Mellanie

A grama deslizava gentilmente por entre os dedos descalços de Mellanie, que corria pela planície. O sol já se posicionava no centro do céu, bombardeando a pele alva da garota com ondas de calor intenso e o vento jogava e balançava seu emaranhado de cabelos loiros para trás, pesados como uma bandeira de aço.

O choque térmico ao entrar nas sombras da floresta fez com sua pele se arrepiasse sob o tecido grosseiro do vestido que usava. Rápida como uma chita, ela correu pela grama alta e saltou numa árvore enorme. Dedos e unhas pegajosos de seiva a guiavam com facilidade pelo imenso caule enquanto ela se dirigia ao galho onde havia guardado o resto de suas coisas.

Ela se sentou nele e fechou os olhos para se concentrar. A brisa gélida entrava por baixo de seu vestido e resfriava seu corpo todo, e tudo que ela podia ouvir por um instante era as batidas rápidas de seu coração diminuindo o ritmo enquanto seu fluxo sanguíneo era controlado. Ela se ergueu com a bolsa nas costas, acompanhou com o olhar um pardal azul que passou por perto e se pendurou pelos galhos abaixo até chegar ao solo novamente.

Alguém morreu. Mellanie pensou de imediato ao tocar no chão. Agora outra pessoa. A garota sentiu a direção da quebra de fluxo vital e deu alguns passos na direção do lugar. Ela deveria ir?

Na noite passada, um grande desequilíbrio energético aconteceu na área da cidade de Woodside e pela manhã a energia vital do lugar não era mais a mesma. Ao sentir isso, Mellanie correu para o sudeste e adentrou novamente a floresta após tantos meses, mas o rastro de morte estava se alastrando até ali?

Eles não me caçam há anos, então se deslocar por aqui é quase seguro... Mas o que está acontecendo, afinal? Mellanie perguntou a si mesma enquanto mudava de direção para checar essas mortes repentinas. Ela se perguntou se deveria realmente ir para onde havia perigo em potencial, mas a garota sabia que se alguém estava ferido, ela precisaria ajudar. Você é uma maga de Naturis, Mel–ela afirmou mentalmente- você precisa seguir com pelo menos esse voto. Não vai ser difícil... é só ver o que está acontecendo e seguir pelo meu caminho logo em seguida. Com sorte, ninguém estará vivo e ferido, então não precisarei me meter nisso.

Esse voto eu ainda mantenho. Eu sou boa nisso. Os anos sendo caçada por heresia haviam sido difíceis. Quanto tempo havia passado? Tudo começou quando ela tinha seis anos.

É melhor me concentrar aqui, ou uma flecha vai atravessar meu rosto.Ela correu o mais silenciosamente possível, mas a ideia de cruzar caminho com outro ser humano a fazia tremer. Nessa floresta, qualquer caçador saberia quem ela é. Nessa floresta não haveria forma de interpretar papéis, mas ela estava tão curiosa para saber o que estava acontecendo...

“Filho da puta, AARGH!”Uma voz próxima exclamou em dor.

Dessa vez a curiosidade não falou mais alto do que o bom senso. Mellanie se agachou atrás de uma árvore e ouviu. Eram aproximadamente quatro homens, mal nascidos. Um deles estava ferido e outro tentava remediá-lo... até que ele se cansou de ser xingado e fez algo muito doloroso no coitado (e ela não queria saber o que foi).

“Vamo atrás do ôtro, eu tô te falâno” disse uma segunda voz.

“Cala a boca, cê já viu alguém nadar domino?” outro homem respondeu.

“Mas cê viu como aquele ôtro desgraçado lutô bem, ele saiu cortando todo mundo que nem galhos!” a primeira voz apelou.

“Sim, ele tem razão. E ele tinha equipamento dos bão. Cês viram na mala dele, só coisa chique. Nóis vai ir atrás dele e pegar aquela armadura lá. Talvez as bota tamém.” Disse uma terceira voz, mais aguda. “Quê que cê diz, ogrão? Ao menos fala alguma coisa!”

“Eeu... quero... matá!” uma quarta voz respondeu, grave e selvagem causando um arrepio intenso na espinha dorsal de Mellanie. Essa presença eu não consegui sentir.

