Notas iniciais
The NEXT está de volta pessoal! E Spell também... Acabo de retornar de basicamente um ano de hiato, então peço desculpas aos que aguardaram. Mas, a partir de agora pretendo tentar manter uma postagem de capítulos quinzenal. Devo avisar que Spell: Access possui interação com Rorschach, então estarei disponibilizando o link em breve para que possam acompanhar também. Desejo a todos uma boa leitura!

Cidade de Everfrost, dias atuais

Meu transe foi interrompido por uma ligação da secretária. Como de costume, provavelmente seria para me informar que minha cliente especial havia chegado. Levantei-me da poltrona para atender a ligação e depois disso tomei um daqueles comprimidos para amenizar minha dor de cabeça. Abri a porta e comecei a caminhar quando alguém se chocou contra minhas costas. O encontrão me fizera cair de joelhos, enquanto ao cair, pude notar que o sujeito era familiar. Eu já havia o visto entrando no consultório de Hermann algumas vezes, já que este, por um infortúnio, ainda ficava à frente do meu.

– Mil desculpas, senhor... Demetrius. — Ele pareceu ter me reconhecido também. Enquanto se desculpava me deu a mão para me ajudar a levantar. O homem saía do consultório de meu irmão, como eu havia imaginado.

– Oh... Não foi nada. — Digo, fixando os olhos naquele indivíduo. Encarando-o de perto me fazia reconhecê-lo, era Baudelaire, um figurão da SIF na cidade e estaria agora a trabalhar com Angelo.

– Tem uma bela namorada. — Ele dizia, sorrindo para mim, certamente referindo-se a Clarice. Com um raciocínio investigativo tão apurado, por que precisaria da ajuda de meu irmão? Só me restava sorrir e respondê-lo de forma agradável.

– É... alguns dão sorte na vida, Baudelaire. Desculpe-me por ser breve, mas preciso verificar algumas coisas. Até um outro dia. — Ou não. O homem me pediu desculpas novamente, mas não me importei muito.

A presença de agentes da SIF na clínica me incomodava. E tudo isso se devia a Hermann, que, do nada, passou a perder seu tempo brincando de detetive. Mas talvez era essa a forma dele de praticar os seus estudos. Ler almas era algo mais simples e espontâneo que controlar mentes e, enquanto ele recebe tiras em seu consultório, eu mato bandidos nos becos. Pelo menos eu e Angelo havíamos feito um acordo de silêncio mútuo, mantendo em segredo nossas capacidades, embora ele, aparentemente, tivesse resolvido expôr a dele para Baudelaire em troca de dinheiro, ou diversão, ou qualquer coisa que aquela mente desconexa desejasse. Tendo nós apenas dois anos de diferença, o conhecia bem.

Desço os degraus, lentamente, esfregando a mão sobre a testa que ardia um pouco, assim como meus olhos, que se irritavam. Estava de "ressaca pós-morte". Clarice olha pra mim com um pouco de desaprovação, como se quisesse que eu voltasse pra casa e descansasse, mas havia uma consulta importante naquele dia. E lá estava ela, abrindo as portas da clínica com uma das mãos, enquanto se apoiava a uma bengala de madeira escura bem decorada na outra mão, tinha uma cabeleira longa e ruiva e seus olhos eram azuis e pálidos, como um céu de manhã nublada. Ela se vestia como uma boneca sombria, com um colar de rubi que, possivelmente valia mais do que minha hora-aula, que só destacava mais a sua frágil beleza jovial.

– Patricia. — Eu disse, num tom educado, acolhedor. — Estou aqui.

– Ora, Abel. Você sempre está, haha... — A jovem se aproxima de mim, abraçando-me e beijando minha face, com dificuldade, já que eu era mais alto que ela. Ofereço meu braço à Patricia e a conduzo escada acima. — Você leva jeito com pessoas como eu, Abel.

– Experiência própria, querida. Cuidei por algum tempo de uma pessoa como você. — E aparentemente deveria ter cuidado melhor, a julgar pelo rumo que ele tomou.

– E está tudo bem com você? Sua voz está um pouco diferente hoje. — A moça me encarava com seus olhos claros.

– Ah... Estou sim. Só estou com um pouco de dor de cabeça e com algumas preocupações de psicólogo. Obrigado por se importar. — Sorrio para ela, que também retribui meu gesto. Será que meu transtorno está tão evidente a ponto de até uma cega perceber?

