Notas iniciais
Esse capítulo é dedicado à minha leitora e amiga Nicole Lisboa. Obrigado por ter me forçado a escrever e ameaçado minha vida e família por tantas semanas. Esse aqui é para você.

Aaron

Lilith estava diante dele mais uma vez. O cheiro doce de seus cabelos cobria tudo que existia, sendo carregado pela brisa morna da tarde.

Aaron engoliu seco. Eu te amo tanto... Sua pele era tão pálida que a luz do sol parecia ser incapaz de penetra-la, e era macia, como era macia. Seu toque era delicado e fresco, e ele se perdia naqueles olhos azul-pálidos, olhos vivos e penetrantes; olhos que não piscavam.

Seu estômago embrulhou-se de saudade, mas por quê? Ela estava diante dele. Diante dele mais uma vez. Era tudo que ele precisava. Ele a amava.

O Sol se punha. Era como ele se lembrava. Era clichê, era perfeito. Há quanto tempo seu coração não batia tão forte, tão forte?

“Você não fica cego olhando para o sol assim?” ela perguntou. Sua voz era fina como a de uma criança e não mais alta do que sussurros. Quase sempre suas frases eram desprovidas de nuances de entonação. As sílabas silvavam de seus lábios musicalmente, e se carregavam com a brisa suave.

“Depois que você se acostuma, não incomoda tanto... e as nuvens estão cobrindo o Sol quase inteiro, não viu?” ele se forçou a olha-la, apesar de seu coração agredindo o tórax com a força de suas batidas.

“Não... na verdade, eu estava olhando para você” ela disse, com a sugestão de um sorriso em seus lábios pálidos e carnudos.

Aaron desviou o olhar do dela, que era como um poço hipnótico azul. Deitado na grama úmida, o som distante das ondas se quebrando metros abaixo da falésia relaxavam seus músculos quando ela deitou sua cabeça delicadamente sobre seu peito. O perfume de seus fios negros era ainda mais forte agora e ele os acariciou, deixando que deslizassem por entre seus dedos como fios de seda virgem. Essa era a paz que ele sonhara por toda a sua vida.

Ela o encarou com um sorriso devasso e ergueu seu corpo, deixando ambos os rostos próximos. Lilith sempre fora gelada, mas seu toque era morno dessa vez. A palma daquela mão pequena e delicada estava em sua testa, afastando o cabelo de sua franja.

“Eu gosto mais quando você põe a franja para o lado. Assim...” ela sussurrou enquanto penteava sua franja para o lado e se aproximava olhando-o nos olhos.

A mão quente de Lilith era tudo que restava do mundo quando seus olhos se fecharam suavemente, esperando receber os lábios dela no beijo que sempre sonhou.

Ao abrir os olhos, uma garota de cabelos dourados e embaraçados avaliava sua temperatura.

“Não se mexa muito, vai abrir os pontos. Eu explico tudo em um instante.” Ela disse.

Aaron se sentiu confuso. Lilith? A... a falésia de Woodside... onde estou?

Tudo voltou em um só instante. A conversa com Lilith, o ataque à cidade, o duelo com Kaoro, a fuga para a floresta. William. O ataque dos salteadores.

“William!” Aaron tentou exclamar e se erguer, mas foi impedido pela dor lancinante que se estendia em diagonal desde seu abdômen até seu peito. Seu grunhido de dor foi a única coisa que saiu de sua boca enquanto a garota o repousava de volta contra a esteira de palha em que estava deitado. Seu toque era preciso, mas delicado.

“Shh... Calma, calma... Deite-se e relaxe, você vai acabar abrindo os pontos. Você levou um belo de um corte aí.” Ela disse em tom reconfortante enquanto o fazia deitar novamente. “Vamos por partes, pode ficar tranquilo que logo entenderemos toda a situação. Vamos começar pelo básico. Meu nome é Mellanie, e te achei sendo perseguido pelos salteadores da floresta, então... eu assumo que você não seja um deles. Agora... quem é você?”

Lilith... O beijo... tudo estava distante agora. Seu estômago se contorceu em amargura. Nada aconteceu. Ela não estava mais lá.

“Eu não sou nada”, disse. “Eu não sou ninguém.”

“Desculpa?” a pobre garota respondeu confusa.

