Stalker

41 Troca de lágrimas


A casa de Anabê, não era muito diferente da sua loja. O visual Retrô com uma pequena mistura com o moderno, fazia aquele apartamento no terceiro andar de uma padaria, um local confortável para se viver. Era mais ou menos como visitar a casa de uma avó. Ele entrou depois dela, abraçando a mochila como se fosse a única certeza que ele tinha daquilo tudo. De quem era, o que aconteceu, os motivos de está ali. Sorriu disfarçadamente ao pensar em sua mãe sabendo que ele aceitou dormi na casa de uma completa estranha somente porque ela demostrou ser alguém legal. Com toda certeza ouvira um sermão daqueles sobre ingenuidade e os perigos da vida.

Pensou o quanto cresceu depois de encarar seus sentimentos por Ian. Assumir sua homossexualidade, enfrentar sua família, procurar um emprego e sair de casa. Coisas que sempre estiveram em um canto bem fundo e reservado de sua mente.

— Pretende ficar quanto tempo na frente da porta pensando e abraçando sua mochila? — perguntou a sua nova amiga, voltando com cookies de chocolate da cozinha. O sorriso grande e largo, parecia ser sua marca registrada.

— Desculpe, acabei me empolgando pensando na vida. — respondeu sentando no sofá mais próximo.

O apartamento era bem pequeno, típico para pessoas solteiras. As paredes de um tom abacate, uma varandinha cheia de potes de flores de diversas cores. Dois sofás de apenas dois lugares com uma mesinha no centro de madeira —que depois de reparar bem, percebeu serem caixas de madeira que os feirantes trazem as frutas pintadas de branco e envernizada— encima um arranjo de flores e alguns Mangás. Ele deu uma boa olhada nos títulos e percebeu que eram todos de romance Boys Lovers. Ela não mentia sobre seu gosto particular para quadrinhos com conteúdo homossexual.

— Bem, Mi! Aqui só tem um quarto, apesar de minha cama ser de casal, não convido você para dormir comigo porque...

— Porque seria estranho. Posso dormi no chão ou no sofá. — respondeu dando risada.

— Não seu bobinho! Não te convido para dividi a cama porque além de eu ser bem maior que você, eu poderia acabar te atacando como faço com meu urso. Ele dorme comigo, e eu o agarro muito à noite. — disse ela rindo.

—Entendi.— Mio ficou sem graça por ter pensado o oposto, mas não demorou muito. Estava mais curioso com o apelido que ela deu para ele "Mi".

— Bom, aqui fica o banheiro, mais para cá a cozinha e depois da cozinha tem uma pequena área de serviço. — disse ela apresentando o local para ele — Use todos os cantos como quiser, sinta-se em casa.

— Eu estive pensando... Eu não sei quanto tempo ficarei aqui sob sua proteção, eu queria poder ser útil de alguma forma. Eu posso te ajudar na loja, ou ser o cozinheiro, apesar que não sou muito bom nisso, posso também fazer os serviços domésticos. Qualquer coisa que possa ser de grande ajuda para você eu aceito fazer.

— Você poderia fazer isso tudo de avental florido... — disse ela consigo mesma, parecia estar realmente cogitando essa ideia, deixando Mio apreensivo — Brincadeirinha! — disse soltando uma deliciosa gargalhada.

Mio respirou aliviado.

— Por favor, lembre-se que não sou um personagem de seus quadrinhos ou histórias de ficção. Se um dia me tornar, espero ter um final feliz. — comentou tentando evitar a tristeza quando pensava em Ian.

— E quem disse que não terá? Sua vida não acabou querido! Está passando por um momento difícil agora, mas isso tudo vai melhorar com o tempo. Eu estarei aqui para ajudá-lo, como a fada madrinha da Cinderela. Combinado? — perguntou estendendo a mão para ele apertar.

Mio sorriu e apertou.

— Combinado, Fada-madrinha. — disse rindo.

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A noite caiu depressa, Rafael estava exausto, teve que rodar a cidade duas vezes com Ian ficando cada vez mais ansioso e preocupado.

— Aposto que uma horas dessas, ele já deve ter entrado em contato com a família dando notícias, o problema é que não temos como confirmar isso já que eles não curtem muito você e com razão. Mas, acredito que se algo ruim tivesse acontecido com ele, já teríamos informações, afinal, noticias ruins correm rápido. Se ainda não bateram em sua porta para te ameaçar de morte, é porque ele deu boas notícias. — falou Rafael, tentando acalmar um pouco Ian, que olhava concentrado e quase sem piscar para as pessoas nas ruas à procura de algum sinal de Mio.

— Talvez, mas sem uma confirmação de fato, fica difícil de acreditar. Se tivesse alguma maneira de entrar em contato com eles e descobrir se ele já mandou algum recado... Hey! Você bem que poderia ir lá, tenho certeza que eles não verão problema algum no chefe dele procurar saber sobre seu sumiço.— deu a ideia empolgado, olhando para Rafael na esperança que o amigo aceitasse a proposta.

— Tudo bem, porém, tenho que deixá-lo em casa antes, não iremos abusar da boa sorte na qual a Natally está concedendo hoje. Tome o meu celular reserva, ligo para você dando informações caso descubra alguma coisa.

