Notas iniciais
Alô Alô, com a graça do senhor eu postei esse cap. Esse é um cap com um novo POV Explicações: Vestibular - Bad - escrevi - bad - doença - escrevi = taram. Obrigada novamente ao Son e a Joy que me apoiam sempre e leem quando podem ♥ e ao Rafael por me bajular ♥

Bloodhound. Nascer com um propósito. Nascer para servir. Para proteger. Para estar ligada a alguém pelo resto dos dias delas. Bom, pelo menos, esse alguém é minha melhor amiga...

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Todo o improvisado campo de batalha estava uma desordem, Sereena havia acabado com metade do exercito anlux em poucos minutos. A chuva ainda ricocheteia minha capa, mas de uma forma bem mais amena. Um homem alto corre para o corpo paralisado de Sereena na terra molhada. Ele parece desesperado, mas aquele não é o meu maior problema no momento. Nessa noite, eu precisava apenas observar os movimentos dos Anluxes, aquela não era para ser uma noite agitada. Mas a situação saiu do meu controle, tentei durante a batalha toda não interferir, deixar que a reencarnação fizesse seu papel, mas assim que vi Sereena abalada e deixando-se levar pela magia, não pude fazer nada além de neutralizá-la. Mais tarde terei problemas fazendo o relatório da noite para meus superiores... Caminho para o casal.

—Sereena... Sereena! Eu não posso perder mais alguém hoje! – O homem grita para o rosto de Sereena; que, pela primeira vez na noite, está ameno. Agora reconheço os traços, mesmo destorcido pela visível dor, ele é o filho homem mais novo do líder dos luminos. Ele grita tão alto perto do rosto da garota que se ela estivesse com todos os sentidos, estaria com os ouvidos zunindo. Dou um passo para trás, imaginando a situação se Sereena acordasse agora, mesmo sendo impossível. Ele vira a cabeça para minha direção, e volta o olhar para a besta em minha mão. Ele levanta com raiva, posso ver seus olhos negros ardendo e vermelhos pelo choro. Não consigo esboçar reação, ele agarra meu colarinho, levantando-me ligeiramente. – Jessie, por que você fez isso com ela? – Ele grita contra meu rosto. Embora a tempestade tenha acabado, outra confusão estava prestes a acontecer. Ele sabe meu nome?

— Menos... Ela não morreu! Daqui a... – Tiro o celular surrado do bolso da calça e o olho – Daqui a umas vinte horas ela irá acordar. – Ele solta-me – Agora, posso saber como sabe...

—O que faremos agora? — Ele interrompe minha frase e se vira para Sereena. – Como vamos explicar para os pais de Clara? Como...

— Eles não se lembrarão mesmo... Os humanos não se recordam de uma Siener depois da sua morte. Vai ser como se Clara nunca tivesse existido, como se houvesse um buraco na história. – Digo, e me choco com a frieza em minha voz. Eu não podia deixar-me ser emotiva agora, mesmo que eu conhecesse a pequena Clara há algum tempo. – Agora precisamos esperar aquela neblina escura chegar a todas as pessoas que alguma vez já conheceram Clara... – Digo rapidamente. E ele me olha com estranheza, sinto um desconforto instantâneo. – Nem adianta tentar ler meus pensamentos, trapaceiro. — Falo, recordando da habilidade dos luminos de ler a mente das pessoas, dependendo do nível que têm dentro da magia. Mas é difícil para eles conseguirem interpretar os pensamentos confusos de alguém. — Eras atrás o líder dos Bloodhounds, fez um pacto com o líder dos luminos para selar a mente dos Bloodhounds, assim ninguém teria poder sobre nós.

Rodrigo, mesmo por baixo do estresse e preocupação, parece esquivar-se quando digo a palavra “Bloodhounds”. E entendível que ele sinta receio ou medo, afinal atirei uma fecha contra uma garota e sou um tipo de agente secreta da magia...

O resto do clã começa a se agrupar. Rosana, líder dos Librins se coloca em frente ao grupo, três meninas apoiam um garoto alto e negro que sangrava próximo ao abdômen. Eu não possuía muitas informações sobre os clãs, como nome dos integrantes. Embora os Bloodhounds sejam fortes, ainda há muita burocracia até os novatos, como eu sou considerada, conseguirem alguma informação completa.

— Meu nome é Jessie. – Começo, engolindo o desconforto. Todos estão sujos e molhados, alguns com arranhões e sangrando. Talvez até possam se perguntar por que não interferi antes. – Sou a Bloodhound destinada para amparar Sereena... – Eu realmente deveria ter amparado de longe, observado... Eu nem deveria ter formulado essa frase, já que não fui totalmente destinada para proteger Sereena. Tenho observado a evolução de Sereena na cidade desde há primeira semana, mas pensei que observar o garoto Thomas seria o essencial para segurança de Sereena, já que ele encontra-se num clã mais radical. Mas omito essa parte vergonhosa da minha missão. – Sei que vocês são Librins.

— Como deve saber meu nome é Rosana. – A mulher mais velha fala com autoridade, mas os olhos estão cansados e preocupados. – Essas são Camila, Marina e Ísis. – Ela fala apontando para as meninas, não prometo lembrar o nome delas. – Esse perto de você é Rodrigo, e o que está ferido é Marcel. Precisamos levar Marcel para o clã ou um hospital, dependendo da situação. Vocês conseguem ajudar Sereena?

— Esse é meu dever... – Digo, agora mais do que nunca é meu dever cuidar de Sereena, já que as coisas tomaram essas proporções. Meu telefone vibra no meu bolso, engulo o enjoo e clico para rejeitar a chamada. Que os bons espíritos me ajudem...

O clã começa a encaminhar-se, para saída do campo de futebol. Estamos apenas Sereena, Rodrigo e eu. Ele alinha a garota ao seu peito, Rodrigo parecia alguém que daria a vida por Sereena, mas não sei até onde ele iria por ela com certeza.

