Spectrum - Vol.1 Sereena
8 Tolo
Notas iniciais
Sê mais do que tua alma permite...
–&-
A felicidade incerta foi sempre uma certeza, a antítese é verdadeira e o vazio mais ainda. Escolhas foram feitas, mas a alma continua inquieta, insatisfeita... É como se eu estivesse condenado a procurar e procurar e procurar, mas sem saber o que busco... Os anluxes me ajudaram com o desconforto, mas a busca nunca termina. Nas últimas semanas faltei a inúmeras aulas, para aprender a magia, aprender a controlar o desespero de ter uma alma transitória. Esse é o meu legado, o que devo carregar e aguentar... Viver de pequenas migalhas de satisfação.
Os primeiros dias no clã foram complicados, as pessoas são fechadas e não costumam a ajudar os iniciados. Mas Geórgia tem me ajudado tanto nos feitiços quanto em comunicar-me com os mais experientes. Todos do clã têm uma especialização, algo em que são melhores e que aplicam nas batalhas. Geórgia controla a magia rosa como alguém experiente, pode mudar o humor de quem bem entender, não nego que a invejo... Geórgia foi iniciada ainda jovem, já que seu tio, Rikromm, é o atual líder dos anluxes. Ainda não possui oportunidade de falar com ele. Rikromm é especialista na magia vermelha, principalmente na invocação de demônios através do sangue... Sou totalmente alienado quanto à conjuração e possessão de demônios, tenho implorado para Geórgia ajudar-me, mas ela afirma que estou ainda na fase inicial, e invocar demônios requer tempo. A magia que mais me agrada é a rosa, tenho brincado com o humor da minha mãe, que se tornara uma pessoa quieta quanto às minhas saídas noturnas.
Pego o casaco na cadeira da escrivaninha, o relógio marca 00:00, estava quase na hora de encontrar Geórgia no clã. Desço as escadas, as luzes estão apagadas e nenhum misero barulho é ouvido, abro a gigantesca porta de mogno branco e corro pela grama molhara pela neblina fina que cai. Do outro lado da rua, perto de uma das luzes que iluminam a calçada, uma figura sombria olha-me... Paro instintivamente, a figura puxa a manga do enorme casaco que usa, e um punhal mostra-se. Uma luz azul cobre-o, meu coração pula, e meu corpo coloca-se em posição de defesa. Mas eu não preciso de proteção, sou um Anlux que não devo temer qualquer figura que aparece. Posiciono as mãos como garras ao lado do corpo e sorrio. Aquela era minha presa... Não era a primeira vez que via uma figura assim rondando minha casa, era a hora de terminar aquilo...
– Dolor... – Sussurro, minha confiança continua forte, mas um escudo é formado em torno da figura, que foge, correndo para árvores atrás de si. Aquele era um feitiço difícil de esquivar, causava dor psicológica por dias... Olho para onde a figura sumiu, eu não fazia ideia de quem era ou o que queria... Não sei por quanto tempo continuei parado, pois meu celular começa a vibrar no bolso do casaco. – Alô?
– Onde você está? – A voz de Geórgia soa do aparelho. – Não tenho a noite toda...
– Estou chegando... Não demoro muito. – Mal havia saído de casa, mas precisava que ela não desistisse do nosso encontro.
– Não esperarei por muito mais tempo... – A linha fica muda. Sem pensar, volto a correr.
