Spectrum - Vol.1 Sereena
5 Die Siener
Notas iniciais
"Que a chuva caia e traga tranquilidade para esse coração confuso."
–&-
Como uma bola de gude; meu antigo mundo, minha realidade gira sobre os dedos de uma criança, sendo arremessado contra outras bolas de gude, outros mundos e realidades. Se pudesse descrever meu dia, ele seria um grande ponto de interrogação. Gelado, duro, invariável, sugestivo e inquietante. Era para, supostamente, encontrar meu verdadeiro eu, minha história e passado. Mas tudo que encontro são mais perguntas, mais confusão.
Meu corpo lateja de cansaço, estávamos em silêncio desde a saída de Thomas. Podia sentir o olhar de todos sobre mim... Podia sentir a tensão e preocupação de cada um deles. Dentro do bolso, meu celular toca. Isso funciona como um despertador, todos na cozinha parecem acordar de um transe, pego o aparelho e nome de Jessie se repete inúmeras vezes.
– Rosana, onde posso encontrar um banheiro? – Pergunto, quebrando o silêncio. Todos tentam agir normalmente, como se tivessem se comunicado mentalmente para fazerem uma cena de tranquilidade.
– Primeira porta a esquerda, querida – Rosana sorri tranquilamente e levanta-se para ajudar Marcel, o capitão do time de basquete, com os livros na estante. Uma onda de calma desliza pelo meu corpo e viro-me para o corredor.
Jessie havia deixado inúmeras mensagens juntamente com as ligações perdidas de Tia Suze. Toda confusão era explicada, pois já estávamos no fim da tarde, e eu havia sumido. Pressiono minhas costas conta os azulejos brancos do banheiro e deixo-me deslizar até o chão. Intensamente enjoada, retorno as ligações.
– Alô? – A voz de tia Suze parece distante, um chiado acompanha a ligação.
–Oi, Tia Suze. Sou eu... – Digo baixo, esperava intensamente que ela não perguntasse onde estava, pois nem eu sabia.
– Eu sei que é você, Sereena Charlotte Monteiro Tranbará. Tenho identificador de chamada, talvez já tenha ouvido sobre esse mecanismo. – Tia Suze grita contra o meu ouvido, afasto um pouco o celular. – Você já ouviu falar das finalidades de ter um celular?
–Tia... – Digo, tentando acalma-la.
–Eu não terminei, mocinha! Deveria ter me ligado, onde está? – Ela fala cada vez mais alto.
– Eu... Eu estou na casa de umas amigas! Não se preocupe, logo estarei em casa. – Falo com a maior tranquilidade.
–Acho perfeito! Maravilhoso! Você tem meia hora para estar na porta de casa! Contando desde já. – Dava para sentir a seriedade na voz de Tia Suze.
–Tia, ainda tenho que resolver algumas coisas...
– Resolva amanhã! Ande logo, você tem vinte nove minutos e 50 segundo para chegar em casa!- O telefone fica mudo. Ainda tinha muito para entender sobre mim... Precisava de um pouco mais de tempo, mas a preocupação de tia Suze fazia minha espinha arrepiar-se.
Levanto e encaro o espelho. Fico decepcionada; não sei o que esperava ver, mas meu reflexo continua o mesmo, só um pouco mais despenteado e assustado. Deixo que a água espelha-se pelas minhas mãos e deslize pelos dedos para o ralo; inclino-me, molhando o rosto. O fresco da água dissipa o calor do meu rosto, os músculos relaxam e a tensão parece se dissipar com o contado da toalha contra meu rosto. Levanto a cabeça rapidamente, a tempo de ver um vulto parado atrás de mim no espelho. Deixo a toalha cair aos meus pés e dou um misero grito, sem força... Viro para o vulto, mas ele havia sumido. Abro a porta rapidamente e deslizo para o corredor, todos já estavam prestes a abrir a porta.
–O que houve? Ouvimos você gritar. – Camila é a primeira a quebrar o silêncio.
–U...Um vulto no espelho. – Digo gaguejando, e inspiro fundo. Todos atenuaram sua expressão, Íris chegou até a sorrir.
– Está tudo bem, querida. Temos que conversar sobre isso também, mas os espíritos que te seguem não farão nenhum mal a você. Só conseguiu vê-lo porque o bloqueio foi retirado. – Rosana fala, tocando o topo da mina cabeça como se eu fosse uma criança assustada. E talvez eu fosse mesmo...
– Eu tenho que ir para casa, alguém poderia me ensinar como? – Murmuro, meus pensamentos embrenhavam-se em enormes fios de confusão e desespero; sabia que todos podiam sentir isso, quanto mais rápido saísse dali, melhor para mim.
