Notas iniciais
Mais um, genteee!!

A sala de Richard John Khan era ainda mais surpreendente que todo o prédio.
Lembrava-me o quarto de Paul. Aeromodelos pendiam do teto pintado de branco. Miniaturas de Ferrari e Porshe enfeitavam as paredes em prateleiras de marfim, pufes e tapetes coloridos me deram a impressão de que meu chefe era uma criança.
Meu futuro chefe em si me deu a impressão de ser uma criança. Apesar de já ter a cabeça toda branca, Richard Khan se vestia com uma camiseta social rosa salmão e uma calça social preta que não combinava em nada com seu sapato marrom. Gostei dele assim que o vi.
Seu rosto um tanto enrugado e tão bonito me recebeu com um grande sorriso, que alcançavam tanto seus olhos que a impressão que tive era que aquele homem nunca conhecera a tristeza. Abraçou-me como se fossemos velhos amigos e não nos víssemos há séculos, perguntou-me sobre minha saúde e fez sua secretaria me trazer uma barra de chocolate suíço que eu, obviamente não recusei.
Assim que Joanne saiu, o senhor Khan me disse para sentar em um dos pufes que ficavam ao redor de uma mesinha de centro repleta de carrinhos. Sentei-me em um pufe amarelo, me ajeitando para me sentar numa condição daquelas DE SAIA.
Ele se sentou a minha frente, segurando um modelo vermelho da Ferrari e o acariciando como se fosse um animal. Só naquele momento considerei a hipótese de meu futuro chefe ter alguns parafusos soltos na cabeça.
- Você me acha maluco – disse, sem rodeios.
- Bem, como eu sempre digo, são os loucos que são felizes – sorri. Sim, eu sempre dizia aquilo. As pessoas viviam me dizendo “nossa, você é louca!”, e minha resposta era sempre a mesma “eu sou só feliz!”.
O senhor Khan também sorriu.
- Mas, pense comigo, a maior parte do seu dia você passa no trabalho, então você tem que fazer com que seja bom – disse, com aquele tom que a gente usa para tentar persuadir alguém. – Você me parece uma pessoa sensata, e não costumo me enganar em meus julgamentos. Percebeu a atmosfera aqui nesse prédio? Como os funcionários se comportam?
- Percebi sim.
- E você acha que alguém ia se fingir de doente para faltar ao trabalho? – era incrível a linha de raciocínio daquele homem. Foi uma das coisas que mais me chamou a atenção na família dele, você vai saber mais tarde. – Nosso nível de aprovação nos métodos que usamos é de oitenta e sete por cento. Os outros treze por cento sempre reclamam das musicas no elevador e a comida na lanchonete, pois não servimos nada muito gorduroso. Agora quero saber de você, o que achou do que viu até agora?
- Ah, gostei muito de tudo o que vi. Principalmente dos funcionários, eles parecem gostar de trabalhar aqui – disse com sinceridade.
- Você está aqui para sua entrevista de emprego, não é? Que tipo de pergunta espera que eu faça?
- Ah... – hesitei, serio, em toda minha vida fiz apenas duas entrevistas: a entrevista para trabalhar como babá para uma família riquíssima em minha cidade natal e a outra para trabalhar em meu primeiro emprego nos Estados Unidos, onde trabalhei por três anos, antes de ser demitida por gritar com o chefe depois que ele insultou verbalmente uma de minhas colegas que era negra. – Não tenho muita experiência em entrevistas, senhor, pois só as fiz duas vezes.
- E o que lhe perguntaram nessas entrevistas? – o senhor Khan parecia tão interessado no que eu estava falando quando meus sobrinhos ficavam quando contava alguma historia a eles.
Se em outro tempo alguém ficasse me encarando com tamanho interesse e foco, eu imediatamente ficaria corada e desviaria o rosto. Mas não depois de todo o tratamento contra a xenofobia que fiz. Encarei-o de volta, olho no olho.