Era uma mentira, o sonho era uma mentira. Ele ainda podia sentir o toque dela, o cheiro dela. Nada aconteceu. Lilith não era sua, e ele queria voltar ao sonho. Aaron sentiu seu peito se contrair como se fosse a primeira vez em que ele notou que seu amor jamais seria retribuído. Era só um sonho, e ele havia acordado no pesadelo.

“Moço, eu preciso de algumas respostas. Você tá parado há um bom tempo aí olhando para o nada e, olha, eu gostaria muito de te ajudar. Por favor, olha para mim.”

Aaron a olhou, confuso. Agora ele a enxergava. Ela tinha o corpo de uma criança magra. Seu busto era plano, seus braços tinham os ossos bem notáveis sob a ausência de músculos e seus olhos eram escuros sob um emaranhado de cabelos dourados. Rosto sujo, unhas quebradiças, dedos finos e compridos em mãos magras e fracas. Ela cheirava a seiva e animais selvagens. Aaron sentiu repulsa ao vê-la. Se apoiou em seus cotovelos. Ele havia levado um golpe na cabeça, por isso doía tanto. Agora ele se lembrava.

“Quem... quem é você?” Ele perguntou, confuso. “Eu preciso achar... William...” disse, entre ofegadas de dor.

“Eu acabei de me apresentar, mas ok, vamos de novo” ela disse num tom animado, mas isso não animou Aaron de volta. Ele sentiu um pingo de irritação em seu peito. “Meu nome é Mellanie. Sou... um tipo de curandeira daqui da floresta. Eu esta...”

“... você é uma elfa?” Aaron a interrompeu.

“Não... eu não sou uma elfa. Digo, não que eu saiba. Minhas orelhas não são pontudas, eu durmo... Definitivamente não sou uma elfa. CONTINUANDO,” ela disse enfaticamente, “eu estava... passeando pela floresta e te vi com problemas. Você estava sendo perseguido por caras maus, te achei meio encalhado na margem do Rio Madeira. Você ia morrer, eu te trouxe para cá. Agora, por favor, quem é você?”

“Você devia ter me deixado morrer...” Aaron disse se erguendo com dificuldade.

Mellanie se ergueu com inesperada agilidade e se pôs a bloqueá-lo.

“Não, não, não senhor, você não vai levantar. Pode parar com esse papo besta de herói incompreendido de balada de bardo — e sério, para de tentar se levantar. Não sei se notou, mas você está com um cor...”

“Meu nome é Aaron, e meu amigo William pode estar precisando em mim. Com licença, por favor.” Aaron disse, interrompendo-a novamente e gesticulando para que saísse de seu caminho. Ela hesitou por um instante e deixou que ele levantasse. Foram só cinco passos depois que Aaron notou a bandagem no seu peito. Ele olhou para trás, e Mellanie o encarava pensativa e de braços cruzados.

“Me desculpe,” ele continuou, “eu realmente preciso encontra-lo. Você trocou minha bandagem, certo?”

Ela assentiu com a cabeça.

“Obrigado.”

Pareceu que vestir seu corselete demorou dolorosas horas. Ele afivelou seu cinto, prendeu sua bainha e sentiu a espada pesar como nunca em seu flanco esquerdo. Ele se sentia triste, sentia falta de Lilith. Estava ansioso e preocupado ao pensar em William, e mal conseguia se concentrar no fato de que uma garota misteriosa havia salvado sua vida. Ela havia mentido sobre estar passeando na floresta e encontra-lo, mas ele não tinha tempo nem cabeça para questiona-la. Estava suturado, limpo e quase descansado e isso era o que importava.

Eu não sou nada...

Ao se virar, ela já estava pronta.

“Estou indo com você”, ela disse.

“Como é?” Aaron indagou confuso. “Não. Digo, olha, eu aprecio e muito tudo que está fazendo, mas não há mais nada que possa fazer comigo. Eu não vou lá conversar com esses caras e garanto que você não quer ver o que vai acontecer depois que eu e o William nos encontrarmos, então por favor fique em algum lugar seguro.”

“Eu sei que você não está indo lá para beber chá, Aaron, deu para perceber. Eles que te machucaram? Aí no peito?”

As memórias o atingiram como uma flecha. Kaoro. O duelo. Lilith. O sonho.

Eu não sou nada...

