Stalker
42 O rei do jogo.
Notas iniciais

Rafael acabou desabando no sofá depois do banho. Dormiu e acordou somente no dia seguinte. Estava tão cansado pelo trabalho e depois passar o resto do dia indo em rodoviárias e aeroportos atrás de Mio, com Ian, que seu corpo não aguentou ao desgaste.Quando levantou pegou correndo o telefone e ligou para sua secretária – de vez em quando amante – cancelando todos os compromissos do dia. Após tratar de suas próprias necessidades tinha que cumprir a promessa feita para Ian, que deveria estar furioso com ele por não ter retornado a ligação na noite anterior. Pegou o celular que estava na opção de vibrar, e quando olhou havia inúmeras chamadas perdidas dele. Retornou à ligação.
— Antes que queria me matar...—foi logo esclarecendo — Assim que sai do banho dei uma deitada no sofá e dormi, mas estou indo na casa dele agora.
—Imaginei que poderia ter acontecido isso ou você descobriu algo ruim e não queria me contar por telefone. — respondeu Ian do outro lado da linha.
— O que poderia ter acontecido?
— Sei lá, tipo, Mio ter fugido com o namorado estrangeiro para outro país.
— Essa é sua definição de uma situação ruim? — Rafael estava incrédulo com a infantilidade do amigo.
— E não seria?
— Eu considero uma situação ruim ele ter sido atropelado, assaltado , estuprado ou morto de fome em algum terreno baldio. — Ian ficou mudo sem falar nada por um momento.
— Eu pensei nessas coisas, mas fiz de tudo para não acreditar nelas. Não quero imaginar que nenhuma dessas hipóteses tenha ocorrido, prefiro acreditar que ele e o namorado fugiram. Pelo menos ele estará bem. Recebi um e-mail da Sayuri informando que você mudou os dias das reuniões, mesmo que eu não tenha muito o que fazer no trabalho por conta disso, irei para lá assim mesmo. Não aguento ficar em casa com a Natally me olhando como se eu fosse de outra dimensão.
— Tudo bem, irei me apressar em ficar pronto. Qualquer coisa te ligo.
Após desligar o telefone, Rafael correu para tomar um café rápido e ir para a casa de Mio.
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Somente quando já estava no prédio onde a família de Mio morava, que Rafael percebeu que não sabia o número e andar do apartamento dele. Falou com o porteiro dando as descrições e nomes e ele informou a localização, mas antes, interfonou para a família Kimura, informando sobre a visita. Rafael começou a se preparar mentalmente para as possíveis explicações que teria que dar. Resolveu ser prudente, não sabia as informações que a família possuía referente à situação. Sua estratégia seria deixar que eles começassem a falar primeiro para assim colher informações e respondê-las baseadas no que foi dito. Tinha conhecimento que a mãe de Mio era problemática e super protetora e odiava Ian, assim como seus filhos mais velhos, Hayato e Nan.
Quando tocou a campainha foi surpreendido por uma senhora de estatura mediana que aparentava ter seus cinquenta e poucos anos. O cabelo ainda castanhos escuros com alguns fios brancos, olhos da mesma cor que os de Mio e um semblante que nada condizia com a descrição de mulher forte que esperava encontrar, abriu a porta para ele. Era indiscutível que aquela mãe não dormiu nem um minuto a partir do momento que seu filho sumiu.
— Bom dia, Senhora. Sou o Rafael Valles, Chefe e amigo de Mio. — disse se apresentando, oferecendo a mão para comprimentos.
— É um prazer conhecê-lo Sr. Rafael. Fico feliz em saber que meu filho tinha um relacionamento muito bom com seu patrão, a ponto dele vir até a sua casa para saber notícias dele. Agradeço pelo seu tempo e dedicação. — disse ela, dando espaço para que ele entrasse e apontando o sofá pra sentar-se.
— Obrigado — respondeu se sentando — Mio era um funcionário muito exemplar e tinha compromisso com nossa empresa, damos muito valor a funcionários assim, por conta disso quando fiquei sabendo que ele estava sumido, quis saber o que aconteceu.
