Spiritus ― Os Elementares

1 Capítulo 1 — O Novo Mundo


O PLANETA TERRA NÃO ESTÁ MAIS COMO VOCÊ IMAGINAVA QUE ELE ERA. TUDO NELE mudou, deixando de existir tudo o que você sabia que nele existia. Não existem mais países, não existem mais línguas diferentes, não existem mais transportes— exceto os que não poluem o meio-ambiente —, não existem mais meios de comunicação eletrônica como meus avós contavam para mim que existiam antigamente. A única coisa que existe até hoje são as fotografias tiradas de eras e eras atrás. Tudo realmente mudou.

Os países que constituíam em um continente, agora são um só e conhecidos como Ilhas. Agora só existe uma língua universal para que todos ao redor do mundo pudessem se entender— e ninguém sabe dizer qual é a língua que usamos atualmente. Os únicos transportes que temos hoje em dia são barcos a vela e aqueles que não poluem a Terra. Nada de carros, aviões, motos ou qualquer outro tipo de transporte que poluía a Terra — não que eu tivesse visto algum deles pessoalmente, somente por fotografias, mas, segundo meus avós, aquilo realmente existiu. Hoje em dia, só registramos as coisas em nossas cabeças e por fotografias desenhadas. Nada de máquinas. Com isso, também não temos meios de comunicações eletrônicas.

Tudo isso é conhecido como O Novo Mundo.

A maior Ilha que existe, é a Ilha Spiritus. Lá, só há selva e um enorme vulcão que ficava no centro da Ilha e ele tem a cor vermelha, branca, azul, verde, amarela e preta nele. Árvores e mais árvores, rios e mais rios, florestas e mais florestas, animais e mais animais, e por aí vai, são o que habitam a Ilha. Ela é totalmente localizada onde antigamente todos chamavam de Continente Africano. Porém, lá não é quente como diziam que era. O clima mudou. Agora é um clima totalmente agradável e tropical. Não é mais quente como eras atrás e agora habita o Grande Spiritus.

A segunda maior Ilha é a Ilha do Ar. Ela é atualmente localizada onde todos chamavam de Continente Asiático. Ela abriga os Elementares do Ar. Os habitantes da Ilha do Ar são os profissionais em cultivar alimentos. Eles plantam, cuidam, colhem, exportam alimentos. A comida que chega para todas as Ilhas, basicamente, vem deles — todas as Ilhas produzem seus alimentos, mas não com a qualidade que a Ilha do Ar nos fornece. Todos os que são Elementares do Ar têm o domínio sobre o elemento ar, assim como alguns dos habitantes, mas os Elementares são mais poderosos e fortes, e suas mãos são brancas. Literalmente brancas. A Ilha do Ar também tem o seu vulcão bem no meio da Ilha e ele é totalmente branco. Tipo, totalmente mesmo. E há um Templo dentro dele, mais conhecido como o Templo do Ar. Agora, como chega lá? Eu não sei. Não sou um habitante da Ilha do Ar. Os habitantes da Ilha do Ar são conhecidos por serem os mais relaxados. Assim, eles são na deles, mas eles não gostam de serem provocados, pois sabem brigar — mas eles nunca brigam. Amam fazer amizades, mas são totalmente emotivos quando se sentem ofendidos.

A terceira maior Ilha é a Ilha do Fogo. Ela é atualmente localizada onde todos chamavam de Continente Norte-Americano. Ela abriga os Elementares do Fogo. Os habitantes da Ilha do Fogo são profissionais em produção de alumínio, ou qualquer outro tipo de metal— menos o ouro, a prata e o bronze. Eles também exportam tudo isso para as outras Ilhas, assim como a Ilha do Ar exporta suas produções para todas as outras Ilhas. Todos os Elementares da Ilha do Fogo têm o domínio sobre o elemento fogo, assim como alguns dos habitantes também. Os habitantes da Ilha do Fogo são conhecidos, também, por serem completamente rigorosos. Eles seguem as regras, ordens e leis de seu Governador direitinho e não ousam em deixar de seguir as ordens. São sempre sérios entre si, mas são gentis e bastante educados com os outros habitantes das outras Ilhas. No passado, eles foram os responsáveis de terem começado uma pequenina revolução com a Ilha da Terra, mas também foram os que acabaram com essa revolução e pediram perdão para todas as Ilhas— nenhuma Ilha guardou rancor por causa daquilo e hoje convivemos em harmonia, mas a Ilha do Fogo se sente envergonhada com esse fato até os dias de hoje. Os Elementares da Ilha do Fogo têm suas mãos vermelhas, eu digo todas totalmente vermelhas. Lá também tem um vulcão e ele é totalmente vermelho e dentro do vulcão há um Templo, mais conhecido como o Templo do Fogo. Como chega lá? Eu também não sei, eu não sou um habitante da Ilha do Fogo.