“Uh... olá?” Mellanie disse com olhar de preocupação. “Acho melhor você se sentar. Você levou uma pancada forte na cabeça, deu para perceber. E você está lento para raciocinar, pode ter sofrido uma concussão ou algo parecido.”

“Não é isso... Mellanie, certo?” Ele esperou que ela assentisse com a cabeça antes de continuar. “Vou tentar te explicar de maneira simples, e então, por favor, me deixe seguir meu rumo. Eu passei por uns maus bocados nesses últimos dois dias, e ainda estou... pensativo a respeito. Então não, eu não sofri uma concussão. E sim, foram eles que me cortaram. Emboscaram a mim e meu amigo William. Enfrentávamos alguns deles quando recebi algum golpe na cabeça e acordei aqui. Agora estou indo.” Ele disse e virou de costas para ela, seguindo o som do rio para descobrir em que ponto da floresta estava.

A garota o seguia.

Céus.Tem uma mendiga me seguindo.

Ele olhou por cima do ombro. Ela olhava para ele como se o estudasse enquanto o acompanhava silenciosa. Ela carregava apenas um cajado improvisado de madeira virgem, provavelmente para dar apoio enquanto andava em pontos traiçoeiros da floresta. Sua paciência começava a se esgotar.

“Mellanie...” ele disse, parando abruptamente, “eu realmente estou grato pela sua preocupação e ajuda, mas você não pode fazer nada para me ajudar agora. Eu não quero uma menina indefesa sendo estuprada na floresta por sabe-se lá quantos bandidos nojentos por minha causa. Eu não estou em condições de ficar te defendendo, já que argumentar sobre os traumas que você vai sofrer ao assistir o que vou fazer com eles não adiantou.”

Ela ergueu o cajado, séria e concentrada, e um projétil do tamanho de um coco partiu rápido e brilhante até o casco de uma árvore, e com um estrondo se chocou causando mais estrago do que um golpe de maça. Seu coração parou por um instante, e seu estômago se gelou de surpresa.

“Bruxa...”

“Maga.” Ela disse, resoluta.

Aaron hesitou por um momento. Era uma situação delicada e confusa. Ele não gostaria de irritar a bruxa –ou maga, seja lá qual for a diferença – e ela não parecia uma pessoa má, mas ele já viu o que homens são capazes de fazer apenas porque há uma mulher indefesa perto deles. Ela poderia explodir um ou dois, mas sabe-se lá quantos daqueles bandidos estavam a solta na floresta? Um deles seguraria seus braços, o outro suas pernas — -

Me ajude! Os gritos voltavam à sua cabeça, como se ele voltasse àquele dia. O par de olhos em horror suplicando por socorro. Voltados para ele. O julgando.

Ele fechou os olhos, forçando as pálpebras uma contra a outra com toda a força possível. Eu preciso me focar. O sonho me abalou mesmo. Por que ela quer me acompanhar? Porra, por que eu ainda não perguntei para ela?

Aaron começou a seguir na direção do rio e acenou para que ela o seguisse.

“Você está me seguindo... por que? Está preocupada?”

“Um pouco, claro, mas... você tem um número surpreendente de cicatrizes. Pelo visto, não é fácil te matar, então a preocupação não é tão grande.”

“É... e parece que agora tenho uma nova para a coleção.” Disse Aaron, e riu amargamente.

“Eu acredito que vocês estão indo para Edenia, certo?” Ela perguntou de maneira apressada.

Como ela sabe disso? Aaron se perguntou, tentando imaginar algo que tenha dado pistas à garota. De repente pareceu óbvio, mas não custaria nada perguntar.

“O que te faz pensar isso?” Ele questionou, olhando por cima do ombro para ver como ela o acompanhava. Ela se movia pelas grandes raízes com a destreza de um animal selvagem. Só agora ele prestara atenção nos trapos rústicos marrons que ela vestia. Aaron sentiu coceiras só de imaginar o toque do tecido.

“Vocês vieram de Woodside, e eu vi sinais de luta seguindo ao norte. Você estava encalhado – com o perdão da expressão – mais ou menos uns cem metros ao sul dos primeiros corpos... Estão indo ao norte, Edenia. Provavelmente por causa do ataque que aconteceu recentemente, não é? Fugindo? Se unindo ao exército Edeniano?”

