Spreading My Legs
1 Opening the book
Notas iniciais
Ta aí, espero que gostem, se alguém quiser escrever comigo, me manda um alo, ok?
Minha vida inteira mudou em minha entrevista de emprego para a empresa Marshall&Khan. E quando eu digo que mudou, eu digo mudou totalmente.
Foi num dia de outono, no comecinho da estação. Lembro-me bem da manhã antes da entrevista, clima morno e cheiro de natureza em minha casa, por causa das arvores ao redor da propriedade antiga e modesta. Acordei às seis da manhã, como me era habitual. Arrumei minha casa, colocando tudo no lugar – meus sobrinhos haviam me visitado no dia anterior e em cinco minutos minha casa já estava de pernas para o ar. Quando a casa estava organizada, me coloquei a dar comida aos meus doze coelhos (isso mesmo!), que me receberam com muito carinho, como sempre.Há quase três meses estava desempregada, vivendo com as economias que fiz durante muitos anos, conseguindo viver bem, sem passar necessidade alguma. Mas uma necessidade muito maior que minha capacidade de contê-la, exigia de mim todo o comprometimento possível. A necessidade de ser mãe.Aos vinte e sete anos, não era de se esperar que eu estivesse tão desesperada para ter um filho, mas estava. Não ter uma criança minha correndo de um lado para o outro em casa era uma dor tão grande que, a noite, por varias vezes, me pegava chorando desconsoladamente pelo vazio.Sempre fui muito maternal, desde pequena. Talvez não seja a toa que tenha coelhos em casa, criaturinhas tão férteis e... Como eu invejava aqueles animais, pela facilidade com que se reproduziam!Tive alguns relacionamentos, antes de tomar a decisão de ser mãe, mas nenhum deles chegou tão longe... E com longe quero dizer não tomar precauções. Se bem que, todos aqueles rapazes que namorei, nunca me inspiraram a vontade de passar a vida inteira com eles.Mas naquele momento, não estava pensando muito em quem seria o pai do meu filho. Por isso, recorri a inseminação artificial.Tentei ao Maximo não pensar que meu filho seria concebido num tubo de ensaio, mas eu o amaria tanto, que para mim o pai dele seria algum ser imaginário (sempre tive uma ótima imaginação), do qual falaria todas as vezes que meu filho perguntasse. Ana, minha irmã mais velha, casada, com três lindas crianças, trabalhava para um medico endócrino que realizava a inseminação artificial. Apesar de ser totalmente contra minha obsessão por meu bebê que nem havia nascido, ela me apoiou muito. Trouxera do consultório do doutor Geoffrey Hudson, conhecido médico inglês, varias fichas dos doadores de esperma do banco onde o consultório do doutor recebia as doações. Durante umas semanas, recusei as fichas que ela trouxera a mim. Até que encontramos a ficha de Damien Anthony (--) o sobrenome dele não constava na ficha, não era permitido. Ele era lindo, honestamente, foi a primeira coisa que pensei quando vi sua foto. Mas não tinha nenhuma alergia, nenhum problema de saúde e nenhuma mania. Na descrição do paciente havia apenas uma observação: “O paciente apresentou certo grau de irritação e impaciência, quando foi obrigado a esperar alguns minutos para ser atendido”, e para mim aquilo não era nada de mais, comparando com o de um rapaz chamado Alex Muller: “Personalidade desagradável, embora seja antiético de minha parte fazer tal observação, mas com tamanha falta de educação e ignorância, considero a essência desse homem imprestável”. Damien Anthony tinha vinte e nove anos quando fizera a doação. Media um metro e oitenta e nove centímetros, calçava quarenta e sete (apesar de eu, pessoalmente, não achar que aqueles dados mudavam muita coisa). Era Católico, acho que este item foi o que mais me motivou.Sou Católica, também, devota de Nossa Senhora Aparecida, devido a minha origem mineira. Não disse ainda de onde vim? Que besteira a minha! Sou brasileira, o sangue verde e amarelo corre em minhas veias como o rio Amazonas corre pela maior