–&-
A luz da lua era refletida nas águas do pequeno riacho. O clã dos Anluxes é anexo ao terreno onde costumava ir para esquecer os problemas... A última vez que vim com a finalidade de visitar o lugar foi com Sereena, mal me lembro da fisionomia da garota, quando a conheci considerava-a o fim das minhas lamentações... Como era imaturo e inútil! A garota é uma inimiga, ela e todos dos outros clãs. Quem me salvou foi à magia... Sorrio e paro de admirar o luar, Geórgia deveria estar aborrecida pela demora, volto a correr. O aroma do lugar ainda me traz paz, o barulho das folhas sendo esmagas e o balançar das árvores animam-me por trazer mais mistério para a noite. Estar com os anluxes era libertador, talvez eu conseguisse recrutar Sereena para nosso lado, ela era a reencarnação... Quando contei sobre o ocorrido no clã dos Librins, Geórgia abriu seu sorriso debochado, afirmou que o fato da reencarnação ter escolhido os Librins mostrava como era fraca, mas seus olhos apresentaram uma preocupação... Era claro que Sereena seria uma importante aquisição, e por muito tempo não me permiti pensar na garota, até praticamente esquecê-la. Porém, nos últimos dias um desejo tem crescido em mim, o desejo de tornar-me o mais poderoso feiticeiro e o meu clã o mais forte, então encaro pensar em Sereena como uma consequência desse desejo.
Já posso ver o telhado negro da velha casa, tudo era sombrio perto da sede do clã. A casa possuía vários corredores e quartos vazios, portas que davam para lugar nenhum e setores proibidos. O antigo dono da casa era um humano inútil louco pela magia, mas sem um pingo dela correndo por suas veias, Rikromm se apoderou da casa logo depois da morte do velho. A principal característica do lugar são as inúmeras prateleiras e quadros de antigos líderes ou figuras importantes, a sala de entrada possui um grandioso quadro de Cornelius, nosso primeiro líder. Geórgia espera-me em frente à porta, sorrio e ela parece inquieta.
–Posso saber por onde andou?- Ela pergunta assim que começo a subir as escadas da velha varanda. Os cabelos encaracolados e negros da garota faziam um lindo contorno no seu rosto amendoado.
–Tive uns imprevistos em casa. Primeiro a empregada demorou a ceder ao feitiço para adormecer e depois eu fui atacado na porta de casa. – Digo sentando numa das cadeiras próximas a ela, minhas pernas latejam pela corrida. O pátio estava quieto, as criaturas noturnas podiam ser ouvidas se escutássemos com atenção, tanta quietude era anormal no clã. Normalmente, um grupo estaria bebendo e falando alto perto de uma das mesas do lugar.
– Atacado? O que aconteceu? O Poodle da sua mãe queria brincar? – Ela sorri com deboche. Nós nem tínhamos um Poodle, minha mãe é incapaz de amar alguém além dela.
– Não, uma figura estranha estava do outro lado da rua e mostrou um punhal, parecia que iria me atacar. Tentei o feitiço de dor, mas ela conseguiu esquivar e correr. – A expressão de Geórgia escurece. O rosto da menina toma uma expressão séria, como se envelhecesse. – O que foi?
– Como era esse punhal? – Ela pergunta, agarrando meus ombros. – Fale cada mínimo detalhe.
– Não sei muito bem, estava muito longe, mas ele tinha uma luz azul... – Geórgia não deixa que eu termine, agarra meu braço, conduzindo-me para dentro da casa. Ela abre uma grande e pesada porta. O interior do cômodo era aconchegante, um enorme lustre estava pendurado no teto, uma mesa de madeira entalhada preenchia boa parte do campo de visão e uma lareira estava acesa. Rikromm encontra-se sentado junto à mesa, lendo um livro e observando um mapa.
– Como a senhorita explica tal intromissão? – Ele fala com a voz grave, baixando o livro. Os olhos eram de um caçador, amendoados e astutos, o bigode fazia-o parecer sério e centrado, as roupas pareciam de outra época. Espanto-me e dou um passo para trás.
– Tio, acho que temos um Bloodhound na cidade... Thomas, fala para ele o que você acabou de me contar!- Geórgia empurra-me para frente. Tento não demonstrar hesitação.
–Bom... – A fraqueza é notável em minha voz, pigarreio. – Quando estava saindo de casa hoje, eu fui atacado por uma figura que possuía um punhal iluminado de azul...
– Isso não significa nada, pode ser apenas uma criança brincando com uma luz e esse inútil pensou ter visto algo... – Rikromm interrompe-me.
–Mas ele desviou de um dos meus feitiços... – Digo rapidamente com a voz firme.
