Notas iniciais
Por favor ignorem minha falta de conhecimentos médicos, principalmente em relação à época. Usei do meu direito a liberdade poética, mas espero que gostem. Boa leitura!

Sentado numa cadeira do hospital em São Paulo, o sol nascendo na janela, Darcy sentia sua força se esvair. A cabeça doía, mais pelo cansaço e preocupação do que pelo acidente em si. Uma enfermeira cuidou dos ferimentos leves dele e um médico estava com Elisa há quase 3 horas. Era desesperador esperar do lado de fora. Ele teve que dizer que era marido de Elisabeta, caso contrário não dariam a ele informações sobre o estado de saúde dela. O coração dele se apertou ao assinar os papéis. Darcy se viu deixando mais perguntas em branco do que era esperado para um marido de verdade; ele não possuía todas aquelas informações sobre Elisabeta. Ainda havia tanto para descobrir, tanto para viverem juntos.

Marido. Por Deus, ele esperava poder tornar isso verdade. Foi a primeira vez que Darcy Williamson pensou em casamento na vida. A ironia do momento era ridícula. Ele entregou a papelada no balcão frustrado. Alegou estar preocupado demais para responder qualquer coisa. Não era mentira, afinal.

Olegário se aproximava com um copo de café para Darcy. Fora ele quem os encontrou na estrada. Ajudou Darcy a tirar Elisabeta do carro, mesmo sabendo que não era o mais indicado, mas era melhor do que esperar a ajuda médica chegar. Estavam quase na entrada de São Paulo quando o acidente aconteceu, Olegário também estava chegando à cidade quando notou os dois carros atrapalhando a passagem. Desceu do carro desesperado. O motorista que veio na contramão havia fugido, um rastro de sangue que ia até o acostamento e se perdia mata adentro indicava o caminho. Olegário colocou o casal em seu carro sem nem pensar duas vezes, não se importou em sujá-lo de sangue, não pensou em mais nada além de ajudar Darcy e Elisabeta. E mesmo depois de horas terem passado, ele continuava no hospital fazendo companhia ao inglês.

— Nenhuma notícia ainda? — perguntou Olegário entregando o copo de café a Darcy.

— Nada. Talvez eles não tenham acreditado que sou marido dela. Não usamos aliança, eu não soube responder nem metade da ficha. Preciso avisar à família dela, mas não sei se consigo lidar com isso. — Darcy bebeu um gole do café, a cabeça latejando de dor. Passou a mãos nos cabelos completamente desgrenhados. — Você pode ir, já tomei demais do seu tempo, lhe atrapalhei o suficiente. Serei eternamente grato, de verdade.

Olegário estava prestes a dizer que ficaria mais um pouco, ao menos até terem alguma notícia sobre o estado de Elisabeta, mas um médico se aproximou do balcão chamando pelo sr. Williamson. Darcy levantou-se rapidamente e praticamente correu em direção ao médico.

— Sou eu. Alguma notícia sobre Elisabeta? Como ela está?

— A respiração e os batimentos estabilizaram, o que é bom. Mas ela continua desacordada. Não sabemos dizer por quanto tempo. Talvez horas, talvez dias. É melhor o senhor ir para casa, tomar um banho, ela não irá acordar agora e não há nada que o senhor possa fazer além de esperar.

— Eu posso vê-la, ao menos?

— Claro, mas seja rápido.

Darcy sibilou um até logo para Olegário e apertou sua mão rapidamente, logo estava seguindo o médico pelo enorme corredor.

Elisabeta dormia numa maca. Haviam curativos no rosto e nos braços. Darcy pensou que era um milagre que ela estivesse viva, ao mesmo tempo em que se martirizou por ter apenas ferimentos leves e uma dor de cabeça insuportável. Ainda assim, mesmo a vendo respirar, o medo que ele sentia ainda parecia sufocá-lo. Lembrou das palavras do médico dizendo que ela poderia levar dias para acordar e aquilo o deixava angustiado. Puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da maca, segurando uma das mãos de Elisabeta. Levou-a até a boca e beijou. Lágrimas escorriam e ele estava começando a soluçar. Chorou copiosamente por minutos que pareceram horas. Quando uma enfermeira bateu levemente na porta ele soube que estava na hora de ir embora. Beijou a testa de Elisabeta e sussurrou um eu te amo no ouvido dela.

***

Darcy não passou na casa de Julieta, nem procurou um hotel. Quando saiu do hospital sabia que seu destino era o cemitério. Sua mãe estava enterrada em São Paulo e seu pai na Inglaterra. Agora ele sentia que aquilo era errado, que os dois deveriam ter sido enterrados juntos, mas era só um menino na época, um menino triste e cansado de velórios, e com uma irmã pequena para cuidar.

