Spectrum - Vol.1 Sereena
6 Dividido
Notas iniciais
" Toda vez que decidimos por uma coisa, negamos outra"
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O barulho do motor, a sensação de estar voando, o sol no rosto e o vento revolto da rodovia... Pequenas coisas que juntas faziam-me feliz. Não recuso o desejo de aumentar a velocidade, minha moto corta o vento que zune em meus ouvidos. A seta no velocímetro responde, subindo cada vez mais. Sinto o risco e o medo travarem meus músculos, pedindo para reduzir, mas aquela era minha vida. A velocidade energizava minhas veias. Independente das limitações, minha alma precisava seguir a estrada, sentir o asfalto e a velocidade. Além disso, minha missão acabara se começar... Novos eventos mágicos foram relatados na parte oeste do estado, era meu dever deter o mal. Esse é o dever de qualquer lumino...
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As primeiras árvores do oeste aparecem grandes e poderosas, tapando o nascer do sol. Por trás dos óculos escuros, meus olhos procuram por qualquer resquício dos anlux ou librins. The Roailroad termina de tocar nos meus fones; mas, antes que outra música tome seu lugar, minha mente é preenchida por uma notável mensagem zangada de Jasper, o líder dos Luminos e meu pai.
“Rodrigo! Dê meia volta nessa maquina e retorne ao clã! Isso é uma ordem, como pai e seu líder! Você é estupido? Acha realmente que consegue fazer esse trabalho sozinho?” — Sua voz ecoa, sinto a rispidez.
“Jasper, eu sei que posso fazer isso. Estudei a região e tenho que mostrar minha força no grupo, se eu quiser sucedê-lo” Mando a mensagem via telecinese; embora estivéssemos a quilômetros um do outro, éramos ligados pelo sangue, uma conexão contínua. Não presto atenção se houve resposta... Cerca de 200 metros a minha frente, uma figura negra põe-se no meio da rodovia. Não era algo que eu já tivesse visto... Não era um feiticeiro ou espirito, mas seu corpo emanava energia negra. Ele sabia quem eu era, tinha vantagem. Aperto a mão direita contra o freio da roda frontal, meu corpo é impulsionado para frente. A moto para a metros da figura, que abre um sorriso enorme debaixo de um manto negro.
– Diogelu. – Conjuro um feitiço de proteção e desço da moto. A figura parece inclinar-se, rindo.
–Está com medo? – Uma voz gélida alcança meus ouvidos, seguida de uma risada cruel. Meus olhos vasculham a figura em busca de algo que já tenha visto anteriormente, alguma marca de clã, algum sinal dos nômades ou desertores. Uma busca inútil, não reconhecia nada que a figura possuía.
– Não é para mim, mas para minha moto. Não a ariscaria por nada. – Abro um sorriso triunfante. Eu realmente não ariscaria a Dóris por alguém, o feitiço a protegeria de possíveis danos, proteger Dóris deixava-me mais seguro durante as batalhas. Deixo minha energia retida nas mãos, preparando-me para uma luta. Sinto a magia deixar a medula e espalhar-se pelo sistema nervoso até a ponta dos dedos. – Quem é você?
– Seu pai não lhe ensinou nada sobre respeito? Fico surpreso com o descaso de Jasper em ensinar seus filhos sobre criaturas tão antigas quanto eu. Sou um Pemungut... Alguém que você deve temer... Agora que respondi a sua pergunta, eu tenho uma para você... Como foi viver a sombra do seu pai e irmão mais velho? – O Pemungut tira o capuz que cobria seu rosto. Eu estava realmente curioso em ver o que o manto escondia, mas assim que a criatura o tirou eu implorei aos céus para que o colocasse de novo. Seu sorriso largo contrastava com o nariz redondo como um cogumelo, os olhos tinham uma coloração entre verde e vermelho e os cabelos possuíam inúmeras folhas e pequenos animais. Se pudesse ver meu rosto nesse momento seria uma mescla de náusea e receio.
– Por Cristo... Vamos ficar conversando por muito tempo? Tenho pressa em parar de olhar para sua cara... – Minha voz não disfarçava o nojo que sentia. O sorriso em seu rosto se desfaz, não daria o gosto de responder-lhe. Embora aquela seja uma questão que já me fizeram muitas vezes...
