Sperare - O Olho da Fênix
3 O Demônio Roxo
Notas iniciais
Helena
Os cascos de Árie deixavam sulcos pela terra úmida da estrada, e os barulhos da lama eram os únicos que existiam naquele momento. A chuva havia chegado e passado, e as roupas de Helena ainda não estavam completamente secas.
Ela se aproximava da vila de Longblek pelo sudeste, tendo passado pela encosta da montanha meia hora atrás. Sua égua, Árie, trotava solenemente enquanto se aproximava das paliçadas que já podiam ser vistas ao longe. O campo era coberto por grama baixa de um verde acinzentado e algumas raras flores surgiam espiando de sob a terra e tentando alcançar o sol.
Quando a estrada se contorceu para a esquerda numa descida, Helena espiou à distância a entrada da cidade ao cobrir a luz do sol com as mãos. Havia dois guardas em seus postos nas laterais do espaço entre as paliçadas que servia como entrada e saída principal para a parte baixa da vila. Eles usavam armaduras de couro com placas de madeira, bem como uma lança de madeira e cobre. Seus meio-elmos eram de couro e madeira, com línguas de couro fervido que desciam por cima das orelhas até o pescoço.
Duas carroças de mercadores entravam pelo portão quando ela finalmente chegou. Grandes estacas de madeira desgastada saíam do chão uma ao lado da outra em três fileiras, fazendo uma parede grossa composta por três camadas de paliçadas presas uma a outra com cordas de cânhamo. Ambas as carroças não receberam muita atenção dos guardas e Helena também cruzou o portão sem nenhuma interrupção, apesar de um dos guardas lançar um olhar prolongado à espada embainhada em seu quadril enquanto ela seguia pela entrada.
Essa vila cheira a pobres. Crianças sujas corriam descamisadas, homens desdentados e mal-lavados trocavam mercadorias e riam alto de piadas chulas enquanto olhavam a bunda de mulheres secas vestidas em trajes rudes. O lugar era barulhento e fedia a merda, mijo e suor. O odor se misturava à barulheira, revirando suas tripas e fazendo a raiva começar a ferver em seu estômago.
O sol começava a se por entre os telhados de madeira das casas que se ajuntavam como um aglomerado de tartarugas e Helena sabia que tinha ainda algum tempo. Pensei que fosse mais tarde... a chuva fodeu com minha noção de tempo. Ela precisava de um banho e de uma estalagem, mas não colocaria os pés dentro de nenhuma na cidade baixa, nem mesmo se oferecessem moedas de ouro por isso. Já será sacrifício o suficiente ter que voltar para cá mais tarde. Se aquele maldito já estiver em outra cidade, eu juro que pelo menos um eu mato.
A placa residia na bolsa onde carregava seus objetos mais delicados. Ela não era excepcionalmente grande e parecia mais um pedaço de pedra de estrada arrancada, mas as marcas nela eram antigas. Foram seis dias até ela descobrir que se tratava de um mapa.
Eu corri muito para chegar aqui. Sério, se eu ainda tiver que procurar esse tal Gallius em Belville, eu quebro essa placa em duas. O velho havia dito que Gallius saberia interpretar a placa e Helena tinha uma estranha certeza de que se tratava de um mapa de tesouro, afinal ela estava muito bem escondida naquela masmorra próxima a Dryent... e aquele lugar fora recheado de artefatos quando o dragão do fogo Enya o tinha como morada.
Quando ela entrou pela porta da estalagem na cidade alta, todos os olhares se dirigiram a ela. Não é por menos, Helena pensou e olhou brevemente ao redor. A recepção não era tão luxuosa quanto em Edenia, mas a julgar pelos olhares e postura dos que estavam por lá, eles provavelmente achavam que cagaram o ouro da coroa do rei.
Ela caminhou com suas botas cheias de lama por cima da tapeçaria fina que cobria o chão de pedra cinza-claro polida e se apoiou irreverentemente com os cotovelos no balcão para falar com a mulher que atendia os dois infelizes que se afastaram com medo dela. Com sua visão periférica, Helena notou dois guardas com as espadas prestes serem desembainhadas.