Aaron sentiu a palavra “fugindo” atingir seu orgulho como uma flecha. A garota era esperta, mas merecia um soco na boca por achar que ele estaria fugindo da obrigação de defender sua vila.

“Não estamos fugindo, estamos procurando alguém. Digo, agora estou procurando William, mas estamos procurando um... refugiado. Em Edenia, claro.” Aaron pensou por uns poucos segundos ao chegarem na margem do rio. “Me diga... você disse que houveram sinais de luta, corpos... Você cruzou com alguém vivo?”

“Um punhado de pessoas. Por aqui.” Ela disse, apontando por uma pequena travessia de pedras oculta sob a correnteza.

Ela realmente sabe por onde vai. Deve morar aqui na floresta. Uma bruxa... não, uma maga da floresta. Seria uma sacerdotisa da deusa Naturis?

“Você não cruzou com um rapaz alto com cabelos dourados e compridos, não é? Ele costuma usar um penteado com rabo de cavalo e tem uma armadura de couro tingida em azul celestial... ah, e uma capa branca -- Porra!” Ele exclamou ao quase escorregar numa pedra.

“Pise com mais suavidade. Se você pisa muito forte, você vai escorregar, bater a cabeça, e acordar no oceano.” Ela disse, virando-se para observa-lo com a facilidade de alguém que pisa em terra firme. “Não, eu não me recordo de ter visto ninguém assim...” Ela completou a travessia e ajudou Aaron a pisar na terra úmida e cheia de lodo da margem.

“Certo. Eu imaginei...” Seu ferimento do peito latejava agora, e a sutura ardia sua carne. Ele continuou a segui-la pela margem leste do Rio Madeira até que tomou coragem de perguntar.

“Mellanie,” disse ele, chamando a atenção da garota. “eu gostaria de saber... você não parece muito incomodada com essas mortes. Você já matou alguém?”

Ela voltou a olhar para seu caminho, mas desacelerou o suficiente para que ambos ficassem lado a lado enquanto caminhavam. Sua voz agora era um sussurro. “Sim. Duas vezes. Acho que não tenham sido tantas quanto você, mas o que podemos fazer nesses dias em que não se pode sequer viver em paz na floresta? A vida nos dá as circunstâncias e nós nos adaptamos.”

Aaron concordou com a cabeça. “Então você mora aqui... Escondida, provavelmente. Certo?”

Mellanie sorriu para ele e responderia alguma coisa, mas ambos pararam ao notar um corpo entre as árvores. Ela partiu na frente, silenciosa como se flutuasse sobre a grama. Aaron desembainhou cautelosamente sua espada longa e após checar seus arredores, seguiu até a garota. Era um salteador, morto com uma penetração de espada na barriga. Havia rastros de batalha em toda a parte, e esses rastros seguiam por uma pequena trilha de morte até que se perdesse de vista por entre as árvores. Ele a seguiu.

Esse foi cortado horizontalmente no ventre. Pirueta, provavelmente. William o matou, agora lembro. Aquele lanceiro morto lá atrás foi estocado com força o suficiente para quebrar algumas costelas e recebeu uma morte de soldado...

Aaron olhou afiadamente por alguns galhos quebrados.

Flechas. Flechas no casco da árvore. Sem sangue por perto, William as notou e tomou cobertura, pela proximidade...

Ele deu a volta na grande árvore suavemente. A floresta pareceu silenciar por um minuto, e seus dedos percorrendo o cascalho acompanhando as pegadas suaves por entre a grama suspenderam tudo a seu redor, e Aaron se deparou com o baile da morte. Nove mortos. Ele embainhou a espada.

Pelo castigo no chão... William disparou na direção deles. Aquela flecha... ele desviou de uma flecha e girou em outra pirueta vertical aqui. Havia outro salteador, mas ele pareou o golpe. Foi quando esse aqui tentou ataca-lo pelo flanco... um lanceiro. William deve ter girado, acertado-o no pescoço. A cabeça está presa no resto do corpo por uma tira de carne.

Ele recuou um pouco, deve ter pareado simultaneamente esse outro salteador e um lanceiro ao mesmo tempo. Aqui. Aaron pensou ao se ajoelhar no chão para ver uma marca mais de perto. Ele notou Mellanie se aproximando para o ver rastreando seus arredores. Inflou o peito em orgulho. Aaron era o melhor que conhecia nisso.