— À uma hora dessas a neblina já deve ter passado pela casa dela. Tudo deve estar arrumado de outra forma quando chegarmos... Vamos! – Digo, mas Rodrigo ainda parecia concentrado no rosto de Sereena.

— Eu pensei que ela fosse sua amiga... – Rodrigo diz, parecendo magoado.

— Você não sabe da metade da história! Vamos logo, vou chamar um taxi. Eu vou com ela e você pega a moto. – Ele vira o rosto, a raiva queima nos seus olhos inchados pelo choro excessivo.

— Eu vou com ela! Não confio em você! – Ele levanta-se bruscamente, apontado para Sereena. – Cuidar dela não é algo que você tem feio muito bem... – Engulo o gosto de bile que se aglomera na minha garganta, o orgulho abalado.

— Não temos tempo para suas reclamações! Precisamos tirá-la daqui. Nada que eu fiz vai prejudicá-la. Entendo que foi uma noite difícil para você... Mas não tenho disposição para ser sua psicóloga agora! – Estou praticamente gritando, mas meu corpo está exausto, sinto minhas mãos formigarem e a visão escurecer. Tento me concentrar em não desmaiar por causa da raiva.

Rodrigo parece querer voltar à discussão; mas ele, mesmo com toda a confusão, sabe que estou certa. Ele aconchega Sereena nos seus braços. O corpo da garota está cheio de arranhões e folhas molhadas, o cabelo cobrindo o rosto e o vestido parecia não possuir lavagem que o desencardisse. No meu bolso, o celular volta a vibrar. Pego o aparelho com raiva, atendo.

— Jessie... – A voz de Salomão soa do outro lado.

— Depois! – Digo preste a desligar o celular ou joga-lo fora.

— O que está acontecendo aí? – Salomão fala com a voz firme de líder. Mas eu não podia explicar ou esclarecer dúvidas agora.

—Complicações... – Digo e termino a chamada. Abro a agenda telefônica e procuro pelo número do taxista que tem me levado para cima e para baixo há semanas. O taxista atende e passo todos os dados de que ele precisa. O lugar da batalha não era tão longe do ponto de taxi. – Vamos indo.

Começo a andar para a saída do campo, que agora era vários amontoados de terra batida e grama. Rodrigo me segue, posso ouvir seus passos se arrastando, desconfiados e cansados. Essa noite é só o início da missão de Sereena; hoje, ela pareceu despertar, como se o bloqueio tivesse sido retirado só agora. Nosso clã sabia que o equilíbrio emocional da reencarnação era importante para realização da magia, mas eu não imaginava que seria desse jeito. Se eu não tivesse intervido... Metade da cidade estaria destruída.

O táxi está parado junto ao meio-fio. Nem Rodrigo nem o taxista falam algo enquanto o corpo da garota é posto no banco de trás.

— Cuide dela, logo estarei na casa da Suze. Mas preciso passar no hotel primeiro... – Rodrigo fala ao passar por mim, indo em direção a sua moto. Ele não precisava ter dito nada, era meu dever cuidar de Sereena, mas sua frase me faz perceber sua preocupação e quanto está lutando para não perder o controle das emoções. Balanço a cabeça, concordando. Entro no táxi.

—Muita bebida? – O taxista pergunta, olhando pelo espelho para Sereena. Ele sorri, parecendo querer amenizar a tensão.

—Sim... Podemos ir antes que ela acorde e vomite no seu carro? – Digo, casualmente. – Rua Florena, número 54. Por favor...

Ele concorda, e o táxi começa a se mover. Não consigo olhar para o rosto da garota e concentro-me em esconder a besta debaixo da capa, prendendo-a no cinto.

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A porta está aberta, mas a casa parece silenciosa demais. Ascendo a luz da sala. Diferente de algum tempo atrás... Parece que a neblina tinha feito os convidados voltarem para suas casas, imediatamente. Já Suze e Matt possivelmente foram dormir. Eu sabia que a festa de aniversário de Clara era hoje, mas se não soubesse duvidaria que ali ocorrera uma festa. Arrasto Sereena até o sofá, minhas costas rangem com o peso da garota. Procuro por sinais da festa. Caminho para a garagem, mas só um carro de passeio e bicicletas estão no lugar, que parece inconfortavelmente vazio. O jardim está intocável, só o barulho de grilos podem ser ouvidos. Volto para a sala.

Sereena não se mexera um centímetro enquanto eu passeava pela casa. Sento ao seu lado, olhando para estante de livros e TV, vários quadros mostram um casal feliz, mas nem sinal da garotinha loira. Tudo sobre Clara ou relacionado a ela desapareceu, nem fotos e possivelmente nem o quarto dela estavam lá. Era melhor que os humanos não se lembrem dela, evitar luto e tristeza é importante nesse momento. Mas não sei como Sereena reagirá quando acordar. Ela viveu por muito tempo sem saber quem era, e agora sofreria como uma humana... Nem a magia ou as almas que a seguem iriam ajudá-la agora. Enterro o rosto em minhas mãos, a dor de Sereena parecia umedecer o ar, o cansaço pesa nos meus ombros. E a noite está apenas começando...

O celular toca, levanto já rígida, com a besta ainda em mãos. No mesmo momento que clico para atender o aparelho; Rodrigo entra, os olhos vermelhos, mas o rosto está como mármore. Ele senta-se ao lado de Sereena, enquanto eu coloco o celular no ouvido, respirando profundamente.

— Jessie! Relatório atual! – A voz de Abigail forma um grande resmungo do outro lado da linha. Caminho para a cozinha, deixando a besta sobre a mesa de centro da sala. Talvez fosse melhor que Rodrigo não escutasse a conversa.

