Cidade de Everfrost, dias atuais

Era mais uma noite fria e úmida em Everfrost, daquelas em que eu, como de costume, voltava para meu apartamento, caminhando pelas ruas desertas da cidade adormecida. Talvez pelo horário, mas não podia ouvir nada além do som de meus passos projetando-se nas sombras e meus pensamentos, que ecoavam pela mente. Minhas pesquisas certamente vinham progredindo a cada dia de dedicação, mas ainda faltavam testes a serem feitos e teorias a serem concretizadas. Precisava de resultados o quanto antes, meus ânimos pediam por isso.

Estava a alguns quarteirões da rua de casa, quando o silêncio da noite foi estilhaçado por um grito agudo. Sem muito esforço, pude notar duas silhuetas no escuro, onde uma delas lembrava uma garota de estatura média e a outra, indubitavelmente, era de um homem forte. Aproximando-me um pouco pude notar sangue ao chão, que escorria pela face da garota, que estremecia de dor, enquanto era golpeada pelo outro indivíduo.

– Não era muito mais fácil me entregar a bolsa? Sua puta!

O agressor chutava a garota, que beirava a inconsciência, não se suportando mais de pé. Não pude assistir a aquilo sem fazer nada. Talvez foi a melhor escolha a ser feita, já que as ações subsequentes me trariam uma grande surpresa. Coloquei meus livros no chão e caminhei na direção do malfeitor.

– Ei! Não dê mais chute algum... — me direcionei ao homem, que virou-se surpreso para a minha direção, observando-me de cima a baixo, possivelmente, para confirmar se eu era ou não algum tipo de policial. O homem deixou a garota e começou a caminhar na minha direção.

– Você pensa que é algum herói, seu fracote de merda? Quer apanhar como aquela vadia? Ou não... acho que vou te bater mais, por ter interferido!

O homem disparou em minha direção, retirando um objeto do bolso, aparentemente uma faca ou lâmina. Não dei um passo sequer. Havia esperado uma oportunidade como aquela para finalmente testar os resultados de meus estudos. Fechei os meus olhos e mentalizei a face e as palavras grotescas pronunciadas pelo homem que agora ameaçava minha vida. Analisei e compreendi, em milésimos de segundos, a mecânica funcional daquele homem e, com a fé à prova, pronunciei "aquelas palavras".

– Spell: Access!

Ao abrir meus olhos, pude sentir "A Ponte". Podia ver através dos olhos do homem, ou muito além deles. Facilmente, inclinei meu corpo para a direita, evitando a faca, que passara ao lado esquerdo da minha face. Em seguida, saltei para trás, fazendo com que o punho do homem golpeasse o vento à minha frente. O homem se enfurecia, incapaz de me atingir de qualquer maneira.

– Mas que diabos... que porra é essa?!

Não podia acreditar. Teria eu finalmente encontrado o que tanto procurava? Estaria ali, naquele momento, provando ao mundo o poder da mente humana? Comprovando a existência de uma técnica utilizada por homens que mudaram a História, como Moisés, Joana D'Arc, Henrique VIII, Napoleão, Hitler e Bin Laden? Descobrira ali o poder das "Spells", palavras de comando ditas no momento e tonalidade certa, comandos capazes de atravessar a camada lógica da mente por regiões específicas, chamadas de "Pontes". A consciência e inconsciência daquele homem eram, a partir de agora, meu domínio.

– Ora, vamos lá! Eu sei que você consegue...

– Quando eu te pegar... você tá fodido, seu filho da puta!

Após alguns minutos, o homem já suava de cansaço e bufava como um touro. Sua face estava completamente vermelha e seus braços já não se moviam mais com toda aquele vigor de minutos atrás. Eu também começava a me cansar, por não ter nenhum tipo de porte atlético, precisava acabar com aquilo de uma vez por todas. Olhei novamente para a garota desfalecida no chão, percebendo que sua pele estava completamente pálida, branca como o metal da faca que o homem empunhava. Talvez por uma pequena explosão de sentimentos resolvi experimentar algo horrendo.

– Viu o que fez? A garota não resistiu a sua monstruosidade!

– Foda-se! Ela teve o que mereceu. Assim como você também terá!

– Vai matar a mim? Não, meu caro... SPELL: LINK!

Fechei os olhos, lacrimejando, com um ódio fervente insuportável em meu coração. Pude ver uma série de vítimas, como se as visse com os olhos daquele bandido. Com muito esforço, consegui acessar a região que eu buscava em sua mente: os canais de informação motora. Mentalizei o braço que empunhava a faca. Voltei a observar o homem, agora com um grande sorriso sádico, ao vê-lo tremendo de medo, sangrando, com a faca apontando para o próprio pescoço, clamando por misericórdia.

– Adeus, lixo deplorável!