Notas iniciais
Olá! Esse cap marca o meio do livro, uma reviravolta e tristezas. Espero que vocês chorem! Agradecimentos especiais: a Joy ( que arrumou meu erros e está lendo e sofrendo desde ontem), ao Son (Se não fosse ele, como disse a Joy, eu ainda estaria no início desse cap) e a Capitu (alguém que não conheço mas me faz feliz por ler)

Rosas vermelhas como o sangue, crescem do solo. Ajoelho-me e tento tocá-las, mas sou reprimida por um dos seus espinhos... Meu dedo sangra, manchando meu vestido branco. Conseguia sentir a dor, uma mão cobre a minha, estancando o sangue. Olho para cima e o lindo rosto de Cecília encara-me. Ela sorri, mas os olhos possuem um tom sombrio e preocupado.

–Cecília... – Digo baixinho. Seus dedos delicados deslizam pelos meus cabelos e, maternalmente, ela beija minha testa.

–Sereena, cuidado com o futuro... – Uma brisa leve espalha-se pelo campo, as pétalas de rosas misturam-se ao ar, e ela desaparece.

–Cecília! – Grito para o vazio.

–&-

–Sereena... Vamos... Acorde! – Escuto a voz de Rodrigo chamar-me. – Faz meia hora que estamos em frente a sua casa... – Abro pestanejante os olhos. Rodrigo, por fim, consegue me despertar do angustiante sonho que tivera. Foco a visão em minhas mãos e recobro totalmente a razão. Estávamos na camionete de Rosana.

– Onde está a Dóris? – Pergunto rapidamente, mas a voz ainda sonolenta.

– Ah, garota. Não me faça ficar apaixonado por você... – Rodrigo ri e seu rosto se ilumina. – Ou eu já estou? – Ele fala brincando, mas observo uma mudança no seu rosto. – De qualquer forma, Dóris está na carroceria e sua tia deve estar enlouquecendo...

– Tia Suze! – Olho para o relógio no painel, já havia passado das três da manhã. Tateio as mãos pela porta a procura da maçaneta, abro a porta e começo a deslizar para fora. Mas a mão de Rodrigo puxa meu corpo para dentro, viro-me em sua direção. Nossos rostos estão a centímetros, milímetros, nanômetros... Eu já não sei descrever. Olho para seus olhos profundamente negros, tão negros que poderia afundar-me naquela imensidão.

– O que foi? – A parte de mim que não estava absorta pela aproximação pergunta. Fico descontente com minha insegurança e ele parece formar um semblante sério. – Rodrigo?

– Hoje, seu amiguinho apareceu no clã. – Rodrigo diz, afastando-se. Ele parece extremamente incomodado.

– Amiguinho? – Pergunto confusa. Não sei de alguém que pudesse ir ao clã.

– O Thomas... – Rodrigo desdenha com os olhos. – Ele queria falar com você... Os pensamentos dele estavam uma bagunça, eu não sabia as reais pretensões dele...

– O que Thomas estaria fazendo no clã? Será que mudara de ideia? – Minha mente borbulha em pensamentos. Não havia porque Thomas ter ido até o clã – O que você falou para ele?

– Falei que você não precisava de alguém como ele... – Ele fita o para-brisa, parecendo remoer-se. – Ele mandou protegê-la. Eu não consegui ler sua mente, não sei o quê ele está tramando... Malditos Anluxes.

– Estranho, principalmente por que não o vejo há semanas... De qualquer forma eu tenho que ir agora, até amanhã... E não fale mal dos anluxes! – Ele olha-me com a expressão inelegível, parecendo estar desconte com os acontecimentos e minhas observações. Rodrigo parecia inquieto. – Você está bem mesmo? – Seus olhos parecem resplandecer os mais complexos sentimentos, eles parecem não querer calar-se. Mas Rodrigo só assente. – Boa noite... – Digo, saindo do carro.

– Boa noite, Sereena... – Ele fala, ainda pensativo... Aquela quietude toda poderia ser cansaço ou ele estava escondendo algo... Fecho a porta do carro e caminho para casa. Tiro as chaves do bolso e, assim que mexo meu pulso para abrir a porta, percebo que estou com a jaqueta de couro de Rodrigo. Viro-me, já abrindo a boca para avisar-lhe, mas o carro já está virando a esquina.

Viro a chave, a casa está escura e silenciosa, mas uma pequena figura me espera no fim das escadas.

– Clarinha, por que ainda está acordada? – Pergunto, aproximando-me da frágil figura, que não responde. Clara dorme abraçada a um dos balaústres da escada. – Clara, vamos para cama?

– Sereena... – Clara balbucia em meio ao sono, a saliva escorrendo pelo queixo. Ela abre os pequenos olhos azuis e fita-me feliz. – Você chegou!

– Cheguei! Agora, direto para cama! – Digo, pegando seus braços finos.

– Mamãe não está braba com você... Mas amanhã você tem que ir conosco comprar as coisas para meu aniversário! – Ela fala, empinando o queixo e franzindo a boca. Sorrio e pego-a no colo.

– Tudo bem! Mas se sua mãe acordar, você está numa enrascada. – Começo a subir as escadas e o corpo dela parece aquietar-se novamente. Ela permanece silenciosa todo o trajeto até seu quarto. Deito-a na sua pequena cama branca com os lençóis rosa. Olho para janela onde, semanas atrás, aquela criatura entrou... – Bom sono, Clarinha... – Vasculho o rosto de Clara por algum temor, mas ela permanece com o mesmo rosto tranquilo... Eu não sei como seria não poder sentir aquela calma. Caminho para fora do quarto.

– Sereena... – Clara diz quando estou prestes a fechar a porta.

–Sim? – Clara sorri, os olhos pestanejantes pelo sono.

– Você ainda será muito feliz... – Sorrio para a menina que vira para esquerda e volta a dormir. Fecho a porta cuidadosamente e desço as escadas.

Felicidade completa... Desde a morte dos meus pais isso não passou pela minha cabeça. No inicio era impossível cogitar essa ideia, a tristeza sempre esteve presente nos meus pensamentos e ações, mas não cogitei ser paralisada por ela... Eu ainda tenho pessoas que se importam comigo e que devo proteger... Ainda tenho minhas responsabilidades como reencarnação. Fecho a porta do meu quarto e ponho a jaqueta de Rodrigo pendurada na cadeira próxima à prateleira que separa a garagem do quarto. Sento em minha cama e fito a jaqueta daquele que se mostrara um grande amigo, alguém cada vez encontra-se mais importante na minha vida e que seria impossível de esquecer...

–&-

Alecrim, madeira e couro... Os aromas incendiam minha mente sonolenta. Abro vagarosamente os olhos, aquele perfume acalma-me, mas desconheço sua procedência. Até que foco a jaqueta de Rodrigo a milímetros do meu nariz, eu havia adormecido abraçada a ela. Com um reflexo afasto a roupa, jogando-a para o chão.