O túmulo de Francisca Williamson estava bem cuidado, orquídeas e girassóis foram plantados ao redor. Uma coisa que Darcy jamais permitiria era que sua mãe fosse esquecida, descansando em um lugar feio e sem amor. Orquídeas eram as flores preferidas de Archibald, e girassóis, de Francisca. Todos os meses Darcy enviava dinheiro para a pessoa responsável pelo cemitério, com a ordem de que as plantas deveriam ser regadas todos os dias, e o túmulo sempre limpo.

Ajoelhou-se diante do túmulo de sua mãe e mais uma vez deixou que as lágrimas caíssem. Ele sequer sabia que ainda haviam lágrimas suficientes a serem derramadas. Quando elas cessaram, pôs-se a conversar com Francisca:

— Mãe, peço perdão por não a ter visitado com frequência, era sempre muito difícil para mim vir a São Paulo, e mais difícil ainda vir até aqui. Mas tomei todas as providências para que seu túmulo fosse bem cuidado e florido, como a senhora gostava. Você permanece viva em minha memória e na de Charlotte, jamais deixaria que ela a esquecesse. Ah, minha mãe… Quando decidi vir a São Paulo dessa vez eu tinha planos de vir visitá-la, precisava lhe contar sobre Elisabeta, sobre como ela tem iluminado meus dias e causado em mim sentimentos que eu achei não ser capaz de nutrir. Mas então um desastre aconteceu e agora estou morrendo de medo de perdê-la. Eu não vou suportar, mãe, não vou! Não é justo que a vida tire de mim todas as pessoas que amo. Ao menos tenho Charlotte, e é por isso que sou tão protetor com ela, porque tenho medo de perdê-la também. E era por isso que eu não queria me apaixonar e me apegar a outra pessoa, mas Elisabeta é extremamente teimosa, ela jamais aceitaria entrar na minha vida e não ficar. Ela se parece com você. As vezes eu me assusto com tamanha semelhança. Eu achei que era impossível existir outra mulher tão forte e decidida e inteligente como a senhora, mas Elisa é tudo isso. Você iria adorá-la, tenho certeza de que se dariam bem. Eu tenho chorado mais nas últimas 24 horas do que em toda a minha vida. Vê como essa mulher bagunçou minha vida por completo? E agora eu simplesmente não posso mais ficar sem ela, porque não conseguiria arrumar a bagunça que ela fez. E nem quero. Mãe, eu não sei o que fazer! Me sinto culpado pelo acidente. Me sinto impotente, porque agora ela está desacordada em um hospital e sem previsão de quando vai acordar. Ou se vai acordar! O sonho de Elisabeta é conhecer o mundo. Não, conhecer não. Conquistar! Ela quer conquistar o mundo, e é perfeitamente capaz disso. Estava começando. Viemos para São Paulo porque ela arrumou um emprego em um jornal. Era o primeiro passo para sua conquista. E depois eu a levaria para conhecer o mundo. — O choro tomou conta de Darcy novamente — Eu sempre me fiz de forte, mas agora simplesmente não consigo. E me sinto sozinho, sem ninguém em quem me apoiar. A senhora lembra como eu era sensível e carente? Papai dizia que você ia acabar me estragando com tanto mimo, mas a melhor coisa para mim era deitar a cabeça na sua perna e sentir seu carinho, até mesmo quando eu aprontava. A solidão é terrível, mãe. Eu sempre convivi com ela. No colégio interno, em Pemberley, mas só agora me sinto incomodado de fato. Acho que é porque eu me acostumei ao furacão Elisabeta Benedito. Eu não posso ficar sem ela, mãe. Não posso…

O vento soprou mais forte, e folhas secas voaram para os pés de Darcy. Ele quase pôde sentir o perfume de sua mãe misturado ao perfume das flores. Apanhou uma orquídea. Ele levaria uma flor para Elisabeta todos os dias até ela acordar.

***

Dona Ofélia, Seu Felisberto, Jane e Camilo descansavam no sofá da sala de espera do hospital. No quarto, ao lado da maca de Elisabeta, onze flores lotavam um pequeno vaso. Darcy cochilava na poltrona. Era o horário dele, apesar de ele odiar o rodízio, pois odiava sair de perto de Elisa, mas a família dela alternava com ele entre ficar esperando dentro e fora do quarto. Sempre esperando.

Abriu os olhos e caminhou até a janela. Fazia sol, depois de três dias seguidos de chuva. Darcy olhava sem prestar muito atenção no pequeno jardim do hospital. Ultimamente ele não prestava atenção mais a nada. Mas quando a voz de Elisabeta ecoou baixa pelo quarto sua atenção se voltou completamente para ela:

— Onde estou? O que aconteceu?

Notas finais
Quando pensei nessa fic, sabia que precisava escrever uma cena de Darcy conversando com a mãe sobre a única mulher capaz de mudar sua vida. Aí está. Aliviadas que Elisabeta acordou?