“Um quarto e um banho” Helena disse antes que também precisasse desembainhar a sua. Ela olhou a atendente em seus olhos negros como azeviche. A jovem tinha a pele alva de quem mal conhece o sol, cabelos negros que se enrolavam delicadamente nas pontas e usava um vestido de tecido leve alaranjado e uma tiara prateada na cabeça.
A jovem quase protestou. “Desculpe, nós nã—” ela tentou dizer, mas foi calada pelo tinido de quatro peças de ouro colocadas em cima do balcão.
“Desculpa, moça,” disse Helena “mas não tô com tempo pra debate. Duas moedas de ouro pelo quarto, uma pela bagunça e outra para que ninguém que trabalhe aqui fale sobre a minha presença. Os demais podem ficar felizes que vão manter as línguas” ela disse dirigindo seu olhar frio para os três nobres que a olhavam espantados. Ela notou que, assustados como estavam, ninguém olhava para seu cabelo como de costume. A lama devia ter ocultado suas cores. Isso é bom.
Não houve mais conversa após a intimidação. Ela foi guiada em silêncio por um corredor de paredes amareladas e chão de madeira, iluminado por velas brancas e grossas. Uma porta à direita foi aberta pela atendente, deixando escapar uma lambida de vapor e exibindo uma modesta sala de banho. Helena tirou suas roupas e as pendurou na área de secagem e deitou-se num tanque de água escaldante, se esfregando com força até que a água estivesse impenetrável pela luz. Ela esfregou de seu corpo toda a sujeira, chuva e dor da viagem, limpou seu cabelo retirando pelotas de lama e fios embaraçados e deixou seu corpo boiar até a água esfriar.
Após o banho, as roupas que havia usado ainda estavam penduradas e secando. Ela usou uma toalha de pele de lã para secar seu corpo e colocou um vestido de fenda leve de couro marrom fino que mostrava sua coxa direita quase por completo. Helena afivelou seu cinto de escamas sintéticas prateadas e posicionou a bainha de sua adaga no lado direito de sua coluna lombar.
Em frente a um espelho de prata, ela secou e escovou seu cabelo leve e sedoso até que ele brilhasse roxo metálico. No oeste de Eleente, desde as democracias de Ethel até as oligarquias de Seana, Helena ficou conhecida como “o Demônio Roxo” e esse apelido a divertiu. Um nome forte e intimidador que pudesse ser equiparado às suas atitudes era tudo que ela precisava para criar fama. No início de sua jornada, ela pretendia tingir seu cabelo de diversas cores, como o costume dos povos ao leste do Mar do Caos, mas o surgimento desse nome fez com que ela optasse por manter a cor violeta em seus fios alisados...
... Mas não hoje. Hoje não tenho tempo a perder exibindo meu cabelo por aí, preciso ser rápida e direta. Só vou erguer o demônio se realmente for preciso. Ela não conhecia Longblek tão bem quanto gostaria, e em sua pressa por um banho, deixou de ver que tipo de indivíduos visitavam a taverna onde Gallius provavelmente estaria. Homens decentes, ou homens mortos, ela pensou. Vestiu um manto esverdeado que escorria até a metade de suas costas, puxou seu capuz cobrindo completamente os cabelos e partiu para a taverna.
O sol já se punha por entre os telhados brancos arqueados da cidade alta, e seguindo a rua de ladrilhos cinza-claros, lá embaixo a parte pobre da cidade se espalhava como uma colônia de fungos à sombra de uma árvore; marrom, barulhenta e suja. Helena inspirou fundo, ajeitou o capuz e partiu na direção de seu asco, com a gritaria alegre da plebe se intensificando a cada passo dado.
Ao chegar na taverna, o choque térmico foi gritante. Enquanto as ruas estavam quase frescas com o ar do começo da noite, o lugar era quente como um caldeirão de óleo fervente, com música alta e desafinada e homens suados e desdentados gritando (ou estariam cantando?) bêbados em tons mais desafinados do que o som da rabeca que tocava. O cheiro do lugar era rico, com certeza. Rico com os odores de ovo azedo sendo fervido na urina. O cheiro dos plebeus. Bem vinda, Helena.
