Stand up, be strong

2 Capítulo 2 - What Can you see in their Eyes.


Acordei de um sonho estranho. Passei alguns minutos me sentindo inquieta enquanto me arrumava para ir à aula. No sonho, eu via um par de olhos castanhos e melancólicos. Após algum tempo observando o desespero naquele olhar, eu ouvi uma voz fraca sussurrando: “Me ajude. Me salve... Me salve de mim!”. E ai... acabou. Eu fiquei tentando entender o significado dele, mas não consegui pensar em algo que fizesse sentido. Mas parecia que a tristeza daquela pessoa havia se instalado em meu coração. Quando cheguei no colégio, logo reparei que todos estavam cochichando.

– RUUUUUUKI, você não vai acreditar! Te... – Inoue parou por um instante. – Que cara é essa?

– Não dormi muito bem. Tive um sonho estranho.

– Ah, entendi. Mas pelo menos coloque um sorriso nesse rosto, né? Caramba, é só um sonho, pensei que alguém tinha morrido! Com a cara que você tá, qualquer um pensaria.

– Ah, desculpa. – dei uma risada fraca.

– Ok, já sei o que vai te animar e deixar super curiosa! Sabe qual é a novidade? Parece que viram um garoto indo até a sala da diretora. Será que ele é aluno novo?

– Mas estamos no segundo trimestre! Não é permitido esse tipo de coisa, é?

– Mas e se tiver um motivo especial? Toda regra tem exceção. – ela disse e deixou os lábios meio entreabertos, ato típico de quando ela está pensativa. – Ah, tanto faz, a gente vai descobrir mais tarde! Mas quer saber da melhor? Eu fiz doces deliciosos hoje. São cupcakes com cobertura de limão. Estão uma gracinha, dá até dó de comer. Posso dividir, fiz bastante.

Ino sempre adorou cozinhar. É verdade que nem sempre fica bom, porque ela gosta de fazer misturas meio... diferentes, mas doces são uma especialidade dela.

– Opa, cheguei na hora certa. Vou ganhar um pedaço, né? – Renji disse e então riu.

– Claro Renji. Você, a Ruki, o Ishida e o Sado. Cada um ganhará um no intervalo.

– Ah, obrigada Orihime. Você é sempre tão atenciosa! – Ishida escutou a conversa e respondeu.

– Imagina. – ela deu uma risadinha tímida, claramente envergonhada pelo elogio.

– Sentem-se todos. A diretora quer dar um aviso! – A professora disse assim que chegou. Todos sentaram imediatamente, curiosos com a anormalidade de receber uma “visita” da diretora.

– Temos um aluno novo entre nós. Eu sei que não é comum novatos nessa época, mas espero que o recebam de braços abertos e mostrem toda a hospitalidade da nossa tão conhecida e amada Londres! Esse é o Ichigo Kurosaki. Ele veio do Japão, mas fala inglês perfeitamente, sequer tem sotaque! Precisamos de um lugar que esteja vago pra ele sentar. Algum? Ah, ali no fundo da sala. Ele certamente não se incomodará de sentar lá, afinal não tem problemas de visão e poderá enxergar a lousa muito bem.

Ele tinha cabelos de uma cor que eu nunca tinha visto. Eram de um ruivo alaranjado, e seus olhos eram castanhos. Ele definitivamente não parecia um japonês. Ele não sorriu e nem tentou parecer menos sério, porém era bonito. Tinha as feições de um homem adulto e maduro, qualidade que dava um charme a mais. Enquanto ele se dirigia para o seu lugar em silêncio, eu pude ouvir Yuki cochichando com Amber:

– Ah, ótimo, mais um retardado nessa sala. – as duas riram baixinho, como se fosse engraçado.

E a aula continuou sem ele falar sequer uma vez. Após um tempo, tive a impressão de ouvir um ronco suave e extremamente baixo, era mais como um suspiro. Quando olhei para o fundo da sala, ele estava cochilando. A hora do intervalo chegou, e o sinal acordou-o. Ele colocou seus fones de ouvido e ignorou todos os olhares curiosos que observavam. E eu estava incluída no grupo de curiosos. Quando o olhar dele cruzou com o meu, senti um arrepio e não consegui encarar por mais tempo. Foi uma sensação estranha, mas senti como se mesmo após eu ter desviado o olhar, ele ainda estivesse me observando.

Saímos para o pátio e Ino distribuiu seus doces. Estavam uma delícia, mas não foi o suficiente para esquecermos o acontecido.

– Esse tal de Ichigo Kurosaki é muito estranho, né? – Ishida disse, arrumando seus óculos.

– Ele é assustador! Parece que se você chegar perto dele, vai ser atacada! – Inoue estava realmente impressionada.

– Eu acho que ele deve ser daqueles drogados, rockeiros ou seilá. Foda-se, é só não falar com ele. Ta na cara que é um “garoto-problema”. – Renji não estava muito interessado no assunto.

– Ah, pode ter um motivo para ele ser assim, a gente não pode julgar tanto, né? – Como sempre, Ino foi muito compreensiva.

– Er... O-Orihime, eu poderia falar com você um instante? – Um menino loiro e de olhos verdes interrompeu. Ele parecia muito sem graça. – De preferência, particularmente.

– Claro. – E eles foram andando até chegarem na sombra de uma árvore alguns passos depois da nossa. Ishida soltou um longo e alto suspiro e tentou esconder a raiva, em vão.