– Tu podes ter pronunciado o feitiço errado... Mas de qualquer forma mandarei uma equipe vascular o local! Se for verdade, temos um problema e nosso ataque terá que ser mais cedo que o esperado... – À medida que ele fala sua voz vai diminuindo. Parte de mim está feliz conhecê-lo e outra, ferida por ser chamado de inútil. – Por favor, volteis a vossos afazeres...
Como uma simples figura pode ter mudado tanto o rumo na noite? Geórgia me puxa para fora da sala, a porta se fecha assim que a atravessamos. Olho para garota que ainda parecia preocupada e um pouco desnorteada.
– O que é um Bloodhound? – Pergunto assim que meus pensamentos começam a tomar um rumo.
–É complicado de explicar... Em sumo, Bloodhound são humanos...
– Humanos? Qual o perigo nisso? – Digo confuso, interrompendo-a.
–Não me interrompa novamente! Bloodhound são humanos que nasceram junto com a magia, são pessoas que podem detectar a magia, se proteger e matar muitos de nós. Não havia relatos sobre eles há décadas, acreditamos que haja poucos deles... Mas antigamente, quando a raça humana era prejudicada por ações de feiticeiros eles interviam nas guerras. Sub- clãs dos anluxes já foram totalmente dizimados por Bloodhound, mas eles preferem proteger outros seres humanos ou feiticeiros especiais... São como caçadores e protetores, faria sentido um deles estar na cidade, já que a reencarnação está aqui... – Geórgia fala rapidamente, como se não quisesse tocar no assunto novamente. Agora entendo a gravidade do problema, se esse grupo estiver apoiando os Librins, estamos perdidos.
– E quanto ao ataque que ele mencionou? – Mudo de assunto, esperando tranquiliza-la.
– Quando chegar a hora, você será informado... Vamos treinar? Estamos sem tempo para nos aprofundarmos na magia rosa, vamos começar a magia vermelha... – Ela diz rapidamente, voltando a seu semblante calmo e divertido. Seu sorriso de dentes alinhados abre-se.
–Podemos aprender a invocar demônios? – Pergunto rapidamente.
–Como eu já lhe disse essa é uma prática muito avançada... Há vários graus da magia vermelha. Ela se divide em duas partes: A magia da luxúria e a da invocação. – Enquanto ela falava, começamos a caminhar para o exterior da casa. – E essa ultima tem graus, primeiro a invocação de espíritos amargurados, não podemos vê-los porque não dominamos a magia azul, mas eles podem possuir-nos e agir por nós. Depois vem a conjuração de demônios, que são espíritos antigos e negativos, essa possessão requer mais força do feiticeiro e ela é muito mais pesada e demorada. A última é a reencarnação de criaturas ou demônios em animais sacrificados, essa última é proibida.
–Primeira coisa proibida nos anluxes... – Digo com deboche, já estávamos do lado de fora.
–Não é algo inteligente de fazer, o feiticeiro pode morrer. E não queremos pessoas morrendo no meio da batalha... – Ela diz séria. – Pretendo aprimorar-me até ser forte para o terceiro grau, estou quase lá– Ela se gaba. – Não ver a magia vermelha de luxuria hoje, isso me entediaria profundamente... – Geórgia ponta pra uma mesa de madeira no meio do pátio, iluminada e antiga– Vamos sentar...
Caminhamos para a mesa, que possuía vários símbolos entalhados, sentamos um de frente para o outro. Pelas condições da mesa, o objeto era muito antigo e frágil. Um punhal estava preso na madeira, Geórgia sorri. A garota parecia sombria com penumbra que a luz formava no seu rosto.
