Sr. Otimista
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu não tinha consciência de muita coisa no momento. De todas as certezas que eu, um dia, já tive, eu conseguia me agarrar apenas a uma:
Eu estava muito bêbado.
Não me lembrava de muita coisa também. Pra ser sincero, no momento, eu não enxergava muita coisa. Minha visão estava tão turva que comecei a cogitar a hipótese de aquilo ser um sonho.
Os flashes que, esporadicamente, atingiam minha face e corriam por toda a extensão daquele enorme cômodo eram o mais nítido que meus olhos conseguiam discernir. O resto não passava de silhuetas disformes e rostos sem feições. Mas eu ainda podia perceber que meus arredores se moviam de maneira febril. Tudo girava. As pessoas pulavam e mexiam seus corpos. Algumas tão ou mais tontas do que eu.
Acho que eu só me mantinha em pé ainda porque o local estava empanturrado de gente o suficiente para que o limite de espaço pessoal de todos fosse desrespeitado. Assim, era fácil me apoiar em duas, três, ou mais pessoas. Francamente, mesmo que eu não quisesse, era impossível não esbarrar em alguém.
O odor de álcool misturado a suor me embrulhava o estômago. Já me sentia sufocado. Queria sair dali. E logo. Mas uma parte de minha memória me alertava de que eu ainda deveria esperar Toni. Havíamos combinado de ir e voltar juntos.
E desde quando eu ajo como o combinado?
É... Mesmo bêbado, minha natureza não me traía. Esbocei um sorriso malicioso e comecei a me mover por entre aquela aglomeração de bêbados e drogados, que pareciam patéticos se esfregando uns nos outros.
Por que eu tinha aceitado o convite do Toni mesmo?
Ah, sim. Porque ele me desafiou. Disse que eu não teria coragem de ir numa festa “barra pesada”. E, como não suporto ser desafiado, aceitei o que ele havia me proposto.
Do mesmo modo, bebi porque sabia que ninguém esperaria aquilo de mim. Afinal, esse tipo de coisa, era só o Toni que tinha coragem de fazer. Ri baixinho.
Até parece que não me conhecem.
Na verdade, de fato, não me conheciam. Já fui muitas vezes acusado de ter uma lógica às avessas. E eu me orgulhava daquilo. Sempre foi assim. Não ia ser diferente agora.
Quando estava quase, finalmente, alcançando a saída, em meio a empurrões, xingamentos e esbarrões, minha visão periférica me alertou para um possível rosto familiar. Virei minha cabeça e apertei bem os olhos. Ainda estava muito difícil enxergar em meio a tanta gente e com aquele turbilhão de luzes invadindo minhas retinas, mas consegui vislumbrar algo que eu conhecia muito bem. Ou melhor. Alguém que eu conhecia muito bem.
Aqueles cabelos curtos e castanhos, aqueles dentinhos salientes que poderiam ser vistos a alguns metros de distância.
Ela estava ali.
Mas o que raios ela fazia num lugar como aquele?
Fiquei preocupado. E se ela estivesse tão bêbada quanto eu? E se ela tivesse se drogado? Pior: e se ela tivesse aceitado alguma bebida batizada de um estranho? Afinal, todos nós sabíamos que Mônica podia ser muito forte, porém ingênua quando se tratava de ver a malícia alheia.
Não pensei duas vezes antes de desviar meu caminho original e ir a sua direção.
Ela estava tão... Diferente.
Não fossem por suas características que a definiam muito bem, é provável que eu não soubesse que era ela ali. Até porque, o lugar era bem improvável de pessoas como ela frequentarem.
Minissaia, uma blusa que mostrava bem mais do que eu pudesse ter visto em todo meu repertório de sonhos ousados com ela, salto alto e uma meia sete oitavos... O que significava tudo aquilo?
Percebi que ela dançava com um cara que deveria ter o dobro de sua idade. Ele afagava tudo o que estava à mostra, e tudo o que também não estava. Ela se esfregava nele, balançava os quadris, levantava os braços e fazia movimentos que eu nunca, nunca pensei que ela seria capaz de fazer num lugar público.
Uma fúria avassaladora se apoderou de meu corpo. Vê-la daquela maneira deplorável, deixando ser tocada daquela maneira tão íntima por um possível pedófilo, agindo de forma tão vulgar, não se respeitando daquele jeito... Não. Aquilo não poderia estar acontecendo.
Não com ela...
Num ímpeto, alcancei-a e a puxei pelo braço com força. No momento, pensei que pudesse tê-la machucado. Mas seria pior se ela continuasse ali. Na certa, os ferimentos seriam piores e, quem sabe –um calafrio passou pela minha espinha ao pensar nessa possibilidade- irreparáveis.
– Moleque, o que pensa que está fazendo?
O “parceiro” de Mônica esbravejou. Ele tinha uma barba asquerosa, e o imaginei passando-a pelo rostinho pueril dela... Aquilo me deu toda a coragem que eu precisava para cuspir as palavras com todo o ódio que eu estava sentindo, mesmo que o cidadão fosse o dobro do meu tamanho:
– O que você pensa que está fazendo, seu velhaco? Ela tem a metade da sua idade! Ou você gostaria de ser preso por aliciar uma criança?
Naquele instante, seus olhos se encheram de ira. Ele veio bufando em minha direção. Mas eu fui mais rápido. Puxei Mônica, que mais parecia uma boneca de ventríloquo, sem vida, e me enfiei naquele mar de pessoas. Aquilo pareceu constituir uma barreira suficientemente forte para impedir que o cara pudesse nos alcançar, pois éramos relativamente mais baixos que ele.
Relanceei os olhos, de longe, para a porta de saída. Arrastei Mônica, ainda sem reação, para lá.
Quando vi, finalmente, a garagem do lugar, guiei a menina em meus braços para um lugar mais escondido.
– Que merda foi essa, Mô? O que você está fazendo aqui?
Foi minha vez de esbravejar. Eu estava fulo da vida. Aquela situação toda era tão improvável e ridícula que mais parecia uma piada.
–Eu estava me divertindo, Do Contra. Ih, você está muito careta...
Ela rebateu. Pude sentir que seu hálito era puro álcool e... Maconha? Ela tinha fumado? Sério? Normalmente, gosto de situações imprevistas e anti-clichês, mas esta não me agradava, nem de longe.
De uma coisa eu estava certo. Algo muito ruim acontecera para que Mônica se submetesse a uma situação tão lamentável... Ela não era assim. Não se deixava levar pela cabeça dos outros tão facilmente. Era forte, enfrentava todos os seus problemas sem pestanejar e sempre ajudava quem precisasse. Aquela ali não era ela...
Também imaginei que ela não sabia o que dizia, ou fazia. Aquela resposta não viria da Mônica que eu conheço. Outra coisa era: como os pais dela deixaram-na parar num lugar como este?
Até onde eu sabia, o pai dela era super-protetor e sempre a levava de carro em festas e afins.
Havia algo muito errado naquela história... E eu precisava descobrir.
Mas antes, e o mais imediato era: eu precisava cuidar da Mônica.
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