– Você é muito ingrata com quem tenta lhe proteger do frio... – A voz de Rodrigo soa próxima a porta. Viro rapidamente na direção da voz, ele está apoiado na soleira da porta. Assustada, cubro-me até o pescoço e jogo em sua direção meu travesseiro.

– Sai do meu quarto! Tia Suze! – Grito ao mesmo passo que ele ri amplamente. – O que você está fazendo aqui há essa hora? Não tem mais ninguém para importunar?

–Suze mandou lhe acordar... Está quase na hora do almoço, preguiçosa! – Ele joga o travesseiro para mim. – Senhorita Clara, esta muito animada para hoje, então trate de levantar.

– Praga... – Digo, assim que ele fecha a porta.

– Eu ouvi isso! – Ele grita do outro cômodo. Ele era insuportável, questiono-me quanto tempo ele permaneceu ali... Afasto aqueles pensamentos e levanto-me.

–&-

–Para onde vamos, Clara? – Pergunto para pequena. A menina dava giros, balançando o vestido amarelo novo, feliz como nunca, pois era véspera do seu aniversário.

– Mamãe deixou tudo para ultima hora, então ela disse que poderíamos escolher qualquer decoração. Eu queria algo rosa ou amarelo ou azul ou lilás... Mas vermelho também é bonito.

– Clara, nesse passo, você vai acabar pintando um arco-íris no gramado dos fundos... – Digo, rindo. Rodrigo, ao nosso lado, parece estar tão animado para a festa quanto Clara, mas seus olhos apresentam preocupação.

– Vamos à loja de decoração na rua principal e tudo vai ser rosa — Ela cruza os pequenos braços sobre o peito, como se tivesse tomado a decisão mais difícil da sua vida.

– Rosa! – Rodrigo faz cócegas na garotinha. Os dois pareciam tão inocentes e felizes que não reprimo o sorriso e emoção. Ele a solta, e ela corre na frente.

– Rodrigo... – Ele fita-me ainda sorrindo. – Tem algo o incomodando?

– Eu só estava refletindo... Amanhã é o aniversário de oito anos da Clara, ela se tornará uma Siener completa... Já pensou que isso pode a fazer perder toda essa inocência? – Ele fala com grandes pausas, como se aquilo realmente o preocupasse.

– Ah minha nossa! Sr. Rodrigo Clasmani Lazzari, você está preocupado? – Falo, tentando descontrair os humores. Mas ele tinha razão, não tínhamos a menor ideia do que aconteceria com Clara depois dessa meia- noite. Sorrio, porem ele continua sério. Cubro uma das suas mãos com as minhas. – Vou cuidar dela, não vamos sofrer por antecedência e fazê-la ficar preocupada também. — Ele assente e fita nossas mãos. Rapidamente, desfaço o gesto e viro-me para Clara, que estava olhando milhares de bolos na vitrine de uma padaria. Evito olha-lo.

– Drigo, qual você prefere: Aquele branco com flores ou esse rosa com lilás? – Clara pergunta para Rodrigo com sua voz jovial. Os dois entram na loja, desviando nosso caminho para loja de decoração. Sento num dos bancos a frente da pequena padaria familiar, os pássaros voam alto, os idosos jogam xadrez na praça próxima dali. Tudo seria perfeito, se o que Rodrigo dissera não fosse verdade. Clara está prestes a ser obrigada a crescer, muita responsabilidade para aquelas frágeis costas. Escuto os rápidos e pequenos passos da garota se aproximarem, balanço a cabeça afastando os pensamentos.

– Clara, comprou o que precisava? – Pergunto, sorrindo.

– Reena, eu estou com um grande problema... — Clara diz, franzindo a testa e enrolando os dedos na alça da pequena bolsa que possuía.

– Que foi? – Levanto rapidamente, tensa.

– Eu e Rodrigo... Não conseguimos decidir entre o rosa e o branco! – Clara fala rapidamente, atropelando a frase, sorrio.

– Vamos lá, cuidar desse grande problema! – Digo com sarcasmo. Entramos na pequena loja; no balcão, uma jovem loira e bonita inclina-se cada vez mais perto de Rodrigo. – Ah, agora entendi por que ele não conseguiu lhe ajudar, Clara... Está ocupado demais cuidado do decote dessa garota... – Caminho para perto das duas figuras. – Boa tarde... Essa mocinha quer ver os bolos mais lindos que você tem. – A garota não desvia os olhos de Rodrigo.

– Já mostrei tudo que tenho. – Ela finalmente fita-me, como se estivesse incomodada com a minha presença. – Já decidiram qual levarão?

– Clara, você tem escolher com base no que combinará mais com a sua festa... – Digo para garotinha, ainda incomodada.

– Moça, você pode mostrar novamente o branco e o rosa? – Clara fala. A atendente a leva até uma das vitrines. Viro-me para Rodrigo, que batuca os dedos contra o balcão.

– Que foi? – Ele pergunta, fingindo-se de desentendido. Poderia sentir meu rosto distorcendo-se em uma expressão de raiva.

– Cínico! Tem um pouco de baba escorrendo no seu queixo. – Digo, dando as costas para ele bruscamente. Começo a andar para onde as duas garotas conversavam sobre bolos, mas o braço de Rodrigo cruza minha barriga e puxa-me para si.

– Isso é ciúme, Sereena Charlotte? – Ele abraça-me e fala próximo ao meu ouvido. – Você é muito temperamental... Ela só estava fazendo perguntas sobre Clara.

– Ciúme? Vai sonhando, Rodrigo Lazzari – Digo, desfazendo-me do seu abraço com uma cotovelada na sua barriga. Volto a caminhar para as garotas e escuto um gemido baixo de Rodrigo atrás de mim. – Clara, já escolheu?

– Escolhi o rosa com flores. — Ela sorri travessa. A garota loira volta com o bolo em mão para o balcão. Clara pega minha mão – Eu vi... – Ela ri alto.

Pagamos a atendente e saímos da loja, Rodrigo anda um pouco atrás, mas perto o bastante para que eu possa vê-lo, e Clara rodopia em torno dele, como uma fada. Os dois pareciam irmãos, como duas crianças... Rodrigo apresentava no olhar encanto pela garotinha que desenvolveu um carinho enorme por ele. Ele coloca-a nas costas e ela aponta para frente.

– Para loja de decoração, soldado! – Ela grita por cima do ombro do enorme rapaz, que sorri amplamente.

– Entendido, Comandante! – Ele começa a correr e balançar a garotinha a suas costas. –Deixando a velha chata para trás! – Rodrigo diz assim que passam por mim, os dois riem, deslizam pela principal rua como um beija- flor voa entre as flores.

– Esperem-me! – Corro atrás deles, mas no meio do caminho meus pulmões queimam pelo cansaço. – Esses jovens...

– Sedentária! – Rodrigo grita por cima do ombro. Sigo-os de longe até a loja de decoração, onde me esperam a porta. – Demorou demais... Clara pensou até em tirar um cochilo.

– Vocês são duas pestes... Clara, não se deixe levar por essa carinha de anjo... Esse menino é um demônio! – Digo para garota que ri travessa. Ela olha-me pensativa.

