Spectrum - Vol.1 Sereena
3 Razbliuto
Notas iniciais
Somos um grande emaranhado de fios, uma das extremidades é ligada a você e a outra, nas pessoas que passam pela sua vida... Permita enrolar-se nos fios para tecer as mais belas emoções.
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Meus pais, Agatha e Walter, giram em volta de mim. Sorridentes, seus rostos próximos ao meu toque, mas não consigo levantar as mãos e alcança-los... Fogo começa a arder próximo a minha visão, sou consumida por fogo, minhas mãos ardem, meu corpo se contrai em agonia...
Sou acordada com meu próprio grito de dor, tenho tido inúmeros pesadelos nos últimos dias, tantos que procuro prolongar minhas horas acordada. Levanto e abro a varanda do meu quarto-garagem. Sinto a grama fria sob meus pés. O frescor da neblina, o barulho inquietante da madrugada. Deveriam ser cinco da manhã, mas eu não me importava em estar acordada tão cedo. Atrás da casa de Tia Suze, havia grandes copas de magnólias, macieiras e laranjeiras, o que tornava o ar perfumado e mágico. Paraliso assim que um vento frio percorre minha espinha, sinto como se alguém estivesse observando minhas costas. Viro bruscamente e tudo que encontro é o cachorro de Clara, Krist, acuado num dos cantos do pequeno pátio. Ele não olha para mim, mas sim para um ponto logo a cima do meu ombro esquerdo.
– Krist, querido, o que está acontecendo? — Tento me aproximar do cão, mas assim que inicio o movimento em sua direção, Krist late com uma entonação que fazem minha cabeça zunir. Tampo os ouvidos e me curvo, o cão continua latindo, assim que estou no chão vejo uma sombra correr sobre mim para o meio das árvores. Assustada, entro aos tropeços no meu quarto e fecho a porta, tudo havia acontecido rapidamente. Com os latidos, Tio Matt entra na garagem com um taco de beisebol nas mãos.
–Está tudo bem, Sereena? – Ele pergunta, os olhos azuis arregalados e as mãos tremendo.
– Não sei, Tio... Acho que tem alguém no quintal, o Krist não para de latir. – Meu peito sobe e desce rapidamente. Tia Suze entre na garagem logo após de eu terminar de falar, ela olha pra mim e dá um grito.
–Que foi tia? – Pergunto rapidamente.
–Você está toda suja, Matthew vai ver o que tem no quintal que eu vou levar Sereena para se lavar.
Pego a roupa que vou para escola e subo as escadas em direção ao banheiro, entro e tomo um banho demorado. O que era aquilo que acabara de acontecer? Um ladrão? Termino o banho e começo a me vestir, mas paro assim que escuto meus tios conversando no corredor.
–Não encontrei nada no quintal... Sem sinal de arrombamento ou de alguém.
–Coitada da Sereena, acho que ainda está muito abalada com a morte dos pais, anda vendo coisas. – Conseguia sentir a preocupação na voz de Tia Suze, embora ela ache que sou louca. Enrolo o cabelo na toalha e quando vou virar a maçaneta escuto a vozinha de Clara.
–Ela não está louca, eu já vi alguém no pátio também...
Abro a porta rapidamente, e os três olham para mim. Tia Suze murcha por saber que eu estava escutando tudo, tio Matt coloca a mão sobre as têmporas parecendo cansado e Clara levanta os bracinhos pedindo um abraço meu. Pego a pequena nos braços, seu abraço conforta-me.
– Bom, já são quase seis e meia, vamos comer e nos preparamos para escola, depois resolvemos isso. – Tia Suze fala, desconversando desconfortável.
Ela parecia esconder algo, mas achei melhor fazer o que ela manda do que questiona-la. Afinal, hoje eu iria me encontrar com Thomas, só de pensar no garoto e seus cabelos escuros bagunçados meu estomago revirava, ou seria fome? A família parecia inquieta durante o café da manhã, menos Clarinha que devorava um pão doce com toda voracidade e charme. Assim que terminamos de comer, ajudo a colocar os pratos na pia e começo a me arrumar. Entramos em silêncio no carro e assim permanecemos até me deixarem em frente à escola, tudo que podia ser ouvido era o barulho do motor e da cidade acordando. Assim que o carro para em frente à nova escola abro a porta e saio correndo praticamente.
– Que pressa é essa, menina? – Tia Suze fala ao sair do carro logo depois de mim. Eu mesma não sabia, só sentia uma necessidade enorme de sair daquele carro.