Os irmãos mais velhos de Mio surgiram na sala, todos aparentavam desgaste, provavelmente assim como ele, passaram os dias andando pela cidade à procura de notícias do paradeiro do mais novo. Reconheceu pela fisionomia, Hayato, o irmão mais velho dentre os três, ele tinha um porte mais sério que o outro, usava um óculos de grau, cabelo comportado como um executivo, e o encarava de forma desconfiada. O outro, ficava olhando para ele com admiração, parecia querer perguntar coisas nada a ver com o caso do irmão, porém, também demostrava que havia pernoitado na procura pelo irmão. Outro sujeito surgiu saindo de um dos cômodos da casa, esse Rafael não teve uma boa impressão, pela descrição deveria ser o tal de Kame, o namorado atual de Mio. Esse quando o viu o fuzilou com seus olhos azuis, parecia que sabia muito bem de quem Rafael era amigo.
— Bom dia. — disse Rafael cumprimentando-os.
— Bom dia. — responderam.
Hayato sentou-se perto de Rafael, Kame não esperou que a conversa começasse e já foi provocando.
— É curioso o que o CEO de uma multinacional veio fazer na casa de um empregado que ele demitiu. Remorso talvez? Esse pode ser o motivo pelo qual Mio ficou desesperado a ponto de ir embora de casa arriscando sua vida por aí.
— Meu filho tinha sido demitido? — perguntou a mãe, curiosa com aquela notícia que não tinha conhecimento.
Todos encararam Rafael, que respirou fundo, estava preparado para os problemas, mas não daquele tipo. Resolveu desmentir Kame.
— Desculpe, mas quem é o senhor mesmo? — perguntou Rafael, direcionado para o loiro.
— Ele é o Sr. Kame, amigo do meu filho do curso que ele fazia. —respondeu a mãe deles.
— Kame, humm. Eu conheço muito bem os meus funcionários, gosto de interagir com eles para conhecê-los melhor, e não lembro do senhor trabalhando lá, para afirmar esse tipo de acusação.
Rafael estava intrigado, será que Mio contou para ele o que aconteceu com Ian e ele no elevador, dois dias antes de tudo aquilo acontecer? Acreditava que Kame era o real motivo de Mio ter ido embora, se eles discutiram sobre o que aconteceu, ele poderia ter ameaçado contar para a família de Kame que ele trabalhava na mesma empresa que o ex-namorado que todos odiavam.
— Eu tenho minhas fontes, não preciso trabalhar na sua empresa para saber o que acontece nela. Além do mais, eu sou dono de uma empresa também, não necessito ser subalterno de ninguém. — respondeu furioso.
— Interessante, além de suas fontes serem muito desinformadas, descubro que estou sofrendo espionagem empresarial da concorrência. Isso é um caso muito sério, presidente-de-seja-lá-qual-for-a-empresa.— A intenção de Rafael era virar a situação contra o outro lado.
—Na minha empresa, não permito divulgação de ações empresarias, para outras empresas. Temos um acordo de segurança da informação, se você me diz que está conseguindo facilmente informações internas da minha empresa, exijo que me informe quem são suas "fontes", ou resolveremos isso com um processo contra o senhor. — continuou em um tom de ameaça.
Porém, Kame não estava disposto a ceder ao seu jogo tão facilmente.
—Você só está enrolando para não explicar o motivo de Mio ter sido demitido! Não me engana! — reclamou ele, começando a perder a compostura.
Rafael notou que ele estava disposto a jogar a família de Mio contra ele. Então, resolveu agir da mesma forma. Nem que fosse necessário inventar alguma situação. Voltou-se para os irmãos de Mio e explicou:
— Mio pediu afastamento temporário por motivos de saúde, e não por demissão. Achei que como família vocês soubessem disso, por esse motivo fiquei preocupado ao saber que ele estava sumido, achei que tinha algo relacionado ao caso.
— Motivos de saúde, como assim? Ele estava muito melhor depois que começou a fazer o curso profissionalizante, não tinha mais recaídas e se alimentava bem. — informou o irmão dele.