Nesse ponto... William pareou algo bruscamente... Aaron olhou seus arredores e notou. Pelas deusas! O filho da puta pareou uma machadinha em pleno ar! Aqui... sangue. Um golpe de raspão. Dois lanceiros foram desarmados aqui e... aqui. Um perdeu a mão e teve a cabeça partida por algum golpe particularmente selvagem. O outro foi empalado de alguma forma pela própria lança. William continuou lutando com aquele salteador... o cara deve ser bom. Um comandante?

O ferimento no tórax de Aaron queimava, e ele podia sentir o sangue umedecendo a sutura, mas isso não o incomodava. Ele acompanhava freneticamente os rastros deixados pela batalha, deduzindo, descobrindo, rastreando.

... e assim o segundo atirador de machados foi partido em dois num corte diagonal. O tempo todo William devia estar desviando de flechas. DESVIANDO. DE. FLECHAS. Aqui está o desgraçado... um espadachim, algum tipo de líder dos bandidos mesmo. Caralho, eu sou foda. Morto, espada quebrada. William o acertou com tanta força que o pareamento foi inútil. Espada de baixa qualidade partida na altura da guarda, corte limpo atravessando a clavícula. Os arqueiros devem ter sacado suas espadas nesse momento, sedentos de sangue ou raiva. Ou incrédulos de não darem conta de William, encorajados pelos ferimentos dele. Ele devia estar bem ferido. Grave erro. Dá para ver claramente que eles foram os três cortados num golpe só. William... cambaleou por entre essas árvores.

Esse arbusto destruído tem sangue... Ele deve ter caído aqui. Se levantou nesse ponto e seguiu na direção do rio... Creio que para seguir atrás de mim, algum deles deve ter me jogado lá, esperando que eu me afogasse. Ele seguiu para o sul por... não, espera. Ele voltou para o norte? Passos pesados, mas pela direção dos pés não são de dor. Ele encontrou alguém, alguma coisa. Por aqui.

Aaron sempre valorizou e admirou profundamente as proezas marciais de William, mas uma sensação de pavor inexplicável tomou conta dele naquele momento. Seu coração acelerou enfraquecendo suas pernas, sua garganta secou e “Você não é nada” permeava em sua cabeça. A voz de Kaoro. Ele não era nada.

William. Ele seguiu por aqui e... PUTA QUE PARIU!

“WILLIAM!” Aaron gritou do fundo de seus pulmões ao partir correndo com todo o resto de forças que lhe restavam na direção de uma árvore caída dentre várias. William estava caído debaixo dela, suas pernas retorcidas grotescamente.

“Não, não, seu filho da puta, isso só pode ser brincadeira. WILLIAM!” Aaron gritou e um toque gentil em seu ombro foi recebido com um tapa.

“Aaron, tem salteadores aqui! Você tem que ficar quieto, eles podem ter ouvido-“ Mellanie tentou responder, mas foi interrompida.

“EU NÃO QUERO SABER NEM SE UM DEMÔNIO ESTÁ AQUI! O WILLIAM...” Aaron gritou a plenos pulmões e engasgou com a própria saliva numa tosse dolorida enquanto acompanhava a preocupação se tornar temor nos olhos da maga, ou bruxa, ou o diabo que o seja. Ele reuniu toda a sua força e ergueu até onde conseguiu o enorme tronco, seu estomago embrulhando em antecipação pavorosa. Ele arrastou com dificuldade a árvore para sua esquerda, liberando o corpo de William em meio a um som grudento e gosmento que o encheu de repulsa e tristeza em igual escala. Cego por lágrimas que já queimavam detrás de seus olhos, ele olhou perifericamente para seu amigo imóvel e deixou a árvore cair de seu punho com um estrondo seco no chão de folhas derrubadas.

Seus olhos estavam fechados suavemente, e um carrinho de mão derrubado repousava próximo à sua cabeça. Seus lábios estavam pálidos e azulados, e sua pele acinzentada era coberta por uma camada de sangue seco. Seu abdômen estava aberto, e suas entranhas pendiam para fora, brancas e inchadas, cobertas pela ocasional camada de sangue seco, suas pernas retorcidas grotescamente numa imagem que deu um nó no estômago de Aaron em pavor e incredulidade.