– Bom, a magia vermelha de conjuração não é complicada. Com força, as palavras certas, os símbolos e sangue tudo se faz. Está vendo esses símbolos? Cada um significa um grau, os círculos são espíritos; círculos com quadrados, demônios e os que possuem polígonos são as criaturas. Nunca! Eu disse “nunca”, coloque seu próprio sangue nesses últimos, para as criaturas você deve sacrificar seres que voltaram a “vida” por possessão, transformando seus corpos. – Sem pensar, afasto-me um pouco dos círculos com polígonos. Escuto Geórgia rir. – Caso coloque seu sangue nesse circulo e suas alma não seja forte o bastante, você morre. Entendeu? – Concordo com a cabeça e ela continua, pegando o punhal. – Vamos começar com os espíritos... Uma vez que você é possuído por um espírito escuro, ele te seguirá e será muito difícil ser possuído por outros espíritos, ele torna-se parte de você. Na primeira possessão, você conhece a historia do espírito e ele torna-se seu Veilede.
–Vailede? – Pergunto curioso, havia muitas palavras que eu desconhecia na magia.
– É o mesmo que um guia, alguém que mostrará o caminho e nos guiará através dos seus olhos. Bom, agora escolha um circulo. – Geórgia aponta para os círculos em minha frente, escolho um de tamanho médio e profundo. – Preciso que corte sua mão, não muito.
Pego o punhal e olho a lamina, que brilha com a luz do poste a cima de nós. Abro a mão esquerda, a pele branca rosada parece pressentir o corte... Minha mão formiga e soa. Aproximo a faca da palma e, com um rápido movimento, um ferimento abre-se em minha mão. Pela agitação, o sangue escorre rapidamente, o vermelho tinge o branco e corre para dentro do casaco.
–Rápido, coloque o ferimento sobre o circulo. Deixe que as gotas pinguem na mesa. – Geórgia diz rapidamente, e a obedeço. O vermelho pinga na mesa, observo o rubro penetrar nas fendas da mesa. – Agora repita comigo: “Perdidit... me...animam ...sicut ...servus”.
– Perdidit me animam sicut servus – Repito com precisão. O sangue, que se encontrava espalhado, move-se para os traços do circulo. Meu coração acelera, o sangue gira rapidamente em torno do circulo, minhas mãos tremem, a mesa balança, meus olhos tentam focar algo, minha cabeça é impulsionada para trás. Não vejo mais nada, não sinto nada além de um extremo vazio e tudo parece estar num tom rubro, o ar, a luz, os cheiros, os sons.
Estou em outro lugar, uma casa escura e de madeira. Dou um passo e o chão range. Procuro focar minha visão, mas mal posso ver o contorno dos objetos.
–Quem ousa me invocar?- Uma voz surge como um rígido atrás de mim. Arrepio-me, mas mantenho a expressão determinada. Era o momento de conquistar meu Vailede. – Mas tu és apenas um passarinho... Olha só, esses braços finos, essas mãos trêmulas, esses joelhos a penderem. Achas mesmo que podes suportar nesse corpo medíocre alguém tão poderoso como eu? – Ele possui um tom sarcástico.
– Sou mais forte do que pensa! Poderei suporta-lo... – Digo alto para escuridão.
– Mesmo com tanta determinação não consegues nem achar-me na escuridão. – Ele gargalha. – Por que tu não olhas para mim? – O espírito pergunta num tom sombrio. -Por que tu não olhas para mim? – A pergunta se repete. A voz cada vez mais próxima. — Por que tu não olhas para mim? – Sinto minha cabeça ser agarrada, profundo olhos vermelhos aproximam-se dos meus. Meus joelhos pendem, ele segura-me pela cabeça, consigo ver seu sorriso, os olhos vibram e começam a iluminar o local com um tom vermelho sangue. Fecho os olhos, por causa da luminosidade.
Uma correnteza de sentimentos e memórias me toma. Alexander Owen era seu nome, era piloto de avião durante a segunda guerra. Ódio era tudo que ele sentia, ódio dos alemães, ódio dos superiores, ódio da mulher amada que o trocou, ódio era tudo que sentia. Alexander bombardeou uma cidade alemã, sua felicidade e risada durante a missão, a alegria ao ouvir os gritos... Alexander morreu durante a guerra. Posso sentir a dor que o tomou quando perdeu o controle do avião ao ser atingido, a lembrança passa em frente aos meus olhos. Estou sentado na cabine de um Armstrong Whitworth Whitley, não tenho ideia de como sei o nome, mas ele cada vez perde mais altitude. Minhas mãos movem-se sozinhas, a dor por não ser bom o bastante e a sede de vingança aumentam no meu peito. O chão se próxima, fechamos os olhos e esperamos o fim daquela visão e vida. Sinto o início do impacto e depois tudo se acalma... Estou de volta à casa escura.