— Eu não tive como não intervir... – Começo, mas aquilo pareceu mais um pedido de desculpas que uma explicação. – Ás cinco horas da tarde de hoje, os anluxes se concentraram na sede do clã deles, eu estava seguindo o garoto anlux. Eles começaram a se mover meia hora depois, posicionando-se num campo de futebol amador próximo à casa dos tios de Sereena. Ás 19:36 um encantamento foi acionado, enchendo o céu de inúmeros raios, logo o clã dos luminos estavam no local. Sereena batalhou com controle até as 20:03, quando sua prima foi atingida pelos anluxes e veio a falecer. Às 20:10, Sereena libertou as almas, deixando que Cornelius tomasse controle da situação, muitos anluxes foram abatidos. Como sabemos... – O outro lado continua mudo, esperando o fim da explicação. – O centro do poder da reencarnação são as emoções; sendo assim, com Cornelius no comando, disparei uma flecha contra a reencarnação às 21:01, direto no centro de poder. Neutralizando-a – Engulo em seco, sei que Rodrigo está logo atrás de mim, ouvindo tudo. Mas meus superiores falam baixo, parecendo discordarem e aceitarem minhas decisões. – Desde então ela está dormindo.

Deslizo para uma das cadeiras na sala de jantar, e apoio minha cabeça contra a mesa, eu só queria jogar o aparelho contra a parede e dormir. Não havia decorado horário nenhum, mas mentir é algo que os Bloodhound fazem com facilidade... Algo que tenho feito minha vida inteira.

— Entendo... Jessie, você agora tomará o lugar dos pais de Sereena. – Salomão fala, engolindo em seco — Precisamos que esteja ao lado dela, ajudando-a... Mas o mais importante: Cuidando da situação caso ela torne-se um perigo para a magia e humanos... –Ele fala, querendo parecer um pouco animado ou querendo mostrar os prós da situação. Mas a “promoção” não me deixa feliz, pois aquela era uma forma bonita de dizer que caso Sereena perdesse o controle drasticamente, eu teria que matá-la. Engulo em seco, não posso contestar àqueles que possuem o mesmo sangue de caçador. – Não se foque a essa ultima parte – Ele parece notar que estou descontente. — Você agiu corretamente horas atrás e sei que saberá lidar com a situação. Agora precisamos que você ache um envelope.

— Sobre o que ele se trata? – Pergunto, rapidamente. Quando fui designada para a missão de observar Sereena, ninguém havia citado algum envelope.

— Quando os pais de Sereena morreram, a polícia devolveu alguns pertences que havia no carro. Entre eles havia um envelope, nele há informações sobre a reencarnação. Precisamos dele...

— Farei o que for possível, se isso ajudar Sereena. – Eu sou uma grande mentirosa e possivelmente a portadora de inúmeras novidades ruins para Sereena, mas ela ainda é minha melhor amiga.

— Tudo bem, mantenha-nos informados. – Salomão termina a ligação. Atiro o celular em cima da mesa, fazendo-o deslizar. Fora mais fácil que eu imaginava.

— Então você neutralizou a Sereena? – Rodrigo pergunta, encostado a geladeira.

— Estou um pouco cansada para responder perguntas agora. Mas sim, a neutralizei. Era preciso... Ela podia morrer se deixasse Cornelius dominá-la por mais tempo. – Ele olha para garota deitada no sofá. Rodrigo parecia formar uma personalidade protetora sobre Sereena. – Pode me ajudar a colocá-la no quarto?

— Sim, vou arrumar as coisas na garagem e a levamos... – Rodrigo começa, mas para assim que vê a confusão em meu rosto.

— Não tem nada na garagem... Eu vasculhei a casa, e não há nada da festa ou na garagem.

— Mas o quarto de Se... – Rodrigo começa a correr escadas acima. Volto para o lado de Sereena, o vestido pinga gotículas de água sobre o tapete da sala. Rodrigo aparece no topo das escadas. – Não há nada da Clara lá! – Ele parece transtornado. Rodrigo fala alto, e eu rezo mentalmente para que os tios de Sereena não acordem agora. – Todas as coisas de Sereena estão no quarto de Clara...

—Rodrigo, esse foi o melhor jeito que a magia achou de deixar as coisas mais “normais”. Nosso problema será quando ela acordar e perceber isso. – Digo, apontando para Sereena. – Agora me ajude a levar Sereena para cima.

Ele se recompõe, e caminha até nós. Rodrigo pega Sereena nos braços e caminha de volta para a escada, vou logo atrás. No sofá, uma mancha se formou. Precisaria arrumar uma explicação ou limpar aquilo. Rodrigo para em frente a uma das portas, receoso. Viro a maçaneta, o interior é assustadoramente desconfortável. Três móveis estão espalhados, o volume é pequeno para o tamanho do quarto. Tudo aquilo parece deslocado. A magia não tem nenhum senso de organização.

Levanto os lençóis de Sereena, e Rodrigo coloca-a sobre a cama. Ele sai, parecendo claustrofóbico mesmo que o lugar fosse grande. Puxo o vestido de Sereena sobre sua cabeça, não tenho muito que fazer por ela, não suportaria seu peso debaixo de um chuveiro e certamente não pediria para Rodrigo fazer isso. Assim que termino de tirar o vestido, sua cabeça bate contra a cabeceira da cama. Um som alto ecoa no quarto quase vazio e Rodrigo abre a porta rapidamente. Cubro Sereena o mais rápido que posso.

— Culpa minha. – Levanto as mãos, e Rodrigo volta a fechar a porta. Se fossemos outras pessoas, se fossemos humanos... Aquela teria sido uma situação engraçada. Mas não somos, somos criaturas criadas pela magia... Sereena não está bêbada, está neutralizada. Rodrigo não está preocupado com a namorada bêbeda, está sofrendo com a morte de uma garotinha. Eu não sou a amiga que segura o cabelo para a outra vomitar, eu sou aquela que deve ser carcereira da sua melhor amiga...

Termino de cobri-la. A janela estava fechada, tudo estava calmo dentro e fora da casa, como se a cidade toda dormisse. Afasto-me da cama, e abro o guarda-roupa.

Procuro nas inúmeras prateleiras pelo envelope, mas a bagunça do armário só aumenta. Um embolado de roupas, livros e CDs, mas nenhum envelope ou carta. Sereena já teria aberto?