A quarta maior Ilha é a Ilha da Água. Ela é atualmente localizada onde todos chamavam de Continente Sul-Americano e América-Central. Ela abriga os Elementares da Água. Os habitantes da Ilha da Água são profissionais de pesca, produção de peixe e produção de qualquer outro fruto do mar. Eles exportam tudo isso, também, para as outras Ilhas. Sem excessão. Todos os Elementares da Ilha da Água têm o domínio sobre o elemento água, assim como alguns habitantes também. Os habitantes da Ilha da Água são conhecido como os mais pacificadores. Eles nunca entram em confilito com ninguém. Nunca, na história do Novo Mundo, eles entraram em uma guerra. São sempre felizes, carismáticos, bem receptiveis e extraordinários lutadores. Sempre seguem as regras, ordens e leis de seu Governador, mas eles, como as outras Ilhas — com exceção da Ilha do Fogo—, nunca precisaram de advertência por conta de não seguirem as regras e ordens. Os habitantes da Ilha da Água não são de brigar, mas nunca tire sarro ou se meta no caminho de um habitante da Ilha da Água, eles também sabem lutar. Seus Elementares Escolhidos têm suas mãos azuis. Literalmente azuis. Não importa qual seja a etnia da pessoal, elas sempre terão as mãos azuis— isso equivale para qualquer Ilha também. E os habitantes da Ilha da Água tua sua própria floresta— não era como as florestas da Ilha Spiritus e nem tinha os seus hectares, mas eles tinham uma. O vulcão da Ilha da Água é localizado no centro da Ilha e ele é totalmente azul. Literalmente azul. Há um Templo no vulcão, mais conhecido como o Templo da Água. Como se chega lá? É preciso meia hora de subida para conseguir chegar ao Templo da Água. Como sei? Fácil, eu sou um habitante da Ilha da Água.

A quinta maior Ilha é a Ilha da Terra. Ela é atualmente localizada onde todos chamavam de Continente Europeu. Ela abriga os Elementares da Terra. Os habitantes da Ilha da Terra são profissionais de produção de outro, prata, bronze, carvão e qualquer outro tipo de mineral extraído da terra. Eles também exportam suas produções para todas as Ilhas. Todos os Elementares da Ilha da Terra têm domínio sobre o elemento terra, assim como alguns dos habitantes também. Os habitantes da Ilha da Terra, antigamente, eram conhecidos como os metidos. Sempre tentaram se sentir superiores do que os outros, mas, com a pequenina revolução da Ilha do Fogo para com a Ilha da Terra, isso mudou. Hoje em dia, eles são conhecidos por serem os que mais gostam de ajudar as outras Ilhas com suas riquezas e são totalmente justos. Eles preferem conversar e resolver uma situação feia civilizadamente. Mas não tentem passar a perna neles, eles podem preferir conversa, mas quando se trata de briga, podem ser completamente estourados. Perdem a cabeça muito fácil— você poderia esperar isso de alguém da Ilha do Fogo, mas o mundo mudou. Nada é como você espera que seja. Os Elementares da Ilha da Terra têm suas mãos verdes. Completamente verdes. O vulcão da Ilha da Terra é completamente verde e há um Templo lá. Como se chaga lá? Eu não sei, não sou um habitante da Ilha da Terra.

Há duas Ilhas que você precisa saber mais: a Ilha da Luz e a Ilha das Trevas.

