Staring At Her, Alterior Girl

2 I walk alone. I'll walk alone.


Narração Sofia

Mais um dia de aula. Mais um dia chato e entediante com as mesmas pessoas de sempre, que me olham como se fosse de outro mundo. Mas foda-se, acho que na real eu sou mesmo de outro mundo. Cheguei até cedo demais e fiquei esperando os portões se abrirem com todos aqueles olhares sobre mim. Não liguei, pois estava ouvindo música alto demais para ouvir qualquer barulho do mundo lá fora.

Entrei na sala, e sentei no meu lugar de sempre, dessa vez não estava ocupado por nenhuma baranga metida a gostosa que são essas garotas da minha turma.

Dormi durante quase toda a aula de português, como sempre faço em todas as aulas. Recompenso todas as minhas noites mal dormidas na sala de aula, afinal ninguém liga para mim, nem mesmo o professor, que só sabe reclamar com toda a turma.

No intervalo decidi ficar na sala mesmo, estava com muita cólica e me levantar daquela cadeira não seria uma boa idéia. Ninguém notou minha presença lá. Pelo menos era o que eu achava até o Victor vir falar comigo. Esse garoto de uns dias para cá resolveu saber da minha vida por completo. Qual é, uma hora ninguém ligava e outra já estavam querendo saber o que eu tinha? Que vontade de mandar todos irem se foder!

- Er, oi Sofia, então, por que não vai para o intervalo comer alguma coisa como as outras pessoas? – Falou ele.

- Talvez porque eu não seja como essas \"outras pessoas\". – Falei irritada. Realmente não queria conversar com ninguém.

- Não quer que eu vá comprar algo para você? Posso ficar aqui e te fazer companhia.

- Realmente não preciso da companhia de ninguém. A minha já basta.

- Queria saber o porquê de você ser sempre assim. Qual é, você é muito estranha, Sofia. Poderia ser um pouco mais educada?

- Não gosto de ser educada com pessoas que não me interessam. E sinceramente você é uma dessas pessoas, então por favor, será que poderia me deixar em paz?

- Ta, que seja. Desisto de tentar ser legal com você!

- Foda-se – Falei em voz alta. Na verdade me fez até bem, queria xingar bem mais, só que ele saiu tão rápido que não me deixou fazer isso.

As aulas se passaram lentamente, e o meu desejo de ir para casa só aumentava. Não estava agüentando aquela bendita cólica. Porra, por que meninas têm que ter isso?

Finalmente o sinal tocou e eu pude ir para casa. Fui como uma bala, empurrando todos e ouvindo xingamentos de alguns. Otários. Não sei como, mas consegui passar a manhã inteira sem drogas.

Mas o pior não foi isso, assim que cheguei em casa avistei minha mãe chorando no chão da cozinha, pelo motivo de sempre: o meu pai. Droga, eu deveria ter imaginado que isso

iria acontecer novamente, o melhor seria eu ter me drogado mesmo, doeria menos em mim a ver assim. Acho que em todo esse mundo a minha mãe é a única pessoa que eu amo realmente.

Não consegui ficar mais um segundo ali a vendo chorar e não poder fazer nada. Subi para o meu quarto e achei o que tanto queria: a droga. Pode até parecer estranho, mas ela é a melhor companheira para uma pessoa que passa a sua vida inteira vendo sua mãe sofrer por um pai irresponsável que não liga para a mulher e a filha. É, essa é a minha vida, a minha história.

Quando estava me preparando para dormir, após um dia cheio e entediante, ouvi meu pai chegando. Achei melhor ir ver como estava a situação, e acabo vendo novamente a minha mãe chorando no sofá. Ela fala que meu pai havia saído com malas na mão e avisado que não ia mais voltar. Na verdade não dei muita atenção a isso, talvez tenha sido efeito das drogas, ou talvez seja porque seria o melhor que ele poderia fazer desde todos esses anos. Ele não iria fazer falta de qualquer modo.

Voltei para cama, e antes de adormecer me veio uma idéia na cabeça irresistível: morar sozinha. Pois é, talvez alguma vez em todos esses 16 anos eu poderia fazer o que quiser, sem ter que dar satisfações a ninguém, coisa que sempre odiei. Na verdade eu odeio esse mundo mesmo. E tentar me encaixar nele seria uma coisa que não rolaria.