– É que hoje ela vai ver o Thomas, mamãe – Clarinha fala, a face resplandecendo uma expressão de travessura
– Tchau, pestinha – Digo para a pequena e sigo em direção à entrada da escola.
–Boa sorte no primeiro dia, Sereena – Escuto tio Matt gritar de dentro do carro.
Pego o papel com os horários e vejo o carro partir. Minha próxima aula era de Biologia, eu detesto Biologia. Entro na sala e sento numa das primeiras cadeiras, procuro uma posição confortável. Sentia muito sono durante as aulas de biologia e para piorar o professor parecia uma tartaruga, baixinho com ombros largos, óculos, enrugado e falava de um jeito que metade da sala dormia e a outra metade mascava chiclete ou conversava. O que não me cheias de si, sentam atrás de mim. Não sabia o que era pior, escutar o professor Tartaruga ou as conversas sobre como fora a noite passada das garotas. Uma era clara do cabelo escuro, chamava-se Camila, segundo a chamada. A outra era morena quase índia, chamava-se Íris e a última era negra, essa era a que teve a noite mais interessante, saíra com o capitão do time de Basquete, chamava-se Melissa. As três não ficavam quietas, liguei meu celular e comecei a trocar mensagens com Jessie, ela também estava entediada do outro lado do país. Narrei o que aconteceu durante a noite e das garotas atrás de mim. Jessie mandou procurar ajuda psicologia, pois as três iriam me enlouquecer mais ainda com aquela conversa. O sinal soou, era hora do intervalo. Fui para um dos lugares mais afastados e liguei para Jessie.
– Até que enfim aquela aula acabou, não aguentava o Sr. Tartaruga e as Senhoritas “Ah meu Deus! Ele fez isso mesmo?!” nem mais um segundo. – Disse assim que ela atendeu ao telefone.
– Confesso que ri muito da sua cara, boa sorte na próxima aula. – Jessie não escondia o riso.
–Vou precisar! Contei sobre o garoto que conheci ontem no desfile? – Sento no chão, encostada numa das paredes do prédio.
–Não! Qual o nome do gato? – Ela parecia feliz por mim.
–Thomas, mas ele é muito estranho, vive isolado embora tivesse tudo para ser popular. Sabe, é bonito. Cabelos escuros e olhos castanhos claros.
– Garotos... Pegaram a síndrome dos “Vampiros” também... – Jessie brinca com uma voz de desaprovação.
– Não acho que ele finja isso só para se tornar mais interessante, ele só é assim, não sei o porquê. – Olho para o prédio da escola ao meu lado e vejo Thomas vindo em minha direção.
– Tente descobrir e continue a me manter informada...
– O.K! O.K! Ele está vindo para cá, tchau... – Digo apressada e com o rosto quente.
–Hum- Diz ela, estendendo a palavra, maliciosa. Desligo o celular e atrapalho-me quando coloco-o no bolço. Thomas se aproxima com seu jeito tímido, mas hoje havia um brilho nos seus olhos.
–Oi, Sereena – Ele parecia incerto sobre o que estava fazendo – Queria saber se você quer sair comigo depois da aula... Conhecer a cidade... – Thomas fala rápido, atrapalhando-se nas palavras.
– Está me chamando para sair? Como vou saber que você não é um louco, tarado, assassino em serie? – Digo irônica.
–Vai ter que ir para descobrir... – Thomas fala, desafiando-me.
– Então vamos, senhor Thomas. Mas saiba que se me matar voltarei e puxarei seu pé! – Digo rindo, o garoto não esconde a felicidade, que é refletida em seus olhos castanhos esverdeados e lábios finos.
– Te vejo no fim da aula – Thomas diz dando as costas.
– Até... – Thomas lembrava-me meu pai, daquelas pessoas que abraçam a solidão e se dão para um número pequeno de pessoas. A lembrança toma minha mente.
