Spiritus ― Os Elementares

3 Capítulo — A Adaptação


EU TINHA ESQUECIDO COMPLETAMENTE DAQUELE DETALHE DE TER DE lutar contra Danilo. Danilo não parecia ser um cara que brigava e eu também não gostava desse lance de violência bem, não acho que tinha como eu gostar, porque eu nunca presenciei um ato de violência de verdade. Mas eu tinha que lutar com ele, de qualquer maneira; fazia parte da minha adaptação.

Assenti para Barry, mas eu estava completamente nervoso. Eu não era um lutador. Todos que me conheciam sabiam disso. Eu nunca precisei usar um músculo em minha vida, nunquinha mesmo. Eu nem sabia como era dar um soco, não sabia qual era a sensação. Pelo que eu via no punho de meu irmão, aquilo não parecia machucar, então não deveria ser tão ruim, mas eu tinha minhas dúvidas.

Danilo olhou para mim e eu o olhei preocupado. Ele assentiu para mim e, pulando de onde nós estávamos, foi para onde meu irmão e Carlos tinha lutado. Eu queria ter tanta coragem quanto ele, onde nós estávamos era um pouco alto e eu tinha certo medo de altura. Mas eu não podia passar como medroso. Cheguei a ponta de onde estávamos e, olhando para baixo e respirando fundo, pulei de lá.

Mas, por incrível que tinha parecido, eu não senti medo quando pulei. Parecia que aquele meu medo de altura tinha ido embora; como se ele nunca tivesse existido. Foi até um pouco prazeroso, me deu até vontade de repetir o pulo. Eu achei incrível e, quando pisei no solo coberto de neve onde tinha ocorrido a luta, focalizei Danilo e ele me olhava um tanto incrédulo.

Franzi a testa.

O quê? perguntei.

Você não reparou o que fez? perguntou ele levantando uma sobrancelha.

Olhei para os lados.

Não, não reparei disse eu.

Ele levantou as sobrancelhas.

Cara, você pulou quase cinco metros do chão ele piscou. Foi incrível.

O olhei franzindo a testa. Ele só podia estar brincando.

Verdade? perguntei levantando uma sobrancelha.

Ele assentiu.

De mais! falei rindo.

Ele riu.

Danilo veio até a mim. Eu não esperava por aquilo, aquilo podia ser um truque. A partir do momento em que pensei naquilo, senti meus braços e músculos os pouquíssimos que eu tinha ficarem tensos e firmes, como se estivessem prontos para o combate. Meu punho se fechou e minha cara fez a mesma coisa, tudo a espera que Danilo fizesse algum movimento inesperado contra mim.

Ei, não precisa disso... disse ele estendendo as mãos como se estivesse se rendendo.

Tentei relaxar, mas não foi o bastante. Meu punho e o restante de meus músculos relaxaram, mas senti minha cara ainda fechada para ele.

Desculpe... disse eu. É que... bem, não sei explicar. É quase involuntário sentir essa sensação de... defesa, luta, ou sei lá.

Ele riu.

Olhe, eu não vou pegar pesado com você disse ele. Sei que nos conhecemos hoje, mas eu não quero te machucar.

Meus olhos o fitaram e se formaram em pequenas fendas.

O.K. foi só o que eu disse.

Ele assentiu e se afastou de mim, voltando para o lugar onde ele estava antes.

Mesmas regras que as deles? perguntou ele indicando meu irmão e Carlos com a cabeça.

Feito falei assentindo com a cabeça.

Eu não fiz nada, apenas esperei. Danilo parecia estar mais do que concentrado e meu semblante de defesa e luta voltou. Meus músculos voltaram a ficar rígidos e tensos e parecia que meu cérebro estava raciocinando mais rápido. Eu não parava de pensar nas possibilidades de derrotar Danilo; aquele era o meu objetivo.

Em minha visão periférica, consegui ver meu irmão e Carlos fazer um aperto de mão provavelmente apostando em quem deveria ganhar aquela luta e, se eu realmente estivesse certo, até meu irmão tinha apostado em mim e ele não parecia estar feliz com sua aposta.