Deixo um dos CDs cair, e agacho para pega-lo. Mas assim que reconheço que CD era, minhas costelas contraem, fazendo-me perder o folego. “Wichita” de Whitaker. Eu o havia dado no aniversário passado, naquela época eu já me sentia culpada por esconder tantas coisas de Sereena, mas eu nunca imaginaria que estaríamos nessa situação depois de quase um ano, toda a noite tinha passado rápida demais. É como se eu tivesse montado um elaborado castelo de cartas com minhas mentiras, e uma leve brisa tivesse o derrubado.

A porta atrás de mim abre-se novamente, junto os pedaços da capa do CD e coloco-os dentro do armário.

— Eu acho que alguém deveria ficar com ela hoje... – Rodrigo começa, a incerteza em sua voz fazia parece que ele estava tremendo.

— Eu vou ficar com ela. Amanhã saio cedo daqui, e vou procurar o clã dos Librins. – Talvez o envelope esteja em algum lugar no clã. Rodrigo parece entender minha posição e fecha a porta. Pego um grande cobertor e estendo no chão de Sereena. Lembro-me da besta sobre a bancada, mas é impossível que alguém acorde de madrugada. Tiro a capa e sobre ela coloco as três adagas que se encontravam comigo, as poções guardadas no cinto e celular. Escuto a moto dar partida abaixo de nós, e deito sobre o cobertor. Tentando afastar-me dos pensamentos e culpa, adormeço.

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O celular toca, mas quando toco para atendê-lo, o aparelho desliga-se. Há outras vinte chamadas de Abigail no visor, levanto rapidamente e espero ela retornar a ligação. Dormir não foi difícil, principalmente por que prefiro estar inconsciente a pensar na noite anterior. O relógio perto da cômoda mostra que são oito da manhã, coloco todas as armas e poções nos determinados lugares e deslizo a capa sobre os ombros, mesmo que os tios de Sereena foram enfeitiçados para dormir, logo eles estariam acordados e eu não tenho como justificar minha presença. Caminho para a porta do quarto, minhas botas rangem contra o chão e evito olhar para Sereena. Desço as escadas silenciosamente, pego a besta em cima da mesa e; assim que fecho a porta da casa, o telefone volta a tocar.

—Abigail... – Digo, cautelosa. Possivelmente uma briga está prestes a começar.

—Jessie! Onde você está? – Ela fala rapidamente. Nós sabíamos que aquilo era só conveniente para a conversa, nenhuma das duas se importava realmente com a outra.

— Saindo da casa de Sereena. – Mesmo que eu quisesse voltar correndo e dormir.

— Quais são seus planos para hoje?

— Planejo ir ao clã dos Librins, saber um pouco mais sobre os avanços de Sereena na magia, e arrumar um lugar melhor para ficar. Minhas costas não aguentam mais ficar naquela cabana. –

Lembro-me da pequena casa, sem encanamento ou cama, um arrepio envolve minha espinha. – Algo mais?

— Não... Só não se esqueça do envelope. – Ela para por um momento. — E não deixe Sereena ler... Não sabemos o que pode haver dentro. Ela e a família já devem estar muito abalados pela morte da garotinha.

— Só Sereena se lembrará da morte de qualquer forma... Minutos antes de atirar contra a Sereena, ouvi gritarem que a Siener tinha morrido. A prima de Sereena morreu quando se tornou uma Siener completa...

— Que confusão. – Abigail fala, fingindo tristeza. – Bom, agora tenho que ir.

A linha fica muda, e uma leve chuva começa a cair sobre a cidade. Procuro pelas anotações que fiz logo que cheguei a São Domingues, nelas há o endereço dos Librins. O endereço é de um lugar longe, até mesmo para essa minúscula cidade. Teclo o único número que eu sabia de cor, graças a minha preguiça e falta de ônibus dessa cidade: O telefone do taxi.

— Alô – O taxista atende ao telefone, mas eu desligo logo depois. Rodrigo está virando a esquina. Não vou gastar com o taxi!

— Bom dia... – Digo, assim que a moto para em frente à casa de Sereena. – Também vai ver os Librins?

— É melhor... Tenho que ver como Marcel está e o que devemos fazer quanto aqueles idiotas... Quer carona? – Ele pergunta casualmente.

— Sim, meu bolso agradece. – Digo, subindo da garupa da moto, que logo dá partida.

Talvez São Domingues fosse uma cidade boa de viver se não houvesse dois clãs e tantos feiticeiros. Os humanos não veem que suas vidas são drasticamente mudadas pela magia, ainda mais agora com a morte de alguém que eles nem lembrarão. A cidade parece começar a acordar de um sono profundo, comerciantes pestanejando a porta das lojas e nenhum sinal de crianças ou animais. Clara era realmente influente na cidade... Ser humano é uma dadiva naquela cidade, a ignorância machuca menos que a magia.

— Sabe, eu sempre me perguntei por que os Bloodhounds possuem marcas no rosto... – Rodrigo fala alto sobre o vento, olho para o retrovisor da moto e as marcas estão lá. Todo Bloondhound tem uma diferente, a minha é pequena sob o olho direito. Pareciam queimaduras, eram como vários triângulos de diferentes tamanhos em volta do olho. Por muitos anos eu as abominei, eram o que não me deixavam ter uma vida tranquila, uma vida normal... Mas nenhum humano ou feiticeiro bloqueado parecia notá-las.

— Nós nascemos com isso, é o que nos permite ver a magia e lutar. Quando nós lutamos com armas magicas, como a besta da noite passada, elas acendem. É como se elas potencializassem nossa força espiritual. E sabe, sempre quis saber por que os Luminos são tão curiosos... – Digo, pretendendo alfinetá-lo.

— Não sou um Lumino... – Seu corpo parece enrijecer. Prefiro manter-me em silêncio a confrontá-lo.

Ficamos o resto do caminho em silêncio. Rodrigo é o atual sucessor dos Luminos, como poderia negar o “trono”? Ele estaria seguindo os passos da mãe e irmão? Depois que o filho mais velho de Jasper sumiu, todos duvidaram da sua capacidade como líder; se mais um Lumino desertasse, seria a ruina de Jasper. Isso é preocupante... Mas decido por não tocar no assunto, é melhor não ter conversas descartáveis com Rodrigo, principalmente pela situação em que nos encontramos.