Olho para o papel dos horários e ainda faltavam três aulas, intermináveis minutos de puro tédio até o encontro com Thomas. Coloco os fones de ouvido com a música alta o bastante para não escutar meus pensamentos. A música embala o resto do intervalo. Era lenta, Yayo da Lana del Rey. O mundo tornou-se silencioso e só a voz dela fazia com que as coisas de movessem ao meu redor. Os pássaros não cantavam seu sonoro canto, mas abriam o bico e tudo que eu escutava era a música, os garotos jogavam basquete e, ao invés de escutar o grito de alegria depois de um ponto ser marcado, eu escutava a melodia. Por alguns minutos esqueci meus pais, minha vida, meus amigos e tudo que deixei, só vivia a música e via o mundo ser entrelaçado pelas notas. O sinal tocou alto o bastante para que eu escutasse, estava logo abaixo da sineta. Levantei e desliguei o celular, com o fim da música todos os problemas e incertezas voltaram a me inundar, como se uma represa acabasse de se romper. Baixo a cabeça e ando em direção à próxima sala.
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Todas as outras aulas passaram num piscar de olhos, não registrei nada na mente, só escrevia o que escutava, depois leria as anotações. Assim que coloquei o pé para fora da sala, Thomas aparece.
– Vai mesmo me deixar te mostrar a cidade? – Thomas fala com uma expressão curiosa no rosto.
– Você tem cara de insistente. – Dou de ombros, fazendo-o sorrir.
–Pode apostar que sou. Quer começar por onde? – Ele começa a andar em direção ao portão da escola.
– Por onde você preferir, não conheço quase nada aqui mesmo. – Sigo-o
–Então vamos ao meu lugar preferido, a floresta... – Um lampejo de alegria e animação passa pelo seu rosto. Reviro os olhos, não conseguindo esquecer o que Jessie diz sobre garotos e vampiros.
– Talvez minha amiga esteja certa e você tenha a famosa síndrome de “Vampiro”... – Thomas faz uma cara de desgostoso, semicerra os olhos e torce a boca num aparem S.
–Síndrome de “Vampiro”? – Pergunta curioso. Meus olhos fixam na curiosidade que passa pelo seu rosto.
–Pois é.., depois que eles “estouraram”, muitos garotos fingem serem misteriosos como aquele vampiro famoso. – Falo envergonhada e desvio o olhar.
– Essa não é minha intenção. Além disso, a floresta está mais para um bosque. – O tom divertido da sua voz dissipa minha vergonha, volto a olha-lo e registro seu olhar observando-me.
–Tudo bem, vamos ou prefere ficar aqui? – Digo impaciente, tentando fugir daquela situação.
–Vamos... – Ele aponta para o portão – Primeiro as damas.
– Primeiro os nativos – E aponto para ele ir à frente.
Andamos em silêncio até um lugar próximo da escola, era como um enorme jardim, grandes árvores e um portão pesado e vermelho. Não parecia um lugar muito amigável...
–Thomas, esse é um lugar seguro? – Digo assim que Thomas começa a abrir o portão.
– Claro que é! Na verdade, é uma propriedade privada, mas ninguém vem aqui há anos. – Isso não acalmou meus nervos, mas o olhar de Thomas parecia suplicar por confiança, balanço a cabeça como se concordasse e entramos no local. Thomas começa a nos guiar entre árvores e mais árvores.
– Como encontrou esse lugar? – Pergunto, ao afastar um galho da minha frente. Aquele bosque possuía uma energia diferente, mistério talvez. Mas era como se todos seus problemas ficassem no portão e seus sentidos fossem focados na beleza das inúmeras árvores e no aroma do local.
– Bom, isso faz parte da “Grandiosa” história do ex-prefeito – Thomas para e encosta-se numa pedra próxima – Você não deve estar entendendo... O ex-prefeito, Edmond Bernnan Saltez , é meu pai... Ou era, algo do tipo...
–Seu pai morreu? – Interrompo Thomas, parte de mim queria que ele dividisse a mesma dor que sinto, já outra, não queria que ninguém ousasse a sentir o mesmo que eu.
– Não diretamente, por quê? – Ele pergunta com uma expressão mista de diversão e curiosidade.
– Curiosidade...? — Minha voz falha na segurança, algo que não sei fazer é mentir e Thomas percebera isso. – Continue...
–Bom... – Thomas prossegue – Ele renunciou o cargo no verão passado, foi obrigado a fazer isso por ameaças do vice-prefeito. – Ele, nitidamente, expressa nojo ao terminar a frase.
– Ameaças? – Pergunto ao meu sentar ao seu lado na pedra, a conversa estava fazendo-me esquecer da quantidade de mosquitos que o local tinha e meus próprios problemas.