– Levamos você, querida. – Rosana fala, girando sobre os calcanhares. Nós caminhamos para a porta, ainda era estanho estar com eles e toda história sobre magia; mas os Librins eram tudo que eu tinha para confiar e esclarecer minhas duvidas. A casa era grande e tinha um aspecto rustico com o branco descascado que mostrava o marrom da madeira nas persianas. Um gigantesco tapete de grama de estendia na parte da frente da casa, enormes árvores circundavam a casa e um pequeno seleiro. Rosana abre a porta do seleiro e uma garagem se apresenta no interior. Michel e Rosana começam a arrumar as coisas para a camionete sair do local.
– Não somos tão irritantes como parecemos, não é? – Marina fala atrás de mim, viro-me e vejo a garota com um sorriso branco a mostra.
– Toda nossa antipatia é uma forma de escudo, fazemos com que as pessoas não se aproximem de nós. – Íris continua a frase de Marina, eu entendi a vontade de exilar-se que elas tinham. Não era fácil saber sobre a magia, imagino que seria mais difícil para um humano se descobrisse.
– Não, não são tão irritantes assim... – Digo, sorrindo. Cada uma tinha sua personalidade, mas nenhuma era tão superficial como mostravam ser na escola. Meu telefone volta a tocar, não leio o nome. – Alô? Tia! Eu já falei que estou indo para casa!
– Não é a tia Suze, sou eu, Jessie... Onde se meteu? Por que não respondeu nenhuma das minhas mensagens? Estava dormindo? – Jessie fala rapidamente, tropeçando nas palavras.
– Pessoal, já podemos partir! – Camila grita da porta da garagem.
–Quem é essa garota? – Jessie fala no telefone, ela parecia numa mistura de raiva e preocupação, assim como tia Suze. – Eu não te dei permissão para me abandonar!
– Jessie, é uma amiga daqui. Você é muito boba! Fica calma, estou bem e logo falaremos. Tenho que desligar, até mais tarde– Digo, sorrindo, a amizade de Jessie era uma das únicas coisas que me ligava a minha antiga vida.
– Até... – Jessie deliga o telefone. Todos já estavam dentro da caminhonete, sendo que Michel ia de mãos dalas com Marina na parte de trás. Sorrio para ambos e entro na cabine.
O caminho que se segue é praticamente deserto, grandes árvores secas e retorcidas ladeiam a estrada, sem nenhum carro a vista. Coloco meus fones de ouvido e deixo a canção levar minha alma para o alto. West Coast, balança meu corpo sem movê-lo, me entorpece. A tranquilidade aumenta quanto vejo o crepúsculo por de trás dos galhos finos, o cheiro de uma possível chuva, o gelado da noite. Mesmo minha vida estando de ponta cabeça, naquele momento nada mais importava, eu só respirava a música e sonhava em voar alto, para longe de tudo. Nunca tinha me interessado sobre minha origem, não pensei que ela fosse influenciar no meu futuro; nunca acreditei em magia nem que uma pessoa poderia reencarnar com duas almas... E aqui estou eu, com outros cinco feiticeiros numa caminhonete a caminho de casa. Eu realmente não sei o que acontecerá a partir de hoje; na realidade, não queria saber...
–Sereena... – Escuto por trás da música a voz de Rosana. Com extremo pesar, tiro os fones, sabendo que a realidade me sufocaria novamente sem eles. – Há muitas coisas que você desconhece e que nós desconhecemos, mas estaremos ao seu lado em todas as situações. Amanhã podemos começar um treinamento ou algo do tipo, se quiser.
– Tudo bem... – Respondo brevemente, não sabia o que falar àquela mulher que me acolhia, não podia fugir do meu novo presente, só posso aceita-lo.
– Não está curiosa para saber mais sobre feitiços, poções, rituais e lendas? – Camila fala toda empolgada ao meu lado. Tento sorrir para ela, mostrar que estava animada; quando na realidade meu corpo estava cansado e minha mente não queria nada daquilo.
– Estou sim... – Minto não de uma forma sutil; mas ela parece acreditar, ou fingir. – Mas queria saber quando tudo isso vai parecer normal para mim como parece para vocês. E como vou esconder isso tudo dos meus tios.
– Logo, querida. Sejamos pacientes, tudo bem? Quanto esconder, daremos um jeito. Não se preocupe com as marcas, somente criaturas magicas podem vê-las. – Rosana sorri confiante, e a tranquilidade volta a crescer em mim. Já estávamos no centro da cidade, o comércio já fechava e a praça próxima de casa esvaziava-se.
