Notas iniciais
Espero que gostem desse capítulo super brega hahaha Boa leitura!

Elisabeta Benedito não conseguiu dormir naquela noite. Sua cabeça insistia em reviver o beijo de Darcy. Um beijo na bochecha! Ridícula. Era isso que ela era. Sentiu o rosto ruborizar ao se dar conta de que eram namorados e com certeza já haviam trocado mais do que beijos na bochecha. Elisabeta gostaria de lembrar de algo mais. Suspeitava de que o beijo de Darcy Williamson era inesquecível. E ali estava ela, completamente esquecida.

Na última semana tudo que ela havia feito era tentar se lembrar do seu relacionamento com Darcy. E quando não estava forçando a memória, estava se martirizando por não conseguir lembrar. O lorde inglês a intrigava. As poucas lembranças que possuía dele eram de um homem prepotente, mas extremamente cavalheiro, ela não podia negar. E a última semana que passaram juntos em São Paulo só confirmavam o cavalheirismo. Darcy se mostrou sempre atencioso e preocupado, ao mesmo tempo em que sempre respeitava o espaço de Elisabeta. Ela se recusou a recebê-lo nos dois primeiros dias, mais por vergonha do que por qualquer outro motivo. E ele respeitou a decisão, porém permanecia na sala de espera ou nas proximidades do hospital, sempre a postos se algo acontecesse ou ela mudasse de ideia. Quando ele voltou a visitá-la sempre levava flores e procurava conversar sobre amenidades. Às vezes Elisa o percebia mais preocupado que o normal e sentia uma curiosidade gigantesca, mas repreendia-se sempre que queria perguntar o motivo. Ele e Jane pareciam se dar bem, e nem mesmo o jeito de dona Ofélia parecia incomodá-lo, ele até se divertia na maioria das vezes.

Desde então Elisa começou a perguntar a Jane sobre Darcy, da forma mais natural que encontrava, e a irmã falava maravilhas sobre o lorde, mas não sabia muito sobre ele. Falou de Charlotte e da ferrovia, mas só. Elisabeta queria saber sobre ele. Sobre seus gostos, suas preocupações, sua história. Mas os sentimentos que Darcy demonstrava sentir em relação a Elisa a fizeram desistir de tentar aproximação. Não porque percebia sentimentos negativos, pelo contrário. Mas porque o percebia realmente apaixonado e dedicado, enquanto ela não sentia-se da mesma forma, porque não o conhecia o suficiente. Ela não queria gostar dele por obrigação, porque eram um casal. Queria gostar dele pelo que ele era, o que significava para ela. E ela sabia que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde, porque algo em Darcy Williamson sempre a atraía para perto, sempre a fascinava.

Ajeitou o travesseiro e virou-se para o outro lado. Fechou os olhos e esperou por alguns minutos. Nada. Levantou-se de uma vez e tentou sair do quarto o mais silenciosamente possível para não acordar Jane.

No alto da árvore, na velha casinha de madeira, Elisa acendeu uma vela e sentou-se com o caderno de anotações nas pernas. Encontrou alguns rascunhos de textos para sua coluna no jornal. Lembrou-se de Laura e Venâncio, seria bom trabalhar em um ambiente onde pudesse ter a companhia deles. Mas um texto em especial chamou sua atenção.

É uma verdade universalmente reconhecida que toda mãe deseja desesperadamente casar suas filhas com homens de posses. Principalmente se é mãe de cinco meninas. Ao menos é o que dona Ofélia sempre diz.

Vestidos, bailes, aulas de piano e costura. Tudo para preparar as filhas para serem boas esposas.

Eu nunca quis ser uma boa esposa. Sequer quis ser esposa. Sempre associei maridos em potencial a obrigações desagradáveis e empecilho para os sonhos. Mas a verdade é que nos preparam para maridos, mas não para parceiros.

A ideia de um parceiro, no entanto, me parece agradável. Parceiro que sonha com você. Parceiro que trabalha ao seu lado. Associar maridos em potencial à ideia de um parceiro para vida torna tudo mais interessante. Um marido em potencial sempre fez com que eu me escondesse. Um parceiro fez com que eu quisesse me mostrar, contar meus segredos.

Eu não sei onde começou, quando vi já estava no meio. Mas sei que não começou nas aulas de piano ou costura, até porque eu fugia de todas elas. Mas talvez tenha começado em um baile. Ou talvez tenha começado antes. Com certeza começou com uma discussão. Cabeças quentes. Orgulhos feridos. Se tratando de nós não poderia ser diferente. Mas não foi por falta de amor, foi por nunca ter amado antes.

Ela amava Darcy, era isso? A ideia fez seu coração parar por dois segundos. E Elisabeta quase pôde sentir seu toque. O toque de Darcy era delicado, mas a incendiava. Seria imaginação ou uma lembrança?

****

Darcy estava exausto da viagem, mas a conversa com Elisabeta lhe tirou todo o sono. Ela havia terminado com ele. Ele já sentia que não eram mais namorados desde o acidente, mas agora era oficial. E a ideia de não ter Elisa o perturbava.

Ele havia dito que jamais se apaixonaria. Fez o possível e o impossível para evitar que esse tipo de sentimento o invadisse. Mas ele amava Elisabeta Benedito. E hoje sabia que a amava desde o primeiro olhar. Não vá embora, Elisabeta, não me abandone.