–Minha família grita “Olhe como somos a família perfeita”, mas não é bem assim, meu pai tinha várias amantes e uma grande ganância. Para não ser exposto aos vizinhos e eleitores, meu pai decidiu fazer uma “viagem” e dedicar-se à empresa de madeira que possui. Na verdade, ele está em outra cidade, vivendo com outra mulher e “curtindo” o momento. Só esqueceu-se de mim na cidade, mesmo que ele tenha feito tudo isso, era um bom pai. Diferente da minha mãe... Ele não me contou que viajaria. O filho do atual prefeito, meu antigo melhor amigo, foi quem me contou o que aconteceu durante uma das aulas... Bom, na verdade, aproveitou para espalhar a notícia pela escola inteira. Eu não suportei o nojo da minha família, dessa cidade, dessas pessoas... Só pensava em fugir, mudar de realidade... E, num belo dia, senti esse lugar me chamar. Foi muito estranho, era como se cada árvore desse local sussurrasse meu nome...
Sinto os olhos de Thomas analisarem cada poro do meu rosto em busca de uma reação. Olho para o topo das árvores que nos cercavam, Thomas tinha motivos relativamente fúteis para se isolar do mundo, mas eu entendia-o. Ele parecia somente um garoto que não teve a infância desejada e por causa de um tropeço mudou de personalidade totalmente.
– Olha no meio daquelas folhas – Aponto para o alto – Isso é o Komorebi , é uma palavra japonesa sem tradução que descreve a luz sendo filtrada pelas folhas, está vendo isso acontecer? – Thomas olha para direção que aponto, vejo a luz ser refletida no seu rosto de feições retas, mas que possuíam uma suavidade inexplicável, como se a qualquer momento ele pudesse abrir o maior sorrio ou chorar as mais pesadas lágrimas. Ele assente e eu continuo. – Com o movimento das folhas, a luz parece mudar. Talvez tudo que você precise para mudar seja balançar suas folhas... – Thomas fita-me transluzindo surpresa e confusão no rosto, começo a rir – Ah! Eu fiz de novo, falei algo que só faz sentido na minha cabeça...
– Pelo contrário, era o quê precisava ouvir... – O garoto fita-me alegre, e eu estou entre sair correndo com vergonha ou continuar falando coisas que o fizessem abrir de vez um sorriso. Volto a fitar as árvores. – E como a senhora chegou até esse fim de mundo?
–Essa não é uma história muito feliz. – Corto Thomas. Ele puxa meu queixo, fazendo com que eu fite-o.
– Ah! Vamos! Eu acabei de me abrir para você! Sereena, você não pode ser enigmática para sempre... Por favor, confie em mim – Seus olhos suplicavam por uma resposta. Além de não saber mentir, não sou uma pessoa que consegue dizer “não”. Afasto e dou-me por vencida.
– Meus pais morreram na última semana, eu vim morar com minha tia e estou aqui agora. Pronto – Fecho-me e sinto a tensão aumentar, abraço meus joelhos e sinto a mão de Thomas deslizar pelas minhas costas.
– Ah... Eu sinto muito, não deveria te fazer falar sobre isso... – Thomas tenta concertar a situação.
– Tudo bem, você não teria como saber... Ainda é muito recente, faz uma semana, acidente de carro... – Eu fito o chão e sinto os olhos formigando com a vontade de chorar de raiva, de dor e de vontade de fugir. Eu queria socar Thomas por ter aberto minha ferida, mas também queria abraça-lo para cura-la. Resolvo, por fim, continuar no meu lugar.
– Eu sinto muito. – Thomas levanta meu queixo.
– Está tudo bem... Sabe... eu faria qualquer coisa para tê-los de volta, amo muito eles. E foi muito repentino – Afasto meu queixo de sua mão e olho em outra direção.
– Agora, meu problema está parecendo pó perto do seu...
– Não compare as duas coisas, você não têm ideia do que é sentir a falta de alguém que nunca mais poderá tocar, sem ter nunca dado um adeus. Eu ainda me lembro muito deles...
–Me conta à coisa que você mais sente fala. – Thomas diz se apoiando os cotovelos na pedra. Ele rompeu o escudo que tinha colocado em volta das minhas emoções.