À porta de casa, uma figura hostil, que costumava ser minha amável tia Suze, cruza os braços. Consigo sentir a tensão nos seus músculos, e prever o xingamento que levaria.
– Bom, pessoal! Foi bom conhecer vocês! Agora vou ali caminhar para minha morte. – Falo irônica e dramática, todos riem e eu saio do carro.
–Sereena, fique com meu número caso tenha alguma duvida ou queira desabafar. – Íris grita da janela traseira, corro até ela e pego um pequeno papel em suas mãos. Tia Suze abana da porta e entra, deixando-a aberta para mim. Assim que entro Tio Matt olha-me do sofá.
–Faça o que fizer , não a irrite mais! – Tio Matt fala, sorrindo. Clara desce as escadas com um pedaço de torta.
– Baixinha, posso roubar um pouco da sua torta? – Pergunto, sentando no sofá ao lado de Tio Matt, Clara senta-se no chão apoiando o prato na mesa de centro.
– Mamãe disse: “Nada de torta para quem chega atrasada!” – Clara sorri travessa. Seria um logo pedido de desculpas para tia Suze...
–&-
Roço o macio do travesseiro com os dedos, sinto a leveza e a calma.Mas meus olhos fixam-se na lua, que parece sorrir para mim, a marca no pulso esquerdo era igual a ela. Como aquilo pode ter se tornado tão natural para mim? Se fosse em outra situação eu estaria enlouquecendo ou desdenhando com tudo que me fora dito... Mas minha situação é essa, essa sou e. E por estar aqui, com todos dizendo o que sou e o que fui, devo ter algum dever. Isso não me assusta, na verdade me tranquiliza. A ideia de ter um novo proposito tranquiliza-me, o meu fora roubado assim que os policiais bateram na porta de casa, avisando sobre meus pais.
Era meu destino passar por tudo aquilo, e agora eu sou deles, sou da Lua e Sol, da Cecília e Cornelius, do passado e do presente... Aceito meu destino, só espero que ele não seja mais doloroso, mais caótico. A pergunta não é “Por que eu?”, mas sim “Por que agora?”. Abraço o travesseiro e aperto meu corpo contra o cobertor; não faz frio, mas falta-me calor. Meus pensamentos borbulham; mas o corpo range, clamando pelo sono. Uma chuva leve e branda começa a deslizar do lado de fora da janela. Fecho os olhos, esperando que o sono me sufoque e por fim eu durma, mas algo gelado roça minha bochecha. Paraliso instantaneamente, meu coração pula, minha mente ordena que meus músculos movam-se.
–Salve... – Alguém fala, como um sofro e gelado. Puxo as cobertas até o topo da cabeça, meu medo era maior que minha curiosidade. – Salve Clara! – A voz volta a soar, mas agora como um trovão. Sento assustada e procuro pelo interruptor que ficava próximo a cama. Ascendo às luzes, rápido o bastante para ver um vulto branco deslizando para fora da janela. Calço os chinelos, a ponto de correr atrás dele. Mas um barulho alto vindo do teto faz com que eu pare; acima do meu quarto, há o de Clara.
Passo correndo pela cozinha, o escuro toma todo o lugar; tropeço repetidas vezes nas cadeiras da mesa de jantar, até alcançar o corrimão. Eu não sabia o que estava me esperando no andar de cima, ou o que faria para salvar Clara, somente subi as escadas com o máximo de rapidez que consegui. Tento fazer o mínimo de barulho; meu coração pula a cada passo que dou, mesmo assim fico receosa ao girar a maçaneta. O barulho do meu coração ensurdece-me assim que meus olhos focam a figura escura sobre o pequeno corpo adormecido de Clara. Eu não sabia como agir, a cada milésimo de segundo que passava minha cabeça parecia querer explodir. A figura com um enorme manto negro tem os longos e secos dedos entrelaçados por um fio de luz verde, que na outra extremidade está ligado ao coração de Clara. A figura parece trançar o fio verde e puxa-lo para dentro da manga. Antes que perceba o que estava fazendo, minhas mãos levantam-se na altura dos meus olhos.
– Recedit figura tenebrarum! – Meus lábios mexem-se, mas aquela não era minha voz. Uma pequena porção de luz sai da marca do Sol no pulso direito. A figura vira-se para mim, não possuía rosto distinguível, apenas um grande sorriso que se apaga assim que percebe a porção de luz movendo-se contra ela. Antes que eu possa acerta-la, a figura desliza pela janela e a porção de luz acerta o abajur ao lado de Clara. Aquilo tudo havia ocorrido em segundos; mas, para mim, passou-se tudo em câmera lenta. Corro até Clara.