— Muito obrigado, Rafael. Sei que tenho sido ultimamente o pior amigo do mundo, desculpe por isso. — disse Ian cabisbaixo.

— Fique tranquilo, já tive meus piores momentos e você soube segurar a barra. Estamos quase quites, o problema que você me deve um pouco mais. Vou pedi aumento para compensar o esforço. — disse brincando, estacionou o carro na frente do prédio de Ian, os seguranças estavam do lado de fora o aguardando — Volte para seu cativeiro agora, irei passar em casa e tomar um banho antes de ir na casa dele.

Ian saiu do carro, mas antes de se afastar, se inclinou na janela do motorista para falar mais uma coisa com o amigo.

— Novamente, obrigado. Suas palavras hoje foram verdadeiras, não mentiu em nada. Eu sou realmente tudo que disse e um pouco mais. Minhas falhas estão maiores que minhas qualidades, passei anos culpando a Natally pelas minhas escolhas mal feitas, mas o único culpado de deixar as coisas irem tão longe, sou eu mesmo. Acho que me acostumei a viver dessa maneira, sei lá. No entanto, depois que conheci Mio, algo mudou dentro de mim, ele me faz querer ser algo melhor e resolver todos os meus problemas para viver feliz e em paz com ele. — ele deu uma leve pausa para respirar fundo antes de dizer aquelas palavras que evitava — Eu prometo, se ele não quiser me perdoar nunca mais, irei sumir da vida dele para que seja feliz com quem puder fazê-lo feliz como eu não consegui fazer. Como você mesmo disse, ele não merece viver a minha vida agitada de perseguições e ameaças de morte. Bom, desculpe tomar seu tempo, não esqueça de me mandar notícias, amanhã peço alguém para buscar meu carro em sua casa. Boa noite.

— Espera! — pediu Rafael — Eu não quis ferrar mais as coisas pro seu lado, acho que fui um pouco insensível nas palavras, mas você entende, às vezes você vacila tão feio, que fica difícil de defender. Não vamos deixar nossa amizade fica abalada por conta disso, você é como um irmão para mim.

— Fechou. — disse batendo os punhos fechados um no outro.

Depois disso, Rafael seguiu com seu carro e Ian entrou no prédio sendo escoltado pelos seguranças.

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Deitado no sofá menor que ele e um pouco desconfortável, Mio ficou pensando nas coisas que haviam acontecido com ele. Lembrou da cena entre Ian e Natally. Se perguntou se finalmente Ian decidiu ter algo sério com ela. Mesmo que eles estivessem nesse tipo de relação, qual necessidade de se expor de forma tão vulgar em um local onde poderiam ser vistos, principalmente por ele? Uma hipótese surgiu em sua mente, aquilo poderia ser fruto de uma vingança de Ian, por conta do que aconteceu entre ele e Kame.

Era obvio que Ian ficou com muitos ciúmes depois de ver as marcas de chupões em seu corpo, e por ter ficado imaginando as diversas formas que Kame criou elas. Talvez, quisesse fazer ele se sentir tão mal como ele o fez se sentir quando as viu. Mesmo que esse fosse o motivo, Mio não perdoava o seu ato. Achou a atitude dele vulgar e de baixo-nível. Mesmo que não sentisse nenhuma simpatia por Natally, pensava que nenhuma mulher gostaria de ser usada daquela forma para provocar ciúmes em outra pessoa. Nesse momento ele se lembrou que ele agiu igual a Ian, porém, com Kame. Quando se permitiu ser usado para evitar que esse, acabasse descobrindo sobre seu envolvimento com o ex. Também se sentiu uma pessoa baixa.

Puxou mais a coberta pra cima do corpo, seu peito doía, mas não era um dor relacionada a problemas de saúde, ela uma dor que vinha de sua consciência e apertava o seu coração. Queria esquecer tudo aquilo, seguir em frente, começar uma nova vida com a oportunidade que ganhou, porém, quando pensava na cena de Ian na janela... Era impossível para ele esquecer. Quem era aquele homem no elevador, ou no apartamento em frente ao seu? Não poderia ser o mesmo homem que se apaixonou, era irreconhecível. Será possível que depois de tanto tempo, ele nunca conheceu o Ian de verdade? Ele o amou alguma vez? Ou tudo não passou de mais um querendo exigir seu corpo como mera propriedade? Por conta desses pensamentos, ele não conseguia pegar no sono, resolveu levantar e pegar um copo com água.

Para chegar até a cozinha, ele passaria pela frente do quarto de Anabê, quando chegou próximo, tentou andar mais devagar para não acordá-la, mas parou em frente a porta quando ouviu gemidos de choro. Ficou intrigado, e encostou o ouvido na porta para confirmar se era realmente alguém chorando que ele havia escutado. Confirmou que ela estava chorando baixo, e possivelmente, tentando evitar que ele ouvisse. Mio achou isso muito estranho, como alguém que esbanjava felicidade poderia ficar nesse estado ao anoitecer? Qual seria o motivo dela? Queria ajudá-la, afinal, ela tinha sido muito compreensiva e amiga com ele.