Mas eu o provaria que estava errado, eu não deixaria que Danilo me vencesse. Eu era capaz de derrotá-lo e eu iria. Era só uma questão de tempo. Ou talvez não. Eu não era um verdadeiro lutador como a maioria da população da Ilha da Água, eu nem sabia lutar! Em minha família, somente meu irmão que tinha a habilidade de luta, menos eu. Até Maggie sabia lutar e eu não.

Ter aqueles pensamentos me deu tanta.. tanta raiva, que eu senti meus punhos se fecharem e começarem a tremer. De repente, minha visão começou a ficar... azul. Literalmente azul. Eu conseguia ver Danilo e o solo de gelo que nos cercava, mas tudo só tinha uma cor: azul. Quando eu tentei relaxar, a visão azulada sumiu e eu entendi na mesma hora. Aquela era minha visão de combate. Aquela seria minha visão dali para frente.

Voltei a ficar em posição de ataque mesmo eu não sabendo como isso realmente era e minha visão azulada voltou no mesmo instante. Minhas mãos voltaram a tremer e me agachei para o combate que se formaria a qualquer instante. De repente, senti algo percorrer por minha garganta e o som que saiu por minha boca parecia mais um rosnado. Eu me espantei. Não tinha sido alto, mas eu podia jurar que era um rosnado. Tentei ignorar aquilo e me focalizei nele.

Vi Danilo me olhar estranho, mas eu ignorei aquela sua forma azulada com facilidade; eu só queria derrotá-lo, mais nada me importava. Assim eu provaria que Carlos estava errado por apostar em Danilo e provaria a Barry que eu conseguiria lutar como ele... bem, ao menos parte de como ele lutava.

Danilo suspirou algumas vezes e correu para cima de mim com a cara séria, e eu só esperei por seu ataque.

Quando Danilo estava perto de mim, ele tentou me dar um soco em meu rosto, mas eu pulei por cima dele, dando um salto mortal, e aterrissei no chão com facilidade. Eu, de início, não acreditei que eu tinha feito aquilo. Eu não pulava tão alto assim, eu só sabia correr rápido, eu era o mais veloz de meus amigos e de, se duvidassem, meu irmão também. Seja como for, eu voltei para ele e o olhei. Ele parecia mais incrédulo do que eu.

Ele veio para cima de mim de novo, mas eu estendi a palma da mão para seus pés e o chão coberto de neve o congelou, prendendo seus pés. Ele caiu, mas assim que se levantou ele encostou em seus pés congelados e lançou estavas de gelo para mim assim que descongelou os pés.

Eu esperei...

Assim que as estacas chegaram perto de mim, eu levantei, do chão, um muro de gelo e elas se penduraram nele. Derreti o muro e, em uma sincronia que eu nunca tinha lembrado ter feito antes, puxei gelo do chão e fiz o quádruplo de estacas que ele fez voarem na direção dele.

Ele pulou para o lado, esquivando-se das estacas. Ele correu em minha direção e começou a jogar bolas de neve absurdamente grandes em cima de mim, mas quando elas chegavam perto de mim, eu só estendia a mão e elas se formavam em bolas de água e caíam no chão. Ele se atreveu em jogar mais algumas estacas de gelo em mim, mas eu só as olhei e apertei o punho, e elas se desfizeram.

Danilo jogou mais algumas bolas gigantes de neve e algumas apenas de água em minha direção. Eu estiquei a mão para as bolas de neve e elas explodiram, virando uma pequena nevasca. As bolotas de água vieram para cima de mim. Duas delas vieram em minha direção e, quando chegaram perto de mim, com um movimento rápido e sincrônico, mandei-as de volta para ele. Ele jogou as bolotas de água no chão e me mandou mais uma. Eu esperei a bolota vir para mim e quando ela chegou, juntei minhas mãos e as estiquei para frente. Quando a bolota encostou-se a minhas mãos, ela se partiu no meio; ambas as partes caíram ao meu lado.

Por incrível que pareça, aquilo estava sendo fácil demais. Era como se a água atendesse diretamente ao meu comando; estava parecendo que eu não precisava da sincronia toda para desfazer as estacas e bolas de neve dele. Olhei para minhas mãos e as minhas mãos azuis estavam brilhando... fazendo com que o azul ficasse fluorescente ou mais que isso. Era... era lindo. Tão lindo de se ver que eu quase esqueci que estava em uma luta.