Ela empurrou a porta dupla e deu o primeiro passo cauteloso para dentro do estabelecimento, fitando cada rosto, medindo cada corpo. Gallius. Barba grisalha com uma mecha preta. Onde está você, colega?
A cada passo, mais olhares eram dirigidos à garota, com provocações aparecendo aos poucos como moscas na carniça. “Gostosa!” uns disseram. “Olha só essa coxa! É hoje que eu fodo até meu pau sangrar” outro berrou. O cheiro azedo do lugar entrava pelas narinas de Helena e se espalhava por seu sangue como uma bebida pesada numa noite fria, se espalhando com raízes de calor por seus membros e acelerando seu coração. Raiva. As provocações e xingamentos batiam ritmicamente nos tímpanos dela, incitando-a à violência como o rufar dos tambores de guerra de uma frota naval. “Tem vadia nova na taverna? Tira o gorro aí, rabuda!” “Você deve gostar no cuzinho, né? Olha a cara dela de quem gosta de levar naquele cu!”. Homens em todos os lados, mas nenhum era Gallius. Raiva. Homens em cada mesa, cada cadeira, cada parede, comendo e deixando a gordura da carne rolar por suas barbas, bebendo vinho e cerveja e manchando suas roupas e mesas... e fora ela e três putas, nenhuma outra mulher. “Vem cá!” “Quero sentir essa sua boquinha rosa na minha rola!” Raiva. Ela estava lá há quanto tempo? Os segundos pareciam horas e era como se ela tivesse caminhado por centenas de metros até achar a outra extremidade da taverna. As vozes provocadoras agora eram tão altas e tão frequentes que se misturavam num borrão auditivo. Raiva. “Ei, sua cachorra, eu tô falando contigo!” disse um dos homens ao segurá-la pelo pulso e, levantando-se, puxá-la com força para si.
O grito dele sobrepôs todas as provocações, a cantoria e o tocar da rabeca. Sobrepôs os sons da rua, da cidade, do mundo. O grito do desgraçado foi música para os ouvidos de Helena, só não tão prazeroso quanto o som de madeira molhada sendo partida que foi ouvido quando o cotovelo dele foi dobrado para frente, inundando a mesa com um jorro absurdo de sangue quando seus músculos foram partidos por farpas de ossos que atravessaram o músculo braquial.
Segurando-o pelo cabelo, ela jogou o homem de rosto ao chão, derrubando cadeira e bebida e atraindo os olhares assustados do resto da taverna. Ela limpou o sangue que escorria lento e quente por seu antebraço no interior de seu manto. Tá, isso foi rápido. Eu não esperava ter que tirar o capuz tão cedo... mas vamos lá.
Helena puxou o broche prateado que prendia o manto em seus ombros e o deixou escorregar pelo ombro esquerdo, segurando-o antes de chegar no chão. O capuz escorregou rápido de sua cabeça, exibindo num flash seus cabelos roxo-metálicos, trazendo consigo alguns suspiros de surpresa.
“Gallius! Eu estou procurando por um homem chamado Gallius!” ela exclamou ao ter puxado toda a atenção do estabelecimento para si quebrando o braço do abusado, mas ninguém respondeu. “Eu não estou aqui atrás de ninguém fora ele. Barba grisalha com uma mecha preta no meio. E aí, alguém vai fazer uma donzela feliz hoje?”
No entanto, não houve resposta. O silêncio permeava a taverna, salvo os gemidos do infeliz perdendo sangue no chão e pedindo ajuda fracamente enquanto seu sangue pulsava no chão, escapando pelo arrombo feito em suas artérias.
“Ah, pelo amor das deusas, dá pra alguém socorrer esse merda?” ela disse, empurrando-o para o lado com a sola do pé, como se fosse um saco de carne de açougue. Nesse momento, tudo aconteceu.
“Demônio Roxo!” um deles gritou, e outros aderiram ao grito de ambos medo e desafio. Eu sei que não sou muito querida nessa região, mas qual é, colegas? ela pensou pouco antes de uma moringa de argila ser atirada na direção de sua cabeça e por pouco não atingi-la. Filho da puta.