floresta do mundo, que pertence ao meu país, apesar de muitos dizerem o contrario. Mudei-me para Nova York quatro anos depois de me formar em relações exteriores, como a aluna que mais se destacou, modéstia parte.Bem, naquela manhã às onze horas eu tinha a minha primeira consulta com o doutor Hudson, onde ele me passaria as orientações, tipo pré-inseminação (não sei bem como chamam aquela consulta). Escolheríamos a data da inseminação e então pret. Vesti-me da melhor maneira possível. Minha saia executiva preta, uma blusa de gola alta sem mangas e meu salto preto favorito. Meu cabelo não tinha possibilidade alguma de ser preso em um coque, e eu não me importava, pois era tão cumprido que alcançava minha cintura. Uma trança frouxa deu conta do recado. E então a maquiagem... Eu odiava ter que fazer maquiagem, mas uma primeira impressão era muito importante.Pronta, linda e perfumada, tranquei minha casa e peguei um taxi, que acabara de deixar minha vizinha, Laura, em sua casa. Assim que dei o endereço do doutor Hudson ao taxista, deixei-me levar pela fantasia, como fazia quando tinha algum tempo.Já podia ver meu bebê, sabe. Ele com certeza teria os cabelos pretos de Damien, e, se Deus assim quisesse, seus belos olhos azuis. Ah, sim. Os olhos. Meu filho seria muito bonito quando adulto, bem, seria bonito desde bebê, com carinha de joelho... Mas Damien era realmente atraente... Engraçado, em circunstâncias normais, eu nunca teria algum contato com um homem daqueles.
Meus antigos namorados, pobrezinhos, eram todos com algum problema, e nem sempre bonitos. Charles, meu primeiro namorado americano, tinha sérios problemas com o escuro, vivia dando gritinhos quando tínhamos que ficar dentro do carro com a luz apagada, ou quando ia dormir no meu antigo apartamento, na Quinta Avenida. Marco, meu namorado italiano, era muito bonito, mas muito possessivo. Na minha profissão, estava acostumada a trabalhar com muitos homens, pois não é muito comum encontrar mulheres em meu antigo cargo. Ele tinha sérios ataques de ciúmes, ameaçara se matar quando eu quis terminar nosso relacionamento. A mãe dele o arrastou de volta para a Itália e eu não tive mais noticias dele por um longo tempo.Bem, você já entendeu, não foi?Nova York é minha cidade preferida no mundo inteiro, apesar de amar minha cidade natal, Três Pontas, eu amo o movimento na cidade. Tantos rosto diferentes, sentindo a mesma admiração que eu pela cidade que nunca dorme, pelos monumentos, museus, parques!... Tanta coisa para se fazer numa cidade como Nova York!Por exemplo, você pode acabar de visitar um medico endócrino, e pular para a loja ao lado do consultório e comprar bugigangas africanas. Não vê? A melhor cidade de todas.A consulta com o doutor Hudson foi muito embaraçosa, ele me submeteu ao exame completo. Sabe, os motivos que nos levam a evitar o ginecologista? Mas aquela consulta era pelo meu bebê, mais importante que meu embaraço. Por fim, sorriu e disse “Bem, parece que temos um ótimo útero apenas esperando para ser fecundado”, e isso é bom, certo?Ana me esperava na recepção, era a hora de seu almoço quando terminei a consulta, e resolvemos almoçar juntas. Bem comum, uma irmã almoçar com a outra, não acha? Mas não iríamos simplesmente almoçar, iríamos torrar o dinheiro que não tínhamos em roupinhas e brinquedinhos (já percebeu como sempre usamos “inhos” quando falamos sobre crianças?)... Meu bebê havia sido encomendado!- Bem, e os nomes? – Ana perguntou, a certa altura. Já havíamos comprado varias roupinhas cor-de-rosa, azuis e amarelas. Parecíamos com nossa mãe, que se empolgava com qualquer perspectiva distante de crianças. - Não se lembra daquele caderno que fiz quando tinha quinze anos, Aninha? – com Ana era difícil me controlar e falar sempre inglês, por muitas vezes começávamos uma conversa em inglês, por força do habito, e mudávamos para o português, sem perceber.