Notas iniciais
Eu espero que vocês fiquem mais felizes com esse capítulo do que eu ao escrever. Não foi meu melhor trabalho, mas seguimos tentando. Boa leitura.

A voz de Elisabeta era como a melodia mais bonita para Darcy naquele momento. Ele achou que estivesse ouvindo coisas. Não seria a primeira vez na última semana. Ainda assim ele virou-se em direção a voz, em um impulso. Segundos depois ele já estava ao lado de Elisa, as mãos acariciando o rosto dela.

—Elisa! Graças a Deus!

—O que aconteceu? — ela perguntou enquanto passava os dedos no pequeno ferimento na testa de Darcy

— Sofremos um acidente de carro chegando aqui em São Paulo. Eu fiquei desesperado. Você está bem? Está sentindo dor?

— Não… — Só então que Elisabeta olhou para si. Os braços estavam muito machucados e a cabeça pesava um pouco. A visão ainda estava um pouco turva, e ela sentia sede. Fez algum esforço para pegar um copo d'água ao lado da cama, mas logo Darcy se antecipou. — O que exatamente aconteceu comigo?

— Você dormiu por quase duas semanas. Eu tive que chamar seus pais, estão lá fora. Jane e Camilo também. Aliás, preciso avisá-los que você acordou. Você ficará bem sozinha por alguns minutos?

Elisabeta fez que sim com a cabeça e Darcy depositou um rápido beijo em sua testa. Quando ele saiu do quarto ela olhou ao redor. Procurou por algo familiar, em vão. Não demorou muito para dona Ofélia surgir afoita porta adentro. Jane estava abraçada com o pai, um rapaz loiro a guiava com uma mão em suas costas. Darcy estava encostado na porta, os braços cruzados, o cabelo completamente desgrenhado.

—Graças a Deus você está bem, minha filha. Estávamos preocupados. — Felisberto beijou o rosto da filha.

— Preocupados? Estávamos morrendo de medo, Felisberto! Eu não sabia mais para que santo rezar. Essa sua filha só serve para nos dar um susto atrás do outro.

— Eu estou bem, mamãe. Com alguns machucados, mas estou bem. — Elisabeta tentou sorrir. Jane se aproximou da irmã e segurou sua mão.

— Ai, Elisa, que susto que você nos deu, minha irmã.

Logo um médico adentrou o quarto e expulsou todos, avisando que apenas uma pessoa poderia ficar. Elisabeta estava acordada mas precisaria passar por alguns exames. Antes mesmo que alguém pudesse se manifestar, Elisa pediu que fosse Jane a acompanhá-la.

Camilo precisou sair, mas os pais de Elisabeta continuaram na sala de espera, bem como Darcy. Seu Felisberto insistiu para que o genro fosse em casa, mas ele se recusou, alegando que só iria depois de saber o estado real da namorada.

O médico fez algumas perguntas a Elisabeta, seu nome completo, idade, nome das irmãs, dos pais, perguntas sobre a infância. A examinou, trocou os curativos e finalmente deixou as duas Benedito sozinhas. Elisa chamou pela irmã:

—Jane, eu estou um pouco confusa, acho que é normal depois de passar um tempo desacordada que algumas coisas fiquem confusas. Me diga, o que estou fazendo em São Paulo? E eu vim com Darcy? Por que?

— Ora Elisa, você veio para conhecer o jornal em que vai trabalhar. E Darcy decidiu lhe acompanhar porque havia negócios a resolver aqui. E também porque é seu namorado.

— Darcy é meu o que??

— Minha irmã, você tem certeza de que eu estou acordada de verdade? Darcy Williamson, aquele homem arrogante e prepotente que encontrei na estrada do Vale há poucos dias, meu namorado? É quase tão absurdo como eu ter conseguido um emprego em um jornal de São Paulo.

— Elisa, você está brincando comigo, não é mesmo? Minha irmã, você sabe que eu não gosto dessas coisas, eu fico agoniada, Elisa! Pare com isso! Mariana não está aqui para você começar com esse tipo de brincadeira.

— Jane, eu realmente não me lembro de namorar Darcy. A última lembrança que tenho dele é de me deixar sozinha com Tornado no meio da estrada em uma manhã.

— Elisa, que mês você acha que é?

— Agosto!

— Ai meu Jesus Cristinho, Elisa, você não está bem. Eu vou chamar o médico.

Quando Jane abriu a porta deu de cara com Darcy e um girassol na mão.

—Boa tarde! Eu prometi trazer flores para Elisa até ela acordar. Pois bem, ela acordou e aqui está mais uma flor!

Jane e Elisabeta trocaram um olhar assustado. A mais velha das irmãs estava tentando agir com naturalidade para não preocupar ninguém, mas agora era ela quem estava preocupada. Não sabia em que mês estava, mas pela reação de Jane com certeza não era agosto, e pela forma como Darcy estava a tratando realmente parecia que havia algo entre eles. E pela primeira vez na vida Elisabeta Benedito não sabia o que fazer.

Mas se havia alguém que conhecia Elisabeta mais do que ela própria era Jane, e logo a irmã percebeu a angustia de Elisa decidiu intervir:

—Darcy, a Elisa reclamou um pouco de dor, será se você poderia chamar o médico?

Naquele momento Jane sabia que usar da estratégia de que Elisa estava sentindo dor era a melhor, pois Darcy imediatamente correu a procura do médico, entregando a flor solitária a Jane. Mas logo o lorde voltou com doutor Henrique Jane percebeu que aquela havia sido uma péssima ideia, pois Darcy jamais sairia de perto de uma Elisabeta com dores.