“Demônio Roxo! Demônio Roxo!!!” Ela avançou na direção de onde veio a moringa, desviando de um soco cruzado de direita por baixo do braço de um homem grande e peludo. Apoiando-se em uma mão, ela se deslocou sobre uma mesa, chutando um prato de guisado quente no rosto de um dos homens sentados por perto e, ao firmar-se no chão do outro lado, passou um chute em gancho que acertou outro no rosto.
Enquanto ela desferia o chute, sua visão periférica capturou um deles puxando uma faca grande e a arremessando, então Helena contorceu-se para lado e acompanhou o flash prata da lâmina passar a centímetros de si e atingir o homem que ela havia chutado enquanto ele grunhia e cambaleava para trás com o impacto repentino em sua mandíbula. Seu grunhido cessou ao mesmo tempo em que ele caiu de rosto com a lâmina completamente enterrada no peito.
Ao mesmo tempo, um homem ruivo e barbado vestido em trajes verdes avançava rápido pelo seu flanco esquerdo com uma cadeira em mãos, mas Helena o chutou direto no queixo, e homem e cadeira caíram inertes após quicarem na lateral da mesa. Antes de eles terem tocado o chão, ela acelerava por entre dois, que até tentaram segurá-la, mas Helena contorceu seu corpo um último instante antes de ser agarrada por eles, fazendo que apenas trombassem entre si.
O Demônio Roxo saltou apoiada em uma mão por cima de uma grande mesa comum de madeira e se apoiou de pé saltando na direção do desgraçado que havia jogado a faca com um soco voador contendo toda a sua força e peso e velocidade do salto. Um crunch abafado foi ouvido quando o rosto dele quebrou sob os dedos fortes da garota.
Três outros se aproximavam pela sua frente, um deles gigantesco e segurando a faca que havia acidentalmente matado outro dos consumidores da taverna sua lâmina brilhando prateada sob a crosta de sangue úmido. Ela se apoiou com a mão esquerda na mesa atrás de si girou por suas costas com uma acrobacia e ficando de pé, ciente de que ainda usava vestido e que talvez a visão de sua roupa íntima desconcentrasse por uns segundos alguns dos que se aproximavam e ainda não tinham apanhado. Ou não. Provavelmente eles querem me estuprar agora. Excelente, excelente... boa ação impulsiva, sua cabeça de pica. O maior se aproximou, enquanto os outros abriam caminho. Mesmo de pé na mesa, ela não podia deixar de notar que se tratava de um homem grande, muito grande. Ferreiro talvez?
Alto e com a pele bronzeada, ele tinha braços grossos e rígidos como pilares cheios de veias. Os demais frequentadores cercavam a mesa e havia dezenas deles. Mais pessoas entravam pela porta dupla de madeira para ver a fonte da confusão, Helena notou, e a taverna transbordava de pessoas gritando insultos contra o Demônio Roxo, mas a situação se resumia entre ela e o grandalhão.
“O homem que você quebrou... ele é meu amigo.” Disse o homem, que se aproximava com o pescoço tão rígido que ele poderia muito bem estar erguendo duzentos quilos. Mas eu quebrei tantos já... de quem é que ele está fal -- ah, sim. O primeiro, o que eu literalmente quebrei o braço.
“Muito bom, da próxima vez seja um amigo melhor e ensine ele como tratar uma mulher respeitosamente. Veio dar o exemplo? Vai me chamar pra dançar?” ela provocou, apontando para as dúzias de homens que rugiram em aprovação à sua resposta. Eles estão aqui pelo espetáculo, não para me matar... eu acho. Isso é bom. Vamos ter um belo espetáculo agora.
“Cala a boca!” o homem forte gritou ao traçar uma linha horizontal com a lâmina sangrenta contra as pernas dela na altura de seus joelhos, e ela desviou se deslocando rápido para trás, sem o esforço de sequer mover os braços. Ele é rápido, e enorme... vamos dançar. Mesmo de pé na mesa de madeira maciça, ela não ficava mais do que três cabeças mais alta que ele. Provavelmente até sua largura era três vezes inferior à dele.
