Stalker
1 Primeiro passo
Notas iniciais

Sempre que acordava, Mio dirigia-se para sua janela, não que fosse verificar o clima toda manhã, era porque existia algo muito importante que ele precisava olhar: O vizinho do prédio em frente ao seu. Moravam em um quarteirão onde todas as construções eram parecidas. Um ou outro salvavam-se da mesmice fazendo algumas mudanças. Os apartamentos eram grandes e espaçosos, e conservavam enormes janelas de vidro, no estilo clássico em cada cômodo. Ele nunca teve contato com seu "vizinho", descobriu seu nome por acaso com uma troca errada de correspondência dos correios, já que moravam no mesmo andar e número.
Ian, seu vizinho, era um cara desleixado e não se importava em dormir com as janelas abertas. Era provável que nem as portas do apartamento ele trancava. Mio estava acostumado a ver sua rotina, que por vício acabou por imitá-lo em várias situações. Por exemplo: acordavam no mesmo horário, escovavam os dentes da mesma maneira, tomava café "juntos". Mio era tão perseguidor que coisas corriqueiras da vida de Ian, ele sabia e fazia igual. Coisas como comprar os livros que ele lia, ou assistir seus seriados favoritos (Já que Ian possuía uma televisão enorme na sala e a vista quase sempre era favorável para ele), observá-lo cochilar no sofá pegando um bronzeado quando o sol entrava por sua janela. Algumas vezes, o via receber amigos em sua casa, mas era raro. A vida dele se resumia a trabalhar, fazer alguma atividade física, sair algumas vezes com um amigo, e dormir.
Ian era um cara de boa aparência, sempre que saía de casa chamava atenção das mulheres. Alto, pele levemente bronzeada, olhos escuros como seu cabelo, corpo atlético e de boa saúde. Mio imaginava se não seria essa dessemelhança o motivo dele chamar sua atenção.
Ele era simplesmente o oposto de Ian. Sofria de uma doença rara que roubou a cor dos seus cabelos muito cedo, parecia um albino — mesmo que diagnosticamente não era — seu cabelo era de um tom branco meio acinzentado, as sobrancelhas da mesma forma, seus olhos castanhos amarelados, corpo magro e frágil, pele muito branca, estatura mediana. Não tinha amigos que não fossem parentes, já que largou a escola muito cedo por conta da saúde, morava com sua mãe viúva e seus dois irmãos mais velhos que mal ficavam em casa.
Antes odiava essa condição, ficar todos os dias em casa, só sair para ir ao médico ou visitar sua tia, e ser tratado como a criança da família mesmo tendo completado vinte anos. Mesmo que não lhe faltasse nada, como livros, games, sua própria TV no quarto. Os mimos e privilégios de ser o filho caçula, sua vida estava totalmente sem graça e sem sentindo. Até a mudança de Ian para aquele bairro. Começou com uma breve espiada, que se tornou frequente e chegou aquele estado.
É claro que teve uma ajuda de Ian de ser tão imprudente e não fazer como outras pessoas e cobrir suas janelas com cortinas ou venezianas. Mio sentia-se dividindo apartamento com ele — como um casal —, sorria consigo mesmo. Ele também achava Ian bonito, no fundo tinha consciência de que não era somente por tédio que o espionava. Seu coração acelerava sempre que o via chegar do trabalho, e seu humor melhorou depois que ele entrou em sua vida. Estava apaixonado, apesar da incerteza se era esse mesmo o sentimento. Nunca se apaixonou por ninguém antes para poder comparar.
Aquele dia, seria mais um dia normal se não fosse a demora de Ian em voltar para casa. Como sabia de seus horários, Mio estranhou a demora, imaginou que ele poderia ter ido para um Happy Hour, com os amigos do trabalho, porém, ele não costumava fazer isso no meio da semana. Andava de um lado para o outro enquanto as horas passavam, esperando sua chegada, quando viu a luz do apartamento acender.
Ian entrou carregado por dois homens que Mio nunca havia visto em sua casa antes. Ele parecia muito bêbado — outra novidade, pois ele o via beber bastante sem nenhuma alteração — Eles colocaram Ian no sofá fazendo Mio respirar aliviado, tratou-se de amigos do trabalho que gentilmente o levaram de volta pra casa devido as suas condições. Porém, para o seu horror, os homens começaram a fazer coisas suspeitas: Um deles estava vasculhando as coisas de Ian e o outro propositalmente abria as bocas do fogão e fechava as janelas.
O que eles pensavam fazer? Matar Ian? Quando um deles fechava as janelas, Mio se escondeu atrás da cortina do seu quarto, deu uma espiada e as janelas estavam fechadas. Ele mal acreditava no que tinha acabado de presenciar. Viu na sacada da sua janela, os homens indo embora do prédio, e isso significava que Ian estava em casa, provavelmente trancado, respirando gás de cozinha. Pensou em ligar para polícia e fazer uma denúncia, mas os policias iriam querer saber como ele sabia tanto, e ser um Stalker, não é algo considerado normal, ele acabaria sendo o primeiro suspeito. Pensou então em ligar para o porteiro do prédio de Ian, porém não sabia o número de telefone da portaria, veio em mente o corpo de bombeiros, mas como explicaria saber que ele estava trancado em casa cheirando gás? Todas as alternativas o levavam a ser suspeito. Estava perdendo tempo enquanto Ian corria risco de vida. Não só ele como todos daquele prédio. Ele sabia que com gás qualquer faísca até mesmo das lâmpadas poderiam ocasionar uma explosão.
A única coisa que restava fazer era atravessar a rua e ir até o apartamento dele e salvá-lo. Fácil falar! Como iria passar pela fera que era sua mãe? Ele nunca saiu sozinho. Mas nada importava naquele momento. Ele precisava salvar Ian.
Mio não sabia, mas esse seria o primeiro passo para mudar toda sua vida.
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