Lágrimas escorrendo, Aaron não conseguiu dizer nada: sua traqueia parecia fechada num doloroso aperto. Ele não sabia como agir nem como reagir ao que via. Se ajoelhando e tomando a cabeça de seu melhor amigo em mãos, Aaron fechou os olhos em dor, e enquanto suas lágrimas dançavam rosto abaixo, tudo que ele conseguia era lembrar de seus anos de treinamento.

Servir. Esse era o propósito de William. Ele havia perdido sua noiva há dois anos e mesmo assim se manteve forte e decidido a continuar servindo. Poucos meses depois, ambos aceitaram um contrato para caçar uma criatura que rondava as fazendas ao sul de Woodside. Acreditando que se tratava de um warg, ambos foram encurralados durante a noite por uma alcateia gigantesca. “Não posso morrer hoje, não vou morrer hoje. Tenho muito o que lutar ainda... lutar pelo rei de Edenia, não é? Com você como escudeiro? Estamos aqui para servir.” E ambos riram naquele momento que agora parecia tão distante e irreal.

William teve um espasmo. Gorgolejando sangue, seus olhos manchados abriram-se assustados e fracos, e sua expressão mudou para dor enquanto suas entranhas se contorciam grotescamente noutro espasmo. Ele olhou confuso para os olhos de Aaron.

“Aaron...?” Outra tosse, mais sangue gotejado nele. Aaron queria ajudar o amigo, mas a situação estava tensa demais para que ele soubesse o que fazer. Ele não sabia o que dizer, o que fazer, o que pensar, e nada fez fora olhar confuso para William sofrendo e incapaz de morrer.

“Corre... corre deles. Você... não sabe...” William tentou prosseguir, mas só vomitou sangue e perdeu os sentidos.

Aaron rapidamente checou seus sinais vitais. William ainda estava vivo. Ele estava aberto ao meio, mas ainda vivo. Aaron teria que fazer alguma coisa. Uma sensação estranha lhe dizia para correr. Dizia que seja lá quem (ou o que) fez isso com William poderia aparecer e fazer pior com ele, mas do outro lado, seu instinto o enchia de raiva.

Ele olhou ao redor freneticamente, seu coração acelerando num ritmo nada saudável. Mellanie estava lá, olhando chocada para a situação. Ele havia esquecido dela por um instante. Sua cabeça pulsava numa dor terrível a cada batida descontroladamente rápida de seu coração.

“Venha cá. Mellanie, por favor, vem aqui.” Aaron sussurrou com a voz trêmula e seca e tocou sua adaga. William precisava morrer...

... mas ser sacrificado como um cavalo? Ele não merecia isso. Não o William. O sonho dele era servir. Ele vivia para servir. Ele dizia diariamente “aqui para servir”, quer em tom de brincadeira ou seriamente, mas só de olhar para os intestinos dele gotejando esmagados para fora do corpo, era questão de minutos até o fim sofrido de sua vida. Ele merecia uma morte melhor.

Aaron tentou tirar a adaga da bainha, mas não tinha forças, quer físicas ou emocionais. As lágrimas desciam em cócegas quentes pelo seu rosto, e suas mãos tremiam, incapazes de puxar a bainha e dar uma morte honrada a ele.

Eu preciso matar o William... eu preciso... matar meu melhor amigo...

Ele começou a desembainhar a adaga, mas a guardou de volta. William precisava morrer uma morte limpa e acabar com todo esse sofrimento, mas era simplesmente difícil demais. Aaron já havia matado sua cota de seres sencientes, mas isso era um nível totalmente novo. Eles se aventuraram juntos, amadureceram juntos, lutaram juntos, sobreviveram juntos. Aaron chorava em suspiros surdos enquanto segurava indecisamente o cabo da adaga. Ele olhou determinadamente para o rosto de William e puxou a adaga...

... mas não conseguiu. A embainhou novamente. Isso era demais para ele. Aaron sentiu que vomitaria em cima do amigo e afastou seu rosto para o lado, sentindo a saliva engrossar insalubre no fundo de sua boca, e foi quando ouviu duas coisas preocupantes. Um carrinho de mão segurado por Mellanie e ao longe, mato balançando com o movimento de pessoas se aproximando pela sua direita.