- Ah, lembro sim, Miriam! Pensei que você o tivesse deixado no Brasil quando viemos para Nova York – Ana parou de falar para comer um pedaço do frango em seu prato. Então disse, com a boca cheia: — Quero vê-lo. Seria bem legal, tem coisas bem interessantes sobre você naquele caderno. Fiz cara feia para Ana, como mamãe fazia quando falávamos com a boca cheia.- Que feio, Ana – disse. – Vou contar as crianças e você não vai ter moral nenhum para lhes dizer para não falarem com a boca cheia.Ana deu de ombros.- Não lembra se do que mamãe dizia? “Faça o que eu digo e não faça o que eu faço”, serve perfeitamente para essa situação – minha irmã sorriu.- Mamãe vai ficar escandalizada quando eu contar a ela sobre a inseminação artificial, não vai? – alguns minutos mais tarde, quando ambas estávamos satisfeitas com a maravilhosa comida mineira (velhos hábitos, está bem? Vá dizer que uma bela feijoada numa segunda feira não viria a calhar?) do restaurante de um amigo nosso, Marcinho.- Quer a verdade? – Ana estava com aquele olhar outra vez. Assim “sei que é errado, mas o que quer que eu faça?”, com um suspiro resignado disse: — Acho que você tem que parar de ficar se preocupando com o que a mamãe vai pensar das coisas que você faz. Ela ficou escandalizada quando comecei a trabalhar no consultório do doutor Hudson, fertilizando óvulos, mas o que é que vou fazer? Me formei para fazer isso, ganho muito bem, chega de ser tão antiquados, sabe?- Uau – disse eu, assobiando. – Minha irmãzona está finalmente se unindo a causa das mulheres independentes longe da mamãe?- Estou nesse movimento há anos, sua bobinha! – Ana riu, enquanto olhava a conta e dividia o preço em seu celular. – Entrei ne quando me casei com Richard.Quando Ana conhecera Richard ele era mórmon. Mamãe ficou apavorada ante a idéia de Ana mudar de religião e ser obrigada a conviver com as outras esposas de Richard. Mamãe entrara em pânico, para falar a verdade, fingira um ataque cardíaco quando Ana viajou ao Brasil para apresentar o noivo à família, enquanto eu trabalhava numa empresa de exportação. A família toda o pressionou, o pobre Richard, até que ele concordou em se batizar e fazer todos os... Preparativos para mudar para nossa religião. Ana ficou muito zangada na época, tanto que nem quis se casar na igreja. Richard, ela e eu viajamos a Vegas e eles se casaram lá.- Mas esse caso é diferente, não vê Ana? Estou planejando fazer um bebê em um tubo de ensaio! – coloquei minha parte da conta dentro da caderneta preta e me levantei. – Tchau, Marcinho – falei alto o suficiente para ele ouvir do outro lado do restaurante, onde estava conversando com o chefe, Vinicius. Marcinho sorriu e acenou para nós. “Estava boa a comida?”, perguntou, movendo os lábios. – Ótima! – falei, sorrindo.Ana e eu andamos pela Wall Street sem falar por algum tempo. Apenas observando o maravilhoso movimento da cidade. Como vínhamos de uma cidade pequena, sem muito movimento (adorável, não me entenda errado), meu coração e minha mente adolescente sonhava em morar em uma cidade movimentada, tão movimentada quanto São Paulo, ou mais. Uma cidade como Nova York! Quando fui estudar em Varginha (sim, a cidade do ET), trabalhei duro para guardar cada centavo para ter condições de morar nos Estados Unidos. Estudei inglês por muitos anos, também, a maior parte da minha vida eu estudei.Combinei com Ana de passar na casa dela assim que terminasse a entrevista, para pegar as coisas que havíamos comprado e conversar um pouco mais. Combinamos também que eu ficaria com as crianças, Angel e Paul, para que ela e Richard saíssem um pouco.Eu adorava cada oportunidade que tinha de cuidar dos filhos de Ana, eram os momentos em que me sentia mais próxima da minha natureza de fêmea, e com isso quero dizer a femea, mãe.Peguei um taxi para o prédio da Marshall&Khan as duas e quinze, para ficar esperando até as três, pois eu nunca chegaria atrasada. Atrasar não consta em meu