Spiritus ― Os Elementares
2 Capítulo 2 — Barry e Carlos Lutam
PRIMEIRO DE TUDO, EU NÃO TINHA COGITADO A IDEIA DE TER SIDO ESCO-lhido pelo próprio Grande Spiritus. Agora, ele me nomear como o Elementar da Ilha da Água? Jamais!
A primeira coisa que eu fiz foi olhar para o meu irmão. Ele afagou meu ombro, um tanto tristonho, e assentiu para mim. Eu sabia que Barry não estava nada feliz com aquilo. Nós só tínhamos um ao outro e aquilo me faria sair de perto dele. Ele estava totalmente destruído por dentro. Disso eu tinha total e absoluta certeza.
Encarei o grande Leão que estava sentado sobre as patas traseiras no trono da Praça Pública e ele ainda sorria para mim. Eu não conseguia sorrir para ele com sinceridade naquele momento, ao menos consegui puxar meus lábios para os cantos com o maior esforço que eu podia. A verdade era que eu estava com medo.
Olhei para os meus amigos e eles estavam com cara de espanto. Carlos me olhava com os olhos arregalados e Maggie tinha a boca escancarada fazendo um enorme O. Era até engraçado vê-la daquela maneira, mas eu não consegui rir. Continuei seguindo para o Leão que me esperava.
Assim que cheguei à frente do Leão sentado sobre as pernas traseiras o olhei e ele ainda estava sorrindo gentilmente para mim. Tentei parecer amigável para ele, mas não consegui esboçar um sorriso sequer para ele.
— Não tenha medo — disse Grande Spiritus ainda sorrindo gentilmente para mim.
Era totalmente ver um leão falar com você, então eu só consegui assentir para ele. E me perguntei como ele sabia que eu estava com medo, mas aquele era o Grande Spiritus... ele sabia de tudo.
Pus um joelho no chão, abaixei a cabeça e esperei que Grande Spiritus fizesse logo o que tinha que ser feito.
Ouvi um rugido forte vindo de Grande Spiritus e, no segundo seguinte, senti um vento forte soprar por cima de minha cabeça — eu sabia o que aquilo significava, o Grande Spiritus estava soprando em cima de mim para que meus poderes se aumentassem. E eu senti aquilo no instante seguinte.
Minhas veias começaram a aquecer, eu sentia minha força aumentando a cada segundo. Meu batimento cardíaco estava começando a se acelerar e uma sensação fria e agradável começava a se formar em minhas mãos. Mas tudo aquilo parou... ao menos, parte daquilo.
Minhas veias começaram a parar de se aquecer, minha força continuava aumentando a cada segundo. Meu batimento cardíaco estava começando a voltar ao normal e a sensação fria e agradável em minhas mãos continuavam — foi à única coisa que não mudou e eu sabia o porquê aquilo estava acontecendo em minhas mãos; minhas mãos estavam ficando azuis e eu não precisei olhá-las para saber daquilo. E eu sabia que, a partir daquele momento, eu conseguiria produzir água para dobrá-la.
Quando tudo tinha ficado ao normal — exceto eu ainda sentir minha força aumentar continuamente e minhas mãos ainda estarem frias e agradáveis —, olhei para o grande Leão que estava diante de mim e ele ainda sorria. Ele me estudou por um segundo e notei que aquele era o momento para eu ficar de pé e assim fiz.
Assim que me pus de pé, todos estavam olhando para mim com certa incredulidade e curiosidade. Alguns estavam impressionados e outros espantados. Olhei para meus amigos e Maggie estava com cara de espanto e Carlos estava cara de impressionado — mas eles, por mais que eu não gostasse de admitir aquilo, não era quem eu realmente estava preocupado. Meu irmão era quem eu mais queria ver.
Olhei para o canto de onde eu saíra e o olhei. Tentei desvendar o que ele realmente podia estar demonstrando, mas era totalmente difícil. Ele podia estar preocupado, impressionado, indignado, incrédulo, curioso... mas eu não sabia dizer como ele realmente se sentia. Barry só me olhava simplesmente com os olhos fechados em pequenas fendas, não em forma de me advertir, mas em outra expressão da qual eu não conseguia ler. Senti-me completamente desconfortável.
— Saúdam o mais novo Elementar da Ilha da Água, Thayer Stryder — disse Grande Spiritus.
