Helena

Ela estava sentada há meia hora e batia seu calcanhar insistentemente no chão. Sua bunda já doía naquele banco desconfortável e, apoiada sobre a mesa com o cotovelo, já começava a coçar os olhos. O cansaço após a briga de taverna já pesava suas pálpebras, mas ela não conseguiria dormir nem que estivesse em sua cama. Ela estava nervosa. Helena estava incrivelmente nervosa.

Quem esse filho da puta pensa que eu sou? Quem ele pensa que é, me fazendo esperar pela porra de duas horas nessa merda de lugar? Ela olhava ao seu redor impacientemente, franzindo para a estética da casa modesta. Teto de madeira, chão de madeira, mesa de madeira. Soldados com armadura de madeira, madeira, madeira, madeira. Eu não me sinto tão cercada de pau desde que entrei numa sauna.

A chaleira começou a apitar alta e aguda. O som penetrava os tímpanos de Helena, e ela fez uma careta de esforço para não atirar aquela merda janela afora. Ela provavelmente o teria feito se houvesse alguma janela por lá, mas nem isso o lugar tinha.

Se eu não tivesse certeza de que esse veado é um bruxo ou mago ou feiticeiro ou o caralho que o seja, eu já tinha encontrado esse tal de Gallius. Aquele velho vai me pagar, ah, se vai! Assim que eu descobrir que divinação esse miserável aqui fez para saber tanto a meu respeito, eu vou enfiar a cara dele no fogão e sair daqui o mais rápido possível. Já tô com a ficha suja mesmo... agora só preciso saber como que eu vou voltar para aquele caralho de estalagem pra pegar minhas coisas.

A chaleira ainda apitava. Helena finalmente percebeu que não havia notado essa chaleira em todos os minutos que esteve lá. Enquanto seguia o homem, ela o transbordou de perguntas, mas com uma calma irritante ele apenas a convidou para entrar e beber alguma coisa, prometendo explicar tudo depois.

Quando o homem encapuzado saiu da cozinha e trancou a porta atrás de si, Helena mapeou o lugar ao seu redor enquanto se sentava na cadeira: Estantes com pratos de argila e colheres de madeira. Algumas ervas, cerveja, um vinho pobre, mas nada de suspeito que pudesse ser usado para quebrar uma cabeça. Sua adaga estava preparada sob a mesa, e ela estava pronta para quando o homem misterioso chegasse com a guarda da cidade ou seja lá quem ele trouxesse.

Eu fui tão idiota... Só porque ele falou meu nome eu segui ele, mas que porra de diferença faz? Ele poderia até ter ouvido falar de mim em algum outro lugar, eu sou famosa pra caralho. Poucos sabem meu nome, mas se ele fosse mago ou algum tipo de vidente... ele provavelmente não saberia algo a mais de mim? Porra, como eu fui burra.

Mas pode vir, seu cara de pica. Pode vir com quantos quiser, eu vou quebrar vocês no meio.

A porta foi destrancada. Ela pensou rápido. Poderia correr pela porta à direita e sair para a rua, fugir como uma ladra comum, covarde e desesperada. Se esconder no escuro da rua como um rato até despistar seja lá quem ele traria junto. Ou ela poderia arremessar a adaga na cabeça do primeiro infeliz que abrisse a porta, quebrar um por um e só então fugir rua afora como uma ladra covarde e desesperada. Eu odeio fugir...

Ela afiou o olhar segurando a adaga entre os dedos e o tempo parou. Pelo que parecia uma eternidade a porta deslizou barulhenta, a chaleira apitou ininterruptamente e o cheiro quente e doce de ervas permeou todo o ambiente enquanto a iluminação do cômodo seguinte invadiu o canto mais escuro da cozinha. Seus músculos enrijeceram e Helena prendeu a respiração. A luz foi cortada pela sombra de alguém saindo do recinto. Ela podia ve-lo agora...

... e ele estava sozinho.

Filho da puta.