—Onde é a dor, Elisabeta? Saí daqui há poucos minutos e você me garantiu que estava bem. Foi repentina ou você não quis me contar antes?

— É que eu… Bem, eu estou… Estou com dificuldade para me recordar de algumas coisas, nada demais, e forçar as lembranças me deixou com um pouco de incômodo.

— Do que exatamente você não se lembra, Elisabeta?

Aparentemente de tudo que aconteceu no último mês e meio, ela quis responder. Suspirou e olhou para a irmã, na dúvida se deveria falar aquilo com Darcy presente ou não.

—Minha cabeça está doendo, acho que diz muito esforço. Eu vou ficar aqui quietinha e dormir.

— Nada disso, não fuja, Elisabeta! O que está acontecendo? Estou ficando preocupado. — Darcy estava realmente preocupado, era visível em seus olhos.

— Darcy, a última lembrança que tenho sua é da noite em que nos conhecemos. Se aconteceu algo entre nós de lá até aqui eu realmente não consigo lembrar. E aquele rapaz que entrou com Jane, eu deveria conhecê-lo?

O olhar de Darcy passou de preocupação a tristeza e depois a desespero, e então tristeza de novo. Ele estava decidido a se declarar para Elisabeta, mas agora ele era um completo estranho para ela e aquilo causou uma sensação horrível em seu peito.

—Elisa… Não brinque comigo…

— Não estou. Mas provavelmente é algo passageiro, não é doutor? Eu acabei de acordar, foram dias desacordada, um acidente grave, logo minha memória volta, é isso.

Jane e Darcy olhavam angustiados para o médico, na esperança de que ele confirmasse a teoria de Elisabeta, mas ambos tinham medo da resposta.

—Bem, vou precisar conversar com Elisabeta mais um pouco. É melhor aguardarem lá fora. Assim que possível levarei o diagnóstico de sua esposa, Sr. Williamson.

Esposa? Elisabeta agora possuía a certeza de que anos haviam se passado e não apenas dias. Ela jamais teria se casado com Darcy, e muito menos em tão pouco tempo. Ela não se reconhecia. Ela não possuía certezas, segurança. E aquilo a assustou como o diabo. Elisabeta sempre fora consciente de seus anseios, suas atitudes, e agora, a cada peça solta que ela tentava juntar, mais dificuldade ela tinha em encaixa-las. Jane havia dito que Darcy era seu namorado e aquilo já era muito para absorver, mas o médico a chamou de esposa de Darcy? Isso sim era absurdo e improvável. Fechou os olhos e tentou concentrar-se em acordar. Era isso, ela ainda estava dormindo, era o único motivo para a bagunça instaurada em sua cabeça.

Novamente o médico fez algumas perguntas. Principalmente sobre Darcy, o marido. Com muito esforço Elisabeta conseguiu se lembrar de um jantar na casa de chá. Cenas surgiam desconexas em sua mente. Jane e o rapaz que estava com ela há pouco. Dona Julieta. Darcy sorrindo. Nada mais além disso. Então eles haviam se encontrado após o episódio na estrada. Mas havia alguma coisa entre o sorriso de Darcy na casa de chá e um casamento. Lembrou-se de enviar textos a jornais de São Paulo. Jane disse que ela estava na cidade por causa de um emprego no jornal, o que só podia significar que alguém gostou do que leu. Ela sentiu orgulho de si mesma. Queria poder lembrar de mais detalhes. Esperava que as lembranças voltassem com o tempo.

Mas Darcy ainda era uma incógnita. A única que Elisabeta queria desvendar naquele momento. Casara-se com ele por amor? Era o único motivo pelo qual ela se casaria. Mas ao mesmo tempo não imaginava como pudesse vir a amá-lo. Era bem verdade que vê-lo ao acordar causou um sentimento bom nela, mas ele era um rosto conhecido afinal de contas. E ele a chamou de Elisa, o que indicava alguma intimidade, e ela gostou. Era frustrante se deparar com um vazio enorme na própria mente.

***

Mal o médico bateu a porta do quarto de Elisabeta Darcy correu a seu encontro. Precisava de respostas. Se preferência respostas que envolvessem o bem-estar de Elisa e sua memória intacta.

—É difícil fechar um diagnóstico preciso do caso de sua esposa, Sr. Williamson. Ao que parece ela teve uma perda de memória seletiva, acredito que seja uma amnésia retrógrada causada por um traumatismo craniano. A batida na cabeça pode ter deixado essa sequela, mas esperamos que a memória de Elisabeta volte com o tempo. Para isso é importante que ela continue com sua rotina de antes, perto das pessoas comuns de seu convívio. Ela parece lembrar bem da família, do Vale do Café. Talvez seja bom voltarem para lá. No mais, a saúde de sua esposa está ótima. Ela ainda vai sentir algumas dores, mas nada que a medicação não resolva. Vamos torcer para que a memória volte.

Darcy quase sorriu diante da fala do médico. Um riso de desespero. Dr. Henrique estava sugerindo que ele e Elisabeta retomassem a uma rotina de casados que sequer possuíam. A única coisa que era familiar para Elisa naquele momento era o Vale e sua família. Então ele a levaria de volta. Eles possuíam uma rotina lá, mesmo que Elisabeta não lembre. Mas se viam quase todos os dias, e passavam horas trabalhando juntos na ferrovia. E possuíam uma rotina de beijos, isso era muito importante.

Elisabeta Benedito voltaria ao Vale do Café e Darcy Williamson a conquistaria novamente. Todos os dias se preciso fosse.