As mulheres ergueram o punho esquerdo para o alto e os homens ergueram o punho direito para o alto — a forma de cumprimento de lealdade, respeito e coragem de nossa Ilha para os habitantes dela. Eu pus o meu punho direito para o alto da mesma forma que todos eles fizeram e olhei para o meu irmão e, felizmente, ele também estava me cumprimentando.
O Grande Spiritus rugiu alto e forte mais uma vez — talvez em forma de me cumprimentar também, não sei. Mas eu não cheguei a perguntar aquilo, eu tinha medo de perguntar e ele achar ruim ou simplesmente dizer que não era.
Assim que ele terminou de rugir, olhei para ele e ele olhou para mim. Era totalmente intimidador olhar para aqueles olhos de membrana preta e íris vermelho-vinho. Eu não sei o que Grande Spiritus via em mim, eu era apenas um simples garoto da Capital da Ilha da Água. Eu preferia que ele tivesse Escolhido o filho do Governador da Ilha, o Caleb, como Elementar. Ele era alguém de família importante, eu não era importante em lugar nenhum!
— Se adapte com sua nova força e poder, Thayer — disse Grande Spiritus voltado para mim. — Venho buscá-lo assim que eu determiná-lo pronto.
Grande Spiritus olhou para o céu e começou a brilhar...
Eu não sabia como iria treinar. Não tinha como treinar, eu não sabia treinar. Não tinha ninguém para me treinar. Eu estava totalmente sozinho e eu não sabia fazer nada a não sei dominar a água a meu favor, mais nada. Como eu conseguiria me preparar para uma missão que poderia me matar sem saber nada sobre combate?
— Senhor? — chamei-o.
Grande Spiritus ainda estava brilhando quando me olhou.
— C-como eu irei treinar? — perguntei baixinho pondo um joelho no chão.
— Não precisa se curvar, Thayer — disse ele.
Pus-me de pé no mesmo instante.
— Eu não tenho com quem treinar — falei ainda baixinho para ele.
— Tenho certeza que encontrará alguém para te ajudar — disse Grande Spiritus e voltou a olhar para o céu. — Além do mais — ele voltou a me olhar —, eu também o treinarei.
Ele sorriu para mim e consegui sorri com sinceridade para ele daquela vez.
Grande Spiritus voltou a olhar o céu e brilhar, e brilhar, e brilhar... quando ele parou de brilhar intensamente, todos nós podíamos vê-lo em sua forma de Bola de Luz. No instante seguinte, a Bola de Luz, que era o Grande Spiritus, subiu ao céu e desapareceu, seguindo para a quinta Ilha, a Ilha da Terra.
A Praça Pública se esvaziou rapidamente.
Quando todos da Praça Pública haviam ido embora, Carlos e Maggie vieram até a mim. Eles não paravam de dizer que eu ficaria bem, que tudo estava bem, que nada de ruim iria me acontecer e que eu iria conseguir superar tudo aquilo — eu duvidava.
Primeiramente eu duvidava porque eu estava destinado a ir para uma missão que poderia arruinar a Terra e com certeza aquela missão era totalmente suicida. Nem todos os Elementares conseguiam sobreviver — claro que o último Elementar vivo morreu há quatrocentos anos, mas isso não quer dizer nada.
Histórias e mais histórias diziam que de sete Elementares Escolhidos, nem todos retornavam para suas casas depois das batalhas. E aquilo também, agora, se agravava a mim. Então eu poderia voltar ou não voltar para casa, o que era totalmente nãotranquilizador para mim e tampouco para Barry.
— Cara, eu achei incrível — disse Carlos.
— O quê? — perguntou Maggie e eu ao mesmo tempo.
— Assim — Carlos se ajeitou —, foi incrível quando Grande Spiritus rugiu alto e forte e soprou em você. Foi incrível! Um redemoinho prateado começou a te rodear e depois foi tudo para dentro de você... foi incrível!
Carlos parecia um louco.
— Ah, sim — disse Maggie. — Verdade. Essa parte foi bastante incrível.
O.K., os dois pareciam loucos.
— Não tem nada incrível — rebati. — Eu estou louco. Ainda não acredito que sou o Elementar da Ilha da Água.
— Thayer — disse Maggie. — Não se preocupe. Você vai se sair bem. Vai voltar para casa assim que tudo isso acabar.