Ele se aproximou, com um tom politizado e intelectual. “Sinto muito, Helena, por ter te deixado esperando tanto tempo. Precisava terminar de preparar algumas cartas, e – ”

“Você me deixou esperando por duas malditas horas para ESCREVER CARTAS? POR DUAS HORAS? QUE PORRA É ESSA, CARA?” Helena bradou sobre o apito agudo da chaleira, se levantando e apoiando ambas as mãos na mesa enquanto o encarava ferozmente. A adaga agora estava à mostra e o homem olhou inabalado para o brilho vivo da lâmina que ela passara horas afiando.

“Ora, é uma bela adaga. Cabo forte, polido... raro para uma arma de arremesso.” ele disse, se aproximando calmamente da chaleira e tirando-a do fogo.

“Nossa, lisonjeada pelo elogio, mas você não vai me comer assim. Quem é você, afinal?” ela disse, em tom ácido.

Ele estava descapuzado agora, e seu rosto intimidador deu espaço para um rosto quase plácido e de feições comuns com a exceção do queixo de pá sob uma barba rala, grisalha e que parecia quase transparente. Seus olhos, que sob a luz do luar pareciam dourados, agora estavam reduzidos a um mel esquecível.

“Língua afiada, Hm? Assim como me disseram que –”

“QUEM? Quem te falou sobre mim? Quem é você? Cadê o Gallius? Você falou que me levaria até ele. Eu tô começando a perder a paciência com você.” Helena interrompeu, se dirigindo na direção dele pela lateral da mesa, o cabo da adaga seguro firme por sua mão.

“Começando?" Ele riu baixo "Você me interrompeu duas vezes, ambas alterando o tom de voz.”

“Começando, ou você estaria estendido no chão.” Ela enfiou a adaga na mesa. “Me responde. AGORA.”

Ele riu silencioso, o ar saindo de suas narinas enquanto ele sorria em deboche.

Esse cara vai perder esse sorrisinho de merda.

“Eu sou Gallius, Helena Blaze. Historiador, geólogo e geomante, aqui para ajuda-la.”

O silêncio foi longo, interrompido pela risada de Helena, alta e descontrolada. Ela sentou estabanada, cobrindo a boca com as costas da mão enquanto ria olhando o homem nos olhos. A expressão facial de Gallius era apática e imutável enquanto ele pegava a chaleira e servia dois copos largos e isso a fez rir a ponto de perder o ar. Rir de raiva.

“Ô SEU PORRA, POR QUE NÃO SE APRESENTOU NA RUA? VOCÊ TÁ LOUCO?”

Inabalável, Gallius se sentou no lado oposto da mesa, e a olhou no fundo dos olhos.

“Acreditei que um pouco de... suspense seria interessante para começarmos nossa relação.” Ele deu um gole e sorriu debochado novamente. Helena jurou para si mesma que na próxima vez que ele risse assim ela quebraria a mesa com a cabeça dele.

“Esse pouco de suspense quase me fez colocar o ponto final na sua vida, seu retardado.”

“Mas não pôs. Considero-me sortudo.” Gallius disse, sério, e Helena deu um gole no chá. Era extremamente doce e morno como um abraço de mãe, relaxando todos os músculos fadigados de seu corpo. Ela deu outro gole, maior e voraz enquanto uma linha era desenhada ao escorrer pelo canto de sua boca e pingar de seu queixo na mesa. Ela secou o rosto com as costas da mão e olhou pensativa por alguns instantes para seu rosto. Antes de falar qualquer coisa, deu mais um gole. Aquela merda era boa.

“Em primeiro lugar, qual é a sua? Bola de cristal? Borra de café? Sacrifica umas pombinhas pra ver o futuro?”

Pela primeira vez, Gallius parecia confuso. Ele ergueu uma sobrancelha, olhou para o lado em confusão e voltou a encara-la.

“Certo. Para começar os esclarecimentos, você está esperando há meia hora, não duas horas. Agora... como assim? Borra de café? Ver o futuro?”

Helena riu silenciosa. Ele se fazia de santo e achava que ela era tola, mas não era. Ela era o Demônio Roxo.

“Você sabe meu nome, sobrenome, que eu te procurava e que eu preciso de ajuda para decifrar um mapa. Qual é, eu tenho cara de burra? Eu não falei com ninguém sobre você.”