– Sabe, sinto falta de tudo... Da risada da minha mãe, dos churrascos queimados que meu pai fazia, do perfume deles. Algo que espero todas as manhãs é sentir o cheiro das panquecas do meu pai e o som da voz da minha mãe. – Nervosa comecei a falar rápido demais, assim que as palavras chegavam a minha mente eram transmitidas pela minha boca, eu não conseguiria conter todas as emoções — Naquele dia eles tinham ido num mercado. Era de noite já, eu estava em casa, não sabem como o carro deles capotou e bateu contra as árvores, só sei que eles estavam demorando demais e eu acabei caindo no sono. De manhã fui acordada pela polícia na frente de casa, disseram que meus pais haviam morrido e já tinham ligado para minha tia, eu fiquei desolada, o casaco do policial que falava comigo estava manchado de sangue, e ele me entregou um pacote com o que conseguiram tirar do carro, antes dele começar a pegar fogo, eu ainda não o abri. Eu não entendia o que estava acontecendo, fiquei no sofá em choque com o pacote nas mãos, logo depois minha tia chegou e começou a falar com os policiais sobre o acidente, acontece que minha mãe ainda estava viva quando o resgate chegou só que o carro pegou fogo e não puderam salva-la... – Minha cabeça girava, minha visão tremia, o vento da floresta tornou-se mais forte e frio, as folhas voam contra nós. Thomas não me deixa terminar. Abraçou-me fortemente, o clima volta a ficar ameno e, no conforto de seu abraço, choro como uma criança. Idiota, chorando com alguém que acabou de conhecer.
– Mal te conheço e você já me fez chorar. Não é uma forma muito boa de começar uma amizade... – Digo depois de me acalmar, afasto-me e seco as lágrimas contra a manga da camisa, tento soltar um riso frouxo que pareceu mais uma tentativa frustrada de piada.
–Devem ter sido horríveis esses últimos dias — Thomas tem os olhos preocupados, mas um sorriso nos lábios- Vem vou te mostrar o meu lugar preferido aqui. – Ele pega uma das minhas mãos e me conduz até um pequeno riacho. Tudo novo lugar possuía um equilíbrio, o verde das folhas combinavam com a água, o cantar dos pássaros com o coaxar de sapos, a cor das libélulas com as pedras...
–É muito lindo! – Caminho em direção à margem do riacho, olho para meu reflexo na água, mas não escuto os passos de Thomas, nem vejo seu reflexo. Olho para trás e eles não está parado onde estava há dois minutos. – THOMAS! Isso não tem graça! – Grito, mas não recebo resposta nenhuma.
Sento na margem do riacho e espero por um tempo. Checo meu celular, Tia Suze já havia me ligado cinco vezes e Jessie, outras vinte. Mas agora eu estava sem sinal. Levanto, como ele pode me deixar sozinha?! Entro na floresta marchando braba e vou para casa. Thomas tinha desaparecido, ele realmente achava aquilo engraçado? Depois de algum tempo de caminhada e de muito perguntar para as pessoas na rua, encontro a casa. Entro braba e bato a porta logo atrás de mim.
– Que foi? – Pergunta Tia Suze.
– O idiota do Thomas me deixou sozinha na floresta. – Tiro os tênis e passo reto pela cozinha, indo para meu quarto.
– Como assim? Que floresta? – Tia Suze grita e bate a porta do armário.
–Aquela propriedade que tem perto da escola... Tia, estou cansada e vou para o meu quarto. – Meu cansado era emocional e físico, tudo que precisava era jogar-me na cama e dormir.
Entro no meu “quarto-garagem” e deito na cama, pego o celular e escrevo um SMS para Jessie, contando como foi o “encontro”. Estou completamente dividida sobre o que pensar em relação ao Thomas, poderia ser um garoto que só quisesse brincar comigo ou alguém doce e legal que teve um imprevisto, mas parte de mim queria mata-lo e a outra queria agradece-lo por me deixar desabafar, talvez amanhã eu soque-o e depois agradeça...
–&-
–Bom dia, Tia – Falo, entrando aos tropeços na cozinha, que preenche meu olfato com o cheiro de café e panquecas.
–Bom dia, Bela Adormecida. Foi um longo dia ontem... Ah! Sobre o ladrão, seu tio colocou uma câmera no jardim, agora não vamos ter problemas com bandidos. – Tia Suze me oferece uma xicara de chá, sorridente e orgulhosa do marido.
– Estou precisando mesmo é de uma grande xicara de café. – Tia Suze oferece outra xícara para mim, beberico o liquido negro — O quê acho estranho é o fato de Clara não ter dito nada sobre ter visto alguém no pátio anteriormente.
– Clara é muito esquecida, fala coisas sem sentido às vezes, mas é coisa da idade, não se preocupe. – Tia Suze parecia quere desviar do assunto. – Ah! Seu celular não parou de tocar a noite toda, você esqueceu-o no sofá da sala.