Sem aviso breve a figura avança em minha direção. Não conheço quais são seus poderes, mas agilidade notoriamente era um dele. Tento conjurar um feitiço de ataque, mas minha mente se confunde. Inúmeras lembranças passam pelos meus olhos, minha família, a rejeição no clã, a gloria do meu irmão e a sua partida. Não consigo controla-las, meu corpo treme e tento concentrar-me no feitiço. Por trás das memórias, a risada da criatura ecoa pelo local.
“Rodrigo, você é mais forte que isso. Ele está te manipulado... Reaja!”, Jasper volta a se comunicar. A mensagem parece despertar algo dentro de mim, a raiva toma minha visão. Não poderia ser para sempre um fraco, não posso fracassar!
Minha marca brilha, puxo a manga da jaqueta de coro. Os sois giram no meu pulso, a luz é forte o bastante para afastar as memórias e alucinações causadas pelo Pemungut. Não sabia ao certo como aquilo fora despertado, mas gostei.
– Malo spiritu retuditum pro tenebris – Minha voz aumenta assim que termino a frase. A forte luz dos sois atinge a criatura, que começa a ser coberta por um manto de claridade. Antes que a luz chegue ao peito, o Pemungut abre sua monstruosa boca. Um grito seco é ecoado, e uma neblina cinza sai do seu corpo. A neblina toma altura com velocidade até que não posso mais vê-la.
“Você o deixou escapar ...”, Jasper reaparece. “Mas esse não é o maior dos nossos problemas...”.
“O que quer dizer com escapar? Eu acabei com ele!” Meu orgulho poderia ser notado na frase.
“Você matou o corpo do Pemungut... Você não deve ter se interessado pelas criaturas magicas fracas, mas vou te explicar... Um Pemungut tem como principal poder roubar memórias e visões de outros seres e essa fumaça que ele emanou são todas as lembranças que ele já roubou durante sua vida. Poderiam ser muito valiosas as informações que ele roubou... Mas esqueça disso. Tenho uma missão para você... As atividades que têm sido relatas nessa parte oeste não foram causadas por esse Pemungut. Sim, você foi um tolo em partir sem ter me questionado.”, Jasper fala rapidamente, mas posso sentir na sua voz que estava pelo menos um pouco orgulhoso de mim. Posiciono-me em Dóris e espero que ele continue. “Lembra-se da lenda sobre a reincarnation? Bom... Não é uma lenda... Os nômades do noroeste puderam sentir a energia que a reincarnation liberou quando seu bloqueio foi retirado.”
“ E você quer que eu a encontre...” Cruzo os braços sobre o peito esperando a confirmação da minha missão.
“Não, eu sei exatamente onde ela está. Não sei quem ela é, nem o que os espíritos disseram a ela. Preciso que a traga para mim... As energias vêm da cidade de São Domingues...”.
“Os Librins... Malditos sejam... Farei o que for possível, prometo não te decepcionar, mas agora saia da minha cabeça”, sorrio. Eu tinha uma missão, Jasper depositou um pouco de confiança em mim, não posso decepciona-lo. É o meu dever como lumino e filho...
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Eu podia sentir a magia em cada canto da cidade. Os Librins possuem uma energia própria, qualquer lumino poderia diferenciar o poder dos clãs. Mas o ar em São Domingues possui uma confusão de energias, talvez por causa da reincarnation. Os desprezíveis porcos anluxes não ficavam muitas horas da cidade, praticamente sua sede ficava na cidade vizinha, e sua energia também podia ser sentida.
Mesmo sendo quinta, os poucos jovens da cidade amontoavam-se nos pubs, esperando a noite chegar. Seria bom parar e beber algo, mas eu precisava levar a reincarnation o mais rápido possível para sede dos Luminos. Olho para o sol já se escondia de mim, fui conectado a natureza muito antes de nascer. Minha mãe, Micaela, assim que soube que estava gravida prometeu minha alma aos espíritos dos astros, do mar e da floresta. Deixo que a energia me ligue a terra e a reincarnation, Dóris corre por entre os carros dos trabalhadores que começavam a voltar para casa.
