Spiritual detectives
4 Manual de como nunca mentir para si mesmo
Notas iniciais
Seu corpo estava repousado no sofá da sala, seus olhos fixos na parede e pensamentos perdidos no assassinato de Iven. Várias perguntas absurdas vinham em sua cabeça, por um momento ele queria saber de tudo sobre ela.
Ouviu-se passos. Valentina vinha com duas xícaras coloridas nas mãos, sentou na poltrona ao seu lado e entregou a ele uma xícara. Beni aceitou-a sem dizer uma palavra em agradecimento.
– Não pode ficar assim o dia todo.
Disse Valentina.
Beni tirou seus olhos da parede e encarrou Valentina sério. Ela ignorou seu olhar se preocupando com suas goladas no chá de morango.
– Devíamos ter ido ao enterro.
Disse ele fechando os olhos.
Valentina revirou os olhos e fungou. O que adiantaria terem ido ao enterro, a moça com toda a certeza não levantaria do caixão vivinha novamente.
Foi o que ela pensou enquanto dava outra golada em seu chá.
– Sei o que está pensando, de nada adiantaria nossa ida ao enterro. Começou Beni – Mas pelo menos conseguiríamos substituir a cena da pobre moça morta daquele jeito, por ela dormindo tranquilamente em um caixão.
– Nada nem ninguém costuma tirar da minha cabeça coisas como essas.
Disse Valentina desviando o olhar da xícara para o amigo no sofá. Esparramado no sofá como uma criança com a xícara de chá que ela fez ainda em uma de suas mãos sem ter dado nem uma gole.
– Tome o chá, vai te fazer bem.
Sorriu ela de modo preocupado.
Beni ignorou a preocupação da amiga, levantou-se do sofá já farto das bobagens dramáticas dela. Pousou a xícara de chá na mesinha de centro e laçou um olhar cansado para Valentina. Atravessou a sala e saio batendo a porta. A maioria das brigas entre eles eram assim silenciosas, apenas olhares desaprovadores e portas batendo.
Beni gostava muito de Valentina, mas as vezes suas reclamações e sua visão pessimista incomodava. De cabeça baixa direcionou-se para a garagem.
– Ei Beni!
Ouviu uma voz feminina chamar seu nome, levantou a cabeça e viu uma mulher ruiva sorrindo para ele parada ao lado de um carro preto.
–Olá,Hayden.
Cumprimentou ele.
Hayden era uma das irmãs de Valentina, a irmã do meio para ser mais exato. Tinha longos cabelos ruivos e bem lisos, era baixinha e magrela, seu rosto era divertido seu nariz era pequenino e gordinho, sua boca fina e seus olhos castanhos.
– Como vai?
Perguntou ela.
– Vou bem e você?
– Melhor que ontem.
Respondeu ainda sorridente.
– Que bom, fico feliz em saber que já se recuperou tão rápido do seu rompimento.
– Pois é, não adianta eu lutar por um relacionamento como aquele.
Beni concordou com a cabeça e forçou um sorriso.
– Está indo embora tão cedo, o que houve?
Perguntou ela.
– Meio que brigamos...
– De novo.
Interrompeu Hayden incrédula.
– Pois é, as vezes e muito difícil ser amigo da sua irmã.
Acrescentou ele.
– Não fique assim, eu vou falar com ela.
Prometeu Hayden.
Beni concordou com a cabeça, se despediu com um aceno e voltou a caminhar até o carro com os olhos castanhos sobre ele. Usou a chave do carro para abrir a porta, se acomodou no banco do motorista e fechou a porta. Deu a partida e se distanciou da garagem vendo Hayden se despedir acenando.
Para dizer a verdade, a vida de Beni Land era tediosa sem Valentina por perto. Ao abrir a porta do apartamento contemplou a sua solidão e saudades do tempo em que aquele lugar era cheio de vida. Ao entrar os fantasmas do seu passado o seguiu. Uma garotinha de cabelos loiros e olhos amavelmente azuis brincava com as almofadas do sofá da sala, sua irmãzinha quando menor tão brincalhona, feliz e carinhosa.
Sentada no tapete da sala sorridente acariciando um cãozinho amarelo, seus cabelos castanhos encaracolados caiam suaves sobre os ombros, seus olhos chocolate brilhavam ao ver Beni. De tanto afeto que ela tinha por ele.
Aquela era sua prima Jade Land e seu filhotinho peralta, Nott. Eles vivam visitando Beni.
Na cozinha estavam sentados à mesa um bando de homens igualmente loiros de olhos azuis, eles estavam jogando cartas e bebendo suco de maçã com hortelã que era servido pela mulher de cabelos longos e pretos, com olhos chocolate e sorriso encantador. Esses eram os irmãos Wate e a tia Ambre. O ponto auto de todos aqueles fantasmas do passado vistos apenas pelo pobre inspetor. Eram Wilfred e Ester Land. O casal que tentava cozinhar almondegas para o jantar.
Wilfred era muito auto chegava a bater a cabeça no armário da cozinha, cabelos absurdamente loiros e olhos nem claros nem escuros. Uma mistura de chocolate e azul.
Ester era muito baixa ao lado do marido, tinha o cabelo loiro com os do irmãos Wate na verdade eles eram muito parecidos. O que não era estranho pois eles eram irmãos.
Beni sacudiu a cabeça tentando esquecer o passado, se jogou no sofá ao lado de onde o vislumbre de sua irmã brincava. Fechou os olhos tentando faze-los desaparecer. Se esforçou ao máximo para esquecer por ora da sua vida feliz e perfeita do passado.
Abriu os olhos tudo parecia ter sumido. Suspirou aliviado, mas por pouco tempo já que ao olhar em direção a grande janela que havia no fundo da sala. La estava o fantasma mais vivo que já havia visto, olhos dourados e sérios, cabelos com luzes loiras e bochechas rosadas.
– Annie.
Ela tinha um sorriso debochado que o incomodava, braços cruzados, seu vestido branco esvoaçava com o vento que vinha da grande janela aberta e suas mãos estavam apoiados na mesinha de mármore bem abaixo a janela. Vê-la o machucava muito mais do que ver seus pais, ela o lembrava do quanto ele era cruel e idiota. Tão serena, inteligente, corajosa e linda mas ele nunca conseguiria ama-la do mesmo jeito que ela o ama.
Algumas lagrimas cristalinas rolaram dos olhos dela.
– Isso e tudo culpa sua!
Gritou ela em desespero antes de desaparecer.
Beni segurou as lagrimas. Aquele não era bem um fantasma, pois Annie estava bem vivinha e muito magoada com ele.
Ainda abalado e sentado no sofá, esticou a mão até a mesinha do lado direito onde ele pegou um caderninho velho. Abriu, passou algumas páginas até chegar em uma sem nada escrito, tirou do bolso interno do sobretudo uma caneta e a usou para escrever:
Eu magoei a primeira pessoa que confiou em mim, que me aceitou com eu era sem me dar ordens malucas e a única mulher que me amou completamente sem nem um interesse. Sou um grande idiota por ter feito isso. Cruel com uma pessoa tão dócil, eu mereço tudo que tenho. Minha instabilidade e minha solidão.
Mas a verdade e que nem mesmo Valentina pode tomar seu lugar, Annie.
Após escrever isso fechou o caderninho onde em letras pequenas podia se ler. Manual de como nunca mentir para si mesmo.
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