– Vocês ainda se amarão muito... – Clara sorri e entra na loja, como se aquilo fosse natural e nada vergonhoso. Minhas bochechas queimam e evito olhar para Rodrigo, que possivelmente está com um sorriso sarcástico no rosto. Marcho para o interior da loja, Clara já havia feito algo assim comigo e Thomas... Qual das previsões estaria certa?

– Sereena... – Rodrigo chama-me ainda a porta. – Eu vou sair e comprar o presente para Clara, não demoro... – Ele possuía um olhar receoso, como se estivesse algo errado. Concordo com um gesto e ele parte.

– Clara, vamos à sessão dos balões... – Digo e ela assente. Caminho com uma pequena cesta que aos poucos é cheia de objetos rosa, desde balões a tiras de papel crepom. Não questiono a garota em nenhuma das suas escolhas, ela se anima cada vez mais então é bom ver a alegria naqueles olhos doces.

– Você está tão séria... – Ela, fazendo “biquinho”, indaga-me. Tento desviar o rosto preocupado, mas ela puxa meu queixo para frente.

–Você está aprendendo maus hábitos com o Rodrigo... – Digo com a voz afetada. – Rodrigo anda preocupado com algo... Você terá sua primeira visão entre hoje e amanhã... E para todo garoto que fala comigo você diz algo embaraçoso, deixa me ir ali falar com o atendente, para você poder dizer que vamos ter três filhos...

– Quando eu falei aquilo sobre o Thomas e você, eu estava errada. Na verdade não tenho muita certeza... – A menina fala como se tivesse amadurecido cinco anos nos últimos segundos. – Quando você chegou a São Domingues, eu tive a impressão que alguém entraria na sua vida e a transformaria... Pensei que fosse Thomas, mas ele não está mais presente.

Então as duas previsões foram sobre Rodrigo... Mas ela não podia ter certeza, ela não tinha todos seus poderes ainda! Clara era uma criança muito especial, realmente... Ela sorri e volta a procurar nas inúmeras gondolas.

– Sereena, eu sinto que tudo ficará bem, não importa os caminhos que serão tomados... – Ela sorri como se aquela fosse a maior certeza que possuía. Sorrio também e nós voltamos às compras.

–&-

Clara corre pela casa atrás da mãe, jogo-me contra o sofá, exausta. Havíamos visitado quase todas as lojas do pequeno centro de compras, Rodrigo deixa as compras sobre a mesa e senta-se ao meu lado.

– Então... O que comprou para Clara? – Pergunto, curiosa. Ele havia demorado um milênio, deixando-nos sozinhas com milhares de sacolas.

– Intrometida! É segredo... – Ele diz, sorrindo abertamente. Todos os dentes, organizados e alinhados, iluminavam seu rosto e combinavam com seus olhos negros... Como a noite combina com o mistério. Observo cada movimento dos músculos faciais e cada emoção que passa pelo seu olhar. – O que foi? Está com medo que eu tenha comprado um presente melhor que o seu? – Ele pergunta, rindo.

–Não, só pensando em algumas coisas. – Balanço a cabeça, afastando os pensamentos. – Além disso, meu presente é o melhor! – Rio, maleficamente.

–Isso é uma competição? – Ele aproxima o rosto do meu, desafiando-me. O cheiro de alecrim e madeira invade minha mente, quero aproximar-me cada vez mais.

– Você gosta de competições? Valendo o que? – Digo, rapidamente. Seus olhos, seu cheiro, suas ações... É como se tudo entorpecesse meus sentidos, era como estar numa piscina do mais negro liquido.

– Desistam... Eu comprei o melhor presente! – Tio Matt entra na sala de estar. Afasto-me de Rodrigo e ele sorri. Era como sair de um transe. Rodrigo não me olha, mas consigo perceber a formação de um semblante preocupado e doloroso.

– O quê comprou, tio Matt? – Pergunto, tentando dissipar a atmosfera tensa que rodeava Rodrigo. Mas ele continua sério, quase intocado, estático.

– Comprei uma bicicleta rosa com glitter e tudo que uma garotinha de oito anos precisa. – Ele fala, orgulhoso.

–Tem razão, o seu presente é o melhor! – Rio e fito Rodrigo e agora parecia orbitar algum planeta numa galáxia distante. – Rodrigo, pode me ajudar com umas coisas?

– Claro... O que precisa? – Ele pergunta, balançando a cabeça, parecendo livrar-se de algo.

–Uma das gavetas da minha cômoda está emperrada. – Minto, rezando para parecer verdade. Ele levanta-se e caminhamos para meu quarto-garagem. Ele permanece inquieto, desfocado. Entramos no cômodo, ele procura pela cômoda com os olhos.

– Qual das gavetas? – Rodrigo pergunta, inocente. Sento-o na beira da cama.

– Não há nenhuma gaveta emperrada. Eu só quero entender o que está acontecendo com você! – Digo, sentando-me na cadeira em que, horas atrás, a jaqueta de Rodrigo estivera. – Vamos, fala tudo.

– Não há nada de errado... – Ele desdenha com as palavras, mas os olhos parecem querer vomitar palavras.

– Isso não é justo! Você lê minha mente a todo o momento, sempre que preciso de ajuda você sabe. Agora é minha vez de ajudar-lhe. Você está tão desatento e preocupado que nem leu minha mente há dois minutos, nem percebeu minha mentira.

– Sereena, não é nada com que você deva se preocupar! – Ele agarra com suas enormes mãos meus pequenos ombros. Coloco as mãos sobre a barba rala que possui, fito seus olhos. Ele não confiava em mim o bastante para contar... – Não é essa a questão, eu confio em você... São problemas pessoais... – Ele rebate meus pensamentos. Eu odeio quando ele faz isso, desde quando eu sou obrigada a contar meus problemas pessoais e ele não? Achei que nossa parceria era mutua. – Sereena, eu só não quero lhe preocupar com algo, além da Clara. É algo que eu posso resolver sozinho... — Ele enruga as sobrancelhas, passo meus braços por seu pescoço e prendo-o em um abraço.

–Eu espero que um dia conte-me tudo que passa por essa cabeça de vento... – Digo contra seu ombro. Ele passa os braços pelas minhas costas. Mesmo que eu não saiba o que o preocupa, sinto que aquilo o ajudou um pouco.

– Você não faz ideia... – Ele responde aos meus pensamentos novamente.

– Agora pode parar de ler meus pensamentos? Minha integridade mental agradece... – Digo e sinto seus ombros relaxarem. – Você tem que me ensinar a ler mentes!

– Jamais! Sempre quero ter essa vantagem sobre você... – Ele diz parecendo voltar a ser o mesmo de sempre.

Nós continuamos nessa posição até meus músculos rangerem. Mas estou feliz de ter ajudado.