– Miscere energy – Invoco o feitiço, tocando o tanque de Dóris, o encantamento mistura energia dos espíritos com objetos inanimados, assim seria mais fácil chegar até a reincarnation. Já não controlo a moto, e minha cabeça pesa de sono. Aos poucos, Dóris nos afasta do centro da cidade, árvores de diferentes portes ladeiam a estrada. Eu já estava enjoado da vegetação do oeste, sempre os mesmo cheiros e sons. Com um movimento brusco, Dóris entra num tipo de propriedade e bosque.
Meu coração pula com a energia acumulada na propriedade, posso senti-la debaixo das unhas e por entre os dentes. Dóris para em frente a um tipo de garagem, deixo-a perto da entrada da casa. Subo os degraus da casa branca debotada, as janelas simples mostravam que a luz estava acessa lá dentro, tiro os óculos escuros e bato na porta. Não sei o motivo, mas meu coração pula no peito, sorrio presunçoso.
– Boa tarde, Rodrigo. O que veio fazer aqui? – Rosana, a líder dos Librins, fala assim que abre a porta. Seu humor não era um dos melhores, resolvo não responder com sarcasmo.
– Estou aqui porque fique sabendo que você encontrou a... – Coloco a cabeça para dentro da sala, e uma garota assustada fita-me – A reincarnation... – Não escondo meu sorriso.
– Bom, não sei do que você esta falando... – Rosana era uma péssima mentirosa. Não havia duvidas de que aquela era a reincarnation
– Depois os egoístas são os Anluxes. – O sarcasmo é notado em minha voz, o rosto de Rosana começa a ficar num tom rubro. Entro na casa, sem tirar os olhos da garota. – Qual seu nome? Por favor, diga que é mais fácil que reincarnation, pois esse termo já esta me cansando.
– Sereena, prazer... Posso saber o que quer de mim? – A frágil figura agora era tomada de uma determinação, mas ela parecia sobrecarregada.
–Para seu deleite, vim busca-la para fazer parte dos luminos. E de graça você passa um tempo comigo... – Assim que termino de falar Sereena parece ofendida. – Sobre o que estavam falando?
– Nada que cabe a você saber... Rodrigo, você não é bem-vindo aqui. – Rosana diz, fechando a porta. Ela parecia indecisa
– Eu posso ser útil. E você sabe muito bem que deveria ter avisado meu pai e Rikromm sobre ela... — Aponto para Sereena.
– Rik... Quem? – Sereena olha para Rosana. Ela parece envergonhada por não ter falado nada anteriormente.
– Rikromm é o líder dos anluxes, todos temos que manter uma comunicação, e eu realmente deveria ter informado-lhes. Mas acho que Rikromm já sabe sobre você, Thomas deve ter contado. – Rosana fala, mas a energia não é mais a mesma na sala, três espíritos colocam-se atrás de Serrena, tocando-lhe o ombro direito.
–Rosana... O que fez em relação a esses três espíritos? – Pergunto, os olhos de Rosana parecem focar-se com dificuldade nos espíritos.
– Eu estava começando a falar sobre eles para Sereena, mas alguém interrompeu... Ela ainda é nova nisso para fazer uma viagem espiritual. – Assim que a mulher fala, ainda fitando os espíritos, Sereena move-se, parecendo querer livrar-se das almas. – Não existem só esses três, a outros com uma coloração mais escura.
– Ela precisa segui-los, eles parecem estar desesperados para falar algo. Não esta vendo a expressão deles?
– Só vejo os contornos, o que eles poderiam querer com ela? E por que estão me bloqueando?- Rosana parece determinada a visualizar os espíritos.
–Ei... Eu tenho que ir embora... Já é tarde e possivelmente tia Suze vai enlouquecer... – Sereena parece braba por ser ignorada.
– Sereena, eu sei que está muito difícil para você entender tudo, mas talvez essa viagem espiritual a ajude. E o quanto antes fizer isso, melhor. Peço para Marcel e Marina levarem Clara para casa, eles cuidam da Suze. Tudo bem? – Rosana tateia as mãos sobre a mesa e pega as mãos de Sereena.