– Relaxa, cara. – Renji deu um tapinha nas costas de Ishida enquanto Sado olhava apreensivo. Ishida ficou sem graça por ter nos deixado perceber seus sentimentos e mudou de assunto. Eu vi o garoto entregar um papel pra Ino, e ela ficou muito vermelha. Depois disso, parei de prestar atenção. Estava muito absorta em meus pensamentos. Algo em Ichigo Kurosaki realmente despertou minha curiosidade, mas eu não sabia explicar o que.

Inoue sentou ao meu lado novamente e comentou:

– Ah, foi um pouco estranho, mas foi fofo. Ele me entregou uma carta declarando seus sentimentos por mim. Claro que eu agradeci, mas disse que não seria possível eu retribuir seus sentimentos sem sequer conhecê-lo. Ele não ficou triste, disse que já esperava por isso e que queria apenas que eu soubesse que sou maravilhosa. Fiquei tão sem graça! – ela corou novamente lembrando da cena.

– Er, lembrei que tenho que fazer uma coisa... Com licença. – Ishida disse desanimado e se retirou.

– O que aconteceu enquanto eu não estava aqui? O Ishida está estranho...

– Não faço ideia. – tentei ser convincente.

– Talvez você devesse ir falar com ele, já que você está preocupada. – Sado disse de maneira casual.

– É, eu farei isso, eu não gosto de ver o Ishida assim. – ela levantou e foi atrás de Uryuu.

– Hmmmm, quero ver no que isso vai dar. – Renji deu aquele sorriso malicioso típico dele.

Passou mais alguns minutos e tivemos que ir para a sala de aula, pois o intervalo acabou. Ichigo estava na carteira dele, com os pés na mesa e olhos fechados, ouvindo musica alto o suficiente para eu descobrir qual era, apesar dele estar usando fones de ouvido. Era uma musica que eu gosto muito: I’m Broken – Nickelback feat. Evanescence. Decidi tentar falar com ele e descobrir se ele realmente era inacessível como parecia. Quando eu estava indo em direção à mesa dele, ele abriu os olhos. Continuou com aquele olhar inexpressivo. Eu parei na sua frente e ele apenas olhou por alguns segundos, enquanto eu fiquei sem reação. Então ele finalmente tirou um dos fones e me lançou um olhar questionador.

– Er, eu ia te dizer que a aula está prestes a começar e a professora de Inglês é um pouco histérica, então, a não ser que você queira começar o ano brigando com ela, você deveria desligar a musica e tirar os pés da mesa. A propósito, você estava ouvindo “I’m Broken”? Minhas duas bandas preferidas tocam essa música! – tentei dar um sorriso simpático.

– É. – ele falou apenas isso e então começou a me ignorar enquanto pegava o material.

– Hm... Falando no diabo... Ela chegou, vou pro meu lugar. – a frieza com que ele me tratou me deixou tão sem graça que eu fiquei com vontade de sumir.

– Ai meu deus, a nerd falando com o delinquente! Que coisa anormal de se ver. Será que ela usa drogas secretamente e está tentando arranjar um traficante mais acessível? – após dizer isso, Yuki caiu na gargalhada, seguida de Amber.

– Silêncio, Yuki Hana e Amber Burton! Isso não é assunto para se mencionar em um local de ensino! Sentem-se se não quiserem ir para a diretoria!

– Sinto muito, querida professora, mas eu não tenho medo de ir pra diretoria. Meu pai pode pagar quanto for necessário para me manter no colégio que ele quiser, a diretora não poderia me expulsar. – Yuki falou da maneira mais repugnante possível.

– Fiquem quietas e sentem-se de uma vez! – dessa vez a professora quase nos ensurdeceu quando gritou. Amber revirou os olhos e as duas se sentaram. Yuki sussurrou para a amiga:

– Que vadia.

Após isso, o dia continuou da mesma maneira de sempre. Era como se não houvesse um aluno novo. Eu realmente passei a odiá-lo depois daquele momento, e decidi fingir que ele não existia. Orihime ainda não tinha falado com Ishida, pois quando ela encontrou-o, o sinal para começar a aula tocou. Ele continuava desanimado, e ela só conseguiu falar com ele no final do dia, então não sei o que aconteceu. Amanhã terei que perguntar.

Quando cheguei em casa, meus pais estavam na sala assistindo um filme.

– Pai, você chegou muito cedo, em?

– Resolvi trabalhar o resto do dia em casa, mas agora estou dando uma pausa.

– Como foi a escola, querida? – minha mãe levantou do sofá, me abraçou, deu um beijo na testa e me puxou para sentar com ela.

– Foi diferente. Entrou um aluno novo, e ele é insuportável!

– O que ele fez, filha?

Eu contei a história toda pra ela, que ficou muito pensativa por um tempo e então disse:

– Certamente tem um motivo pra ele ser assim. Tente não ser tão dura com ele.

– Eu tentei mãe, e veja como ele me tratou! Não adianta, eu odiei ele.

– Como é o nome dele?

– Ichigo Kurosaki.

– Kurosaki?! É familiar...

– Ah, é o sobrenome do dono de uma empresa japonesa importante com quem minha empresa fez negócios. – meu pai parecia impressionado. – Eu ouvi certa vez, que o filho dele seria mandado para um internato, pois arranjava muitos problemas. Não me importo se você decidir odiá-lo, filha. Evitará confusões.

– Sendo assim, melhor ainda! – assim que falei isso, eu subi para o meu quarto. Depois de terminar as lições de casa, eu estava exausta e decidi dormir mais cedo. Tomei um banho para relaxar e esquecer todos os problemas de hoje, então deitei.