–&-

O sol me olha preguiçosamente, parecendo decidir-se se iluminaria o pequeno pátio com varias cadeiras e mesas a espera de convidados ou se deixaria uma pesada nuvem cobrir-lhe. Todos os inúmeros artigos de decoração que havíamos comprado no dia anterior forravam o jardim da tia Suze, uma explosão de rosa bebê e brilho. A casa estava cheia de parentes cujos nomes eram difíceis de lembrar, todos familiares do tio Matt. Clara zonzeia de um canto a outro, dando pequenas ordens ao tio Matt, ou atendendo inúmeros telefonemas desejando parabéns pelos oito anos. Sento-me numa das cadeiras, tentando concentrar-me na tarefa de dobrar os inúmeros guardanapos e fugir da ideia de que Clara ainda não teve sua primeira visão. Ela permaneceu quieta sobre o assunto o dia todo, não quis incomoda-la com minhas inquietações, mas não nego estar preocupada. Os convidados estariam ali em uma hora, fomos até tarde arrumando a decoração da festa e tia Suze estava tão preocupada com a festa que faltou ao trabalho, ela marcha em minha direção.

– Sereena! Você ainda não trocou de roupa! Vá se aprontar – Ela gesticula, exasperada. Sorrio, aquilo era importante para ela, tanto que a fazia ficar preocupada. Mas minha preocupação estava em outro fato...

– Estou indo, tia... Ah! Tio Matt estava lhe procurando na cozinha! – Digo, saindo. Agora metade da casa está cuidando do bolo e doces sobre a mesa, e a outra metade está no quarto de Clara, arrumando-a. Deslizo pelos cômodos, invisível e fecho a porta do meu quarto que dá acesso à cozinha barulhenta. Procuro pelo vestido longo que passara o ultimo ano novo, branco e de cetim, ele era leve como a tarde do lado de fora. Fecho os olhos e deixo as lembranças do ano novo me tomarem... Estávamos em casa, todos juntos a mesa, conversando e nos divertindo com os seguidos fogos de artifício, tudo no seu devido lugar... Minha casa, minha família, minha alegria... Eu queria poder esticar as mãos e conseguir tocar tudo em minhas lembranças, como se fosse preciso agarra-las.

Abro os lacrimejantes olhos, e recomponho-me. Aquele não deveria ser um dia para viver nas memórias, aquele era o momento de celebrar a vida. Deslizo para dentro do vestido, fechando-o nas costas. Procuro o espelho no quarto, o vestido branco ainda cai muito bem, mas não é ele que chama minha atenção. Cornelius está atrás de mim no espelho, meu coração pula e um pequeno gemido sai dos meus lábios, até que a imagem desaparece. Mas meu coração continua acelerado, minha cabeça gira sem governo, minhas mãos tateiam por apoio... Mas meu corpo cai, tenho consciência disso, procuro focar a visão, mas meu corpo treme e por fim a escuridão me toma.

Cornelius e Cecília olham-me, estávamos sentados em uma pequena mesa de jardim. Fito-os, mas não consigo dizer nada, como se minha garganta tivesse se fechado. Eles apresentam diferentes emoções, mas suas mãos estão unidas sobre a mesa. Cecília parece preocupada e suplicante, Cornelius parece seguro e atento. Com suas mãos livres, cada um afaga uma das minhas mãos. Eu não entendo, procuro por palavras e eles parecem procurar por elas também, Cecília parece angustiada e delicadas lagrimas deslizam de seus olhos verdes, os cabelos negros balançam com a brisa e espalham-se por seu rosto, mas ela não solta minha mão para afasta-los. Cornelius desculpa-se com os olhos suplicantes, seus lábios finos contorcem-se, parecendo com dor. Eles parecem sentir culpa e solidariedade, tento lutar contra lentidão do meu corpo, tento falar-lhes que está tudo bem... Mas era como estar presa num pesadelo... A escuridão volta a tomar minha visão.

– Sereena! – Escuto uma voz calorosa distante, eu quero me aproximar dela. Quero tocar o calor e aconchego que ela me traz, mas não consigo me desvencilhar da escuridão sufocante. – Sereena, abra os olhos... Por favor! – A voz pertence a Rodrigo, posso sentir seu toque, seu aroma e voz... Desperto finalmente. Meus olhos demoram a focar o rosto a centímetros do

meu, sinto o lado esquerdo do meu corpo latejar e meu braço direito ser esmagado pelo aperto forte de Rodrigo, que está de olhos fechados, balançando-me junto ao seu corpo.

– O que está fazendo no meu quarto? – Digo, parecendo frágil e rouca. Rodrigo abre os olhos rapidamente, como se acordasse de um transe. Um sorriso preocupado ilumina seu rosto, e eu não reprimo o instinto de sorrir também.

– Percebo que a queda não afetou seu bom humor! – Ele diz sarcástico, mas seus olhos permanecem preocupados. Mesmo acordada, ele não afrouxa o aperto. – O que aconteceu?

–Cornelius estava no espelho, então eu cai e parece que entrei num pesadelo com Cecilia e Cornelius... – Digo rápido. Ao contrário do esperado, Rodrigo só me pressiona mais forte contra seu corpo. – Eles pareciam querer conversar comigo, ou algo do gênero, mas nenhum de nós conseguia falar.

–Sereena, você fez uma viagem espiritual sozinha... – Rodrigo diz, levantando meu corpo junto com o dele.

–Pode me colocar no chão? – Digo em defesa, ele parecia estar cada vez mais pensativo e preocupado.

– Você tem que descansar, além disso, você bateu forte com a cabeça... – Ele coloca-me na cama, protetor.

–Mas tenho que receber convidados daqui a pouco. – Digo, colocando as pernas para fora da cama. Rodrigo senta ao meu lado, ele não precisou falar nada, seu olhar possuía múltiplos significados. Deslizei os pés de voltar para cama. – Você é muito insistente. Chegou a ver a Clara?

– Não, está uma bagunça lá fora. Se uma terceira guerra mundial acontecer, eu aposto que começará na sua casa. – Rimos, a verdade era que todos estavam agitados pela festa e comida. – Quantos deles são seus parentes?

–Na verdade, todos são parentes do tio Matt. Minha família materna é restrita a tia Suze, Clara e tio Matt, e a paterna é muito distante, nunca os vi. – Digo, virando-me de lado. – Até quando você vai me fazer ficar deitada?

– Até eu entender porque isso aconteceu... – Rodrigo diz, perdendo a voz no decorrer da frase.

– Então boa noite, pois não nem eu entendo o que aconteceu. Estou um pouco dolorida da queda e a única coisa que entendi é que Cecilia e Cornelius queriam pedir desculpas. Talvez seja por que eu tenho que concertar as burradas deles... – Sorrio, mas Rodrigo não faz o mesmo, ele fita-me apenas. – Ainda preciso me maquiar e arrumar o cabelo, Rodrigo. – Ele continua sério, com os penetrantes olhos negros parecendo vasculhar minha alma. Ele inclina-se e toca o topo da minha cabeça com os lábios quentes.

– Espero lá fora. – Ele afasta-se e caminha para a porta; assim que ele a abre, o barulho das pessoas na cozinha enche meu quarto. Rodrigo fecha a porta e eu, ainda sentindo seu toque, levanto-me a procura do estojo de maquiagem.