– Eu tenho escolha? — Sereena olha para baixo, mas se mantem rígida. Ainda observo as mulheres que se encaravam, como se conversassem mentalmente, e pego uma maçã da fruteira em cima do armário da cozinha marrom – Vamos fazer isso logo.
– Mais uma coisinha, acho melhor Rodrigo ir com você... Eu não estou conseguindo atingir os espíritos. – Ambas olham para mim e sorrio, logo depois de engolir em seco um pedaço da maçã. Eu mal fizera meia dúzia de viagens espirituais e agora tinha que guiar outra pessoa. Mas tento passar confiança.
– Prometo que não vai doer. – Mostro os dedos cruzados, somente eu rio com a piada. – Sério, confiem em mim, falei o que for possível para protegê-la. – A linda garota semicerra os olhos como quem duvida e contrai os lábios com reprovação.
– Tudo bem... – Por fim, ela aceita.
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– A partir do momento que forem conectados espiritualmente, um verá fragmentos da memória do outro. Assim que chegarem nesse novo plano, possivelmente as coisas ficaram confusas, busquem sempre seguir os espíritos que os levaram para lá. E pelo amor da natureza, não fiquem presos lá! – Rosana repete seu discurso pela décima vez, reviro os olhos e sinto Sereena fitando-me. – Íris, prepare um chá de boldo para o enjoo que possivelmente terão. Camila, arrume um espelho caso precisemos ir atrás deles. Vocês dois, por favor, pretejam-se.
Estávamos, Sereena e eu, sentados numa cama enorme. Um de frente para o outro, coloco uma mão para cima e outra para baixo, Sereena faz o mesmo e nos tocamos. Eu não entendia porque tinha aceitado fazer aquilo, minha missão era só ir lá busca-la, mas não... Eu tinha que me meter... Agora, sentado a frente de Sereena, pude reparar na garota. Cabelos negros e longos, olhos castanhos escuro, lábios rosados e largos, olheiras, ombros tensos, postura rígida, curvas, mãos delicadas... Parte de mim estava encantada pelo mistério que a garota continha.
– Relaxe, ninguém vai te machucar. – Falo baixo, Rosana e as outras estavam arrumando algumas ervas e sinais próximos à cama.
– Não estou preocupada comigo, e sim com o que você pode ver, com o que posso fazer...
– Não conto para ninguém o que verei se você não contar o que verá... – Digo, sorrindo. Sinto-me indisposto a fazer alguma piada com a sua preocupação.
– Trato feito... Será que isso demorará demais? – Sereena mexe as mãos, inquieta.
– Se você não se mover e deixar a energia nos ligar, talvez vá mais rápido. Os espíritos já estão sobre nós, falta só conectarem-se. – A três figuras estavam formando um triângulo com as mãos a cima de nossas cabeças.
– Prontos? – Íris pergunta, terminando de fazer o último circulo no chão. Concordamos com a cabeça. Camila aproxima minha testa a de Sereena. Fito os olhos da garota a centímetros dos meus, ela os fecha e eu faço o mesmo.
Um zunido, nossas respirações e então nada mais. Tudo para por um instante, até que milhares de memórias e sensações nos bombardeiam. Nós começamos a dividir as lembranças, eu podia ver as minhas memórias e as de Sereena.
Sereena fazendo carinho num gato, um arranhão, “Jessie, você é a melhor amiga que eu poderia ter...” o rosto da amiga aparece. Meus pais unidos; em seus braços, Victória, minha irmã, sorri; a doença de Micaela, sua fuga para os nômades, meus dez anos passam como um flash sobre nossos olhos. Sereena lendo num dia chuvoso, sua mãe fazendo chá, seu pai conversando com Matt, o tio de Sereena. Rômulo, meu irmão, aprendendo magias avançadas, meu primeiro espirito, minha vida a sombra de Rômulo e Jasper. Sereena abraçando Clara, sua prima, e comendo bolo numa tarde ensolarada com Suze, sua tia; seu anel de debutante. Jasper dando a Rômulo a coroa de galhos, dando a liderança dos librins, Victória feliz com seus cinco anos e inocente; Rômulo deixando-se levar pelos espíritos do vento, Victória e seu recrutamento. Sereena chorando, cheiro de sangue, uma acidente de carro, tia Suze protegendo-a, o enterro de seus pais, as cicatrizes. Rômulo seguindo os paços de Micaela, Jasper amargurado, a rejeição; Voltou a ser coroado, não fui escolhido como substituinte, sou fraco. Sereena conhecendo Thomas, um garoto anlux, a traição, o egoísmo, a raiva; o recrutamento, a reencarnação, Clara atacada por um pemungut, vidente!