Caminhamos pelos corredores até chegarmos à porta do meu consultório. Abri a porta e pedi que Patricia entrasse. Sem pensar muito, a jovem cega entrou e deitou-se no divã, como se já soubesse onde ele estava pela rotina. Fechei a porta e sentei ao seu lado, em uma poltrona, com as pernas cruzadas.

– Bom... e o que tem a me dizer hoje, senhorita? Os mesmos problemas de sempre?

– As mesmas merdas de sempre. Minha família é um saco e meu título não ajuda em nada. — A garota dizia, sorridente, apesar das grossas palavras. — Ontem meu pai vacilou novamente no trabalho e voltou pra casa quebrando tudo. Quebrou os quadros, os vasos caríssimos da mamãe, jogou vinho no tapete e arrebentou a televisão com uma facada. Ele costuma ter esses ataques psicóticos, mas quem sou eu para julgar o Senhor do Sangue Escarlate? Acho que ele é quem deveria estar deitado aqui.

Patricia era a filha caçula de um dos mafiosos mais cruéis e misteriosos da Dinamarca, cuja influência já se estendia para dentro da polícia local e talvez até para os degraus mais baixos da SIF. Há um ano, a garota havia perdido a visão de forma que, nem mesmo meu Spell pudesse acessar sua causa, por ter sido bloqueada como uma memória nociva à sua consciência. Nos conhecemos quando seus pais começaram a pagar as minhas consultas à garota, cuja fatalidade havia mudado sua vida para sempre. Depois de um ano inteiro de consultas, Patricia apresentou melhoras fantásticas e passou a ser, de certa forma, uma amiga que eu pudesse confiar.

– Pelo menos você não sentirá falta dos quadros e nem se importará com a mancha do tapete. — Respondo, descontraído, apesar de ainda estar tenso com os acontecimentos daquela madrugada.

– Não te pago pra caçoar de mim, Abel, seu desgraçado. — A garota sorria, sem fitar os olhos em mim, por ser desnecessário. Aparentemente ela voltaria a se tornar séria. — E suas piadas não vão me enganar. Te conheço muito bem, e sei que algo aconteceu. Não gosto da ideia de pagar um psicólogo com problemas psicológicos. E de acordo com o sigilo médico-paciente, você não teria motivos para esconder algo que fosse tão banal.

– É uma boa observadora. — Figurativamente falando, é claro.

– Não é questão de ser observadora, é questão de experiência, Abel. Eu vivo com assassinos, não era de se esperar que eu já não tivesse matado alguém. Foi horrível. Suava frio, sentia febre e náuseas. Minha pele estava sempre fria e pálida. Lembro-me de ter sonhado com os olhos daquele rapaz lacrimejando sangue por pelo menos duas semanas. Às vezes também me imaginava sendo estrangulada por suas tripas, como se elas fossem tentáculos, foi aí que eu parei de ler hentais. Enfim... minha expressão naquele momento não era diferente da que você apresenta agora. Conte-me, Abel: quem foi o desafortunado?

Era de se esperar que Patricia realmente percebesse. Havia deixado passar esse pequeno detalhe. E era exatamente aquilo que eu sentia naquele momento: suava frio, tinha tontura e, talvez vomitasse na cara da garota a qualquer momento. Sigilo médico-paciente? Ela tem razão.

– Vinguei uma mulher morta num beco ontem, Patricia. O assassino não teve a mesma sorte comigo. Fui inteligente de deixar como se tivesse parecido um suicídio. — De certa forma foi.

– Você ganhando uma briga com esse porte físico? Sem estar manco ou internado? O que o Aquaman estaria fazendo num beco? Posso ser cega, mas não sou idiota, Abel.

– Patricia... Patricia... sou eu o paciente e você a psicanalista agora? — Sorria, apesar de ter sido jogado contra a parede por uma garota muito mais nova que eu e cega. — E o Aquaman não é tão fraco assim, isso é coisa que as pessoas falam.

– Digamos que eu não vejo muito talento nele. Nem em você. Nem em ninguém. Agora me conta.

Notas finais
Peço que me avisem caso encontrem algum erro no texto. Costumo deixar passar por falta de atenção, rs... Espero que tenham gostado e os aguardo no próximo capítulo.