Ele ficou com as palmas das mãos viradas para mim e eu esperei. Ele correu para mim e lançou dois discos de gelos na minha direção. Com o braço, apenas bloqueei aqueles discos e eles voaram longe. Ele pareceu incrédulo, mas continuou a vir a meu encontro e eu ao dele.

Quando nossos corpos se chocaram, começamos uma luta corpo-a-corpo. Ele tentava me golpear no estômago e no rosto, mas eu conseguia bloquear e desviar de todos com bastante facilidade. Aquela visão azulada, minha visão de combate, estava me ajudando, era como se ela me dissesse para que lado defender, que lado atacar. Aquela visão me alertava de qualquer perigo e quando ela aparecia, parecia que minhas habilidades com a água e luta aumentava e ali estava a prova.

Ele tentou me golpear no rosto, mas eu abaixei, lhe dei uma rasteira e, antes mesmo que ele caísse no chão, lhe dei um chute na barriga e ele caiu com um forte estrondo no chão. Afastei-me dele, para tomar bastante distância e minha visão voltou ao normal.

Danilo se levantou devagar.

Eu... eu pensei... disse ele ofegante. Que... que você... não sabia... lutar...

Eu também pensei que não sabia o que era totalmente verdade.

Acho que te subestimei ao dizer que pegaria leve contigo disse ele mais relaxado.

Creio que sim o fuzilei com os olhos.

O.K., então... não pegarei leve dessa vez disse ele.

É o que eu espero falei ainda com a cara fechada para ele.

Ele riu de lado debochadamente e partiu para cima de mim novamente. Minha visão voltou a ficar azulada e eu corri ao seu encontro.

Mais uma vez, o choque quando nossos corpos se chocaram faria qualquer outra cair, mas nós nos seguramos por um tempo. Ele prendendo meu braço esquerdo e eu o direito dele. Ele tentou me golpear com os pés, mas eu conseguia bloquear seus chutes com facilidade.

Em um movimento rápido, consegui me livrar de suas mãos e, girando o corpo, lhe golpeei no peito e ele voou longe. Eu não baixei a guarde, continuei em posição de defesa... ou ataque, sei la. Eu só sabia que não deixaria ele me acertar.

Mas quando ele veio para cima de mim novamente e eu para cima dele, ele me enganou. Antes que nossos corpos se chocassem novamente, ele congelou o punho e, em um movimento rápido e giratório, me golpeou no rosto. Eu andei para trás e, quando fiz isso, ele me golpeou na barriga e me deu um chute no peito também, e voei longe como ele.

Levantei-me rapidamente e me pus em posição de ataque novamente. Quando o olhei, ele já estava vindo em minha direção e esperei...

Quando ele chegou perto e tentou me dar um chute, eu bloqueei seu chute com o antebraço direito e lhe dei um golpe com o punho esquerdo em seu queixo. Ele ficou tonto e aquela era a minha deixa. Aproximei-me dele lhe dei dois socos na barriga, com o dorso da mão direita, lhe golpeei na cara e, logo em seguida, lhe dei uma cotovelada na barriga e ele deu alguns passos para trás e caiu no chão.

Aproximei minhas mãos azuis da boca, puxei o ar e, devagarzinho, soltei o ar. A névoa que saia de minha boca não era uma névoa comum, aquela névoa era congeladora. Quando a névoa chegasse em Danilo, iria congelá-lo. E assim fez. Quando a névoa realmente chegou nele, começou a congelar seus pés, suas pernas, sua cintura, tronco, mãos, braços... ele quase todo. A única coisa que ficou de fora foi o seu pescoço e sua cabeça. Era como se ele estivesse em uma armadura de gelo, só que sua cabeça estava sem o capacete.

Ele tentou descongelar-se, mas eu apontei a palma da mão para ele e as fechei. Minhas mãos começaram a tremer quando as fechei e a armadura de gelo que o cobria começou a trincar, e ele gritou.

Você venceu! Você venceu! disse ele em meio aos gritos.

Eu ri.

Por favor... para! implorou ele.

Ri novamente e o descongelei. Aproximei-me mais dele e lhe ofereci a mão para que se levantasse. Ele, ao contrário de Carlos, não pareceu ser um trapaceiro, pois ele não me golpeou quando segurou minha mão e se levantou logo em seguida. Ele se ajeitou e me olhou.