E então o silêncio tomou conta do lugar, a descarga de emoções fora muito grande. Não consigo controlar meus movimentos.
–Garota, você passou por tanta coisa... – Não resisto e toco no assunto.
– Essa última parte aconteceu em menos de três semanas. Minha vida está uma loucura. – Sinto Sereena se levantando. Abro os olhos ainda sem folego, estávamos numa sala vazia, em uma das paredes, um enorme espelho estava pendurado. – Onde estamos?
– Não sei ao certo, as minhas outras viagens foram rápidas e eu nunca estive aqui. – Falo, levantando. Sereena caminha até o espelho, sigo-a. O reflexo era diferente, estávamos com roupas diferentes. Sereena usava um vestido enorme amarelo e eu uma roupa parecida com um terno. – Não chegue muito perto. Sabe o que os indígenas falam sobre espelhos?
– Não sei, o que dizem? – Sereena aproximava-se cada vez mais do espelho, parecia querer tocar o vestido que o reflexo usava, encantada.
– Dizem que os espelhos e fotografias aprisionam um fragmento da sua alma. Espelhos como esse nunca são bom sinal. – Assim que termino a frase, o reflexo modifica-se. Um casal aparece logo atrás de Sereena, a mulher usava um vestido vermelho e o homem um terno azul escuro. Ambos sorriam para Sereena. – Quem são?
– Cecília e Cornelius. Eles são um pedaço de mim, talvez tenham algumas respostas. – Sereena toca o espelho com a ponta dos dedos, os três reflexos levantam a mesma mão e tocam o espelho. Em um fragmento de segundo, Sereena começa a entrar no espelho, puxo sua jaqueta jeans, mas sou sugado junto.
Invés de entrarmos no mundo refletido pelo espelho, começamos a cair. Como se despencássemos do alto para um buraco sem fundo, alcanço a mão de Sereena e a puxo contra mim. Abraço-a e posiciono-me debaixo dela, se alcançássemos o chão ela teria mais chances de ficar bem... A vida dela é mais importante que a minha. Coloco sua cabeça contra meu peito e espero o choque com o chão chegar. Mas ele não chega...
Começamos a desacelerar, até repousarmos contra uma superfície lisa e branca. Olho para Sereena, ela parecia assustada, mas bem. Sereena sai de cima de mim e senta-se ao meu lado.
– Não precisa agradecer, sei que gostou de ser abraçada por alguém lindo como eu... – Sorrio e ela entende a brincadeira. – Agora, o que diabos você estava pensando quando entrou naquele espelho quando eu disse exatamente para ficar longe dele?
– Obrigada e eu só estava procurando respostas. – Abro a boca para reprimi-la, mas uma voz interrompe-me.
– E fez bem, querida. – Uma figura começa a aproximar-se de nós, sento ao lado de Sereena. – Não tema, Rodrigo. Não farei nenhum mal a ela. – Uma senhora frágil e de aparência doce avança com uma bengala nas mãos. – Só quero ajuda-la...
– Quem é você? – Sereena pergunta, ainda assustada.
– Sou um espirito muito antigo, criança. Mais antigo que os ventos do sul, não há nada que eu não veja ou não saiba. É uma confusão ter duas almas, não é meu bem?
–Pode acreditar que sim. Pode responder algumas perguntas? – A senhora balança a cabeça, concordando. – Primeiro, como eu posso ter duas almas?
– Como Rosana lhe explicou, há muitos mistérios na vida. Um deles é o amor, ele pode unir pessoas. Não é diferente com almas amarguradas com as de Cecília e Conelius, eles atormentaram-se tanto em vida, e desfiguraram tão a magia que é natural uma reencarnação.
– Mas isso significa que eu não tenho uma alma própria? – Sereena fala ainda confusa. Observo as duas.