Termino de arrumar-me rapidamente, prefiro deixar o cabelo liso solto e a maquiagem leve. O barulho do lado de fora parece aumentar, mais convidados devem ter chegado. Pego o pequeno pacote com o presente de Clara e abro a porta e um turbilhão de vozes e gritos toma-me, crianças correm pela cozinha, brigando por doces. Longe da bagunça, Rodrigo está sentado no pequeno sofá da sala. Sua velha jaqueta de couro contrasta com uma camisa jeans e sapato de couro, os cabelos penteados para trás e um sorriso imaculado no rosto. Ele parecia mais um personagem dos clipes de The Killers. Clara desce as escadas correndo com um pequeno vestido dourado e rosa, ela balança os inúmeros cachos dos cabelos e abre os pequenos braços para Rodrigo. Os dois pareciam se conhecer a séculos, como se tivessem nascido juntos. Aproximo-me das duas figuras.

– Eu lhe trouxe um presente, senhorita “tenho oito anos”! – Rodrigo diz entregando a Clara uma pequena caixa. Sento-me no sofá e vejo a garota abrir a caixa. De dentro, Clara retira um pequeno colar de ouro com a palavra “Clara” escrita delicadamente como pingente. Ela olha encantada, seus olhos azuis brilham e refletem a felicidade dela.

– Também tenho algo para você, Clarinha... — Dou o pacote, ela o balança e eu temo que o pequeno celular tenha se quebrado dentro da caixa. Clara, com a mão que não segura o colar de Rodrigo, abre desajeitada meu presente. Assim que seus olhos focam o presente, ela ilumina-se, parecendo emanar luz própria. – Já coloquei meu número nos contatos, espero que goste. – Afinal, eu tinha gastado todas minhas economias naquele presente. Clara, fita-nos feliz.

– Obrigada! – Ela diz, dando as costas e correndo para o pátio segurando o celular em uma das mãos e o colar em outra. Observo seu jeito juvenil, ela parecia um pouco ansiosa para a festa.

– Vamos? – Rodrigo pergunta oferecendo o braço.

– Claro — Talvez eu fosse para qualquer lugar com ele pedindo dessa forma. Seus olhos negros parecem se acender, posso ter certeza de ele leu meus pensamentos.

–Uhum... — Ele murmura. Caminhamos para o pátio. O gramado verde, antes intocado, tinha várias mesas cheias de convidados. A família de tia Suze era realmente muito popular, as minhas antigas festas de aniversário resumiam-se a um grupo de amigos que mudava todo ano, Jessie e meus pais. Mas, aqui, inúmeros rostos desconhecidos conversavam, dançavam e comiam com a música ao fundo quase abafada. As crianças parecem terem tomado adrenalina, correndo de um lado ao outro. De uma das mesas, Ísis chama-nos. Todo o clã estava na mesa.

– Boa tarde! – Digo ao sentar, embora a tarde estivesse quase se esvaindo.

–Onde os pombinhos estavam? – Camila pergunta com seu rosto juvenil e maquiado. O clima da mesa era iluminado, como se não houvesse problemas... Menos Rosana que parecia mais séria que os outros.

–Sereena fez uma viagem espiritual por acaso. – Ele olha com o semblante sério para Rosana que parece agora entender algo.

–Mas eu estou bem. Cornelius e Cecília pareciam querer falar comigo apenas. – Digo rapidamente, levantando as mãos em defesa. Ninguém precisava se preocupar com o ocorrido.

– Uma viagem auto-espiritural. – Marcel balbucia. Inclina-se sobre a mesa, parecendo preocupado.

–Não foi nada! Vamos curtir a festa. Clara não está linda? – Pergunto, desviando o assunto. Clara estava do outro lado do pátio, conversando com seu pai que a ensinava a usar o novo aparelho celular.

–Ela teve sua primeira visão? – Marina pergunta, sorrindo para garota. Marina era a mais quieta do grupo, mas sempre procura manter o grupo em equilíbrio, além disso, é a primeira a inventar festas. Mas agora, mesmo sorrindo, seus olhos pareciam sérios como os de Rosana.

–Não, ela não falou nada sobre isso... – Digo, encolhendo os ombros. Camila levanta-se com um estrondo.

–Vamos animar essa festa! – Ela puxa Íris pelo pulso e as duas vão até as caixas de som. Agradeço mentalmente Camila por não me fazer falar sobre o assunto. Olho para Rodrigo que parece focar os olhos em outra dimensão. Uma musica animada começa a tocar alto, talvez fosse algum novo sucesso da Taylor Swift, mas muitas pessoas começaram a dançar. Sorrio para as duas. Clara corre para nossa mesa.

– Reena! – Ela pula nos meus braços. – Eu aprendi como ligar para as pessoas! E o mais legal: Papai colocou uma foto nossa como fundo! – Ela sorri, os olhos fechados e os braços ainda fortes em torno de mim.

– Então você comprou um artigo capitalista para minha filha de oito anos? – Tia Suze soa atrás de mim, brincando. – Boa tarde, pessoal! – Todos respondem alegres a minha tia, cada um com da sua maneira. – Clara, vamos cantar parabéns?

A garotinha parece iluminar-se mais, ela balança a cabeça positivamente. As duas caminham para as caixas de som. As luzes são atenuadas e agora o crepúsculo toma conta do pátio. Tia Suze anuncia os parabéns, e todos levantam. A pequena Clara parece ter madurecido muito desde a minha chegada, mas só vendo-a atrás do bolo com inúmeras velas percebo o quanto ela cresceu. Um toque desliza pelos meus ombros, olho para trás e Rodrigo abraça-me. Sei que ele sentiu o mesmo que eu quando vi Clara. Todos cantam e sorriem para Clara, que fecha os olhos, pela primeira vez na noite vejo preocupação no seu rosto. Talvez estivesse escolhendo seu pedido. Quando as velas são apagadas e o bolo termina de ser repartido em inúmeros pedaços, sentamos. As mesas começam a serem chamadas para tirar fotos com a aniversariante.

– Já volto. – Rodrigo avisa e corre na direção da entrada de carros. Rosana parece cada vez mais concentrada e preocupada. Coloco minha mão sobre a dela.

–Está tudo bem? – Pergunto.

– Está sim, só me preocupada com algumas coisas do clã. – Ela fala, parecendo defender-se. Prefiro não a deixar mais desconfortável e olho para onde Rodrigo havia sumido. Ele volta com um objeto nas mãos que não consigo distinguir, até ele coloca-lo em minha frente. Era uma Polaroid antiga.

– Hipster! – Digo, brincando e ele estala os lábios, sorrindo.

– Pensei que nós poderíamos tirar uma foto. – Ele diz, apontando para Clara. Rodrigo demonstra por Clara o mesmo sentimento que um irmão mais velho possuiria. Não escondo o sorriso bobo que acompanha o dele. Nossa mesa é chamada, todos se levantam e caminho para o outro lado do pátio. Rodrigo passa o braço sobre meus ombros, quando estamos posicionados ao lado de Clara.