— Chegamos... – Rodrigo diz, fazendo-me perceber que a moto tinha parado. Desço da moto, o lugar parecia morto, quieto, escuro. Como se tudo que fosse plantado naquela terra morreria... Sinto o suor frio molhar minhas mãos. Caminho para entrada de carros da casa.

Uma das garotas estava fumando na varanda, parecendo submersa em pensamentos, os olhos assustados, as mãos tremulas. Assim que seu olhar fixa no meu, ela dá um passo para trás, apagando o cigarro num dos vasos com flores.

— O que você quer aqui? – Ela pergunta, vasculhando-me com os olhos de raposa.

— Marina, ela está do nosso lado... Não, ela não machucou Sereena. Viemos ver o que Rosana pretende fazer com os anluxes. – Rodrigo fala rapidamente, a garota senta-se numa das cadeiras da varanda, parecendo vencida.

— Eles estão lá dentro. – Marina diz, cravando as unhas longas contra o rosto negro. Viro a maçaneta, o cheiro dentro da casa me faz querer voltar para varanda e sentir o cheiro de cigarro.

Lodo, ervas, madeira e óleo preenchiam a casa. Não evito colocar a mão sobre o nariz, agora entendo o medo da garota. Rodrigo passa por mim, caminhando para o interior da casa. Sigo-o, mas o cheiro aumenta a cada passo que dou. Rodrigo entra na primeira porta do corredor estreito. Gritos abafados ecoam pelo quarto, o garoto que havia se ferido na noite anterior está sobre a cama. O corpo suado, o rosto retorcido e as mãos formavam garras. Dou um passo para trás. Todos no quarto viram-se para mim, os outros integrantes do clã apresentam enormes olheiras, como se estivessem cuidando do garoto a noite toda. O rapaz continua contorcendo-se sobre a cama, ele vira o corpo para mim, um enorme machucado está coberto por inúmeras ervas e remédios químicos no seu abdômen.

— Ele já... – Tento falar, mas uma lufada de ar entra em minha boca, provocando-me enjoo. Dou mais passos para trás. – Ele já foi ao hospital?

— Não adianta leva-lo a um hospital agora... Precisamos curar a alma dele antes de curar o corpo. Sereena... – Rosana faz uma pausa. – Conjurou um feitiço contra a alma de Marcel, ele só queria fazê-la parar.

— Sereena fez isso? – Rodrigo pergunta, os olhos alarmados e a boca formava um traço.

— Não, não foi ela. – Digo, convicta. – Todos sabem que Sereena não seria capaz de fazer algo assim. – Aponto para Marcel na cama.

— Então como você explica isso? – A garota mais baixa me pega pelos ombros, mesmo eu sento maior que ela. Ela está cansada, seus olhos estão profundos e ela cospe cada palavra contra meu rosto.

— Não há o que explicar, ela perdeu o controle! – Grito contra ela, mas o cheiro do quarto volta a enjoar-me. Empurro a garota de volta para o quarto. – Se alguém é culpado nessa história são os anluxes, precisamos tomar providências... Mas primeiro podemos sair daqui?

— Íris... Vá se lavar. – Rosana fala para garota que havia me atacado. Íris coloca as mãos sujas de ervas dentro dos bolsos, e marcha para fora do quarto. – Vamos para varanda. Camila, fique com Marcel, por favor. – A garota concorda, parecendo querer chorar.

Eu praticamente corro para fora da casa, posso ouvir vários passos seguindo-me. Na varanda, Marina continua sentada na cadeira, o rosto encostado sobre os joelhos. Todos possuem o olhar perdido, os pensamentos ocupando a maior parte da atenção. Eu possivelmente estou com a mesma expressão. Encosto-me ao corrimão da varanda, esperando alguém começar a falar. Eu realmente só quero que isso passe logo.

— Nós não temos muito que fazer em relação aos anluxes... – Rosana balbucia, não querendo admitir a impotência. O rosto de Rodrigo se contrai.

— Mas eles mataram Clara! – Rodrigo diz, mas sua expressão não possui raiva. A surpresa no seu olhar é notável. – Você sabia! Você sabia, Rosana... Sabia que eles matariam Clara. – Rodrigo muda novamente, parecendo concentrado.

— Ela me contou pouco depois que cheguei à festa. – Os ombros de Rosana curvam-se. – Rodrigo, ela estaria em perigo de qualquer forma...

— Ela poderia estar viva! Ninguém estaria machucado... – O homem parece querer avançar contra Rosana, mas suas mãos cravam-se conta a madeira praticamente podre da varanda.

— Eles atacariam novamente, até atingirem Sereena. Clara sempre seria o ponto fraco da reencarnação! Mas isso não está relacionado com quem vive ou morre, Rodrigo... O destino de Clara era esse, ela mesmo sabia. – Rosana e Rodrigo parecem estar travando uma batalha interna, onde só eles poderiam ouvir os pensamentos um do outro. A mulher desliza ao lado da porta, sentando-se exausta. As garotas conosco parecem sem reação, como se estivessem congeladas. Sinto minhas mãos tremerem, Sereena não entenderia Rosana ou os motivos dela... Ela não tinha ninguém agora...

— Rodrigo, a culpa não é minha... Clara mesmo sabia, ela contou-me para que assegurasse que Sereena não interveria. Ela sabia o que estava fazendo, sabia que aquele era o seu destino... Coisas piores poderiam acontecer com Clara, se ela estivesse viva. Coisas que fariam Sereena entrar em um estado pior que o que se encontra! – Rosana fala rápido, ela olha para mim. Parecendo pedir ajuda. Metade da minha mente acredita no que ela diz, mas a outra não para de pensar que o sofrimento de Sereena poderia ser poupado, pelo menos pelos próximos meses... — Tudo que podemos fazer é tentar apaziguar as relações com os anluxes. Nesse momento, duvido que Jasper queira apoiar a reencarnação. – Rosana olha fixamente para o pulso de Rodrigo, onde as cicatrizes dos clãs ficam. Rodrigo parece ter despertado da raiva e surpresa, seus olhos fixam-se na mulher, como se ela fosse a criatura mais traiçoeira que ele conhecia.