“Coloca ele aqui. Rápido, precisamos sair daqui.” Mellanie sussurrou, apontando para o carrinho de mão com uma seriedade que Aaron julgava impossível pelo brilho infantil dos olhos e o tom gentil que ela havia carregado até então.

Aaron não desonraria William dessa maneira. “Eu não vou colocar ele num carrinho de mão, ele vai morrer, eu preciso...”

“Você não vai matar ele.” Mellanie interrompeu. “Ele é importante para você, deu para notar. Eu sou curandeira, mas não faço milagres. Eu acho que... droga, não dá tempo de explicar, eles tão se aproximando! Vem comigo, eu conheço alguém.”

Aaron nunca entendeu o porquê, mas naquele momento, ele confiou nela. Talvez tenha sido a confiança no tom de sua voz, talvez tenha sido o fato de ela ter cuidado bem de um estranho e o acompanhado para uma busca que certamente acabaria em desgraça. Aaron suspeitou dela com toda a sua esperteza, mas ela tinha razão. Eles não tinham tempo para isso. Não agora.

Ele olhou com pena para seu amigo desfalecido em seus braços em uma situação tão precária que já parecia morto.

Eu vou me arrepender disso, mas William já está morto de qualquer forma. Ao menos assim eu tenho tempo para...

Aaron se ergueu. Ele só se lembrou de que estava com uma costura gigantesca no peito porque sentiu alguns pontos estourarem, e uma dor lancinante quase o jogar de volta ao chão. Ambos colocaram com cuidado o jovem soldado no carrinho de mão, suas entranhas deslizando molhadas e mornas em suas mãos. Virando-se, Aaron secou o sangue das mãos nas coxas, sacou sua espada e a segurou com ambas as mãos, entrando em guarda.

“Onde eu te encontro?”

“Hã?” Mellanie respondeu confusa. “Espera aí, você precisa vir comigo!”

“Não. Eu preciso vingar William.”

“Você tá louco? Olha o que fizeram com ele! Você tá machucado, você não...”

“Onde... Eu... Te encontro?” Aaron a interrompeu agressiva e pausadamente.

“Eu não tenho força para empurrar ele!”

“Arrume força então, caralho! Onde eu encontro você?”

Ela olhou para ele chocada e ofendida ao ouvir o “caralho”, e desviou o olhar pensativa por uma fração de segundo. Ela o olhou novamente, determinada.

“Segue o Rio Madeira até você ver uma árvore avermelhada retorcida. Os galhos dela terão formato de W e vai ter uma pedra com três círculos encostada nela. Segue à esquerda, atravessando o rio. Só segue, eu vou te encontrar.”

“Tá, sai daqui rápido” Aaron disse com pressa, virando de costas para a maga. Eles estavam lá.

“Não morre, Aaron.” Ela disse, e foi embora empurrando o carrinho com dificuldade sem esperar por resposta.

Foram apenas alguns segundos depois que ele conseguiu achar a resposta e sussurrou, inseguro.

“Vou tentar...”

Seu coração batia forte. Primeiro de ansiedade e apreensão, então de medo. Medo de morrer e nunca mais ver sua mãe ou Lilith. Medo de agir como um herói vingador e falhar como um jovem idiota movido por poemas de calabouços e dragões. Medo de William morrer daquela forma desprezível...

... mas o medo rapidamente se tornou ódio ao se lembrar da situação de seu amigo. O que eles fizeram com William e sabe-se lá quantos outros era imperdoável, inaceitável. Era ele que traria a retribuição. Seu coração ardeu e se inflamou de ódio e desdém, e ele sentiu a raiva num refluxo de sentimentos ruins que borbulhou garganta acima, e rosnou em ódio indescritível, suas feições se transformando nas de um homem possuído por todo o desdém do mundo. Então Aaron bradou aos quatro ventos

“VENHAM, FILHOS DA PUTA! VENHAM TODOS, ME MOSTREM O QUE SE PASSA POR FÚRIA ENTRE SUA ESPÉCIE MISERÁVEL!”

E eles vieram.

Notas finais
Se você gostou desse capítulo, me diga o que achou! Se não gostou, me diga também! Sua opinião vale o mundo para mim. Agradeço por ter lido até aqui. Nos vemos no quinto capítulo, onde continuaremos a história de Helena!