– Tu entendes meu ódio... E eu entendo o que sentes. Espero que sejas forte o bastante para aguentar-me... – Alexander fala novamente no escuro, desta vez ele parece mais calmo, como se compreendesse minhas necessidades. – Por que queres ser o melhor dos feiticeiros? Não entendo tal vaidade.
– Eu mereço isso, passei minha vida com migalhas de felicidade... Eu mereço ser feliz, eu mereço ser poderoso. – Digo, ainda ofegante, mas forte. – Eu preciso que me ajude nisso...
– Thomas, eu te aceito como servo... Tu és determinado, mas precisa entender teus sentimentos... Tu podes estar sendo enganado... – Ouço passos em minha direção. – Descubra o que precisas para ser completo, eu precisava sentir ódio e vingança... Descubra-te. – Tento perguntar o que ele queria dizer, mas a luz vermelha volta a brilhar... Tudo se torna rubro novamente.
Abro os olhos, o céu estrelado e a luz do poste brilham acima de mim. A grama molha minhas costas, eu estou deitado. Olho para o ferimento na mão, mas no lugar dele há um circulo, eu conquistei meu Vailede, Alexander me guiaria a partir de então. Abro a boca para agradecer a Alexander e Geórgia, mas sou interrompido pela voz da garota.
–Ele ainda vai demorar a acordar... Do jeito que é fraco, deve estar lutando para conquistar seu Vailede. Pode falar... – Ela ri ao falar.
–Geórgia, tu confias mesmo nesse garoto? – A voz de Rikromm parece cautelosa.
– Ele é fraco e ambicioso demais para nos trair... Mas por que a pergunta? – Geórgia diz. No meu peito, um buraco se abre. Eu não podia acreditar no desdém da voz de Geórgia ao falar sobre mim.
– Estamos prestes a começar uma guerra pela reencarnação... E quando tu parares de enfeitiça-lo com a magia vermelha, o que ele fará? Tu andas errando demais Geórgia. Para começar tu enfeitiçaste a pessoa errada, era para ter trazeres a reencarnação, não um cachorrinho... O Pemungut que nos deu a informação sobre ela ficou muito desgostoso com o resultado... Precisamos que ele fique do nosso lado, mas tu não poderás manter o feitiço de luxuria sobre ele durante a batalha, precisarás concentrar-te em nosso alvo... – Rikromm fala parecendo desgostoso com a conduta da sobrinha. Tudo que eu acreditava estava sendo desmoronado, ninguém havia me acolhido, eu não era especial... Eu traí a única pessoa que havia aberto os braços para mim. Tudo pelo desejo, sinto-me enjoado, mas não podia mostrar que ouvi tudo. Levanto como quem acaba de acordar.
– Como foi? – Geórgia toma um tom alegre. Olho para seu lado, mas Rikromm não está mais no local.
– Consegui depois de um longo dialogo... Ele é uma pessoa difícil, estou exausto. – Minto rapidamente. Tento parecer o mais cansado possível, mas dentro de mim o desejo de sair correndo dali é enorme.
– Tudo bem, acabamos por agora. Mais tarde mando uma mensagem com o horário de amanhã. – Ela sorri. Sorrio de volta, embora eu quisesse brigar com a garota.
– Até... – Possivelmente meu comportamento não a convenceu, mas naquele momento nada mais importava. Eu precisava encontrar Sereena, desculpar-me. Sinto-me sujo, caminho para o meio das árvores, quando estou longe o bastante começo a correr. Paro perto de riacho, as lembranças do dia em que a luxuria e desejos fizeram-me mudar. Olho para o celular, nenhuma mensagem ou ligação, ninguém se importava realmente. Eram duas da manhã, desejo que Sereena ainda esteja na sede dos Librins. Volto a correr...