Cara, você é incrível na luta disse ele. Bem, não na luta em si, mas o seu domínio sobre a água é uma coisa extraordinária! E seus olhos... ele riu consigo mesmo. Seus olhos mudaram de cor!

Levantei uma sobrancelha para ele.

Como é? perguntei não acreditando muito naquilo.

Eu sabia que minha visão tinha ficado azul, mas que meus olhos mudavam de cor? Não! Ninguém nunca ouviu falar que os Elementares da Ilha da Água tinham a cor de seus olhos mudada na hora de combate. Era impossível de acreditar nele. Aquilo não podia ser verdade.

Seus olhos mudaram de cor repetiu ele. Eles estavam azuis. Literalmente azuis. Todo azul.

Impossível falei franzindo a testa.

Ele estava me constrangendo. Estava parecendo que eu era mais uma aberração do que um ser humano. Não era legal. Eu, já, não queria ser um Elementar, mas ser um Elementar que tinha a cor dos olhos mudada era completamente constrangedor. Eu realmente estava achando que eu era uma aberração e eu não queria sentir aquilo.

Eu sabia que, de agora em diante, não poderia entrar em luta alguma a não ser com ele.

Maninho, você foi incrível disse Barry chegando perto de mim e afagando me ombro.

Cara, você tinha que ter vencido disse Carlos para Danilo.

Eu lhe dei uma cotovelada nas costelas.

Ai! reclamou, ele. O.K., O.K., você se saiu muito bem, baixinho.

Assenti e sorri para ele ironicamente.

Obrigado disse eu.

Você vai ter que me pagar, Carlos disse Barry e riu.

Tá, não me lembre disso disse Carlos e esfregou a testa.

Revirei os olhos para eles dois.

Você conta ou eu? perguntou Danilo.

O olhei e revirei os olhos em seguida e dei de ombros.

O.K., eu conto... disse ele. Os olhos ele ficaram azuis. Tipo... azuis mesmo.

Meu irmão e Carlos olharam para mim e eu revirei os olhos. Mas depois que fiz isso, reparei que estava revirando os olhos demais... eu tinha que parar com essa mania.

Isso é verdade? perguntou Barry.

Barry... falei de cara fechada.

Sério? perguntou Carlos.

Isso é verdade? perguntou Barry um pouco mais sério e me olhando nos olhos.

Eu não sabia como responder aquilo, então eu decidi provar. Experimentei aquela sensação de raiva novamente e tentei me concentrar nela. Fechei meus olhos e comecei a sentir minhas mãos tremerem. Abri os olhos e minha visão de combate estava ali. Agachei-me por conta da sensação de luta e tudo estava azul novamente. Barry estava azul, Carlos estava azul, Danilo estava azul... até o sangue que saia da boca de Danilo estava azul eu não sabia que ele estava sangrando até ver sua boca naquele momento; tudo estava azul para mim.

Olhei para eles. Carlos arqueou as sobrancelhas, mas depois riu. Danilo fez a mesma coisa que Carlos, mas Barry... Barry parecia indiferente. Talvez ele estivesse discutindo entre si se aquilo era bacana ou simplesmente horrendo. Eu votava pelo horrendo, mas depois de que eu abaixei a cabeça, ele me abraçou rapidamente.

Eu sou uma aberração, eu sei disse eu abaixando a cabeça assim que nos separamos.

Eu não disse isso disse ele e quando o olhei ele franziu a testa.

Você não precisou falei. Estava em seu olhar.

Ah... foi só o que ele disse.

Assenti com a cabeça e tirei minha visão de batalha, e no mesmo instante minha visão voltou ao normal.

Olhe, eu não ligo para isso, entendeu? perguntou ele me puxando para perto dele. Não dou a mínima para isso.

Nem eu disse Danilo.

Muito menos eu disse Carlos bufando.

Sorri de lado.

Obrigado falei e senti minhas bochechas esquentarem.

Meu irmão bagunçou meu cabelo e lhe dei um soco no braço. Ele reclamou de dor.

Parece que você tem uma força estranha, agora disse ele rindo e esfregando onde eu tinha lhe dado o soco.

É, parece que sim falei mostrando meus bíceps.