A Ilha da Luz é localizada onde todos chamavam de Antártida. Ele não exporta mercadoria nenhuma. Lá, em eras atrás, era completamente frio e cheio de gelo. Hoje em dia, a Ilha da Luz foi reduzida ao tamanho da Ilha das Trevas e não há mais frio e gelo. A temperatura dela é igual a das outras Ilhas. Ambas tem o mesmo tamanho agora. A Ilha da Luz tem poucos habitantes e o seu produto é as esferas de luz. Não há como exportar aquilo, eles só produzem para si. A Ilha do Fogo tentou buscar uma revolução com eles por serem os únicos que conseguem produzir luz, mas o Grande Spiritus conseguiu acabar com isso com apenas uma palavra. E essa palavra era: não. Na Ilha da Luz não há escuridão. Nunca. É luz o tempo todo. Ao menos é o que diz o Grande Spiritus. Nem todos daquela Ilha têm o domínio sobre o elemento luz e os Elementares dela têm suas mãos amarelas. Totalmente amarelas. São pessoas adoráveis e dóceis. Nunca conseguem enxergar o mau nos outros direito, mas assim que enxergam, viram um dos maiores lutadores do Novo Mundo.

A Ilha das Trevas é localizada onde todos chamavam de Oceania. Ela também não exporta mercadoria nenhuma. Lá era conhecido como A Ilha da Escuridão— mas ninguém mais usa esse termo porque o Grande Spiritus disse que não era o termo que ele queria que fosse usado para se referir a Ilha das Trevas, então, ninguém mais usa o termo. O tamanho da Ilha das Trevas é o mesmo tamanho da antiga Oceania— ou seja, a Ilha da Luz também tem esse tamanho. A Ilha das Trevas é totalmente escura. Nunca há iluminação lá. Nunca. Lá é escuridão o tempo todo, mas todos os habitantes da Ilha das Trevas conseguem enxergar no escuro. Todos, sem exceção. Ao menos é o que o Grande Spiritus diz. Nem todos os habitantes da Ilha das Trevas têm o domínio sobre o elemento trevas e os Elementares têm suas mãos pretas. Totalmente pretas. São pessoas adoráveis e dóceis como os da Ilha da Luz. Nunca conseguem enxergar o mau nos outros direito, mas assim que enxergar, também viram um dos maiores lutadores do Novo Mundo.

Você esperaria que a Ilha das Trevas fosse habitada por pessoas sombrias. Sim, existiram pessoas sombrias naquela Ilha (assim como tinha nas outras Ilhas também) há quatrocentos anos atrás. Eles foram os causadores da maior guerra das Ilhas. Todas as Ilhas contra a Ilha das Trevas. Eles estavam vencendo, pois os habitantes da Ilha das Trevas têm os seus truques— assim como os habitantes de suas respectivas Ilhas. Na época, o nome do causador dessa revolução era conhecido como Trevas. Ele fazia com que todos os habitantes da Ilha das Trevas fossem seus escravos e soldados sobre pressão. Nem mesmo eles gostavam de Trevas. Mas, de qualquer modo, Trevas e sua tropa venciam a guerra, e o Grande Spiritus os baniu desse mundo, com a ajuda dos Elementares, e desde então, os habitantes da Ilha das Trevas são gratos ao Grande Spiritus por os aceitarem de volta, perdoando-os, e não banindo sua Ilha e seus habitantes.

As Ilhas vivem em paz e harmonia agora, apesar de tudo que já aconteceu antes. Mesmo todos tendo treinamentos para combate e aulas sobre como dominarem seus elementos— para as crianças abaixo de doze anos e os acima de 60 anos —, todas as Ilhas são amigas e vivem em harmonia. Quase nada de tão grave acontece no Novo Mundo.

Os Elementares aparecem quando algo de grave pode acontecer no Novo Mundo. Já fazia quatrocentos anos quando Trevas havia tentando dominar o Novo Mundo. Uma vez Escolhido, o Elementar não podia voltar atrás e não há nada que o Elementar possa fazer para passar essa Escolha para outra pessoa. Uma vez Escolhido, sempre Escolhido. Quando um Elementar é Escolhido, suas mãos mudam para a cor do vulcão de sua Ilha e não há como tirar a cor de sua mão. A cor fica com o Elementar até que o Elementar morresse. Aquilo queria dizer que ele ou ela teria que ir para a missão que poderia levar a sua morte, porque nenhum Elementar e ninguém sabe o que irá enfrentar.