— Eu não preciso ficar aqui, ouvindo todas essas besteiras. – Rodrigo vira-se, começando a descer os poucos degraus.

— Rodrigo... – Falo, pretendendo apresentar autoridade, mas parece mais um pedido desesperado. Ele para. – Você sabe que temos que resolver isso, se não a situação de Sereena piorará.

— Ótimo, gênia. O que pretende fazer? Entrar na sede do clã e neutralizar todos? – Rodrigo levanta as mãos, sua paciência acabou. Mas a última frase atinge-me como um soco, minha visão começa a escurecer pela raiva, tento conter a respiração e o impulso de pegar a besta.

— Não! Mesmo que Rosana tenha agido mal ontem, ela é a mais experiente daqui. – Digo, olhando para mulher ainda sentada.

— Rodrigo! – Rosana praticamente grita com o rapaz. – Não temos muito que fazer, estamos de mãos atadas. Sereena é sim um perigo para nós, para todos... Você a viu ontem! Só precisamos assegurar que ela não perca o controle, se não outras pessoas intervirão... – Ela olha para mim por cima das olheiras escuras, ela sabia qual era o meu dever... Concordo com um movimento.

— Pretendem fazer o que contra os anluxes? Não pretendo deixar a morte de Clara impune, Sereena certamente concordará comigo... – Rodrigo diz, parecendo acalmar-se, mas o rosto parece distorcido em dor e ódio quando fala o nome da garotinha.

— Impune? Sereena já dizimou metade do exercito deles! – Marina fala, seus olhos arregalados, como se fossem saltar do rosto pelo medo.

— Marina está certa, não podemos agir contra eles agora. Sereena precisará entender e eles certamente não tentarão nada, temem a reencarnação... Rodrigo, eu sei que você entende os motivos de Sereena e quer vingar Clara, sei que está me odiando... Mas acredite, Clara e Sereena sofreriam muito mais se ontem não houvesse acontecido. O plano é mantermos neutros, é isso que os Librins fazem... É isso que os Librins surgiram para fazer. Precisamos apaziguar a situação, se o seu pai... – Rosana fala a ultima palavra com se bile enchesse sua garganta. Rodrigo a fuzila com os olhos. Ela limpa a garganta. – Se seu pai intervir agora, uma guerra pode começar.

— Perfeito! Era só o que faltava, Jasper... – Rodrigo fala para si, enrugando a testa. Ele parece sentir dor. Possivelmente Jasper estava “falando” com ele.

A terceira garota, que havia ficado no quarto junto com o rapaz, aparece à porta, as mãos cheias de sangue, os olhos perdidos. Ela tenta falar algo, mas sua boca mexe sem sair nenhum som. Marina empurra para o lado e corre para o interior, Rosana levanta-se com dificuldade e vai logo atrás.

— Não deixe que ele diga o que fazer. – Digo para Rodrigo e corro para o interior da casa. Nesse momento eu já havia me acostumado com o cheiro. Vários pequenos pingos de sangue faziam uma estrada até o quarto onde o rapaz está, elas não têm a cerimônia de fechar a porta, então os gritos do rapaz ecoam pelo corredor. A ferida do rapaz, eu realmente não me ligo a nomes ou rostos, sangrava com rapidez.

— Marina, vá buscar algumas ervas, precisamos acabar com isso agora! – Rosana fala para garota que enrola o lençol no abdômen do rapaz.

— Eu tenho algo que pode ajudá-lo. – Digo, ignorando o cheiro desagradável do quarto. Pego no cinto um dos pequenos frascos de poção. – É uma poção de ervas orientais, principalmente Jiaogulan, ajuda na reconstrução e vigor espiritual.

Rosana não parece pensar nos movimentos, só arranca o frasco da minha mão e despeja o liquido na garganta do rapaz. Seu corpo parece relaxar, seu rosto desfaz a máscara de dor e ele deita totalmente sobre a cama, mas o abdômen ainda sangra. Marina coloca várias ervas sobre o machucado, ela parece sentir mais dor que ele, possivelmente tenham uma relação próxima.

— Spirite care sunt aici, ajuta-ma pentru restabilirea puterea lui. – Rosana fala, segurando a mão de Marcela que pressiona a outra mão contra as ervas. Lagrimas escorrem dos olhos da garota, e os dois pares de olhos se ascendem num branco arrochado, perdendo as pupilas e íris.

— Spirite care sunt aici, ajuta-ma pentru restabilirea puterea lui. – As duas repetem juntas, e Íris se junta a elas, perdendo igualmente os olhos. Caminho para fora do quarto. À porta da casa, a terceira garota treme agachada. E não há sinal de Rodrigo. Essa é a hora perfeita para procurar pelo envelope.

Caminho para cozinha, uma pequena estante de livros enfeita uma das paredes, procuro sobre e entre os livros. Mas nada... Nenhum envelope, apenas livros e poeira. Abro os armários da cozinha, mas todos possuíam condimentos ou ervas. Abro a primeira porta a direita do corredor, um quarto simples de adolescente parece intocado, abro as gavetas da escrivaninha, da cômoda e do armário, mas tudo que acho de anormal é uma garrafa de Vodka; não a julgo, mas não tenho tempo para esse tipo de diversão e nem gostaria de ter. Na porta a esquerda há o banheiro, cheio de panos com sangue e o maldito cheiro que preenchia o quarto. Ok, definitivamente eu não procurarei ali. Além dos cômodos que vi, só havia o que todos estavam e um uma sala de estar no fim do corredor, a sala possui um pequeno sofá vermelho bordô com flores, uma mesa de centro e uma estante com TV, procuro nas gavetas e atrás das almofadas. Nada.