— Ele com certeza não quis preocupá-los pelo visto, mas na Segunda-feira, ele apareceu no trabalho com muitas marcas em seu corpo, manjas avermelhadas algumas roxas. Sabe como é a língua das pessoas, logo acharam que fosse outra coisa, como chupões, e isso causou constrangimento para ele. Quando conversamos sobre seu pedido de afastamento, ele me disse que tinha dormido na casa de um amigo, e que não saberia explicar como aquelas marcas apareceram em seu corpo. Mas, eu tive a impressão que ele não estava sendo de todo sincero, parecia que sentia vergonha de falar sobre o assunto. Respeitando sua privacidade, aceitei o seu pedido de afastamento, ficando de retornar quando estivesse melhor.
Rafael teve que conter sua vontade de rir ao ver o rosto pálido de Kame quando os irmãos de Mio levantaram-se para tirar satisfação com ele.
— Ele foi dormir na sua casa naquele final de semana, o que você fez com ele? Como explica essas marcas que surgiram em seu corpo, por que ele estava constrangido por elas? Explica, agora! —gritou furioso Hayato com ele.
— Vocês não percebem que isso é uma grande mentira dele? Ele é amigo do Ian Rolf, aquele cara que só trouxe problemas para Mio. Deveriam realmente confiar nas palavras do amigo de um cafajeste? Ele deve ser igual a ele! — falou Kame acusando novamente Rafael.
— Desculpe, mas o que Ian tem a ver com o final de semana de vocês e as marcas no corpo de Mio? Por algum motivo que não fui informado, Mio tem algum problema com meu sócio?— perguntou fingindo não saber de nada.
A mãe de Mio foi quem se pronunciou depois daquela descoberta.
—Nós não sabíamos que Mio trabalhava na mesma empresa que esse homem, não temos um bom relacionamento com Ian Rolf, ele foi o causado de muitos problemas internos de minha família. Se soubéssemos que eles estavam se vendo todo esse tempo... Talvez isso tivesse sido evitado.
— Eu não sei dos detalhes sobre o que aconteceu entre vocês, mas posso te garanti que Ian não é essa pessoa malvada que imaginam. E muito menos tem relação com a entrada de Mio na empresa. Temos várias negociações com cursos profissionalizantes para estágios, e foi assim que Mio foi empregado. Como vice-presidente, Ian não anda nos mesmos lugares que ele, temos obrigações diferentes que por muitas vezes, somos obrigados a passar mais tempo fora da empresa do que dentro dela. Nesse final de semana, que supostamente Mio adquiriu os hematomas, eu e Ian estávamos fechando um negócio em um evento com novos clientes em um hotel da cidade, inclusive saímos no jornal, e se preferirem posso pedi a minha secretária que enviem as fotos do evento. — ele não estava mentindo, realmente participaram de um evento de negócios, porém, Ian saiu bem cedo da festa por conta de Natally.
O celular dele tocou, era uma ligação boba de uma de suas paqueras, mas ele resolveu fingir que era uma chamada muito importante de negócios para poder sair dali antes que seu estoque de mentiras terminasse. Mas, antes disso, queria deixar todos cientes do perigo que o Kame representava na vida de Mio.
— Desculpem, mas eu preciso comparecer em uma reunião urgente de negócios que surgiu agora, espero sinceramente que Mio volte o mais rápido possível para casa. Todos na empresa gostamos muito deles, e os funcionários estão preocupado com seu suposto sumiço. — disse apertando a mão dos familiares de Mio.— Quanto ao senhor... — disse encarando Kame de frente, que o peitava sem medo — Seria mais cuidadoso com suas acusações, caso não tenha conhecimento, difamar outras pessoas sem provas é crime, por danos morais para ser mais exato. Na próxima vez que ouvir você mentindo para se safar do que seja que tenho feito com Mio no final de semana a ponto dele pedir afastamento e ficar extremamente constrangido pela situação, eu resolverei diretamente com meus advogados. Depois de conhecer você, espero sinceramente que Mio tenha fugido de casa por conta própria, e não que tenha sofrido algum tipo de agressão e esteja trancafiado em algum cativeiro por ai.
Rafael saiu deixando todos com a pulga atrás da orelha em relação a Kame, ficou satisfeito em ter conseguido reverter a situação.
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