Era como se ela houvesse gritado alguma heresia, tamanha a seriedade da expressão incrédula de Gallius, que a encarou paralisado franzindo o rosto. Foi a vez dele dar um gole profundo e pensativo enquanto encarava a mesa. Ele pigarrou e respondeu baixo, como se assumisse algum terrível segredo:

“Helena, eu recebi uma carta. Igor sabia que você costuma arrumar brigas e mandou um corvo com uma mensagem o mais rápido possível para que eu a achasse antes que você se metesse em algum problema.”

Helena perdeu o sorriso. Suspirando, levou ambas as mãos ao rosto, cobrindo sua vergonha. Ela permaneceu com os cotovelos sobre a mesa e os olhos fechados um bom tempo, respirando fundo e sem acreditar na situação.

Caralho. Uma carta. O velho mandou uma carta pro Gallius, qual é o meu problema?

“Helena?” Gallius chamou sua atenção enquanto enchia o copo de chá. Ainda cobrindo o rosto com uma das mãos, ela esticou a outra para pegar o copo e ele tentou chama-la novamente, tocando sua mão. Ela recuou antes.

“Para, sai. Não me toca, cara. Deixa eu sofrer em silêncio um pouco.”

Gallius riu de imediato, e vendo o quão ridícula era a situação, Helena o acompanhou numa gargalhada estridente. Um riso amigável após tanta animosidade trouxe uma sensação boa, a fazendo esquecer por um pouco a briga da taverna e a raiva que estava sentindo. Seu nariz escorria graças à bebida quente e ela o limpou com as costas da mão. Ao ver o muco transparente se estendendo de seu indicador até o antebraço, olhou para ele entre risos, os olhos escorrendo finas fileiras de lágrimas.

“Caralho, eu tô uma merda.” Ela disse, entre uns últimos risinhos. “Você tem um pano aí para eu limpar minha mão?” Enquanto ele se levantava para trazer um quadrado de tecido rústico, ela guardava a adaga de volta na bainha.

“Nunca havia visto uma adaga com bainha” disse Gallius ao entregar o tecido para Helena.

Ela limpou a mão, dando pouca atenção ao comentário do geomante.

“Me disseram que eu te distinguiria pela barba...”

“Sim, e te informaram isso sem saber que eu já havia a raspado. Anda fazendo calor, você sabe como é...”

“Não, não sei. Eu não tenho barba, mas vou confiar em você.” Helena disse, voltando a beber o chá.

“Então...” Gallius disse após algum tempo, voltando ao tom sério, “essa placa. Mostre-me.”

Helena tateou a perna rapidamente, sentiu apenas a pele macia de sua coxa musculosa, e se lembrou de imediato que não havia a trazido consigo. Ela colocou o copo de volta na mesa e suspirou fundo, como quem pede desculpas.

“Pois é... eu deixei na estalagem." Ao ve-lo olhar para cima em incredulidade, se defendeu de imediato. "Eu só vim procurar informações sobre você, né, caralho? Eu não ia sair com o negócio pendurado na cintura se nem sabia se ia te encontrar!”

Gallius pensou por alguns segundos e pediu para que Helena descrevesse a rocha, e ela o fez extensivamente por bons minutos, descrevendo textura, inscrições e material. Onde a encontrou, sob que circunstâncias meteorológicas e até teria dito o sabor caso tivesse tentado come-la. Gallius ouviu pacientemente e sem esboçar reação alguma e quando a descrição foi concluída, se levantou inspirando profundamente.

“Você ergueu o inferno na taverna, garota...”

“Obrigada.” Helena interrompeu com um tom irônico de agradecimento em seu sorriso sarcástico. Também se levantou. Sabia o que fariam.

“... é bom tomarmos cuidado. Vamos para a estalagem, mas primeiro vou pegar algo para você cobrir esse cabelo roxo.”

Helena colocou a mão no peito, fazendo cara de ofendida.

“Olha aqui, se eu não quisesse ser percebida, tinha pintado meu cabelo de preto.” Ela esperou uma resposta esperta, alguma reação, mas a única que recebeu foi um gorro sendo jogado em seu rosto.

“Coloque e vamos” ele disse imperativo, sem sequer olhar para ela enquanto pegava a chave da porta num balcão. Helena esperou Gallius se virar e arremessou o gorro de volta contra o rosto dele, que se esquivou por pouco.