Ele riu.

Então vamos ver o quão forte você está, irmãozinho disse ele em tom ameaçador.

Ri de lado abusadamente.

Vamos ver, irmãozão disse eu.

Tudo aconteceu bastante rápido.

Carlos e Danilo correram para longe de nós enquanto meu irmão investiu para me atacar e minha visão de ataque apareceu no mesmo segundo em que ele investiu para o ataque. Mas, com sorte, eu consegui bloquear seu ataque e lhe dei um chute no peito, onde o fez voar longe. Assim que Barry caiu, ele se levantou rapidamente e me jogou algumas estacas de gelo. Elas chegaram perto de mim e, girando o corpo, mandei-as de volta para ele. Ele arregalou os olhos assustado e se jogou para o lado, desviando-se das estacas.

Barry sorriu de lado ao me estudar e correu em minha direção. Corri na direção dele como um borrão.

Quando nossos corpos se chocaram, Barry começou a me dar uma sequência de socos inacreditavelmente forte, rápida e precisa, mas eu consegui desviar e bloquear de todas. Mas, quando eu comecei a revidar com mais precisão, força e rapidez do que ele, ele pareceu se espantar e ficar totalmente surpreso.

Ele parecia que estava se desviando dos meus golpes no susto e eu realmente não estava colocando toda a minha atenção naquilo. Eu nem sequer tinha botado tanta força, força e precisão assim. Eu apenas fazia aquilo... normalmente. Era um pouco divertido ver Barry completamente surpreso e desviando de meus golpes no susto.

Mas, em um movimento rápido meu, lhe dei um soco na barriga, um guincho de direita e, girando, lhe dei outro chute no peito. Ele voou longe novamente. Barry estava começando a ficar irritado. Sua respiração estava tensa (eu sabia disso porque fumaças saiam de suas narinas quando ele respirava), seus punhos tremiam e ele parecia estar em uma posição mais rígida. Eu me perguntava se aquela era a posição dele de ataque.

Ele correu em meu encontro e eu corri para ele novamente. Mas, antes que nossos corpos se chocassem, Barry congelou os braços, como se fossem uma armadura de gelo, e preparou para me dar um soco, mas eu era mais rápido do que ele. Quando meu irmão investiu para me dar um soco, eu abaixei, lhe dei uma rasteira e, antes mesmo que ele chegasse ao chão, lhe dei um chute na barriga e assim ele caiu no chão.

Afastei-me de Barry por precaução e estudei seu corpo. Ele parecia não estar respirando; inconsciente. Eu me espantei. Eu não queria machucar meu irmão, tampouco desmaiá-lo. Corri para perto dele e minha visão de combate sumiu no mesmo instante em que minha preocupação se manifestou em mim. Quando me abaixei, Barry me surpreendeu, dando um soco em minha barriga e, com a palma das mãos, me aplicou um golpe no peito e aquilo me fez voar para longe, e cair no chão coberto de neve. Aqueles golpes doeram.

Aquilo me deu tanta... raiva dele, que, em um pulo, eu já estava de pé no segundo seguinte e tudo estava azul novamente. Parte do meu cérebro estava com tanta raiva de Barry, que minha visão ficou um azul mais intenso, quase escuro e eu sabia que aquilo estava, não representando a raiva, mas sim o ódio; eu senti outro rosnado se formar em minha garganta e ele saiu pela minha boca com facilidade, e aquilo assustou ele. Outra parte do meu cérebro só estudava as possibilidades de derrotar Barry, de como derrubá-lo, como atacá-lo, como... matálo. E eu consegui ver isso com facilidade.

Barry veio em minha direção novamente com os braços congelados e eu segui na direção dele. Assim que chegamos próximos, pulei por cima dele e parei com minhas mãos em meus ombros. Ele olhou para cima e me contemplou olhando para ele de cabeça para baixo e apoiado em seus ombros. Eu estava pendurado nos ombros de Barry. Ele me olhou espantado e ri para ele. Em outro movimento rápido, inclinei-me para me soltar dele e, antes que eu caísse com os pés no chão, lhe dei um chute nas costas e ele andou para frente.