–Clarinha! Acorda... – Clara parece pálida, sacudo seus ombros, mas não recebo resposta. Afasto-me e fecho a janela, o que raios foi aquilo? Preciso do meu telefone, preciso falar com Rosana. Minha mente pulsa, o corredor continua quieto, desço as escadas e vou à busca do meu celular. Tateio as mãos sobre o colchão, tremo contra o aparelho e procuro pelo número de Íris.
– Alô! Íris! É uma emergência. Por favor, pode entregar o telefone para sua mãe? – Digo assim que ela atende, tropeçando nas palavras.
– Droga, garota! São três da manhã! Você não dorme não? – Íris balbucia do outro lado da linha.
–Íris! É sério, preciso falar com sua mãe! Agora! – No final da frase, eu já estava gritando desesperada. O telefone fica mudo.
– Alô? – A voz sonolenta de Rosana surge. – Que foi? Posso sentir seu desespero daqui!
– A Clara! Eu não sei bem o que aconteceu. Tudo foi muito rápido, eu estava quase dormindo, então apareceu um espírito branco, mandando-me salvar a Clara...
–Quem é Clara? – Rosana parece confusa, e eu não estava ajudando muito em esclarecer as coisas.
–Minha prima, ela têm só sete anos. Mas quando entrei no quarto dela, tinha uma figura estranha sobre ela, e algo verde saindo do peito! E eu falei alguma coisa, a cicatriz de sol brilhou, a figura foi embora! Clara ainda está desacordada no quarto!
– Como era essa coisa verde?
–Como diabos eu vou saber? Parecia uma neblina, um fio... Algo do tipo! Não fiquei analisando a cena! Por que isso tem importância? O que faço?
– Escute, Sereena! Tudo que sua prima precisa que é você mantenha a calma. Agora, você deve ficar com ela. Seus tios estão dormindo?
– Sim, espero que continuem... Minha tia iria enlouquecer... – Fito a janela que era preenchida pelo escuro da noite, a lua havia desaparecido entre as nuvens e a chuva parado. Rezo mentalmente para não encontrar a figura medonha vigiando-me do lado de fora.
– Bom, eu preciso que vá para a porta do quarto deles agora! Eles não podem saber sobre tudo isso. – Rosana assume uma voz autoritária, fecho a cortina e a porta do quarto ao sair. Um silêncio eterno reinava na casa, na ligação e na minha mente, sendo quebrado apenas pelas perguntas abafadas de Íris do outro lado da linha. – Chegou? – Rosana pergunta.
– Sim. O que devo fazer? – Digo quase murmurando.
– Preciso que repita o que vou lhe dizer... É um encantamento para seus tios não acordarem ao menos pelas próximas quatro horas. Pronta?
– Pode dizer... – Digo incerta do que faria a seguir.
– Primeiro, levante as mãos na altura dos olhos. Assim que puder ver suas mãos, quero que ponha seu dedo médio em cima do anelar. – Faço exatamente o que Rosana diz, tremendo. – Agora repita: “Divine somno merges illi coniuges etiam”
– Divine somno... O que? – Rosana havia dito tudo rápido demais.
– Divine. Somno. Merges. Illi. Conjuge. Etiam! – A mulher fala mais devagar e com um pouco de deboche, como se aquilo fosse obvio.
– Divine somno merges illi coniuges etiam! – Falo num com convicto, nada acontece aparentemente, nenhuma luz ou neblina, nada... – Era isso? Deu certo?
– Acredito que sim, abra a porta e teste... – Faço o que Rosana diz, meus tios possuíam uma cor mais rosada nas pálpebras, como se estivessem seladas por os mais puros sonhos. Fecho a porta e viro-me para a porta de Clara. – Ah sobre a garotinha, precisamos esperar ela acordar. Não são bons os encantamentos para despertar alguém, ainda mais os que perderam a consciência por um fenômeno magico.
Abro a porta, Clara ainda permanecia desacordada. Parecia mais calma, como se dormisse profundamente. Sento-me ao seu lado e afago seus cabelos loiros, na esperança que seus grandes olhos azuis se abram.
– Você tem ideia do que aconteceu? – Pergunto a Rosana, volto a vasculhar o quarto, que agora parecia extremante assustador e inseguro.
– Podem ser muitas coisas, preciso que descreva a criatura para mim... Se não for pedir muito.