— Anabê? Você está bem?— perguntou batendo na porta sutilmente.

O barulho de choro cessou, ficou aguardando por um minuto até que ouviu passos em direção a porta. Ela abriu com o sorriso rotineiro, como se nada tivesse acontecido, mas seu olhos vermelhos a entregavam.

— O que foi, Mi? Bateu saudade da caminha de casa? Ou do boa noite de sua mãe? — brincou tentando desconversar.

— Eu estava indo para cozinha pegar um copo com água, quando ouvir seu choro abafado. O que aconteceu? Você não está bem?

— Eu chorando? Você deve ter se engando! — brincou ela rindo forçosamente — Eu não estava chorando, que motivos eu tenho para chorar?

Ela se esforçou para manter a cena, porém, lágrimas insistentes escorriam pelo seu rosto corado. Mio ficou mal por ela, e a abraçou, mesmo sem saber qual era o motivo de suas lágrimas. Ela poderia não contar o que lhe afligia, Mio não se importava. Ele seria o seu ombro amigo para que ela pudesse chorar em paz.

— Desculpa. — disse ela chorando compulsivamente. — Eu não sei o que deu em mim...

— Tudo bem, não precisa me contar nada. Chore até se sentir melhor, tudo bem? — falou Mio abraçando ela forte.

Quando ficou mais calma, eles entraram no quarto dela, onde se sentaram na beirada da cama. Ela começou a desabafar.

— Desculpa, às vezes me sinto solitária nessa casa, sabe? Acho que ando lendo romances demais e eles estão me afetando. Quando você me contou sua história, eu lembrei que já passei mais ou menos pelo mesmo problema. Quando mais nova, eu sempre fui acima do peso, e tinha dificuldades em me relacionar com as pessoas. Namorei dois garotos em toda minha vida, me sentia maravilhosa por ser amada do jeito que sou, porém, descobrir que eles só estavam me usando para aliviar seu estresse. Parece que eu era fácil de ser levada para cama. — disse com um sorriso triste no rosto.— Eu tenho medo sabe? De nunca consegui encontrar alguém que me ame de verdade, de nunca consegui construir uma família. Já tentei me tornar uma pessoa "normal" do jeito que a sociedade impõe que eu seja, magra, dentro dos padrões de mulher ideal, mas sempre fui infeliz nessas tentativas. Me sentia fazendo parte de um teatro presa em um papel eterno de boa mulher. Isso foi me sufocando, até que descobri a moda Pin up, os estilos antigos que valorizam as mulheres que tem mais corpo. Foi assim que me libertei dessa escravidão da beleza padrão. Mas uma coisa ainda não mudou, eu não consigo encontrar que me ame ainda, e estou ficando velha, os anos passam e mais medrosa fico quanto ao meu futuro. Entende?

— Eu te acho linda, Anabê. Tanto exteriormente quanto interiormente. Eu tenho certeza que alguém verá todas as suas qualidades, mas tem que ter paciência, e não se basear em romances de livros. A realidade não é tão doce e colorida como eles representam. Digo por experiência, como você já sabe. — respondeu Mio passando o braço no ombro dela, confortando-a.

— Eu sei que tenho que ser mais paciente, mas é inevitável não me sentir sozinha. Meus vizinhos me olham com cara de pena, tipo " Coitadinha, ela continua sem ninguém, ela nunca vai casar com esse corpo", não é coisa da minha imaginação, eu já escutei eles cochichando isso depois que passo. Minhas colegas da época de escola, todas estão casadas e com filhos, menos eu. É frustante.

— Não se foque nisso, a realidade delas pode não ser tão bonita quanto aparenta. Os maridos podem ser maravilhosos nas fotos, mas podem peidar ou roncar muito à noite. Os filhos bonitinhos podem chorar demais, e serem uns tremendos cagões. — disse ele rindo.

Anabella acabou rindo junto, achando engraçado suas observações.

— Mi, você é um anjinho que caiu na minha vida para me animar, viu! Com esse cabelo e sobrancelhas brancas, só te faltava as asas e aureolas.

— Eu não sou um anjo, e não gostaria que me chamasse assim de novo, a pessoa que vivia usando esse nome como apelido foi o quem cortou as minhas asas. — falou se entristecendo.

— Vamos parar de pensar em coisas ruins, credo! Eu vou voltar a dormir, depois de tanto chorar eu sempre fico com sono, agora dê licença que eu e meu urso precisamos de privacidade. — disse ela se deitando e agarrando o urso de pelúcia amarelo.

— Ok, deixarei os pombinhos em paz, também irei dormir. — disse Mio levantando-se. Antes de sair ela o gritou.

— Mio! Obrigada por tudo tá?

— Eu que tenho que te agradecer, estaria dormindo na rua agora se não fosse você. Boa noite. — disse fechando a porta do quarto.

Ouvir as tristezas de Anabella, fez com que as suas diminuíssem um pouco, pensou que agora seria mais fácil dormir em sua nova cama em formato de sofá vintage.

Notas finais
Obrigado a todos que comentaram e tentaram me animar. Vlw