Barry virou-se para mim, mas era tarde demais para ele. Eu comecei a lhe dar uma sequência de socos e chutes com força, rapidez e bastante precisão. Ele desviava de algumas, para ser honesto, mas ele estava levando a maior surra de mim... seu irmão caçula. Quando lhe dei dois socos em seu peito e o fizeram andar para trás, puxei a água do gelo aos meus pés e lhe joguei um enorme jato de água. Aproximei minhas mãos da boca e assoprei o ar. A névoa que iria congelá-lo foi bastante rápida para chegar nele e logo ele estava preso em uma bola de gelo dava para vê-lo lá dentro.

Afastei-me da bola de gelo e ela começou a se descongelar eu não era burro, Barry também era um excelente dominador de água, ele iria sair dali rapidamente. Quando ele se descongelou ele veio para cima de mim como um louco, completamente raivoso e ainda com os braços congelados. Quando tentei bloqueá-lo, ele me, com um movimento rápido, enganou e me acertou na cara. Senti gosto de sangue na boca.

Tudo o que eu senti depois que me ajoelhei no chão por conta da tontura, foi a água caindo sobre mim. Água, água e mais água. Quando eu abri meus olhos, eu estava dentro de uma enorme bolha dágua quando digo enorme, não é uma simples bolha, eu digo uma bolha de quase o dobro do tamanho de Barry. Mas aquilo não me incomodou. Eu prendia a respiração, mas quando não prendi mais e inspirei a água, nada se alterou. Quando a água chegou aos meus pulmões, era a mesma coisa que ar; eu sabia respirar debaixo dágua.

Tentei focalizar Barry, mas era completamente difícil fazer aquilo debaixo dágua. Respirei fundo (sim, é possível para quem respira debaixo dágua), fechei meus olhos, juntei minhas mãos e me concentrei. Tentei canalizar a água e, com uma reação involuntária de minhas mãos, elas se separaram e a água começou a entrar dentro de minhas mãos. Literalmente.

Quando abri meus olhos, eu já estava de pé e sem água me prendendo. Olhei para Barry e, aproveitando que ele estava incrédulo, eu soltei aquela água que entrou em minhas mãos. Não joguei a água nele, mas passei a água por meu corpo, envolvendo meus braços, corpo, pernas e cabeça, e com o ar que saiu e minhas narinas, congelei a água que estava me cobrindo, me fazendo uma espécie de armadura de gelo.

Ela não tinha peças medievais e nem nada do tipo, eu simplesmente parecia estar coberto de gelo... era como se fosse uma pele, porém dura e maciça. Eu nunca tinha pensado que poderia fazer uma coisa daquelas e ninguém nunca ouviu falar de um Elementar da água da Ilha da Água fazer aquilo que eu tinha feito. Eu era único uma aberração, mas único.

Barry ainda estava incrédulo e, ainda com minha visão azul e meu cérebro pensando em derrotá-lo, eu lhe dei o maior soco no peito que eu pudesse ter dado em toda a minha vida. Barry voou bem longe. Quando cheguei perto dele, segurei ele pela blusa e lhe dei socos no rosto e alguns em sua barriga. Ele ficou inconsciente.

Barry estava sangrando e ele não parecia mais capaz de lutar. Ele abriu os olhos e me olhou assustado. Eu ri dele e o soltei. Ele caiu no chão, mas se pôs de pé logo em seguida. Ele se aproximou de mim, pôs as mãos em meus ombros e riu.

Irmão... você... disse ele um tanto ofegante. Você... me superou. Parabéns!

Ri sem graça. Eu sabia o quanto aquelas palavras podiam ser para Barry. Ninguém o ganhava durante cinco anos e perder para seu irmão caçula que não sabia lutar não era nada legal de se admitir.

Obrigado, irmão disse eu.

Fechei os olhos e me descongelei, fazendo com que a água que me cobria caísse no chão coberto de gelo.

Eu não estava molhado, nem mesmo estava suado. Parecia que aquela luta não tinha me feito fazer esforço algum. Os ferimentos que Barry poderia ter me causado, não doíam e quando me tateei, não encontrei dor em lugar nenhum; eu não estava ferido. Era absurdamente estranho e bacana saber daquilo, pois eu me curava e era um lutador melhor do que meu irmão.

Ouvi a risada inconfundível de Carlos e alguns murmúrios de Danilo se aproximando de nós dois.