Esfregou a testa, a maldita dor de cabeça que insistia em se fazer presente desde o acidente. O paletó descansava na cadeira à sua frente junto com a gravata. Tentava concentrar-se na papelada atrasada da ferrovia, em vão. A chuva caía do lado de fora e todo e qualquer barulho desviava sua atenção dos papéis.

Passava da meia noite quando ele ouviu batidas fortes na porta da mansão dos Bittencourt. Todos já estavam em casa àquela altura, ele não imaginou quem pudesse ser. Apressou-se em abrir a porta, pois quem quer que fosse não deveria passar mais tempo na chuva.

A visão de uma Elisabeta Benedito encharcada à sua frente fez com que ele, instintivamente, a abraçasse.

— Elisa, por Deus, o que faz nessa chuva? Entre. Eu vou buscar uma toalha pra você e…

— Darcy! — a moça interrompeu e aproveitou a proximidade com o lorde para fazer o que desejava desde a hora em que se despediram na porta de sua casa. Ficou na ponta dos pés e puxou o pescoço de Darcy em direção a seus lábios. E ali, encharcada, no meio da sala de dona Julieta, Elisabeta o beijou com todo o amor que ela nem sabia que sentia.

A primeira reação de Darcy foi de total inércia, mas não levou mais do que cinco segundos para que ele retribuísse o beijo. Logo suas mãos subiram para a nuca de Elisabeta, os cabelos soltos e molhados da moça emaranhando-se nelas. Uma das mãos desceu até a cintura, puxando Elisa ainda para mais perto, e ele pôde sentir as roupas molhadas dela molharem as dele. E então Elisabeta sentiu todo o seu corpo se aquecer. As mãos dela passearam pelos ombros dele, e depois no peito, até subir novamente para a nuca. Nenhum dos dois queria interromper o beijo para respirar, então Darcy começou a depositar vários beijos no rosto de Elisa, no queixo, na orelha. Elisabeta apertou os ombros do lorde, como se quisesse unir-se a ele ainda mais, mesmo não sendo possível. Percebeu suas mãos descerem até os botões entreabertos da camisa dele, e logo seus dedos começaram a abrir os que estavam faltando. Ela sentiu Darcy diminuir os beijos, a respiração desregulada. Mas ela continuou a abrir os botões, e quando finalmente livrou-se deles, foi a sua vez de depositar pequenos beijos no peitoral de Darcy. O rapaz fechou os olhos, tentando manter o mínimo de autocontrole, em vão. Elisabeta Benedito era um furacão, incapaz de ser parado.

Darcy queria tocá-la em locais onde jamais tocou, em locais inapropriados para um casal de namorados. Queria senti-la por completo, cada pedacinho dela. Queria sentir o gosto que ia além do de sua boca. As mãos do lorde subiam e desciam pelas laterais do corpo de Elisabeta, apertando, beliscando e se demorando deliciosamente em cada parte. Ele estava louco, completamente rendido, e não conseguiria esconder nem mesmo se tentasse.

Um segundo de lucidez passou por Darcy e ele agarrou-se a ele como o diabo. Ou como Deus. Com certeza Deus. Segurou a cintura de Elisa e interrompeu os beijos, afastando seus rostos, embora os corpos continuassem colados, quase fundidos em um só.

— Elisa… Meu Deus, o que acabou de acontecer aqui?

A respiração de ambos estava acelerada. Darcy passou as mãos no cabelo, numa tentativa de disfarçar a frustração que ele mesmo causou, e começou a andar pela sala, abotoando a camisa, deixando Elisabeta parada no mesmo lugar com os cabelos desgrenhados e o rosto levemente ruborizado.

— Eu passei o resto da noite pensando em você. Pensando em nós.

— Eu achei que não houvesse mais um nós, Elisa. E agora você chega aqui e…

— Mas houve, Darcy. E às vezes eu quase consigo lembrar. Eu senti você essa noite. Senti seu toque. E a sensação me deixou… Me deixou confusa. Eu precisava saber se era lembrança ou imaginação.

— Descobriu? — ele perguntou enquanto se aproximava dela novamente, o coração quase saltando para fora do peito. Por Deus, aquela mulher iria matá-lo a qualquer momento!

— Eu sinto que não importa o que aconteça, alguma coisa sempre vai me levar para perto de você.

— Eu sinto o mesmo. Desde a primeira vez em que lhe vi. Foi exatamente essa mesma sensação que tive ao lhe ver naquela estrada.

A intensidade do olhar de Darcy fez todo o corpo de Elisabeta tremer. E ela sentiu como se estivesse completamente despida diante dele. Sentiu-se vulnerável, ao mesmo tempo em que sentiu-se poderosa. E ela gostou da sensação. O verde dos olhos dele estava mais escuro, e ela viu a paixão estampada ali. Ela sentia o mesmo. Paixão e desejo.

Elisabeta aproximou-se de Darcy, segurou suas mãos e levou-as até seus lábios, beijando-as. Amor. O verde dos olhos dele agora eram mais claro e cristalino, como a água da cachoeira. Lembrou-se dos dois abraçados dentro da água. Amor. E então ela sorriu, e ele sorriu de volta. E o riso se transformou em uma gargalhada. Darcy a rodopiou pela sala, e era como voar.

Naquela noite, Elisabeta dormiu deitada no peito de Darcy. O coração dele batendo tranquilo bem debaixo dela. As mãos dele acariciando seu cabelo, e as delas percorrendo o peito dele.