Corri para a sala e encontrei meu celular caído no chão. Pego e verifico as mensagens e chamadas: 10 mensagens de Jessie /12 chamadas de Jessie / Uma mensagem de voz de um número codificado.
Leio todas as mensagens de Jessie, muitas delas eram dela ofendendo Thomas com adjetivos mais infantis que já vi, já que Jessie não fala palavras “feias”. E as outras eram perguntando se estava tudo bem e porque não atendia. Coloco para tocar a mensagem de voz, mas tudo que escuto é a respiração de alguém, fecho a mensagem na hora e tento esconder minha expressão, vou para meu quarto me arrumo e como algo, ainda pensando na mensagem, quem me mandaria uma mensagem assim? Algum engraçadinho tentando me assustar, pego minha mochila e toda a família entra no carro. A lua, ainda fraca no céu, tinha seu lugar substituído pelo azul e branco da manhã.
–Querida, por que você foi para uma floresta com o Thomas? – Tia Suze pergunta, olhando-se no espelho do carro. Tio Matt sorri ao seu lado e eu semicerro os olhos em negação.
– Não toque nesse assunto... – Digo e Clara ri abertamente ao meu lado – Que foi, pestinha?
– Você fingindo sentir raiva do Thomas... – Clara balança a cabeleira loira ainda rindo, ela estava especialmente fofa hoje, com um vestido braço e um casaquinho escuro, era impossível fingir brigar com ela naquelas situações.
– Pois saiba que estou! – Cruzo os braços sobre o peito, enrugando a jaqueta jeans, e Clara ri mais ainda acompanhada do pai, que acabara de estacionar o carro no meio fio.
Despeço-me de todos e entro na sala de Geografia, olho para o relógio, faltavam cinco minutos para a aula começar. Não vejo Thomas em nenhum lugar próximo. Naquela aula, em princípio, nossas turmas se uniriam. O sinal toca e o professor entra na sala, logo atrás dele entra Thomas, as três garotas e o capitão do time de basquete, eles gargalhavam e agiam como se fossem amigos. Thomas olhou para mim antes de sentar-se e sorriu.
– Pessoal do fundo da sala, por favor, conte-nos a piada! – O professor de geografia fala para o pequeno grupo.
– Restrinja-se a cuidar da sua aula, professor – Thomas responde cheio de si, a arrogância em sua voz faz meus nervos enrijecerem. Aquele não era o Thomas do dia anterior... O Thomas, que condenava tanto a futilidade daquela cidade, estava andando com as pessoas mais superficiais da escola? Dando respostas arrogantes? Tinha algo errado e eu precisava saber o que era...
–&-
Sou a última a sair da sala, procuro por Thomas entre as pessoas q se apertavam contra o portão, mas o garoto montava um pequeno grupinho no meio do pátio. Marcho da direção de Thomas, que nessa altura gargalhava junto com todos os outros “amigos” dele.
–Thomas, podemos conversar? – Falo, cutucando o ombro do garoto. Ele vira em minha direção, nada do Thomas de ontem estava na sua expressão. Havia algo diferente, algo que não consigo explicar...
–Claro... – Ele passa a mão nas minhas costas em direção a minha cintura, coloco a mão sobre seu peito, afastando-o. Puxo a manga da sua camisa, afastando-nos do grupo.
–Thomas, o que há de errado com você? – A raiva já preenche minha mente.
– Nada. Na verdade, sinto-me muito melhor. — Seu olhar penetrava cada parte do meu corpo. Minha raiva aumenta gradativamente.
– Ontem você parecia a pessoa ideal, então você desapareceu... E agora, parece tão prepotente que me sufoca. – Eu já não falava, cuspia as palavras para o garoto.
–Pensando bem, Sereena, eu não preciso mais de você. Eu já... Como você disse ontem? Ah sim, aquela coisa sem noção sobre “Sacudir minhas folhas”, sou poderoso agora e posso ter a garota que quiser! Não preciso de uma garota mimada como você!
Eu já não via Thomas, minha visão escurecera. Já não o escutava, minha audição parecia falhar. Não sentia mais as pontas dos dedos, só o vento forte e as inúmeras folhas que cercava Thomas e eu. Meu corpo parecia amortecido; Thomas, entre preocupado e arrogante. Só então o mundo se apaga e não sinto mais nada...
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