“Conjure-me” a voz de Alexander soa em minha cabeça. Faço um circulo no chão, parecido com o que possuía na mão. Mordo a mão com o circulo, o sangue começa a correr, e pingar no solo. O rubro volta a cobrir minha visão, eu não me locomovo voluntariamente. Tenho consciência dos atos, mas quem os faz é Alexander. Minha velocidade aumenta, as árvores passam como riscos por nós, embora aquilo me cansasse excessivamente, parecia libertador. Conseguimos chegar até a rua principal rapidamente. “Pegue um táxi até o local, seu corpo não me aguentará por muito mais tempo sem descanso”. Concordo coma a cabeça, o rubro volta a cobrir minha visão. Procuro um táxi próximo, meu corpo doí pelo esforço.
– Está fazendo corrida essa noite? – Pergunto inclinando-me na janela de um dos táxis. O motorista assente, entro no carro e dou o endereço que Camila havia me dado na última vez que estive na sede...Quanto tempo faz desde que fui expulso daquele lugar?
–&-
– Aqui... Pode ficar com o troco... Pode esperar na rua debaixo? Não pretendo demorar. – Pago ao Taxista. Desço do carro, a propriedade estava quieta, mas uma luz brilhava. O táxi não havia demorado muito, então eles ainda poderiam estar acordados, afinal era sábado à noite. Eu não sei o que estou fazendo aqui, o que procuro e o que direi para Sereena. Eu não sou o mesmo, nem ela... Parte de mim sente-se tão fraco por não aguentar ter a vaidade ferida por Geórgia, por não ser especial. Sinto inútil por fugir dos Anluxes, mas também me sinto sujo por ter deixado Sereena...
Mesmo assim abro o portão silenciosamente, ao decorrer da caminhada as vozes dentro da casa aumentam, parecia que uma reunião acontecia na sede. Talvez Sereena ainda estivesse com eles, peço mentalmente para que ninguém além dela me visse. Olho pela janela, a cena dentro da casa era o contrário do clima que os Anluxes tinham, todos pareciam amigos e felizes, como um comercial de margarina. Sereena estava adormecida com a cabeça sobre a perna de um garoto mais velho. Assim que ele vira o rosto, consigo identifica-lo... Era o filho mais novo do líder dos Luminos, o filho ajuizado... Sorrio.
– Isso significa que você não tem mais clã? – Escuto Íris perguntar, não entendo a pergunta, mas aquilo interessa-me.
–Não é bem isso, mas não me sinto no compromisso de cumprir as normas dos clãs, sinto-me livre, talvez até possa conjurar as magias dos aluxes – O garoto diz. Do que aquilo se tratava? – Ela me fez mudar... — Ele toca uma das mechas do cabelo negro de Sereena. Todos pareciam felizes, como se não houvesse problemas... Viro de costas para a janela, e começo a andar para fora da propriedade. Eu não pertencia aquele lugar...
“Desistiu tão facilmente?” Alexander pergunta. Eu não podia querer entrar na vida dela assim... Eu fiz muitas coisas, deixei-a sozinha e cogitei usa-la. Mas talvez eu possa falar com Sereena na escola.
– Você! – A voz do garoto soa atrás de mim, ele parece agitado. – O que quer?
–Quero falar com Sereena... – Viro-me para ele, tento apresentar a expressão mais convicta que possuo. Mas não consigo esconder a expressão de tristeza.
– Deixe-a em paz, ela não precisa de alguém como você! – Ele diz rispidamente. Aquilo me fere, mas viro-me e volto a caminhar para o portão. Ele tinha razão, ninguém precisava de mim ali, eu só possuo um destino.
– Proteja-a... – Fecho o portão e corro para a rua debaixo...
–&-
Sereena nunca precisou de mim, eu que precisava dela... Agora tenho que concentrar-me na magia, pois ela me salvará. Não possuo ninguém, mas contento-me com fingimento de Geórgia, já fui rejeitado muitas vezes... Voltarei para os anluxes, tornar-me-ei forte... É tudo que me resta...
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