Stalker
8 O Convite

Ian ficou apreensivo por não conseguir falar com Mio, teve medo de perder totalmente o contato com ele. Era uma de suas características ser uma pessoa direta, sem meio-termo — embora esse comportamento parecesse insensível às vezes, ele simplesmente odiava sentir dúvidas sobre alguma coisa — não era o seu desejo perder a amizade com o Mio, afinal de contas, ele havia salvado a sua vida! Claro que depois disso queria tornar-se seu amigo, quase um irmão; no entanto depois da boate sua imagem dele havia mudado um pouco.
Andava pelo apartamento de um lado para o outro com telefone em mãos sentindo que deveria conforta-lo. Não havia um momento depois daquela noite em que ele não pensasse no que aconteceria se Mio tivesse ido em frente e o tocado no rosto, ao invés de desmaiar. Seu coração palpitava dando asas à imaginação de uma noite quente e envolvente juntos onde beijava aqueles lindos lábios rosados e removia sua longa camiseta...
Bissexual assumido tanto para sua família quanto para os amigos, um dos motivos das constantes brigas em casa era exatamente por conta da sua opção sexual. Seu pai não aceitava sua escolha e constantemente o ofendia; resultando em muitas brigas envolvendo sua mãe e parentes. O pai chegou a obrigá-lo a noivar-se com sua melhor amiga de infância para manter as aparências; afim de conquistar sua liberdade e sentir-se em paz, ele abandonou tudo: casa, família e amigos. Ele agora era o dono do seu próprio nariz.
Pensou em ir até a casa de Mio, porém desistiu da ideia logo em seguida quando notou que o outro havia fechado as cortinas do seu quarto — o que para ele era um péssimo sinal — pensou em milhares de abordagens diferentes para convencê-lo a escutá-lo, acabou optando por uma forma descontraída de realizar isso. Recordou ter guardado em suas gavetas em casa, algumas folhas de cartolinas para uma apresentação involuntária quando deu pane nos computadores do seu trabalho, usaria elas para escrever sinceros pedidos de desculpas. Deu um sorriso empolgado enquanto corria pelo quarto pegando todo material que iria precisar, não tinha tempo à perder!
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Deitado em sua cama, Mio chorava por seus sentimentos terem sido descobertos. Levou tanto tempo para descobrir o que sentia e foi desmascarado tão facilmente... Não conseguia controlar as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Estava tão acostumado a observar Ian todos os dias, que isso já era uma prática inconsciente; porém não queria fazê-lo agora temendo ver seu rosto de nojo e repulsar por saber os tipos de sentimentos que ele nutria por ele, mesmo que Ian naquele momento o odiasse, ele precisava de alguma maneira explicar-se e pedir perdão por ama-lo.
Ser seu amigo já era mais que suficiente, não queria perder essa relação. Suas mãos tremiam quando pegou o telefone para colocar de volta a bateria que foi removida. Iria ligar para Ian e retornar o assunto que interrompeu, mas antes de discar os números, resolveu da uma espiada pela janela e conferir se ele ainda estava em casa.
Tamanha foi sua surpresa ao afastar as cortinas e ver que nas janelas da casa dele haviam dois cartazes colados em seus vidros. Eles diziam: "Existe muitas coisas que você não sabe sobre mim, como o fato de eu ser Bissexual, por exemplo", "Não fique chateado comigo, Anjo. Não faz bem pra pele". Mesmo em uma situações daquelas, Ian não perdia o humor, Mio ficou aliviado. Resolveu então ligar para casa dele sentindo-se um pouco mais confiante em discutir sobre aquele assunto.
— Se me ligou, é porque você leu a mensagem. — disse Ian ao atender.
Sua voz parecia tranquila, sem nenhum sentimento repulsivo como Mio esperava.
— Li, e acredito que os vizinhos também.
— Espero que esteja melhor, e não desligue o telefone na minha cara novamente — Disse removendo os cartazes da janela.
— Sim, me desculpe por isso... Realmente não sente nojo de mim? — perguntou ainda receoso enquanto brincava com uma mecha de seu cabelo.
— Não tenho motivos para isso, ainda mais te vendo desse modo tão fofo — e deu um sorriso para ele de sua janela.
— Eu fiquei com medo que não quisesse mais minha amizade — confessou Mio tocando o vidro como se fosse possível senti-lo através dele — Você é a primeira pessoa por quem me apaixono, Ian.
— Eu te perdoou dessa vez, porque entendo que alguém tão lindo como eu faça qualquer hétero virar gay.— brincou o outro.
— Italianos... Todos eles se acham tanto como você ?
— Não, sou o melhor de todos. — respondeu — Quais são seus planos para esse final de semana? — ele debruçou-se sobre sua janela, olhando para sua direção com um olhar bastante sexy.
— Pretendia ficar olhando você do meu quarto, mas com essa chuva as janelas não ajudam— respondeu brincando e ao mesmo tempo nervoso com Ian olhando ele daquele jeito.
—Também não farei nada esse final de semana, pensei se não gostaria de ir comigo para a casa de praia de uma amigo meu.
— Praia com esse tempo?— perguntou apontando para o céu.
— Na verdade, essa casa é só uma desculpa para te convidar para um local distante de sua mãe, onde possa ficar à vontade comigo.
Mio engoliu em seco, sentia que seu rosto pegava fogo e não sabia o que falar. Estranhando o seu silêncio, Ian insistiu no assunto:
— Algum problema em ficar à sós comigo?
— Não, eu quero... O problema é minha mãe permitir isso.
— Qual é! Você já é maior de idade, não? Simplesmente avise e saia.
— As coisas na minha casa não são tão fáceis assim... — respondeu abaixando a cabeça envergonhado por viver daquela maneira ainda.
— Você quer que eu fale com ela? Eu notei que ela me adora de um modo bem peculiar... — ironizou
— Ela pensa até em adotá-lo. — riu Mio só em imaginar sua mãe recebendo Ian em casa.— Não se preocupe, darei um jeito.
— Devo considerar isso um sim?
— Sim. — respondeu sorrindo para ele.
— Combinado, ligarei depois para combinar o dia e horário. Agora darei o "ar da graça" em meu trabalho. Tenha uma boa tarde, meu anjo. — disse Ian acenando para ele.
— Boa tarde, e um bom serviço para você. — despediu-se também acenando.
Mio deitou-se na cama agarrando o travesseiro como se fosse o próprio Ian. Estava tão feliz que mal podia acreditar que aquilo tudo estava acontecendo. Mal podia esperar o final de semana chegar.
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