Os Elementares são Escolhidos pelo próprio Grande Spiritus. Quando há a seleção dos Elementares, Grande Spiritus aparece na Praça Pública que há em cada Ilha. Ele aparece do nada e, com sua grande voz inconfundível e única, chama a atenção de todos. Ele sabe quando todos estão, sem exceção, na Praça. Daí, o Grande Spiritus faz a seleção. Ele chama a pessoa pelo nome e sobrenome e não importa a idade que a pessoa tem— exceto pelas crianças de colo, aqueles que têm abaixo de doze anos e os acima de 60 anos. Se ele chamar, a pessoa tem que ir. A partir daquele momento, a pessoa vai até o Grande Spiritus e, com um sopro, a pessoa tem suas mãos com a cor do vulcão de sua Ilha e suas habilidades de combate e domínio elementar é aumentado de tal forma, que ninguém nunca conseguiu calcular para dizer. O Grande Spiritus, após selecionar a pessoa, dá um determinado tempo para a pessoa se preparar e depois partir para a Ilha Spiritus. Um de cada Ilha é selecionado e encaminhado para a Ilha Spiritus. Seja ele homem ou mulher. Menino ou menina. Se for selecionado, tem que ir.

O Grande Spiritus tem quatro formas. A que ele mais usa é a forma de um Leão para representar força, domínio, sendo ele o Rei das Ilhas, e lealdade. A segunda forma é a de uma Coruja para representar guerra, sabedoria e esperteza. A terceira forma é a forma de Espírito para representar amor, carinho e paz. Ele literalmente vira um espírito (como um fantasma) e essa forma varia para cada pessoa. Cada pessoa vê quem ela mais ama. A quarta forma é de uma Bola de Luz e é a forma para qual ele se transporta para as Ilhas. Ele nunca fica nessa forma para conversar com alguém. Somente para transporte. O Grande Spiritus sempre faz a seleção dos Elementares na forma de Leão ou Coruja. Nunca na forma de Espírito e nem na Bola de Luz. Ele não quer assumir aquilo que a pessoa mais ama para lhe mandar em uma missão quase suicida, creio eu.

A Ilha da Água, a Ilha em que vivo, era toda cercada por um único e enomre muro de gelo — eu nunca soube como podia ter gelo ali com aquele clima rodeando o mundo, mas eu nunca reclamei. O símbolo de nossa Ilha era uma lua cheia com um golfinho dentro, não era exatamente o símbolo que eu usaria, mas era tudo ao gosto do Grande Spiritus, então eu não podia reclamar. Mas, para falar a verdade, eu até gostava do símbolo.

Na Ilha da Água, as coisas eram bastante alegres. Todos vivem em paz e harmonia, assim como deveria ser nas outras Ilhas também. Nossa Ilha era sempre cercada por crianças, pessoas jovens, famílias grandes e pequenas, contadores de histórias e felicidade. Sempre estávamos rindo e tudo era quase motivo de festa.

O vulcão ficava no centro da Ilha. Até cem metros de distância, rodeando o vulcão, do vulcão, as casas eram feitas de tijolo e cimento, e eram completamente feitas em terrenos sem gelo e com plantas, árvores, alguns mercadores e famílias não muito pequenas. Tinha um enorme rio que rodeava todo o vulcão, e as casas ao redor do vulcão tinha livre acesso para poderem usufruir do rio. Eu morava em uma dessas casas e ali onde eu morava, não era frio. A temperatura do local era totalmente agradável. Era possível andar apenas com camisa de manga ou sem manga. Aquela área era chamada de Capital.

Cerca de duzentos metros depois dessas casas— e ainda rodeando o vulcão—, tinha às casas, já de gelo, ligadas com as pontes e ruas por cima dos rio. Lá já era frio (a ponto de você precisar de casaco para andar nas ruas) e sempre havia rio. Sempre. Todo o local que você andava você via um rio. Era incrível o quanto você via água em tudo quanto é lugar e pessoas passeavam de barcos naqueles rios. Era realmente lindo e vale lembrar que nada em nossa Ilha ou no Novo Mundo é poluído e aquele era o lugar de famílias grandes. Cerca de vinte metros dessas casas de gelo, em direção ao sul, havia o palácio do Governador. O palácio também era azul e absurdamente grande, mas, ele também era de gelo. Parecia ter mais de vinte quartos, era de três andares, contendo uma torre bem alta. Era como se fosse um minicastelo de cristais de gelo. Era bastante lindo. Aquela área era chamada de Centro. Essas casas de gelo ocupam o resto da Ilha, exceto no norte porque lá tem onde era Floresta Amazônica, sendo lá ainda uma floresta, porém não tão grande quanto milhares de anos atrás e totalmente sem gelo. Totalmente em temperatura igual a Capital.