O envelope deveria estar com Sereena, em algum lugar da casa. Não faria muito sentido ela tirar o envelope da casa, já que aparentemente ela não abriu... Se tivesse aberto, ela teria se protegido de mim mais rapidamente, pois saberia que sou uma Bloodhound. Fecho a última gaveta da estante e volto para a varanda.

A garota suja de sangue passa por mim do corredor e tranca-se no banheiro. Rodrigo está sentado sobre um dos degraus, as mãos fechadas em punho sobre as penas, a postura ereta, tenso.

— Ótimo, o que a senhora “neutralizo melhores amigas” quer agora? – O sarcasmo na voz dele é evidente.

— Nada, senhor “meu pai manda em mim”. – Digo. Se bem que se Jasper pedisse algo para mim eu acataria com prazer. Sorrio. Mas a expressão de Rodrigo continua séria.

— Você não sabe o que está falando...

—Ah não sei? – Acentuo a frase com sarcasmo. – O que sei é que você está sendo influenciado por mensagens mentais do seu líder.

— Ele não é meu líder! – Rodrigo berra, a voz como um trovão o faz parecer maior, selvagem. – Eu não tenho nada com os Luminos. – Ele levanta a manga da jaqueta de couro, nenhuma marca está no seu pulso. Meu queixo cai, até os avoados nômades têm marcas.

— O que é você? – Pergunto, ainda chocada.

— Eu falei que você não sabia de nada. Não sei o que sou, Sereena fez isso comigo, a reencarnação me livrou do sistema de clãs. Esse é o dever dela. – Ele diz e um sorriso frouxo se forma, ele alisa o pulso. – Não tenho deveres a cumprir quanto a Jasper, ou até mesmo Rosana. Mesmo assim, como notou, possuímos a ligação sanguínea e ele pode me contatar a qualquer momento.

— Mas o que Sereena fez para que a marca sumisse?

— Eu acredito que só precisei acreditar nela. – Ele diz, olhando para o quintal sobre a minha cabeça, viajando para outro lugar. – Quando você disse que ela acordaria mesmo? – Falar de Sereena parece tranquilizá-lo.

— Hoje, no final da tarde. – Digo. Sereena teria vários desafios quando acordar, mas acredito que o maior deles é continuar agindo como reencarnação, pois tudo que esse “posto” trouxe a ela foi dor.

— Devemos nos preparar. – Ele diz, fechando a expressão novamente.

Concordo com a cabeça, mas minhas mãos tremem dentro do bolso da capa.

—&-

— Jessie, querida! – Suzanna abre a porta depois de longas batidas. Ela me abraça calorosamente. – O que lhe traz aqui? Rodrigo! – Ela abraça Rodrigo também. Olho para o rapaz e ele parece desnorteado.

— Vim visitar Sereena por algumas semanas, minha escola entrou de greve e resolvi que era hora de uma visita! – Digo no mesmo tom animado.

— Vocês já se conheciam? – Ela pergunta, olhando acusatoriamente para Rodrigo e eu. Entramos e eu deixo minha mala ao lado do sofá, a casa estava igual, até as manchas deixadas por Sereena no sofá estavam lá. Mas Suze não parecia ter notado.

— Sereena pediu para ele me pegar na rodoviária. – Minto, mas a voz sai natural, como se aquela fosse a maior verdade do mundo. Rodrigo arregala os olhos, parecendo admirado com a facilidade que minto, dou de ombros. – Queria saber se posso ficar aqui, Sereena não tinha falado com você. – Falo, aquela era parte do plano, preciso ficar 24 horas com Sereena.

— Claro, querida! Eu acabei de acordar, por isso a casa está uma bagunça. Por algum motivo eu dormi demais hoje. – Olho para Rodrigo, que tem uma expressão de dor no rosto. Ele possivelmente está triste por mentir para mãe da garotinha morta. – Sereena também está dormindo, será que foi algo que comemos? – Ela pergunta referente ao quanto de sono que tiveram.

— Lembra que ontem jantamos todos juntos e vocês três beberam um pouco? – Rodrigo fala pela primeira vez, mas a fraqueza da frase é notável.

— Ah, claro... – Suze fala, sorridente. Talvez a magia ainda estivesse criando falsas memórias para ela. Estava quase na hora de Sereena acordar, olho para o relógio e o silêncio já começa a se tornar constrangedor.

— Nós podemos subir? – Pergunto, apontando para o andar superior.

— Ah, certo. Podem sim, acordem aquela dorminhoca. – Ela sorri e eu pego minha mala, caminhando para as escadas. Posso ouvir os passos de Rodrigo atrás de mim.

Abro a porta do quarto, Sereena ainda está desacordada. Os olhos mexem-se sob as pálpebras, mas nem sinal de que acordará em minutos. Rodrigo está encostado na parede, perto da porta. Seu rosto possui apenas tristeza.

— Deveria estar feliz por ela não se lembrar de nada... – Começo a falar sobre Suze.

— Jessie, eu estou feliz por ela não sentir a dor que Sereena e eu sentimos, mas ela não tem nada... Ela está sozinha, sem memórias, eu pelo menos tenho poucas lembranças de Clara. Mas ela... Ela está sozinha. – Ele engasga inúmeras vezes durante a frase.

— Acredito que é melhor assim... Melhor que enterrar a filha de oito anos. – Digo secamente. Mas meu coração se contorce com a ideia e a dor da perda.

— Você é muito fria. – Rodrigo diz. Ofendo-me, mas não retruco. Não valeria a pena e ele nunca entenderia minha forma de pensar.

— Ela já vai acordar, falta um minuto para completar as vinte horas. Vai querer vê-la acordar? – Pergunto e ele assente.

Aquele um minuto passa arrastando-se, como se soubesse que ele era importante. Mas finalmente meu celular pula no meu bolso, desligo o alarme e fito o rosto de Sereena. Sua boca abre-se, espero o grito de dor, mas logo ela se fecha.

Sereena abre os olhos vagarosamente, parecendo acordar de um sono de milênios. Ela pisca inúmeras vezes, mas seus olhos não tem vida.