Cruzei os dedos.
— Assim eu espero.
— Maggie! — ouvimos uma voz feminina chamar atrás da gente.
O sr. e sra. Bell estavam acenando para a filha. A sra. Bell tinha os cabelos de Maggie, mas não tinha a mesma tonalidade de olhos. A sra. Bell tinha olhos castanhos e tinha a mesma tonalidade de pele de Maggie. O sr. Bell tinha a mesma tonalidade de pele que Maggie e o seus olhos eram azuis — Maggie tinha herdado os olhos do pai. Ele também era ruivo, porém totalmente com cachinhos miúdos na cabeça — eu sempre soube que os cachos de Maggie viam dele.
— Acho melhor eu ir — disse Maggie.
— O.K., nos vemos depois — disse eu.
— Até depois, Maggie — disse Carlos.
— Até, meninos — disse ela e se foi.
Assim que Maggie chegou perto dos pais eles seguiram em direção ao Centro, deixando Carlos e eu ainda em meio a Praça Pública.
— Então, o que você vai fazer? — perguntou ele.
— Sobre o quê? — franzi a testa.
— Cara, você tem que treinar — disse-me ele. — Sem querer ofender, mas você não é bom de briga.
Aquilo me ofendeu.
— Eu sei, obrigado por me lembrar.
— Ah, anime-se! — ele deu tapinhas em minhas costas. — Seu irmão é bom de briga, ele pode te ajudar.
Fiz uma careta para ele.
— Esse é o problema — falei. — Eu não gosto de brigas...
— Mas tem que gostar — cortou-me ele. — O que você irá enfrentar é vida ou morte, Thayer. Você precisa saber se defender.
Ele estava certo.
Eu tinha que aprender a me defender e sempre que eu arrumava alguma confusão na escola, eu sempre apanhava — eu não arrumava confusão porque eu queria, mas porque sempre que tentavam implicar comigo, eu revidava e já que não podia revidar com a dobra d’água porque era proibida na escola, eu tinha que ir com os punhos e eu era péssimo com eles.
— Você está certo — disse eu. — Preciso aprender a lutar.
— Eu sei alguns truques, posso ajudar — disse ele. Ele parecia que realmente queria ajudar e eu não podia jogar aquela oportunidade. — E então... o que me diz?
Pensei por um instante. Mas, a real era que eu tinha que aprender tudo o que poderia sobre luta. Qualquer ajuda era bem vinda, mesmo se aquela ajuda vinha do meu melhor amigo.
— Tudo bem, eu aceito a ajuda — falei um tanto desanimado.
— Isso aí! — ele mostrou o punho para mim e bati no punho dele com o meu em forma de cumprimento. — Certo, encontre-me amanhã ao final da tarde em frente ao palácio do Governador.
— Por que lá? — perguntei, franzindo a testa. Tínhamos vários locais em que podíamos nos encontrar, mas por que escolher logo aquele?
— Porque sim — disse ele. — Vou levar alguém para nos ajudar.
— Carlos...
— Não esquenta, Thayer — interrompeu-me ele. — Vai dar tudo certo. Até amanhã.
Antes mesmo que eu pudesse me despedir, ele seguiu para o Centro e me deixou na Praça Pública, me deixando completamente sozinho.
— Thayer? — chamou a voz de meu irmão.
Bem, talvez não tão sozinho assim.
Virei-me para o canto da voz e vi meu irmão vindo em minha direção, e fui à direção dele também.
— Barry... — falei. — Olhe, eu não queria ser o Elementar, se é isso que pensa. Eu não queria ser o Escolhido. Sempre preferia que fosse qualquer outra pessoa, menos eu. Isso não tem cabimento! Eu não sei me defender, não sei lutar. Não sei nada a não ser dobrar a água e tirar notas boas na escola. Nem sei se eu realmente estou totalmente preparado para isso. Essa missão é suicida! Eu não quero fazer parte dessa jornada rumo à morte. Isso é loucura! Eu não sei onde o Grande Spiritus estava com a cabeça para me Escolher. Porque ele não Escolheu outra pessoa? Porque logo a mim? Barry, você tem qu...
Barry me abraçou e eu parei de falar no mesmo instante.