“Olha aqui, queridinho, a próxima vez que você achar que manda em mim, que você debochar ou atirar qualquer coisa na minha direção, eu vou enfiar esse gorro no seu cu.” Ela disse, se dirigindo à porta e aguardando de braços cruzados. As risadas haviam ido embora, e Helena o encarava desafiadoramente, esperando que ele a destrancasse. Vendo a intenção em seus olhos, o geomante não pôde fazer nada fora suspirar e sacudir a cabeça em desânimo.

“Se algo acontecer no caminho, você estará sozinha.” Ele sussurrou enquanto destrancava a porta.

“Se algo acontecer e eu ficar sozinha, eu vou te encontrar e quebrar a porra da placa na sua cara.” Ela respondeu, saindo sem olhar para trás.

Helena caminhou em passos largos. Apesar de intimidar Gallius, que a seguia como um cãozinho obediente, ela não gostaria de enfrentar a guarda da cidade, ou uma multidão enfurecida. Ela olhava atenta para os cantos escuros antecipando algum ataque inesperado enquanto subia a rua de barro. O cheiro de urina era onipresente, e quando ela pisava numa poça, torcia pelo menos pior. Gallius a seguia silenciosamente com sua cabeça coberta por um gorro largo e escuro, olhos brilhando ameaçadores como os de um lobo.

Os sons gosmentos dos passos de Helena logo foram substituídos pelo das botas no asfalto de pedras brancas da parte alta da cidade. A brisa gelada era bem vinda e passava como uma bênção lavando o cheiro ruim de dentro das narinas dela, mas naquela hora da madrugada a cidade parecia morta. A luz dos lampiões guiavam a avenida principal em direção à porção nobre de Longblek, mas deixavam uma imensidão negra onde deveriam ser as ruas perpendiculares. Nem o vento fazia barulho, e seus passos ecoavam audivelmente pelas paredes de pedra. Helena podia sentir seu coração bater mais forte e sua audição focar a cada passo, e o tempo todo era como se algo a observasse por trás. Por um momento ela até pensou sobre a chance de Gallius estar certo sobre cobrir o cabelo, mas a pura ideia de seguir as ordens daquele plebeu nojento a encheu de asco.

Ela caminhava rápida e nervosamente pela subida, sendo acompanhada pelos passos sobrenaturalmente silenciosos de Gallius quando avistou a estalagem e correu para dentro. A estalajadeira olhou com surpresa em sua direção, mas depois receio ao notar o roxo metálico de seus cabelos. Tateando a algibeira em seu cinto, Helena fez um sinal de silêncio e atirou uma moeda de ouro para a pobre moça, que nada fez fora olhar paralizada e assustada enquanto o Demônio Roxo e Gallius subiam as escadas para o quarto.

Helena trancou a porta atrás de si e encostou as costas nela, aliviada por um instante. Ela olhou para os olhos dourados de Gallius e suspirou, nervosa.

“Temos que ir rápido.” Helena disse, tirando uma mecha de cabelo da frente dos olhos e indo para o baú ao lado da cama o mais rápido possível.

Gallius sorriu sarcasticamente enquanto tirava o gorro. “Ora, ora... o que aconteceu com o demônio roxo destemido e heroico que tantos temem? Por um instante, achei qu –”

Ele foi interrompido, de olhos arregalados, pela mão de Helena em seu pescoço, esganando-o. Ela o pressionou contra a parede e seus dedos, fortes como ferro, prensaram os músculos de sua garganta, erguendo-o do chão. Com veias saltando de suas têmporas, ele esperneou desesperadamente enquanto os olhos de Helena o encaravam num brilho azul-pérola de desdém frio.

“Você fala merda demais, Gallius.” Ela disse, sussurrando num tom afiado. “Você é ousado demais, seu pau-no-cu, então deixa eu te explicar uma coisa. A próxima vez em que você me provocar, em tom de brincadeira ou falando sério, eu vou afundar a sua cabeça.” Ele esperneava mais forte ao sentir o desespero do sufocamento, e para instigar mais desespero ainda, Helena continuou a falar lentamente. “Eu vou te matar no soco, e eu juro que não vou ter remorso, combinado? Precisando de você ou não, eu vou socar essa sua cara de bosta até não sobrar mais nada.”