Eu moro com meu irmão e meus avós em um terreno com duas casas bastante grandes — uma para meus avós e uma para mim e meu irmão. Não tenho mais pais, porque meus pais foram mortos em um terrível assassinato por um delinquente ao porto da Ilha — quando as mercadorias chegavam de navios, os guardas dominadores de água abaixavam os muros para podermos comerciar as coisas. Eles estavam fazendo um pequeno passeio e, quando menos esperavam, o assassino estava assaltando-os. Quando meu pai reagiu, o assassino os matou a facadas. O Governador o prendeu, mas Grande Spiritus o baniu do planeta.

O Grande Spiritus era o que executava as leis finais nas Ilhas e ele era o que dava a sentença de morte. O Governador prendia a pessoa e o Grande Spiritus aparecia para matá-la em sigilo. Só o Governador sabia quando a pessoa morria e ele, depois da pessoa executada, avisava para todos da Ilha—foi assim que meu irmão, meus avós e eu soubemos que o assassino que matou meus pais morreu. Se ele via necessidade para algum acusado sofrer pena de morte, ele o bania da Terra. Não de forma cruel, ele bania a pessoa da Terra de forma não letal. Sem dor, sem sofrimento. A pessoa simplesmente... se vai. Aquilo era a forma de ele ter o controle de tudo, para que nada de violência, morte e coisas do gênero ocorra nas Ilhas. Agora, como ele fazia isso, ninguém sabia. Ninguém, também, nunca tinha perguntado. O Grande Spiritus era o que mantinha o equilíbrio na Terra, se era preciso da morte daqueles que causaram mortes em algum ponto de qualquer Ilha, ele bania a pessoa do planeta.O Grande Spiritus só saia da Ilha Spiritus para banir as pessoas do planeta, ver como andam as coisas nas Ilhas e selecionar os Elementares. Fora isso, ele sempre ficava em sua Ilha. Não saia de lá para nada. O Grande Spiritus é o equilíbrio de tudo.

De qualquer forma, Grande Spiritus apareceu em minha Ilha no ano em que eu tinha completado quinze anos. Era o meio da tarde. Crianças brincavam na Praça Principal— a qual era totalmente diferente da Praça Pública —da Ilha, os mercadores estavam fazendo suas vendas e alguns moradores comprando, todos sempre com um sorriso no rosto. Tudo estava tranquilo e não imaginávamos que Grande Spiritus chegaria naquele local e naquela tarde. Mas ele veio.

Eu estava conversando com minha melhor amiga Maggie — ela morava aos arredores do Centro — em sua casa. Maggie era uma menina de cabelos ruivos com cachos nas pontas, pele clara como a neve, olhos azuis intensos e ela era um pouco mais baixa do que eu, e tinha uma beleza inacreditável. Eu não sabia como ela queria ser a minha amiga, mas foi por acaso e não reclamo. É bom tê-la por perto. De qualquer forma, estávamos nas ruas de gelo que rodeavam a sua casa e dobrando a água para passar o tempo enquanto esperávamos nosso outro amigo, o Carlos. Carlos era um rapaz de pele morena, era mais alto do que eu, careca, olhos castanho-claros e, também, de uma beleza incrível. Ele é incrivelmente forte e definido, e também morava no Centro. Ele era o mais velho de nós três, tendo 17 anos, depois vinha Maggie com 16 e eu com 15.

Contudo, quando Carlos chegou até nós, depois de fazer-nos esperar mais de vinte minutos, ele disse com sua voz inconfundível:

— Olá! — ele acenou com a mão para nós.

— Já estava na hora, Carlos— disse Maggie revirando os olhos.

— Porque tanta demora?— perguntei um tanto irritado.

Ele coçou a careca.

— Bem, eu tive que ajudar a minha mãe nas tarefas de casa e cuidar de meus irmãos até que ela chegasse— explicou-se ele.—Não foi nada fácil e divertido— ele fez uma careta.