Ela começou a desviar de seus cortes, tirando a perna do caminho sempre a tempo de evitar o contato, mas por pouco. Ele era surpreendentemente rápido. Calculando a velocidade e frequência dos golpes, ela antecipou um corte cruzado na altura de sua canela e chutou o pulso do homem. O impacto da faca do pé de Helena no tendão sinovial dele fez com que sua arma fosse arremessada ao alto, e aproveitando a brecha, ela saltou baixo e rodou no ar usando toda a potência de suas pernas musculosas e a aceleração do giro como força extra para desferir um chute com o peito do pé na têmpora do homem, mandando-o ao ar inerte, enorme e pesado como uma árvore.
Ele chegou ao chão com um estrondo que tremeu a mesa, o chão e a plateia. É, grandão... seu braço é grosso, mas sua têmpora é igual à de qualquer um Helena pensou antes de ter a voz de seu pensamento submersa num rugido selvagem: o urro de dezenas de homens se aproximando em grito. Ela estava farta. Mesmo ignorando os insultos iniciais e atacando apenas o homem que a tocou, eles continuavam vindo e insistindo em subjugar, ferir e violar. Era hora da retribuição.
Acabou a putaria! Helena desembainhou sua própria adaga e girou para trás em guarda, preparada para rasgar o primeiro a se aproximar. Eles não se aproximavam dela, no entanto... pelo menos não para lutar. Alguns poucos socorriam os feridos, e os outros se limitavam a gritar em aprovação e adrenalina pela luta, cercando a mesa em respeito e erguendo os punhos para ela.
“Demônio Roxo!”, eles gritavam. “Demônio Roxo! Demônio Roxo! Demônio Roxo!” eles ecoavam em uníssono e algumas moedas de cobre começaram a voar aos pés dela, na mesa.
Ela sorriu ousada, desceu da mesa e começou a caminhar com a cabeça erguida em direção à saída por entre os plebeus que abriam caminho como se ela fosse a Rainha de Edenia. Eu não sou a rainha, ela pensou, não ainda.
A rua estava fria. Uma brisa gélida lambia entre suas coxas úmidas de suor, e fora da taverna, o cheiro era quase doce. Sua pele inteira estava arrepiada pelo choque térmico, e ela ficou satisfeita ao notar que ninguém a seguia de dentro da taverna, mesmo depois da briga. Nenhum plebeu, ninguém jurando vingança, nenhum guarda. Só a brisa gélida e úmida após aquela tarde chuvosa batia em suas costas, guiando-a de volta à cidade alta e a lua crescente brilhando no céu em meio a um mar de estrelas. Ela embainhou sua adaga e suspirou em alívio, finalmente tranquila...
... mas uma mão a segurou repentinamente pelo bíceps. O aperto forte e inesperado a assustou e colocou as batidas de seu coração na velocidade máxima. Silencioso!
Ela virou, puxando seu braço do agarrar firme com tamanha explosão que Helena realmente conseguiu se soltar de primeira tentativa. Aproveitando a força do puxão, ela girou em um dos pés enquanto desembainhava sua adaga mais uma vez e se virou para encarar o adversário.
Ele estava encapuzado e nada se via além de suas mãos, com dedos calejados, grossos, enrugados e sem pelos. Helena não saberia se se trava de um homem ou mulher, se não fosse pela voz que saiu do capuz escuro.
“Então,” ele disse com uma voz simples e sotaque de patrício “você está procurando Gallius para entender o mapa, não é mesmo?”
Um arrepio percorreu sua espinha e ela o encarou hesitante por alguns segundos. Quem é esse homem? Como... como ele sabe? Ela mapeou rapidamente o corpo do homem, buscando uma fraqueza para onde avançar com sua adaga.
O homem pareceu notar no mesmo instante em que ela começou a medi-lo. Ele riu silenciosamente, apenas o ar que escapava pelas suas narinas fazendo algum som naquela rua deserta. Ele a encarou com um par de íris douradas e um queixo barbeado em forma de pá. “Eu te levarei até ele. Venha comigo, Helena Blaze”
Pelas deusas... Helena estremeceu por um instante, e seguiu.
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