- Na primeira entrevista que eu fiz me perguntaram há quanto tempo eu cuidava de crianças, pois fiz uma entrevista para cuidar dos filhos de um casal muito rico que havia se mudado para minha cidade. Consegui o emprego porque disse que poderia ficar com as crianças o dia inteiro, pois tinha acabado de sair da escola. Cinco anos depois fiz uma entrevista para entrar num emprego aqui nos Estados Unidos para exercer a formação que recebi. Fiz relações exteriores e me mudei para Nova York assim que terminei a faculdade, consegui o emprego porque eles me perguntaram se eu me achava merecedora de trabalhar numa empresa como aquela.
Enquanto falava, o senhor Khan acenava com a cabeça para que continuasse falando, não tirando nem por um minuto os olhos de mim.
- E o que você respondeu? – perguntou quando terminei de falar.
- Que se estou apta a estudar da forma como eu fiz, sem encarar as fronteiras do meu pais como empecilho, eu me achava mais que merecedora da chance de mostrar o que sou capaz de fazer – disse. Ri quando me lembrei da expressão do senhor Edwards quando falei aquilo. Três dias após minha entrevista já estava empregada como Assessora Junior, responsável pela negociação com os fornecedores de café.
- Aposto que seu antigo chefe ficou impressionado com sua resposta – o senhor Khan disse, sorrindo.
- Me contratou três dias depois como Assessora Junior.
Agora ele riu de verdade, impressionado. Bem, eu estava honrada.
- E por que não trabalha mais para Adolf Edwards? – nem fiz questão de perguntar como é que ele sabia o nome de meu antigo chefe. Um homem como Robert Marshall precisava saber tudo sobre as pessoas que colocava em sua empresa, eu faria o mesmo.
- Ele agrediu verbalmente uma colega de trabalho minha que é negra – apertei os dentes ao lembra da expressão magoada de Catherine quando o senhor Edwards a chamou de “garota negra inútil e idiota, que se preocupa mais com os homens que sai do que com o trabalho que faz”.
- E você não aceitou esse tipo de tratamento para com sua colega de trabalho – não era uma pergunta.
- Não. Sou brasileira, meu sangue é negro, apesar de minha pelo se negar a ser da cor do povo de minha terra – disse, emocionada. Era assim que me sentia, não havia porque mentir ou dizer qualquer outra coisa. Verdade também que eu nunca conseguia me bronzear, tinha o tom de pele de minha mãe.
Os olhos do senhor Khan se iluminaram com meu discurso apaixonado.
- Posso dizer com certeza, senhorita Gonçalves – ri quando ouvi o sotaque dele ao dizer meu sobrenome. – Falei seu sobrenome corretamente, não é? Bem, posso dizer que tenho quase certeza de que a quero em minha empresa. Minha esposa concordará comigo, assim como meu filho. Apenas mais uma pergunta, e se atender minhas expectativas, o cargo de Chefe de Negociação será seu.
- Chefe de negociação? Mas, senhor Khan... – eu estava atônita. Garanto que esperava há muito conseguir um cargo que me permitisse negociar com pessoas tão importantes quanto o senhor Khan, mas não esperava que fosse assim tão fácil.
- Robert, por favor – ele sorriu, outra vez (acho que era por isso que ele tinha tantos pés de galinha, porque sorria muito, e isso era muito bom). – Vamos, a pergunta. E quanto ao seu futuro, menina, o que planeja fazer?
Pensei por um tempo. Eu tinha quase certeza que aqueles olhos de Robert eram capazes de enxergar dentro de seu cérebro, e eu realmente me sentia impelida a dizer a verdade, por mais estranho que pudesse parecer. Mas, pensando bem, Robert não era a pessoa mais normal que eu conhecia.
- A verdade? – perguntei, timidamente.
- Com certeza – ele disse prontamente.
- Num futuro muito próximo eu quero ter um filho, o mais rápido possível, tenho que dizer – fiquei muito mais tranqüila quando vi a aprovação nos olhos dele. – Então quero ser a mamãe que trabalha e é presente, e ser a melhor profissional independente do que resolva fazer a partir de agora.
Robert ficou algum tempo em silêncio, franzindo a testa. Para mim era muito estranho vê-lo com aquela expressão pensativa, depois de apenas tê-lo visto sorrindo.
- Quero que comece a trabalhar o mais rápido que puder, então, senhorita Gonçalves – disse, de repente. – Você precisa começar imediatamente a organizar a creche para os filhos dos funcionários, sei que isso facilitaria muito a vida de todos eles. Confesso nunca ter cogitado essa hipótese, apesar de Agatha ter falado comigo sobre isso varias vezes... Quando pode começar?