Sentir o abraço de Barry significava várias coisas. Uma delas significava que ele não estava com raiva de mim e isso significava muito para mim. Outra coisa significava que ele estava preocupado comigo e isso quase me fez chorar, pois eu não queria vê-lo preocupado comigo. Outro fator, também, era que ele me amava e isso significava simplesmente tudo para mim. Afinal, ele era a minha mãe, meu pai e meu irmão... tudo ao mesmo tempo.
Eu não soltei Barry, mas eu o abracei mais forte. Eu não queria soltá-lo, eu me sentia seguro perto dele. Ele era como se fosse a minha proteção para tudo ao meu redor. Eu não podia ficar longe dele, eu não conseguiria suportar essa ideia. Mas, antes que eu ainda pudesse apertá-lo ainda mais, ele me soltou e fixou seus olhos azul-esverdeados para mim.
— Barry...
— Não tem problema, Thayer — disse ele, interrompendo-me. — Eu sei que você não pediu isso.
Meus olhos lacrimejaram, mas eu não soltei as lágrimas. Engoli o choro. Eu tinha que parecer forte perto dele.
— Você precisa encarar esse fato de ser o Elementar — disse ele.
— Mas eu não quero...
— Não é questão de querer, irmão — cortou-me ele. Ele pôs as mãos em meus ombros. — Estou contigo e vou te ajudar. Vou treinar com você.
O olhei e ele deu uma piscadela rápida para mim. Sorri com aquilo.
Meu irmão era muito bom de luta. Tá, eu sei que não conta nada eu falando isso, mas a Ilha toda achava o mesmo, pois ele tinha sido o campeão de luta na Ilha da Água por cinco anos seguidos.
Todo ano tem uma competição para ver quem era o mais forte. Barry tinha se alistado como diversão, mas ele conseguiu ganhar dos 48 selecionados cinco anos seguidos, incluindo o vencedor antigo da Ilha. Barry era corpulento, era imenso de tão forte. Se eu fosse treinado por ele, com certeza eu seria um bom lutador.
— Tudo bem — foi só o que consegui dizer.
— Começamos amanhã — disse-me ele.
Opa! Amanhã seria o mesmo dia em que eu treinaria com Carlos e o seu amigo misterioso.
— Bem... amanhã? — perguntei fazendo uma careta.
Ele franziu a testa.
— O que tem amanhã? — perguntou ele.
— Bem, Carlos também irá me ajudar — falei coçando a cabeça.
— Ótimo! — meu irmão pareceu não se incomodar. — Eu ajudarei mesmo assim.
— O.K., então — foi só o que eu disse.
Barry me puxou para perto dele, passou seu braço direito por volta do meu pescoço e começamos a caminhar.
— Venha, vamos para casa. Está quase na hora do jantar.
E assim, Barry me levou para casa.
Quando o dia seguinte aconteceu, Barry tinha me acordado cedo e me feito um café da manhã reforçado — eu não sabia o porquê daquele tratamento especial, mas eu não reclamei. Meus avós — minha avó por parte de pai e avô por parte de mãe —, que moravam na casa dos fundos, me viram e ambos disseram que se orgulhavam d éter um neto Elementar. Eu não sabia se aquilo me deixava feliz ou triste, pois eu não gostava nenhum pouco sobre esse fato. Aquilo me aterrorizava.
Quando Barry e eu fomos para perto do palácio do Governador, encontramos Carlos e um menino que se apresentava como Danilo McMillan. Ele tinha cabelos pretos, olhos castanhos tão clarinhos que mais pareciam verdes. Tinha pele da mesma tonalidade que lembrava a de Maggie, ele não era alto como Barry ou Carlos, mas parecia ser um pouco maior do que eu e era um tanto forte. Ele era bem apessoado por sinal, mas é claro que eu não disse aquilo em voz alta.
Carlos não disse para exatamente onde estávamos indo, mas disse para seguirmos ele em direção ao sul. Seria completamente um saco se fossemos andando, mas nos quatro conseguíamos dobrar a água, então congelamos nossos calçados e fomos patinando para o sul. Mas mesmo assim não foi o suficiente. Ficamos cerca de quinze minutos patinando e, quando olhei para trás, eu não via mais o Centro e nem o palácio do Governador. Tudo o que eu via adiante, atrás de mim e nos meus lados, era gelo. Apenas montanhas, colinas, árvores congeladas, lagos, rios e alguns animais silvestres. Nada de civilização.