— Que marca é essa no seu olho? – Sereena pergunta, a surpresa faz meu corpo tremer e a visão escurecer um pouco.

—Longa história. – Digo rapidamente. Não podia explicar a ela agora. Sereena parece flácida, como um balão que foi cheio inúmeras vezes e agora estava babado e no chão da festa. Seus olhos estão mortos, olheiras enormes encontram-se sob seus olhos, a boca retorcida numa linha única e a palidez evidente. – Como está se sentido?

— Não sei. – A voz sai como um sopro, uma brisa. Como se Sereena fosse sair voando pela janela a qualquer momento, como se seu corpo pudesse sublimar e sumir. – Acho que... Gostaria de tomar um banho... – Ela não olha para Rodrigo, ela não olha para nada. Como se estivesse perdida na dor, anestesiada.

— Certo, vou arrumar uma roupa. Rodrigo pode esperar lá embaixo? – Digo, e o rapaz surpreso da uma volta sobre os calcanhares e caminha para fora do quarto. Caminho para o guarda-roupa, pego qualquer camisa larga e roupas intimas. Coloco-as sobre a cama. Ela levanta, mas logo perde o equilíbrio, o corpo sujo pela lama e chuva, seus dedos finos pegam a roupa e ela caminha para o corredor, sem se importar com seu estado.

— Por que estou no quarto de Cla...? Onde estão as coisas dela? – Ela pergunta antes de virar a maçaneta.

— Longa história, vá tomar seu banho. – Digo, quanto menos eu tocasse no nome ou no incidente de Clara, melhor seria naquele momento. Ela assente, e caminha para fora do quarto. No colchão uma enorme marca de água havia se formado, procuro por lençóis no guarda-roupa. Começo a remover o lençol molhado quando um papel desprende-se do colchão.

Olho para os meus pés, e um envelope amarelo com o símbolo Bloodhound. O envelope! Quase dou um grito, pego o papel e abro-o. A caligrafia bonita de Agatha encontra-se em uma única pagina.

Aos digníssimos líderes Bloodhounds, dirijo o seguinte relatório mensal sobre a reencarnação, minha filha, Sereena:

“Nesse mês fizemos progressos quanto ao surgimento de Sereena. A reencarnação não é uma criança nascida pelo acaso, mas porque foi conjurada. Os espíritos de Cornelius e Cecília foram conjurados para esse plano espiritual pelos nômades.

Nesse mês também foi descoberta a existência de fenômenos mágicos graças ao surgimento da reencarnação. Minha sobrinha foi diagnosticada como Siener, junto ao centro de energia da garota, encontramos o mesmo resquício de magia que encontramos em Sereena. Acreditamos que a reencarnação tem espalho fragmentos de magia, estamos em busca de outros exemplos para fundamentar nossa suposição. A Reencarnação passa bem, sem sinais de que o bloqueio será retirado, com pequenas elevações de humor e fenômenos mágicos que a própria não notou. Porém acreditamos que mantê-la afastada da magia será impossível e em breve ela se libertará. Estamos prontos para agir.”

Ass.: Agatha Monteiro e Walter Tranbará

Atuais chefes e encarregados da missão Reencarnação.

Termino de ler e deixo-me sentar no colchão sem lençol. Clara morreu por culpa de Sereena, ela nunca poderia ler esse documento, seria possível eu ser uma Bloodhound por causa dela também? Balanço a cabeça, afastando a ideia. Não importa. Eu precisava esconder aquilo antes que ela chegasse. Abro minha bolsa para por o envelope dentro, mas a maçaneta vira no mesmo instante.

— O que está tentando esconder, Jessie? – Sereena pergunta, olhando para o envelope. – Isso é meu! – Ela parece ganhar vida. – Devolva.

Sereena caminha em minha direção. Eu não quero entregar o pacote, é melhor que eu explicasse.

— Sereena, calma. Você precisa entender e se acalmar. – Mas ela arranca o papel da minha mão. Seus olhos leem rápido o papel, curiosos, astutos pela primeira vez na noite. E então tudo morre novamente. Ela ajoelha-se. – Sereena, seus pais eram como eu... Bloodhounds. Eles fariam qualquer coisa para lhe proteger, era o dever deles e você nasceu abençoada por tê-los.

— Mentirosos! – Ela grita. – Todos vocês são mentirosos. – Seu rosto vira-se para mim, as lágrimas correm incontrolavelmente. – Você vai me matar se eu perder o controle, não vai? Não vai?

— Claro que não! – Digo, aproximando-me dela.

— Chega de mentiras! – Ela bate em minha mão, afastando-a. – Você todos mentiram. Clara... Clara está morta por minha culpa, Clara está morta por que eu a matei! Por que eu estou viva! – Ela começa a solução em meio aos gritos, seu corpo treme e junto com ele o chão e as paredes. Como se um pequeno terremoto estivesse começando, as luzes piscam e o armário parece descontrolado. – Eu a matei! – Ela grita, a garganta vermelha, os olhos rosados pelo esforço. Tento dar um passo em sua direção. – Contentio! – Ela grita o encantamento com a mão aberta para mim, meu corpo enrijece, não consigo respirar direito, só observar as luzes piscarem incontroláveis e o chão parecer líquido de tanto tremer. – Eu matei a minha princesa. – Ela rasga a blusa que está.

Rodrigo corre para dentro do quarto e abraça o corpo descontruído de Sereena. Ele abraça suas costas, prendendo os braços da garota e começa a chorar cada vez mais controlada. As luzes param.

— Estou aqui, Sereena. Nada vai acontecer enquanto eu estiver aqui. — Ele diz baixinho. — If you must wait. Wait for them here in my arms as I shake. – Rodrigo cantarola uma música no ouvido de Sereena. Ela continua a chorar, mas o chão para de tremer.

— Eu a matei... – Ela sussurra, parecendo morrer pela terceira vez na noite.

Apenas Rodrigo poderia acalmá-la...

Notas finais
Gostaram? O que acharam da Jessie? Comentem! Posso afirmar que ela é uma boa pessoa