Você foi... absolutamente incrível, Thayer! disse Carlos.

É, demais, carinha Danilo levantou o polegar para mim e piscou para mim.

Ahn... valeu levantei o polegar para eles dois.

Meu irmão pigarreou.

C-como... como você fez isso? perguntou ele. Você ficou quase dois minutos sem respirar, você se congelou, tinha um poder de combate incrível e seu domínio estava extraordinário! meu irmão parecia tão incrédulo quanto eu.

Eu não teria acreditado em suas palavras se eu não as tivesse presenciado. Era absurdo saber que eu tinha ganhado do melhor lutador da Ilha da Água, que eu tinha um domínio excepcional e muito melhor do que qualquer habitante da Ilha da Água sobre a água... eu, um simples garoto da Capital que tinha 15 anos e magricela fora Escolhido pelo próprio Grande Spiritus e se tornado o Elementar da Ilha da Água.

Ter aqueles pensamentos me fez rir por um momento.

Como você se sente? perguntou Barry me trazendo para o mundo real.

Pensei por um momento e dei e ombros.

Me sinto bem disse eu. Bem até demais.

Desde quando você tem tanta força assim? queixou-se Barry. E desde quando é tão bom de luta quanto eu? ele olhou para o nada, como se estivesse entrando em conflito consigo mesmo. Você não mentiu para mim quando disse que não sabia lutar, não é? ele me olhou semicerrando os olhos.

O olhei incrédulo.

É claro que não! cruzei os braços para ele.

Carlos pigarreou.

Eu sou prova disso disse ele. Seu irmão é um péssimo lutador. Ele já até perdeu para Maggie... bem, quero dizer, ele era um péssimo lutador corrigiu-se ele após que lhe olhei fuzilando-o com os olhos. Parece que ele sabe lutar agora.

Lógico que ele tinha que se corrigir. Eu não queria ser lembrado de quando eu tinha sido derrotado por Maggie em uma de nossas lutas por diversão. Eu estava ganhando a luta por domínio da água, mas Maggie é tão boa nisso quanto eu e, quando ela foi para um combate corpo-a-corpo, eu fui derrotado em apenas dois socos dela; um no estômago e um na cara. Fim de luta. Maggie vence. Maravilha!

E é um excelente dominador da água disse Danilo sorrindo para mim.

Ouvir seu elogio me deixou completamente sem graça. Eu não era acostumado com pessoas me elogiando a não sei Barry ao ver minhas notas na escola, mas isso é outra e longa história, e eu não queria presenciar cada comentário novamente.

Escondi o rosto para eles para não me verem ficando vermelho.

Não sou bom assim disse eu baixinho.

Você só pode estar brincando, não é? perguntou Carlos.

Ah, qual é, carinha bufou Danilo.

Mas é claro que você é, irmãozinho disse Barry sorrindo para mim.

Assenti para ele.

Você não... não está com raiva por eu ter te vencido? perguntei quase escondendo o rosto.

Ele bufou e riu.

Mas é claro que não, moleque disse ele e riu. Mas é claro que se você contar isso para alguém, eu acabo contigo, não sabe? perguntou ele sério.

Quando o olhei com os olhos arregalados, ele riu e piscou para mim.

Isso vale para vocês dois também disse Barry se referindo para Carlos e Danilo.

Barry mostrou os músculos para eles e eles dois engoliram em seco.

Não, não... nunca disse Danilo com medo em sua voz.

É, cara... jamais disse Carlos também com medo.

Ótimo disse Barry satisfeito.

Dei uma cotovelada em meu irmão.

Barry... revirei os olhos para ele.

Ele apenas riu.

Eu ainda me pergunto como você ficou assim... disse Barry.

Não era óbvio?

Não é óbvio? perguntei. Faz parte da minha adaptação. Todos sabem que meus poderes sobre a água, minha força, agilidade... tudo meu foi aumentado. Isso já era previsto, não finja que se esqueceu disso falei um tanto irritado.

Uma voz única, profunda, forte e grave disse bem atrás de nós:

E ele está completamente certo.

Quando nós quatro viramos, vimos um leão não um leão qualquer. Aquele era o leão.

Nós quatro nos ajoelhamos diante do Leão que era o Grande Spiritus.