–Sorriam! – Tio Matt soa animado atrás da câmera. Todos do clã abrem seu melhor sorriso, a foto é tirada em segundos.

–Matt, você pode tirar uma foto minha e das garotas? – Rodrigo pergunta, assim que o clã começa a sair. Tio Matt assente e Rodrigo passa a Polaroid para suas mãos, dessa vez Clara posiciona-se entre nós, sinto sua pequena mão agarrar meu vestido. Olho para baixo e seus olhos pareciam turvos.

– Sorriam! – Tio Matt diz novamente. Desvio o olhar da garota e olho para câmera sorrindo. Quando volto a olha-la, ela parece lutar contra uma pequena lagrima e desde pela bochecha esquerda.

– O que houve, Clarinha? – Pergunto, agachando. Rodrigo olha-me com preocupação e depois para a menina que balança a cabeça negativamente.

– Eu só amo muito vocês! – Clara diz, e algo parece subir pela minha garganta. Abraço-a antes que possa chorar. – Não chore! Eu estou feliz de ter vocês! — Rodrigo passa os braços sobre nós e ficamos assim por um tempo.

– Próximos! – Matt grita. Desfazemos o abraço, sorrio para garotinha que mostra um rosto feliz. Rodrigo pega a câmera e guarda a foto no bolso da calça. Começamos a nos afastar. Sentamos a mesa, mas meu olhar ainda está voltado para a mesa com a aniversariante.

Quando a seção de fotos terminada, a musica volta a tocar. Meus pensamentos voam, desde o rosto de Cornelius até a felicidade de Rodrigo. Todos na mesa começam a comer, mas Rodrigo levanta e vai até a caixa de som. Não reprimo o impulso de observá-lo, seu corpo forte desloca-se entre as inúmeras pessoas agora em pé. Os cabelos escuros, os olhos negros, a barba por fazer... Tudo o fazia parecer algo mágico, único. Ele sorri para mim, mal o consigo ver. Então uma melodia conhecida começa a tocar, ele caminha em minha direção. Posso ouvir as pessoas deslocando-se para as mesas, e a voz fria de Keaton Henson ser ampliada pelas caixas de som. Rodrigo puxa minha mão e dirige-me para o meio do jardim. Eu não protesto, encaixo-me ao seu corpo e com leveza começamos a dançar entre outras pessoas que continuam no jardim.

10 AM, Gare Du Nord ecoa pelo pátio. Combinando perfeitamente com o local, Rodrigo gira-nos. Por cima do seu ombro posso ver o clã, Clara e tia Suze sorrindo para nós. Em meio a giros, posso ver minha vida passar pelos meus olhos. Meus pais. Jessie. A morte. O clã. Clara. Rodrigo. E então só ele está em minha mente, tudo parece esvair-se, menos ele.

– My endless distraction, you worry me... – Rodrigo sussurra em meu ouvido. Minha corrente de energia atravessa meu corpo, como uma onda bate nos rochedos. Ele olha-me, em seus olhos posso ver todos os sentimentos do mundo, todos os acontecimentos, todos que passaram pela minha vida, todos que me deixaram... Consigo ver a mim, perdida, os olhos frios e o sorriso frouxo, mas também forte e determinada. A música toca sua melodia final, e instantaneamente meu rosto inclina-se para Rodrigo. Mas antes que qualquer um possa fazer ou dizer algo, um raio roxo rasga o céu. O trovão foi tão forte que contraio o corpo, olho para todos procurando a mesma reação. Mas todos os humanos no local parecem não terem notado, já o clã está agitado.

– O que foi isso? – Pergunto para Rodrigo, assim que o barulho deixa-me pensar. Mas ele está com o rosto virado para Rosana que se levanta. Sou puxada junto dele para a mesa.

–Rosana, o que foi isso? – Rodrigo pergunta, tomando uma expressão séria e seca.

–Anluxes... Isso é magia negra, posso sentir! O raio estava relativamente próximo daqui. – Ela fala rapidamente, todos ficam em pé. – Precisamos checar isso... – Todos assentem. Olho para Clara que agora parecia séria. Caminho em sua direção.

–Clara, aconteceu alguma coisa... O clã precisa ver o que é... – Paro, Clara está olhando por cima do meu ombro para Rosana. – Vai ficar tudo bem, logo estaremos de volta! Eu prometo! – Digo, mas o desespero pode ser notado em minha voz. A adrenalina pulsa em minhas veias.

–Tudo bem... – A voz de Clara é quase um sopro. Antes que eu possa acalmá-la, Íris pega meu braço afastando-me da garotinha.

– Precisamos agir rápido! É notoriamente uma provocação... – Íris fala mais para si do que a mim. Caminhamos para a parte da frente de casa, Rodrigo já sobre Dóris e todos do clã na antiga caminhonete de Rosana. – Vá com Rodrigo.

Sento na garupa de Dóris que subitamente começa a correr. O barulho do motor era alto e nem Rodrigo ou eu usamos capacete, o vento lambe meus cabelos. Meu vestido branco faz inúmeras ondas. Rodrigo costura as inúmeras ruas, parecendo seguir algo. Em pouco tempo estávamos em um terreno enorme relativamente perto da casa de tia Suze. Desço um pouco tonta pela agitação e Rosana termina de estacionar o carro junto ao meio fio. Todos se olham, esperando alguém tomar alguma ação... Rosana é a primeira a dizer algo.

–Muito atencioso da parte deles procurar um lugar vazio em São Domingues. Vamos logo... – Ela diz, tomando a frente. Íris e Camila tomam seu lado, seguidas por Marcel e Marina. Rodrigo e eu somos os últimos. – Aconteça o que acontecer, protejam a reencarnação...

Engulo em seco, Rodrigo está duro e frio perto de mim, parecendo ter aumentado sua estrutura em centímetros. Procuro por aquele que dançara comigo minutos atrás... Mas ele parecia mais um animal caçando. Tudo estava quieto e calmo, mas eu podia sentir más energias formigando em minha pele, o céu parecia ter escurecido em um grande número de tons e um vento frio congela minha espinha.

À medida que avançamos no terreno percebo que aquele era um campo de jogos, consigo ver as marcas das goleiras e escanteios a metros de mim. No meio do campo, cerca de vinte pessoas esperam. Tremo sobre os calcanhares, mas continuamos avançando.

– Olha quem apareceu! – Um homem alto fala, parecendo liderar os outros, os olhos sanguinários examinando-me. O homem parecia antiquado, quase dramático.

– Rikromm, pode explicar a necessidade disso? – Rosana fala entredentes, eu estava certa... Aquele era o líder dos Anluxes. Ele para por alguns minutos, e aponta para mim.

– Não é obvio? – Ele pergunta, mesmo com o sarcasmo na voz, seu porte elegante me faz teme-lo. – Resolvi fazer aquilo que Jasper planeja há semanas. – Ele desvia seus olhos para Rodrigo, que fecha as mãos em punho. – Tenho uma proposta para a reencarnação... Venha conosco ou arda com teus semelhantes!