– Não querida, sua alma é a mistura dessas duas, não que você não a tenha. Você tem o livre arbítrio de fazer escolhas diferentes, pode até escolher não fazer parte desse mundo. Viver uma vida normal, sem aventuras... Mas nós duas sabemos que não quer isso, não é? Ninguém quer ser normal, todos querem ter algo de especial.
– Mas por que agora? Por que tudo isso? – Sereena faz um circulo com o dedo.
– Porque chegou a hora da sua missão, chegou a hora de alguém reunificar esses clãs. A magia deve ser só uma. Desde que se separou, o mundo humano tem visto as consequências. Os elementos não estão mais alinhados. Mas eu temo que não seja fácil para você essa missão, não será fácil para ninguém. Infelizmente, só sangue reunirá, só perdas reconstruirão, só sacrifício curará. Nosso tempo está acabando, minha jovem. Mas agora, sempre teremos uma ligação. Ah, antes que esqueça, você escolheu bem ficar com os librins. Sereena, você é forte... Mas a dualidade em você te enfraquece. Se escolher um lado, o outro morrerá. Não deixe sua guerra interna e suas emoções limita-la, não dê preferencia à força de Cecília ou de Cornelius. Use seu poder com sabedoria...
A senhora começa a desfigurar-se, tudo fica embaçado. Nossos corpos voltam a se tocar, minha mente desfigura-se. O branco torna-se negro, o negro, azul; o azul, vermelho... Fecho os olhos com força e seguro a mão de Sereena, meu corpo treme... Silêncio.
– Rodrigo... Acorda, menino! – Camila sacode meus ombros. – Como foi? Conte tudo... – Camila sonda-me enquanto Íris faz o mesmo com Sereena, meu olhar cruza o dela.
– Acho melhor leva-la para casa... – Digo rapidamente. Meu corpo clama por uma cama, precisava dormir e sei que Sereena sentia o mesmo. O melhor a fazer é descansar, não cogito a ideia de revelar-lhe que matei um pemungut naquela manhã, talvez a mesma criatura que atacou Clara – Posso leva-la se quiser...
– Tudo bem, só vou pegar minhas coisas.
–&-
Dóris move-se para o centro da cidade. Sereena prende sues braços contra mim, era realmente aconchegante tê-la por perto. A garota, por baixo do tom sonolento, explica onde é sua casa. Aquela havia sido a viagem mais louca que já fizeram e esperava nunca repeti-la. Estaciono Dóris em frente à casa de Sereena. Antes que a garota possa tirar o capacete, um homem sai da casa correndo em nossa direção. Assim que ele se aproxima, consigo reconhecê-lo, Matt.
– Boa noite, eu sei que deveria trazer a Sereena mais cedo. Mas tinha muito... Transito... – Sereena olha-me com uma expressão divertida.
– Meu santo Deus! É uma Indian branca! – Matt praticamente grita de excitação. – Ah... Oi, Sereena... Garoto, como conseguiu uma dessas? Olha quanto detalhe! Você é muito sortudo.
– Rodrigo, esse é meu Tio Matt – Sereena fala como se eu não soubesse quem ele é. – Ele é mecânico e tem uma oficina na cidade.
– Qualquer problema na moto é só aparecer na oficina, teria o prazer de ajuda-la. Qual o nome dela? – Matt fala, atropelando-se nas palavras e coçando a volumosa barba.
– Dóris... A garota mais bonita da costa leste... – Falo presunçoso.
– Homens... Bom, boa noite! – Sereena fala, entregando-me o capacete.
– Boa noite, Sereena... – Matt e eu falamos em uníssono. A garota entra na casa, mas Matt ainda baba por Dóris.
–Cara, eu tenho que ir. Ainda tenho que arrumar um hotel... Boa noite, amanhã volto para falarmos sobre como consegui a Dóris. – Despeço-me de Matt, e dou a partida na moto.
Estou inquieto, uma pergunta não saia da minha cabeça, não consigo tomar um rumo. As luzes dos postes pareciam pedir uma resposta, mas eu não a tinha. Não sabia como resolver o problema. Eu precisava continuar ao lado de Sereena, eu precisava protegê-la.
Mas como diabos eu poderia cumprir a minha missão e ajudar Sereena ao mesmo tempo?
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