz. E sabe-se lá onde mais. Ela, por acaso, era amiga da Bruna, que perseguia o Rodrigo, que era meu melhor amigo. Aula dupla de Matemática. Ou matemágica, como a tola da professora de dez anos de idade mental costumava escrever na lousa. No sinal que demarcava o fim da primeira aula de mágica e o início da segunda, Sofia chegou. Chegou com cara de sono, e quando viu que a Bru estava em seu lugar habitual, bufou alto o suficiente para que ela tremesse de medo. Não que Sofia fosse gorda, feia e revoltada. Ok, revoltada ela era, mas era uma das meninas mais magras que eu já vi em toda a minha vida. E com absoluta certeza, uma das mais bonitas. É que, o que Bru tinha de gorda, Sofia tinha de misteriosa e brava. Mas se Bruna pisasse no pé dela, adeus, Sofia.

Narração Sofia.

Esperar aquele sinal me fez fumar mais ainda. Saco. Vou ficar fedendo e com cara de acabada. Espera, não sou vaidosa. Ah, é. Não ligo. Quando entrei na sala, a gorda estava em meu lugar, e Victor do lado dela, entre ela e a Giovana. Deve estar se sentindo sufocado, coitado. Se sentar entre uma gorda do caralho e uma feiosa deve ser foda. Não

que eu ligue. Até mês passado, não sabia o nome dele. Nem delas. E nem de ninguém. Foda-se. Procurei um lugar pra sentar logo e dormir mais rápido ainda e só achei um lá no canto da frente. Merda. Tive que atravessar toda a classe, sentindo olhos sobre mim. E murmurinhos. Murmurinhos uma ova: parecia que falavam gritando, que era pra eu escutar mesmo. Foda-se. Eu não me importo se as meninas falsificadas acham que eu pareço uma drogada/revoltada/emo/depressiva. Não é o que eu sou afinal? A aula passou tão rápido que quando o intervalo começou, eu cheguei à brilhante conclusão de que eu dormi durante os cinquenta minutos de matemágica.

Sair daquela escola quando o sinal tocou foi mais do que um alívio. Mas alívio maior foi chegar em casa e saber que tudo estava \"normal\". Sem dramas, sem pai idiota, sem mãe chorando. Fumei para comemorar. Grande merda, acordei com dor de cabeça.

Notas finais
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