Dou um passo para trás, os clãs colocam-se em posição de ataque. Todos os librins e Rodrigo avançam, escondendo-me. Meus olhos procuram Rikromm entre os corpos daqueles que me protegem. As pessoas do lado direito começam a manusear pequenos papeis e neblinas vermelhas. Antes que eu possa falar algo, Rikromm levanta os dedos como uma garra. Em resposta meu corpo levanta do chão, como se alguém estive puxando meu peito para o alto. Vejo Rodrigo correr para Rikromm, mas ele é atacado por cinco pessoas, que falam inúmeros encantamentos juntos.

– Vabadus– Grito, sufocada e debatendo-me do que quer que me segurasse. O encantamento parece não funcionar, olho para baixo e agora foco a imagem de Thomas junto ao grupo, seus olhos estão retorcidos numa máscara sem emoção. Marcel e Marina começam a atacar uma parte do grupo. – Spiritus lumine defende me ab iniquitate! – Falo rapidamente o encanto de magia azul e meu corpo cai. Todos estavam atacando agora, com leveza sou posta no chão. Rodrigo se coloca ao meu lado.

Numa confusão de mãos e encantos, Rikromm olha-nos, sorrindo. Ele segura um punhal. Rodrigo parece dançar ao meu lado e varias raízes surgem do solo. Tento pensar na situação, eu precisava fazer algo, precisava proteger ambos os clãs... Ninguém deveria morrer essa noite! Era meu dever como reencarnação.

– Vão minhas criaturas – Rikromm corta a mão direita e seu sangue pinga sobre pequenos papéis escuros, aquilo era magia vermelha avançada. Os papeis começam a queimar e transformam-se em pequenos pássaros negros, as raízes formam algo como um escudo entre mim e as criaturas.

– Que o vento varra nossos temores – Conjuro o encantamento, olhando para o céu. O vento balança as árvores que ladeiam o campo. Uivando, o ar em nossa volta forma uma barreira e derruba os pássaros negros, formando um cilindro em volta de nós. Rodrigo abaixa as raízes. – Rodrigo, o que faremos? – Pergunto mais alto que o barulho do vento que ainda enche o local.

– Sereena, precisamos lhe tirar daqui o mais rápido possível, ele não vai descansar até que a tenha... — Rodrigo pega meus ombros, tentando mover-me. O escudo de vento começa a descer, travo meus calcanhares no chão.

–Não, eu preciso fazer isso... Você mesmo disse que ele não descansará! – Digo, diminuindo a voz quando o vendo acaba. Rodrigo parece estar numa luta interna novamente, mas ele sabe que tenho razão.

– Estamos em desvantagem!- Íris grita perto de nós. Das suas mãos, inúmeras luzes brancas saem, acertando Thomas que parece aguentar. Thomas parecia ter aumentado, o rosto forte e determinado.

– Rodrigo, preciso que me cubra! – Digo, já correndo. Tento não pensar na besteira que estou prestes a fazer. Corro para um grupo de pessoas que ainda estava unido, posso ouvir os gritos de Rodrigo atrás de mim, alguns eram xingamentos; outros, encantamentos. Luzes passavam por mim.

Balanço os braços, dançando entre as luzes. Tento me concentrar nos movimentos do corpo e lembrar-me dos ensinamentos de Rosana.

– Fire! – Um circulo de fogo azul forma-se em volta do pequeno grupo de feiticeiros, aprisionando-os. As chamas impedem seus encantamentos, mas antes que eu possa comemorar. Um deles pula do circulo bem na minha frente. Sem pensar, pulo em sua direção. Prendo minhas mãos no seu rosto e ambos caímos. O garoto deveria ter uns quinze anos e seus olhos azuis pareciam amedrontados mesmo com a postura rígida. Engulo em seco. – Dolor.

Seu corpo se contorce embaixo do meu, seus olhos se fecham até ele desmaiar de dor. Saio de cima dele, cambaleante. Olho para Rodrigo que está com problemas. Volto a correr em sua direção, mas ele retoma o controle e sorri. Procuro por Rikromm, ele e Rosana lutam perto do meio de campo. Aquela era a raiz do problema, eu precisava fazê-lo parar. Viro-me na direção dos líderes, cada um possuindo diferenças no ataque. Rosana parecia um gato, espreitando Rikromm e o fazendo recuar, já ele parecia um pássaro de rapina, sempre atento.

– Rikromm! – Falo alto e firme, assim que os alcanço. Ele olha-me, parecendo desviar a atenção, Rosana aproveita o momento e desfere uma luz branca no rosto do anlux. Rikromm cambaleia. Empurro Rosana para o lado e tracejo no ar vários círculos de proteção.

– Obice! – Grito e um círculo forma-se em volta de mim e Rikromm. Eu estava presa com o líder dos anluxes. Rosana levanta-se rapidamente, batendo contra o campo de força espiritual. Mas eu não posso ouvi-la, vejo Rodrigo se aproximar também.

Rikromm firma-se, olhando-me surpreso. O lado direito do rosto com uma leve vermelhidão, mas suas roupas pareciam que nunca foram tocadas. Rodrigo bate na barreira, posso ver a exaustão em seu rosto. Eu já tinha usado todos os truques que conhecia, o cansaço pelo esforço começa a tomar conta dos meus joelhos e mãos.

– Rikromm, eu peço que recue! – Digo, a voz firme e determinada. Ele olha-me, sorrindo. Fecho as mãos em punho, tentando não olhar para Rodrigo.

– O que te faz pensar que realizarei tal ato? – Ele pergunta, tocando uma das mechas do meu cabelo. Posso ver a euforia de Rodrigo aumentar do lado de fora. – Tem certeza de que não desejas vir comigo?

– Eu quero que você recue! Não quero ninguém machucado. Meu dever como reencarnação não é esse... – Digo, afastando-me. Ele me olha, franzindo a testa.

–Não é algo que estou disposto a fazer, reencarnação... – Rikromm pega meu braço com força. Meu sangue embaixo do seu aperto começa a esquentar, cada vez mais. Meus joelhos cedem com a dor. Ele sorri para a máscara de dor que meu rosto forma. Toco o chão com o braço livre, nessa altura todo meu braço formigava.

– Lux – É o único encantamento de proteção que consigo pensar, uma luz forte sai dos meus dedos, vejo Rikromm fechar os olhos. – Obice cessare – Grito antes que ele possa se mexer, as barreiras caem e vejo Rodrigo jogar-se sobre Rikromm. Sem preocupar-se com magia, Rodrigo soca o rosto de Rikromm, que sangra.

– Contentio – Rodrigo grita contra o rosto do homem, que para de se mover instantaneamente. Rodrigo levanta-se. – Matar esse verme só dificultaria mais as coisas...

Rikromm está com o rosto virado para direita, com dificuldade um sorriso se forma em seus lábios. Sigo seu olhar... Uma garota morena, os cabelos com inúmeros cachos castanhos, olha para frente. Os olhos inchados e vidrados em algo do outro lado do campo. Viro-me e procuro o que ela observa...