Eu estava atônita. Fale serio, alguma coisa na vida vem tão facilmente? ALGUMA vez você já teve uma coisa que precisava muito e que queria ao mesmo tempo sem ter que fazer tanto esforço?
Apesar de sempre ficar com o pé atrás com coisas que vinha fácil demais, eu não jogaria aquela oportunidade.
- Ah... Quando quiser, senhor... Quero dizer, Robert – gaguejei.
- Então, assim que minha esposa voltar de sua viajem de negócios a Itália, ligarei para você eu mesmo que você poderá se ajeitar em seu escritório no andar de cima e contratar sua própria secretaria – Robert sorriu abertamente com meu espanto. – Agora, minha condição especial...
Ai, não falei?, pensei comigo mesma.
- Quero que vá a festa de aniversario de minha neta no sábado.
- Posso levar meus sobrinhos? – toda a tensão se evaporou de meu corpo. Era incrível, inacreditável... Era verdade.

- Estou dizendo, Ana! – minha irmã e eu estávamos comendo untas em sua cozinha, enquanto Richard e as crianças brincavam com o cachorro, Ruffle, no quintal. – Nunca na minha vida as coisas foram tão fáceis!
Assim que terminou de engolir o pedaço de frango a passarinho que colocou na boca (ela não se esquecera da reprimenda na hora do almoço), Anna disse:
- Fico impressionada por você não estar com um pé atrás, Miriam, não é típico de você acreditar tão facilmente nas coisas... Até em mim é difícil você acreditar!
- Mas essa não é uma oportunidade para se jogar fora, Ana, convenhamos – estávamos conversando em português outra vez, sem perceber. Mas tratamos de voltar ao inglês, pois Richard odiava que conversássemos em outra língua, porque acreditava que estávamos falando mal dele, o paranóico. – O senhor Khan me contratou como Chefe de Negociação, Ana, e você sabe o quanto eu precisava de uma oportunidade de exercer minha formação.
Ana fez que sim com a cabeça.
- E você não pode desperdiçar, claro. Acho que fez bem em aceitar.
- Você poderia me ajudar a encontrar baby sitter, Ana – esta sou eu. Há pouco mais de duas horas, conseguira meu emprego e a responsabilidade de organizar uma creche no prédio da Marshall&Khan e já queria deixar tudo planejado para apresentar o projeto ao senhor Khan. – Estava pensando em chamar Catherine para ser minha secretaria, Ana, o que acha?
- Acho que você precisa se acalmar um pouco. Tem que aprender a parar de fazer tudo com tanta pressa. Sabe que o doutor Hudson está planejando colocar meu sobrinho e afilhado ai dentro do seu útero perfeito na sexta? – Ana sabia como mudar de assunto. E sempre funcionava.
Nas próximas duas horas Ana e eu conversamos sobre as crianças dela, as minhas que ainda nem haviam nascido e sobre Damien.
Ana tinha certeza de que algum dia nos dois teríamos alguma coisa um com o outro. Minha irmã sempre foi muito intuitiva, por isso mamãe sempre acreditava nas coisas que ela falava.

Às oito horas da noite, Ana e Richard deixar a mim e as crianças em minha casa, para irem dançar um pouco na boate que adoravam, buscariam as crianças pela manhã.
Angel e Paul eram, para mim, as crianças mais doces e perfeitas do mundo inteiro. Apesar de adorarem fazer bagunças. Quando estávamos juntos, fazíamos tudo o que uma criança tinha direito de fazer: costumávamos comer brigadeiro na panela, assim que esfriava um pouco, assistir desenho animado na tevê e jogávamos videogame. E então, quando os colocava para dormir junto a mim em minha cama, lia para eles as historias da Cinderela e da Chapeuzinho Vermelho, até que ambos estivessem dormindo.
Só então eu dormia.
Naquela noite, o que tinha em meus devaneios era aquele quadro ao lado da porta do escritório de Robert John Marshall, o que não conseguira ver direito. Alguma coisa me dizia que eu devia ter parado para prestar atenção à pintura.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.