Depois de mais dez minutos patinando, Carlos parou bruscamente a nossa frente e fomos obrigados a parar. Ele analisou os lados e viu que não via ninguém e disse:
— Ótimo, aqui está bom.
— Porque nos levar para longe da civilização? — perguntou Danilo com sua voz roca e grossa ao mesmo tempo.
Eu não tinha conhecimento de sua voz ser daquela maneira, pois a única coisa que consegui ouvir dele era um simples “Oi” quando nos conhecemos perto do palácio do Governador.
— Porque aqui não tem como destruirmos casa, Danny — disse Carlos.
— Por favor, não me chame assim — Danilo fez uma careta.
Carlos deu de ombros.
— Que seja — disse ele. — Enfim, quem começa?
Todos nós nos entreolhamos.
— Bem, quem de vocês é o melhor lutador? — perguntou meu irmão.
Carlos e Danilo se entreolharam por um pequeno tempo.
— Hmmm...
— Ele — disse Danilo indicando Carlos com o polegar.
Meu irmão o estudou por um momento.
— Certo. Então eu e você vamos primeiro — disse Barry e se voltou para mim. — Se afaste o máximo que puder, está bem? Não quero que se machuque.
Assenti para ele.
Danilo e eu, em sincronia, fizemos uma superfície alta e plana e subimos nela para olhar meu irmão e Carlos.
— Vale tudo — disse Carlos. — Bem, exceto ferir um ao outro gravemente.
Barry assentiu.
— Mostre o que sabe, carinha — disse meu irmão.
Meu irmão e Carlos se conheciam e, de alguma forma, eram amigos. Carlos era meu amigo há bastante tempo e frequentava a minha casa, então era possível ter uma amizade entre eles dois. Por isso meu irmão o chamava de carinha.
De início, não aconteceu nada, mas depois Carlos puxou uma grande bola de água do gelo que estava em seus pés e jogou em direção ao meu irmão. Meu irmão desviou da bola de água, jogando-se para o lado e no instante seguinte, congelou os pés de Carlos e lhe lançou uma enorme bola de neve, quando pegou o gelo do chão.
Carlos, ainda preso, conseguiu explodir a enorme bola de neve que ia para cima dele, fazendo vários flocos de neve cair ao seu redor. Carlos descongelou suas pernas e correu para cima de meu irmão e meu irmão para cima dele.
Assim que eles se encontraram, Carlos tentou dar um soco em meu irmão, mas ele desviou para o lado e tentou, girando o corpo, chutar o rosto de Carlos, mas ele conseguiu desviar, dando uma cambalhota para trás. Eles se olharam novamente e voltaram a se chocar.
Carlos dava uma sequência de socos frenética em meu irmão, mas Barry desviava de todas com facilidade e nem ao menos ofegava com aquilo. Aquilo pareceu irritar a Carlos, pois ele continuou fazendo mais sequências de socos, mas quando viu que não acertou nenhum sequer, ele se afastou de Barry.
— Seu irmão é bom — disse a voz rouca e grossa de Danilo ao meu lado.
O que eu diria?
— Hmmm... obrigado — falei com um certo sorriso em meus lábios.
Por mais que meu irmão tinha vencido todas aquelas lutas ao longo desses cinco anos, eu nunca o tinha visto em combate. A forma de como eu sabia que ele tinha ganhado era os cinturões que ele ganhava, os troféus e a grande quantia em dinheiro que ele trazia para casa. Fora isso, eu não via porque ele não deixava. Ele dizia que era totalmente sanguinário para uma pessoa como eu na época assistir. Então nada de assistir.
— Sério. Ele é muito bom — disse Danilo. — Acho que Carlos não tem a menor chance.
Sorri ao ouvir o seu comentário.
— Hmmm... não sei — falei. — Carlos sabe alguns truques.
— Veremos... — disse ele e deu um risinho.
Barry e Carlos ainda se encaravam, mas tudo isso mudou quando Barry fez cinco estacas de gelos pontiagudas irem na direção de Carlos. Mas Carlos não se mexeu de início. Quando as estacas chegaram bem perto dele, ele pisou forte no chão e um muro de gelo maciço se formou a sua frente, onde as estacas ficaram cravadas.
— Incrível — disse Murilo.
— Eu disse que ele tinha seus truques — ri.