Meu coração paralisa, o céu escurece, e meus músculos enrijecem. Na borda do campo, Clara sai dentre as inúmeras árvores, pequena e frágil com seu vestido claro. Tento correr para a pequena, Rodrigo segue-me com os olhos. Nós corremos, minhas pernas ardem, mas meu coração pulsa o sangue eletrizado pela adrenalina. Minha visão enturva, o chão parece uma esteira de academia, pareço nunca chegar a Clara. Quando estou há alguns metros dela, uma esfera de energia vermelha passa rente ao meu rosto.

Caio de joelhos, aquilo não podia estar acontecendo... Obrigo meu corpo a continuar se arrastando até o corpo caído da pequena que horas atrás dançava em círculos... Meu peito parece abrir-se, sangrando. Não escondo as lágrimas, viro para olhar Rodrigo. Mas ele está ainda de joelhos atrás de mim, uma mão sobre o peito e outra apoiando-o. Mas consigo olhar para garotinha, seu corpo parecia tomado pela energia vermelha, tremendo.

– Clara! – Grito, alinhando-a junto ao peito. – Clara! – Não consigo parar de repetir seu nome. A batalha atrás de mim parece silenciosa agora comparada à confusão dos meus pensamentos.

–Ree..Reena... – A pequena voz soa contra meu peito. Olho para seu sujo rosto, ela sorri. Os dentes cheios de sangue. O colar dado por Rodrigo com o tom rubro manchando-o, o vestido parecia ser feito de um tecido vermelho. Minhas lágrimas molhando-a. – Eu te amo!

– Rodrigo! Ajude-me!- Grito para o vazio, não consigo ver nada. – Você não, Clara... Você não, não posso perder mais ninguém! – Digo, olhando-a. Volto-me para o céu. – Ela também não! Por favor! – Engasgo com as lágrimas. Rodrigo faz sua barreira de raízes novamente, parecendo com dificuldade. Os olhos de Clara fecham-se. Meu mundo parece despencar, minhas mãos já não têm força para segurá-la com firmeza. – Por quê? Clara?

– Ficará tudo bem, Reena... – A pequena diz, gaguejando... Seu corpo fica mole. – Fa... Falta pouco agora. E...eu vi...

– Fique quieta, você não vai morrer! Eu não vou deixar! – Levanto, energizando minhas mãos. Tento afastar a energia vermelha, mas é inútil... Eu mal consigo ver minhas mãos. E então o mundo fica escuro, vazio... Olho para Clara, seu corpo já não reage mais. Abaixo-me rapidamente. – Clara! Clara! – Nesse momento, toda a energia e esperança do meu corpo são tomadas, tiradas de mim, como se amputassem parte do meu corpo. Uma fumaça começa a encher o local. Mas não olho-a, pois pequenas borboletas brancas saem do corpo sem vida de Clara. Minhas inúteis mãos tentam pegá-las, mas são como fantasmas... Minhas lágrimas aumentam. Meu corpo treme. Minhas mãos enterram-se na terra. Um grito rubro e quente rompe da minha garganta. O pequeno corpo se desfaz em fumaça e borboletas.

–Sereena! Sereena... – Rodrigo balança meus ombros. – A imagem de Clara sumiu da nossa foto! – Ele coloca com pedaço de papel sobre meu rosto, mas não distingo a imagem. Meu corpo já não sente nada, minha voz some, meus olhos perdem-se. Mas posso ver as lágrimas de Rodrigo. Levanto o indicador e pego uma delas.

Sinto meu corpo levitar. Estou a metros do chão. Pessoas chamam-me, mas eu não as respondo. Um círculo cheio de símbolos forma-se nas minhas costas, enorme. Meus olhos irradiam um tom verde, minhas feições retorcem-se, as veias do meu pescoço e braço aparecem. Meu corpo gira sem sentido. Não possuo controle das minhas ações, vejo todos como pequenas formigas correrem embaixo de mim. Abraço a selvageria e deixo a instabilidade emocional me tomar. Foi assim que meu bloqueio foi retirado, pela desestrutura emocional, e é assim que morrerei! Não pretendo viver com a dor de ter matado Clara involuntariamente. Se eu não fosse a reencarnação, ela não morreria, ainda estaríamos festejando, sua primeira visão não seria sua própria morte.

Minha boca começa a mexer-se rápida e involuntariamente, conjurando feitiços que nunca ouvira. Minhas mãos levantam e com elas o chão abre-se em dois. Muitos dos inimigos caem na cratera, que se fecha. Vejo muitos conjurarem feitiços contra mim, mas não pareço senti-los. Uma mão levanta, e posso ver uma pesada nuvem chuvosa formarem-se, raios caem sobre o terreno, não vejo Rikromm ou a garota assassina. Com mais movimento; criaturas, como cachorros, saem do chão correndo atrás dos que ainda tentam me derrotar. Eu grito de dor e frustração, meu corpo move-se disparando inúmeros raios, não consigo ver ninguém direito. As lágrimas continuam a cair, derrubo árvores e o chão treme. O céu possui o mais escuro tom, uma noite sem lua, uma noite sem luz, uma noite de trevas. A fumaça negra toma a cidade, as borboletas fogem da visão. Sinto como se cada passo abaixo de mim pudesse ser ouvido, como se cada pulsada dos corações fossem como sinos da igreja em meus ouvidos, mas não ouço a pulsação da pequena que me alegrava. Parte de mim só quer deitar e gritar, a outra pretende destruir parte da cidade. Mesmo com a agitação, meus olhos pousam sobre uma figura na beira do campo, os olhos castanhos amêndoa conhecidos.

Jessie segura uma besta nas mãos, viro-me involuntariamente, tentando proteger-me com o escudo atrás de mim. Mas escuto a corda ser largada, a flecha rasgando a chuva e o vento. Dor. Olho para meu peito... Uma flecha azul brilhante atravessa-o. Minha visão escurece, meu corpo treme e começa a cair.

Não culpo Jessie, não culpo aos anluxes, não culpo ninguém além de mim mesma por tudo que aconteceu. Aceito a morte, aceito o fato de estar caindo para a escuridão que eu mesma fiz. Fecho os olhos e espero o impacto com o chão... A visão dos olhos culpados de Cecília e Cornelius aparece em minha mente...

–&-

“- Caixa de mensagem-"

"Alô, Reena? Espero que eu esteja fazendo isso certo. Eu resolvi que minha primeira ligação seria para você... Eu... Eu entendo a dor que está sentindo, Reena. Eu senti o mesmo essa madrugada quando vi que nunca mais veria seu rosto, o da mamãe, o do papai ou o de Rodrigo. Eu quero que saiba que isso não é sua culpa, Rosana me disse que ninguém humano lembrara-se da minha mor... Morte. Mas eu espero que você também não lembre... Eu amo você, Reena... Fique bem... Estou pronta para virar uma estrela.”

Notas finais
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