Ela o soltou, e ele caiu sentado, tossindo e respirando numa mistura de alívio e desespero. Ela o olhou por cima do ombro enquanto voltava para o baú. “Ninguém fala assim com o Demônio Roxo.”

Passaram alguns minutos até que ele estivesse calmo o suficiente para estudar a superfície rochosa. Após estudar os glifos da placa sob a luz do luar e o som do tatear nervoso de Helena na cabeceira da cama, ele pareceu sério por uns instantes antes de se virar para ela.

“Um mapa de tesouro.” Disse Gallius, com a voz rouca. “Não apenas qualquer tesouro, aparentemente. Parece uma gema lendária, uma daquelas presentes em lendas... das que eram capazes até mesmo de evocar as deusas em nosso mundo.”

Helena encostou na parede e cruzou os braços, assentindo com a cabeça e esperando ele prosseguir. Seu coração batia forte de animação e seus olhos brilhavam de cobiça enquanto ela tentava ocultar sua alegria mantendo a compostura.

“Hm... certo." Ele continuou. "Eu não sei nada a respeito dela, só que parece poderosa. Perigosa. Muito bem guardada. Há um lugar em Evereth, sob as montanhas da deusa Aeris... uma cidade subterrânea, há milênios abandonada pelos seus criadores anões. Aparentemente ela está lá.”

“Evereth.” Disse Helena, pensativa. “É, é um lugar perigoso... Deixa eu adivinhar. Tem armadilhas.”

“Com toda a certeza.”

“Guardiões, golens, o caralho a quatro.”

“Provavelmente.”

“Merda.”

Helena pensou por alguns segundos, pressionando os braços cruzados sob os seios. Eu não acredito nisso. Eu quero trabalhar sozinha, eu quero a glória para mim, eu quero o dinheiro para mim. Eu não tô acreditando que vou precisar fazer isso...

Ela olhou para ele e diria alguma coisa, mas imediatamente ouviu o som. Lá embaixo, as vozes estavam agitadas. A guarda da cidade havia chegado e o tempo havia acabado. Helena sentiu sua pulsação acelerar com adrenalina enquanto ela corria para pegar suas coisas no baú e jogar na mochila enquanto Gallius olhava assustado para ela e para a porta. Para ela, e para a porta novamente.

Helena não tinha tempo de vestir sua armadura, que havia sido convenientemente limpa e guardada pelos funcionários. Ela tirou alguns trapos de cima do fundo do baú onde ela havia guardado sua maior preciosidade: sua espada.

Ela prendeu a bainha ao cinto e notou o olhar de puro temor nos olhos de Gallius. Ele olhava incrédulo para a bainha incrivelmente ornamentada e encarou Helena por uns bons segundos, congelado, enquanto ela prendia a mochila nos ombros e pegava a algibeira, pesada com moedas de ouro.

“Essa espada... essa espada é –”

“Ela é.” Helena o interrompeu, apressada. Ela olhou para fora da janela e tentou levanta-la. Estava trancada, e ela não tinha tempo de procurar nenhuma chave, pois os passos dos guardas já tamborilavam o corredor na direção do quarto. Ela assobiou agudo e forte, com o indicador e polegar na boca.

Certo, eu vou ter que improvisar. Merda, merda, merda, como eu odeio fugir...

Sua garganta secou com a sensação de urgência e ela puxou um punhado de moedas de ouro, sem contar. Se aproximando do geomante, ela colocou as moedas nas mãos dele.

“Pelo seu incômodo.” Ela disse, apressada e preocupada, olhando para fora da janela.

Nada ainda... bosta.

“Você acabou de assobiar? HELENA, VOCÊ ACABOU DE REVELAR EM QUE QUARTO ESTAMOS!” Ele disse num sussurro desesperado.

“E...?”

“E agora perdemos mais tempo ainda! Como você acha que a gente vai sair daqui? Mas que droga, eu vou ser pego ajudando uma psicopata maluca!”

A batida na porta assustou os dois. Gallius a encarou desesperado, e Helena bolou rapidamente um plano. Talvez fosse a única coisa que ela poderia fazer para evitar que o geomante tivesse o nome sujo junto ao dela.