Ele também riu.
— Verdade — falou ele.
Carlos seguiu na direção de meu irmão e, antes mesmo que ele chegasse, ele girou o corpo, puxando água do gelo, e jogou na direção de meu irmão. Em um movimento vacilante de meu irmão, ele foi pego pelo jato de água de Carlos e, assim que ele foi pego, Carlos fechou as mãos e a água que prendia meu irmão se congelou, onde só suas mãos, pernas e cabeça ficassem do lado de fora.
Eu tinha que admitir, Carlos era muito bom. Bom mesmo. Ele parecia que se transformava em combate, mudava de expressão. Ele ficava com uma expressão séria e concentrada. Totalmente diferente de sua expressão brincalhona e divertida de sempre.
Carlos fez uma estaca de gelo e jogou na direção de Barry. Meu coração acelerou. Eu pensei que meu irmão iria morrer, mas, por surpresa minha, meu irmão descongelou o gelo em que ele estava preso e, quando a estaca chegou perto dele, ele aplicou um golpe de karatê e a estaca se partiu em duas, onde cada parte caiu em ambos os seus lados.
Carlos pareceu espantado, mas logo em seguida seu espanto sumiu e ele partiu para cima de meu irmão de novo e meu irmão para cima dele. Ambos começaram a distribuir sequência de socos um no outro. Meu irmão conseguia desviar com velocidade e facilmente. Carlos era rápido, mas não conseguia desviar de todas com tanta rapidez assim.
Com um girou, meu irmão conseguiu acertar um chute no peito de Carlos, o que fez recuar alguns passos e, no instante seguinte, meu irmão havia lhe dado socos na barriga e depois um no queixo. Carlos ficou tonto, perdeu o equilíbrio e pôs um joelho no chão e segurou seu queixo.
Meu irmão estendeu a mão para Carlos, mas antes mesmo que Carlos pudesse pegar em sua mão, ele deu uma rasteira em meu irmão e, com um movimento rápido e antes que meu irmão chegasse ao chão, lhe deu um chute no peito, que o fez voar longe. Baixo. Mas eu não podia reclamar. Carlos mesmo tinha dito que valia tudo, então aquilo estava dentro das regras, não?
Meu irmão se levantou em um pulo e correu para cima de Carlos e Carlos fez a mesma coisa.
A luta se propagou assim: Carlos intervenha contra meu irmão e ele conseguiu desviar facilmente de seus golpes, mas Carlos o acertou no rosto. Barry havia ficado furioso com aquilo e, puxando a água do gelo do chão, jogou um forte jato na direção de Carlos, mas Carlos conseguiu dominar aquele jato. Mas o que ele não esperava era que meu irmão vinha logo em seguida de lhe deu um forte soco no peito, uma rasteira e, congelando um pouco da água em sua mão fazendo uma luva de gelo com espinhos pontiagudos, ele parou o punho com a luva congelada perto do rosto de Carlos e Carlos declarou meu irmão o vencedor.
Danilo aplaudiu meu irmão e eu fiz a mesma coisa.
Barry ofereceu a mão para Carlos e ele a pegou e, sem truques desta vez, se levantou. Os dois vieram até onde Danilo e eu estava. Os dois estavam ofegantes, porém Carlos estava bem mais do que meu irmão.
— Belo trabalho — falei para Carlos.
— Você foi demais, cara — disse Danilo dando tampinhas no ombro de Carlos.
— Qual é, eu venço e vocês parabenizam esse moleque? — disse meu irmão, empurrando Carlos amigavelmente.
Todos nós rimos.
— Você foi incrível — disse Danilo e meu irmão ficara um pouco vermelho.
Ei, o cara podia ser grande e forte, mas ele tinha certa vergonha em algumas ocasiões e sempre se sentia meio envergonhado quando o elogiavam. Bem, eu acho que tenho a quem puxar, porque eu sou exatamente igual ou pior. Que seja!
— Valeu — meu irmão levantou o polegar para ele e ambos deram tampinhas em seus ombros.
— Incrível mesmo — disse eu para o meu irmão. — É a primeira vez que eu vejo você lutar e você foi incrivelmente incrível.
Todos riram.
— Valeu, irmãozinho — ele deu uma piscadela para mim. — Bem, agora é a sua vez de lutar contra Danilo.
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