— Tudo bem— disse Maggie e eu juntos.

— Então, qual é a novidade?— perguntou Carlos.

— Nem tenho— disse eu. — E vocês?

Maggie revirou os olhos.

— É mais fácil um raio me atingir do que eu ter algu...

Naquele instante, uma voz forte, grave, penetrante e única interrompeu a fala de Maggie e disse:

— Cidadãos da Ilha da Água, eu os convoco.

Maggie, Carlos e eu nos olhamos. Nós sabíamos de quem era aquela voz e sabíamos o motivo de sua convocação. A seleção dos Elementares iria ocorrer e se perdêssemos o Grande Spiritus não sairia de nossa Ilha. Só tínhamos uma coisa para fazer: ir até a Praça Pública.

Depois de nos entreolharmos, seguimos para a Praça Pública correndo. Na verdade, estávamos disputando uma corrida para ver quem chegasse primeiro e eu, como sempre, estava ganhando. Eu era o melhor corredor da Capital e deles dois, que moravam no Centro.

À medida que chegávamos perto da Capital, a temperatura começava a mudar e éramos obrigados a tirar nossos casacos. Ninguém era louco de ficar de casaco em uma temperatura quente e agradável, não é mesmo? De qualquer forma, tiramos nossos casacos e os penduramos em nossas cinturas.

Quando pisamos no solo da Capital, vimos que uma grande variedade de pessoas já estava na Praça Pública. Crianças, jovens, adultos, senhores, mercadores, pescadores... famílias me geral. Todas as pessoas da Capital estavam ali e as pessoas do Centro estavam começando a chegar. Quando olhei para o trono no centro da Praça, lá estava o Grande Spiritus.

Ele estava em sua forma de Leão. Ele estava sentado no trono com sua juba castanho-avermelhada, sua calda balançava em uma dança lenta e formosa. Ele olhava para nós com atenção. Sempre que alguém chegava, ele movia a cabeça para as pessoas e, por incrível que pareça, dava um sorriso para elas. Sim, ele realmente sorria. Você deve se perguntar como um leão podia sorrir, mas ele podia. Afinal, quase nada era impossível para o Grande Spiritus.

— Vou atrás dos meus pais — disse Maggie.

— E eu da minha família— disse Carlos.

Assenti para eles.

— O.K.— falei.— Eu vou atrás do meu irmão.

Eles assentiram para mim e cada um foi para um canto se separando.

Mas, por mais que eu tentava olhar para as pessoas da multidão a procura de meu irmão, eu não consegui encontrá-lo. Ele não estava perto de um dos bancos da Praça, não estava perto da padaria, nem do comércio. Tentei ver se ele estava perto do rio, mas ele também não estava.

Aquilo me desesperou. Ele sabia que se ele não aparecesse na Praça, Grande Spiritus não iniciaria a cerimônia de seleção ou podia bani-lo do planeta— sim, o Grande Spiritus podia bani-lo do planeta, mas dependia. Se a pessoa não aparecia por fugir, o Grande Spiritus podia ir atrás, se ele quisesse, dela e bani-la. Eu não conseguiria viver com os meus avós e sem meu irmão. Corri atrás dele em meio a multidão. Eu tinha que achar ele de qualquer maneira. Custe o que custar. Eu não ia querer meu irmão sendo banido do planeta.

Eu não pedia licença para as pessoas— eu era uma pessoa extremamente educada, mas eu não era em situações como aquelas, quase ninguém mais era educado em ocasiões como aquelas. Eu até tentava dizer alguma coisa, mas não saia nada de minha boca.

Ele não aparecia, meu irmão tinha sumido. Mas, quando eu bati em uma pessoa, que mais parecia uma parede de tão dura, e a olhei, era ele. Barry Stryder, meu único irmão mais velho.

— Ai! — reclamei.

— Thayer!— ele me abraçou fortemente.— Até que enfim te encontrei, carinha. Eu estava preocupado!

— Eu que estava— falei lhe dando um soco no braço e ele riu.— Onde você estava? Eu estava te procurando...

— Eu estava procurando você— disse ele.— Você não estava na casa de nossos avós.

— Eu estava no Centro com Maggie e Carlos— falei.