dicionário, até hoje.O prédio era totalmente diferente do que eu seria capaz de imaginar, e isso com minha imaginação fértil. Em vez do ar sóbrio e neutro que era tão comum em empresas do porte da Marshall&Khan, o prédio mostrava um ser um ambiente agradável, acolhedor.Já na recepção se vê a diferença. Era tão grande quanto a minha casa inteira, contando com o quintal. As recepcionistas se vestiam com jeans e camiseta, ambas com um lenço vermelho no pescoço. Sorriam para todos, acenavam e perguntavam sobre suas vidas, de maneira tão amistosa que era impossível não gostar delas. Um grande painel cor de pêssego se estendia do chão até a parede, atrás do balcão delas. Flores silvestres completavam a decoração do balcão.Quando me aproximei para lhes perguntar em que andar era a entrevista, a garota da direita, uma loira muito feliz, Amanda, se não me engano, me cumprimentou como se fôssemos melhores amigas.- De onde é esse sotaque? Ah, não me diga que você é do Brasil? Eu sou, não é emocionante? Somos do mesmo pais! – disse, num fôlegos só. - Sou de Minas – disse, devagar, como que para fazê-la se acalmar.- E eu sou de São Paulo! Que emocionante! Você é do mesmo pais que eu! É tão difícil achar brasileiros aqui na Marshall&Khan... – de novo, num fôlego só.A garota da esquerda, Megan, riu baixinho e disse:- Ela vai falar o dia inteiro se você deixar. É no sétimo andar sua entrevista, Miriam, diretamente com o Poderoso Chefão.Sorrindo, agradeci e andei devagar até o elevador, observando tudo ao redor com muita atenção. Os funcionários não usavam roupas de executivo, entende? Nenhuma das mulheres se vestia como eu, tão seria e sóbria. Todas se vestiam de jeans e camiseta. Os homens também usavam jeans, e pareciam tão descontraídos que eu tinha certeza de que nenhum deles ia se fingir de doente para faltar ao trabalho.No primeiro andar era um pequeno restaurante e, segundo o que uma mulher falou ao meu lado, também era o dormitório, onde os funcionários descansavam por meia hora no tempo de almoço antes de voltar ao trabalho.
Se você acreditar em mim, a musica que tocava no elevador era justamente uma das minhas favoritas: You’re the one that I want, do musical Grease, meu filme favorito.As outras quatro pessoas dentro do elevador cantarolavam a musica, enquanto discutiam assuntos importantes como a fusão a Marshall&Khan com a empresa do filho do dono. Eles não disseram o nome do tal filho-do-dono, se o tivessem feito, muita coisa seria diferente em minha vida hoje em dia.O sétimo andar era o mais impressionante de todos, o mais sóbrio, porem. Diversas pinturas de artistas desconhecidos ou anônimos, estavam penduradas nas paredes, diversos tipos de flores também ajudavam na decoração.Passei por um corredor entre dois escritórios, um do filho-do-dono, quando resolvia ajudar o pai na empresa, e o outro da esposa-do-dono, que não estava no momento, como a gentil secretaria, com cara e tamanho de criança me disse.O escritório de Robert John Marshall ficava entre duas das pinturas mais lindas que já vi, feitas pela filha dele, segundo a secretaria. Uma delas é uma paisagem, uma casa aos pés de uma serra repleta de arvores e um riacho passando por baixo, a casa de veraneio da família, a secretaria, Joanne, me disse. A outra era um retrato de família, todos muito bonitos. Infelizmente, essa pintura eu não tive muito tempo de olhar, pois o senhor Khan já me esperava.E, outra vez, se tivesse tido tempo de olhar a pintura, minha vida teria sido muito diferente.Meu pai sempre me disse que minha vida quem fazia era eu, com as minhas decisões, o meu suor. Naquele momento, eu tinha isso em mente. A vida era minha e eu, apenas eu, era capaz de dar um novo rumo a ela. Eu seria capaz de ser a mãe carinhosa e presente e a funcionaria digna de trabalhar numa empresa tão grande quanto a Marshall&Khan?Apenas o futuro diria.
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