Cidade de Everfrost, dias atuais

Muita dor de cabeça e o som do despertador me tiraram da cama na manhã daquele mesmo dia. Tudo parecia silencioso e frio, já que a janela parecia estar parcialmente aberta, permitindo a entrada de uma pequena corrente de ar frio vindo da rua escura e igualmente gélida. O sol parecia não ter se revelado ainda. Um pouco tonto, fui em direção ao banheiro para me lavar. Não pude deixar de notar em um dos cantos, sobre algumas roupas sujas, uma camisa social preta, de manga comprida, com alguns respingos carmesim. Certamente aquela visão me fez lembrar-me do que houve há algumas horas atrás, naquele beco escuro. Enquanto a água descia pela minha face, minha dor se aliviava, mas minhas memórias continuavam frescas.

Após o banho, voltei ao quarto e me arrumei, vestindo-me à maneira de sempre. Assim que me vesti, fui à escrivaninha , notando algumas anotações espalhadas sobre ela, feitas por mim antes de dormir. Achei interessante organizá-las e colocá-las dentro de uma pasta. Após fazer isso, peguei meu molho de chaves e o coloquei no bolso da minha calça. Fui à cozinha e retirei da geladeira uma jarra com leite, o aqueci e bebi, enquanto comia alguns pães. Durante o café, chequei a seção policial de um jornal que acabara de entrar por uma passagem na porta. Levantei-me, vesti um casaco que estava deixado sobre o sofá e saí do apartamento, fechando a porta.

Conforme os minutos se passavam, mais pessoas começavam a surgir caminhando pelas calçadas, mais carros começavam a passar pela rua e a cidade começava a recuperar sua vida conturbada de sempre. Eu trabalhava em um consultório a uma hora de casa durante a manhã. Ganhava minha vida como psicanalista, mas também já fora um historiador, antes de lecionar a disciplina em uma escola particular tradicional da cidade, não muito distante do consultório. Obtive o emprego pelo meu sangue, já que o consultório era gerenciado pelos meus pais, não desmerecendo meu talento e profundo conhecimento da psicologia humana. Aceitei o trabalho em prol dos meus estudos, apesar de possui afinidade à psicologia desde jovem.

Minha dor de cabeça voltara ao perceber que "aquele" beco estaria interditado, com faixas de isolamento da polícia e meia dúzia de viaturas. Pude ver os corpos sendo retirados e alguns oficiais cogitando um possível assassinato seguido de suicídio. Continuei caminhando, com os pelos do braço arrepiados e sentindo um frio inexplicável nas pontas dos dedos. Pensei nas anotações que eu havia feito antes de dormir, aquelas que eu havia guardado numa pasta. Escrevi nelas a sensação que me possuiu naquela madrugada, uma possível reação adversa do Spell que usei para ligar-me à mente do falecido marginal. Possivelmente, parte daquele ódio inexplicável viera através do "Link" e fixou-se, mesmo que por pouco tempo, aos meus próprios sentimentos, fazendo-me explodir e tirar uma vida, apesar de merecido. Pensar novamente nesses fatos me fez sentir-me mal pelo resto do trajeto, mas, de certa forma, ter sentido o verdadeiro poder do Spell na prática fora um enorme avanço em tudo que eu já havia estudado até então.

Parei frente a um edifício médio de dois andares. As paredes eram vermelhas e havia acabamentos no edifício em gesso. Em volta do prédio havia um jardim, com árvores médias e gramado. O local era cercado por um muro de pedra com grades negras de ferro sobre ele, onde se destacava no centro um grande portão que dava em um caminho de pedra que cortava o jardim pela metade. No final do caminho era possível observar a entrada do prédio, onde havia colunas brancas que se erguiam, sustentando a sacada no andar de cima. Atrás das colunas podia se notar uma porta dupla branca, aparentemente encostada. Próximo ao portão havia uma pequena câmera. Aproximei-me do portão, que se abriu assim que olhei para cima, na direção da câmera. Caminhei até a entrada e empurrei as portas.

– Bom dia, Sr. Demetrius. Dormiu bem? — Clarice, a simpática secretária, sentada na recepção, atrás de uma mesa de madeira com curvas suaves e belos acabamentos.

– Nada bem, Clarice... minha cabeça dói. A senhorita não teria, por acaso, algum remédio para isso?

– Que feio, Sr. Demetrius... se auto-medicar é errado. E você sabe disso. — Disse a jovem secretária, sorrindo, enquanto engolia um comprimido. Depois de rir um pouco ao notar que eu a observava perplexo, ela retirou de sua bolsa uma pastilha com alguns comprimidos. — É disso que o senhor precisa. Tome.

Me aproximei da mesa e peguei a pastilha da mão de Clarice, enquanto senti meu outro braço sendo pego pelos dedos delicados da garota. Sua mão deslizou do meu braço até o peito e seus olhos me encaravam como aos de um filhote de gato pedindo por brincadeira. Acariciei brevemente as mechas lisas negras que caíam pelos lados de sua face e retirei o remédio dela.

– Também tenho saudades, amor... mas estou muito ocupado ultimamente. Quem sabe no próximo feriado?

Clarice parecia um pouco chateada, mas voltou a sorrir, enquanto retirava a mão do meu peito lentamente. Certamente possuía um enorme afeto por mim, apesar de não haver qualquer compromisso entre nós. Há alguns anos atrás eu costumava dar mais atenção à garota, mas os estudos de psicologia, consciência e dos Spells passaram a ocupar praticamente todo o meu tempo ocioso.

– Hmm... espero que não demore. Preciso de outra consulta daquelas. Enfim, tenha um bom dia, Sr. Demetrius. — Um belo sorriso sobrepôs a decepção da face de Clarice.

Após subir ao segundo andar, pela escada do hall, chegava-se a uma região em forma de "U", onde de frente para a escada se encontravam várias portas, cada qual emplacada com o nome do responsável. Minha sala era a última à esquerda. Entrando na sala, andei em direção à janela e abri as persianas, permitindo que entrasse luz, amenizando um pouco a escuridão do local. Afundei meu corpo na poltrona, e fiquei ali, por alguns minutos, em silêncio. Certamente, o fantasma do pecado que cometi naquela madrugada não me deixaria por um bom tempo.

Notas finais
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