— Entendi— disse ele.— Venha, vamos para um lugar melhor.

Assim que ele falou aquilo, eu olhei para onde estávamos. Estávamos perto de nossa casa e perto de uma pequena plantação de morangos. Barry apoiou uma de suas mãos em meu ombro e fomos para mais perto da Praça.

Chegando à Praça, Barry ainda continuou com a mão apoiada em meu ombro e ao meu lado. Nós conseguimos ficar perto o suficiente para ver o Leão que era o Grande Spiritus. Ele ainda estava sentado sobre as duas patas traseiras em cima do trono e esperando o resto da população da Ilha Spiritus chegar— nossa Ilha não era tão populosa assim. Éramos muitos, mas nem tanto assim.

O Leão rugiu e todos pararam de falar imediatamente. Era a hora da seleção. Grande Spiritus se levantou, ficando de quatro patas e deu mais um rugido, porém mais longo e mais grave. Ele se sentou novamente sobre as duas patas traseiras.

— Todos sabem o porquê da minha chegada— disse ele em sua voz grave, forte, penetrante e única.

Claro que todos sabiam. Estava prestes a acontecer uma coisa ruim com o nosso planeta.

— Como todos vocês sabem, a minha chegada é para Escolher aquele ou aquela que batalhará contra o mau— disse Grande Spiritus olhando para todos nós com seu olhar penetrante.— Perdoem-me por chegar desta maneira— como sempre, ele era totalmente gentil e educado.—Eu queria não tirar a paz, a harmonia e a felicidade que transborda sobre esta Ilha, sinceramente não preferiria — disse ele em tom tristonho—, mas é preciso.

Ouvi muitos gemidos de pessoas fazendo sons tristes em seus lugares. Olhei aos arredores e vi Maggie e Carlos do outro lado de onde eu estava. Maggie estava no meio de suas irmãs menores, segurando a mãozinha das duas pequenas. Seus pais estavam com as mãos apoiadas no ombro da garota. Carlos com seus seis irmãos (três meninas e três meninos), sua mãe e seu pai. Eles sorriram para mim e fiz o mesmo.

Sempre pensávamos como seria a vida de um Escolhido, mas, quando realmente tentávamos imaginar como seria a missão suicida que podia ser, sempre descartávamos. Nenhum de nós três queríamos ser Escolhidos e a probabilidade disso acontecer era minúscula. Havia milhares de pessoas ali, podia ser qualquer um. Mas, um de nós três, eu duvidava disso. Era mais provável ser a pessoa ao meu outro lado do que eu mesmo. Pouco provável que fosse algum de nós.

— Eu irei dizer o nome do Escolhido, mas os lembro: nada pode mudar o fato se você for Escolhido — disse ele em tom sério. — Uma vez Escolhido, sempre Escolhido — ele repetiu a frase que assombrava a maioria dos jovens moradores de minha Ilha.

Tentei não parecer nervoso, mas era quase totalmente impossível. Fazia quatrocentos anos que Grande Spiritus não aparecia para chamar o Elementar. Por que ele viria agora? O que tinha de errado com o Novo Mundo para ele chegar até nós? Apesar de eu saber que não seria o escolhido, eu tinha medo.

Eu não queria enfrentar as forças do mau para com o Novo Mundo. Eu não sou um covarde, se é o que você pensa, mas eu não queria deixar o meu irmão e meus avós. Meu irmão era a pessoa que eu mais amava no mundo. Ele tinha assumido o papel de pai e mãe para mim desde muito cedo e eu tinha desenvolvido um carinho e dependência por ele muito grande. Eu não podia ser selecionado e dizer adeus ao meu irmão. Mas eu não iria ser selecionado. Disso eu sabia.

Chacoalhei minha cabeça em negativa e olhei para o grande Leão que estava sentado sobre as patas traseiras. Ele olhou para toda a multidão e, em seguida, para mim. Eu me assustei. Seus lábios se abriram em um sorriso no instante em que ele fixou seus olhos em mim. Eu tentei desviar meus olhos dos olhos vermelhos dele, mas ele me olhou tão fixamente que eu não pude deixar de olhá-lo também.

— Thayer Stryder — disse Grande Spiritus —, eu Escolho você. Você é o Escolhido da Ilha da Água.