Helena suspirou, olhando para baixo por um instante, antes de se decidir e enfiar novamente a mão na algibeira e pegar mais algumas moedas. Ela olhou Gallius nos olhos e colocou as moedas na pilha de ouro que ele mal conseguia segurar. Mais batidas fortes na porta.

“Coloca isso nos bolsos da sua veste.”

“Mas...”

“Coloca essa porra logo, caralho!” Ela disse, imperativa e apressada.

"GUARDA DE LONGBLEK! ABRA IMEDIATAMENTE OU TEREMOS QUE INVADIR!" um guarda ordenava do lado de fora.

"Anda, coloca no bolso a merda do dinheiro!" Helena ordenou.

Confuso, Gallius colocou a fortuna nos enormes bolsos enquanto as batidas para que Helena abrisse a porta se tornavam batidas de tentativa de arrombamento. Ela podia ouvir o som lá embaixo, na rua. Olhando Gallius novamente nos olhos, sorriu.

“Desculpa, tá bom?” Ela disse sorrindo para o homem, que ficou mais confuso ainda.

Ela nunca havia socado alguém na cara com tanta força.

Tudo aconteceu de uma vez. O som do soco no rosto de Gallius se misturava com as batidas da porta sendo arrombada enquanto Helena corria com seus pertences presos nas costas. Ela já estava ao lado da janela quando o corpo desmaiado de do geomante caiu no chão e a porta foi estourada. Helena saltou pela janela fechada, estourando-a num show de cacos de vidro e lascas de madeira voadores, enquanto se virava para ver os guardas que entravam surpresos no quarto. Ainda no ar, caindo do segundo andar de uma estalagem que se estendia por cima de uma rua de pedra maciça, tudo que ela pôde fazer antes da gravidade fazer seu trabalho foi virar para os dois soldados e erguer as duas mãos com os dedos do meio apontados para eles, que mal devem ter notado, ainda estupefatos por ver o Demônio Roxo saltar de uma altura suicida atravessando a janela.

Ela girou no ar e abriu bem as pernas, caindo exatamente na sela de sua égua, que havia atendido o assobio agudo do minuto anterior. O impacto de seu quadril e cóccix colidindo com o lombo do animal trouxe lágrimas aos seus olhos, num surto de que se estendeu de sua lombar até sua garganta, erupindo num grito horrível de dor que se misturou com a ordem desesperada enquanto Helena lutava para se segurar nas rédeas do animal, que empinava assustado:

“Corre, Árie! Corre, caralho!”

A égua se pôs em corrida numa velocidade absurda, enquanto o Demônio Roxo fazia o possível para não desmaiar de dor enquanto contraía as coxas, virilha e nádegas numa tentativa fútil de diminuir a sensação de dor. As lágrimas escorrendo, ela encostou a cabeça no pescoço da égua e deixou o vento forte relaxa-la enquanto deixava para trás os sons dos gritos e ordens desesperadas dos guardas que tropeçavam perdidos uns nos outros ao tentar perseguir Helena sem sucesso. Ela olhou para trás sorrindo e tentando ignorar a dor, enquanto a égua saía pelos portões da cidade, atingindo um dos guardas que quase adormeciam ao guardar a entrada da cidade.

Certo... mais uma cidade para nunca mais voltar. Muito bem, princesinha.

Agora o negócio vai ser foda. Não dá pra invadir um lugar daqueles sozinha. Da última vez em que eu fiz algo do tipo, já me fodi o suficiente. Eu vou precisar reunir uma galera...

Sob a luz da lua cheia, Árie galopava. Os cabelos púrpura de Helena voavam livremente com a velocidade da égua correndo sobre os campos de margaridas enquanto o Demônio Roxo trilhava o começo da sua maior aventura.

Notas finais
Se você gostou, odiou ou tem sugestões, comente abaixo! Para ficar de olho em meus trabalhos, siga minha página em facebook.com/isaquelazaro Seu suporte significa o mundo para mim, e sua leitura nessa história que passou por tantos anos de trabalho é a melhor coisa que poderia acontecer na minha vida artística. Agradeço a leitura, e até o próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.