Eles se levantaram. Iam atrás de alguém. Alguém dormindo no rio. Pensa, Mel, pensa! Você pode salvar uma vida, pelo menos isso você pode fazer. A decisão deveria ser rápida, eles se aproximavam e a viriam caso ela ficasse parada atrás daquela árvore. Ela poderia correr para as bordas de Woodside, saciar sua curiosidade sobre o que aconteceu na noite anterior e voltar para a segurança. É -Mellanie pensou- é o melhor a se fazer.

Ela partiu silenciosamente por entre as árvores na direção do Rio Madeira.

Vamos lá, vamos lá. Não é o mais sensato, mas tem que ser feito. Você é uma idiota, mas ao menos uma idiota boazinha.Haviam poucas saídas para essa situação: a pessoa poderia reconhecê-la logo de cara e enfiar uma faca na barriga dela. Queimá-la. Entregá-la às irmãs da luz. Ela salvaria a vida da pessoa, isso não significaria nada? As pessoas são ingratas, você sabe. As pessoas são ingratas e gostam de ferir e de ascender socialmente, elas nunca desperdiçariam uma chance.Agora era tarde para mudar de ideia, e ela precisava correr pelo leito do rio e torcer para que o corpo da pessoa estivesse na borda. E ainda com vida. Isso seria bom também. Não é tão fácil ajudar alguém morto.

Mellanie corria pelo lado menos seguro do rio, mas com seu passo selvagem, galhos, pedra e lama não eram problemas para seu deslocamento. Quanto mais ela demorava, mais próximos eles também estavam e seu coração tamborilava em suas costelas e...

Um rosnado a fez parar de correr. Ela se virou na direção do som, e o rosnado se tornou um rugido quando uma sombra negra pulou dentre as árvores e errou Mel por centímetros com o esforço desesperado da menina para desviar e quase caiu no rio. Era um felino grande e negro. Uma pantera da floresta? Não, panteras não rosnam dando aviso de que estão lá, elas enganam suas presas. Talvez um lince? Não importa, isso vai tentar me comer a menos que eu...

“Soothos Feríneah!” Mellanie exclamou com as palmas das mãos voltadas para a fera antes que ela saltasse para o lado, e toda a sua energia de Vida se concentrou em sua mão. Ela não costumava usar esse encantamento e nem estava mais tão apta a fazê-lo, e por um segundo achou que a conexão se quebraria, mas ela trocou de corpo com o animal. Pantera. Definitivamente pantera.Ela correu apoiada nas suas quatro patas por entre as árvores por quilômetros e usou seu faro para localizar algum cheiro humano. Sangue! Sangue humano, eu estou perto. Parabéns, Mel, você veio resgatar um defunto,ela pensou, e após usar os sentidos do felino para localizar a pessoa que deveria ajudar, concentrou o resto de sua energia para controlar os batimentos cardíacos, fome e raiva do animal antes de sair de sua mente, com um estalo e uma dor forte por seu nervo ocular, como se uma agulha passasse por ele. Uma dor aguda que a deixou em seus joelhos.

Suas pernas bambolearam quando ela tentou se levantar e quase caiu no chão. Mellanie sentiu seu estômago embrulhar-se e ela tentou dar um passo para a frente, mas suas pernas lhe falharam e ela lutou para voltar aos seus pés novamente. O tempo estava acabando e ela havia sido imprudente de tentar usar um encantamento tão forte quando tantos outros existiam para ajudá-la, mas ela estava perto agora.

Eu... vou... conseguir!

Ela se ergueu em seus pés sem se perguntar por que se importara tanto com um estranho. Ela só correu. Correu até seus músculos arderem. Correu como se fosse pela própria vida. O que te faz pensar que ele realmente foi para a margem??? E se o cheiro de sangue era de algum animal? O rio provavelmente o levou até o mar! O que está acontecendo com você??

E lá estava ele, caído na borda enlameada do rio, encharcado dos pés a cabeça e sangrando. Do outro lado do rio, Mellanie conseguia distinguir a mata alta se mexendo enquanto os salteadores se aproximavam da margem.

Notas finais
Se gostou do capítulo, comente! Comentários são bem vindos. Xingue, ame e discuta nos comentários, pois o enredo depende de vocês :) Se gostou da história, pode também curtir minha página do facebook em https://www.facebook.com/isaquelazaro Até o próximo capítulo!