– Tudo bem... Bom, ela era escura, mal pude vê-la, possuía um grande manto negro, não pude ver seu rosto... Mas quando ela me viu, abriu um grande e medonho sorriso.
– Um pemungut... São criaturas magi... – Rosana é interrompida pela voz de Clara.
– Que... cicatriz bonita, prima. – Clara olhava para meu pulso esquerdo que desancava perto de seu rosto. Fito-a assustada, ela não poderia ver minhas cicatrizes se fosse humana... Meu coração pula.
– Sereena, não se desespere... Clara é uma menina muito especial, preciso que a traga para cá o quanto antes... – Rosana continua falando, mas tudo que consigo relacionar são os olhos de Clara. Ela não poderia ser arrastada pra isso junto comigo, mas eu não podia deixa-la sozinha, como o espírito branco disse... Eu precisava salva-la...
E eu o faria, nem que custasse a minha vida...
–&-
Nada da minha antiga vida restara, e possivelmente nada dessa restará... Até Clara, doce e frágil Clara dos cabelos esvoaçantes e sorriso leve, havia sido transformada por toda essa loucura. Os pensamentos não me havia liberto nem um segundo, eu permanecera a manhã inteira com a preocupação e medo pulsando em minhas veias, como o pessimismo costurado a minha pele, com a inquietação em cada veia. Rosana havia se negado a falar sobre Clara pelo telefone, e agora estávamos eu e a garotinha no banco de trás da caminhonete de Rosana. Olho a menina que permanecia com o semblante calmo, pego sua pequena mão entre as minhas, e Clara olha-me. Um sorriso abre-se nos lábios, afirmando que tudo estava bem e que tudo ficaria bem, mas seus olhos não mentem. Ela também possuía inquietação... Somos absorvidas do nosso estado de silêncio pela porta do carro batendo. Rosana desliza para o interior do carro com um sorriso e bate a porta.
– Tudo certo, crianças. Falei com a Suzanne sobre vocês passarem à tarde na minha casa. – Rosana fala ao arrumar o retrovisor.
– Como “falei” você quer dizer: “Fiz um encantamento para convencer Suze”? – Digo, fazendo aspas no ar. Clara solta um risinho ao meu lado, aquilo parecia normal para ela, como se entendesse que somos feiticeiras.
– É... Algo desse gênero. – Rosana ri junto com Clara, e me basta sorrir e indagar sobre o que Clara sabia. – Como foram as aulas de vocês, crianças?
– Normal. – Digo, sabia que ela não queria uma resposta, só preferia alguém tagarelando para não haver aquele conhecido silêncio desconfortável. Estávamos desviando do assusto, pois ele se tornara muito complicado para discutir no carro. Minha resposta é rápida, já Clara detalha cada coisa que a segunda série fizera na manhã.
Inúmeras perguntas se seguem e enormes respostas de Clara são dadas, permaneço no silêncio. A paisagem urbana fica para trás e cada vez nos aproximamos mais da sede dos Librins. Adiro à inocência de Clara, sua vida, energia...
Íris nos esperava no portão da casa; ao contrario da mãe, ela parecia querer despejar sobre nós tudo que sabia. Marcel e Marina esperavam dentro da garagem, e Camila estava na soleira da porta. Tudo parecia tenso, como se todos menos Rosana pisassem em ovos. Cuidadosos...
–Já podem sair. – Rosana diz, abrindo a porta. Olho para Clara e deslizo para fora do carro. Clara faz o mesmo. – Camila, por que não leva Clara para conhecer o jardim? Aposto que ela adoraria conhecer minhas rosas. Não é mesmo, querida?
– Posso leva-la, avise-me quando precisar trazê-la de volta... – Camila fala, parecendo animada em ficar longe daquela confusão.
– Vamos entrar, Sereena. – Rosana afaga minhas costas, e entramos na casa. – Sente-se... Bom, Sereena. Como já deve saber Clara é uma criança muito especial. Eu não quero jogar toda história em cima de você. – Rosana vasculha a prateleira de livros, parecendo nervosa.
– Eu entendo que é uma situação complicada para você. É muita responsabilidade para você, ter que me ensinar tudo. Ontem era sobre mim e toda minha história. Hoje, você tem que me explicar sobre Clara. É tudo muito recente. – Despejo as palavras, mas no fim engasgo com meu medo. Olho para Rosana que finalmente achara o livro que procurava. Ela senta-se em minha frente.
– Querida, não é trabalho nenhum te explicar as coisas. É melhor que um Librin que explique tudo, principalmente porque você é uma alma feita de extremos, como nós... Bom, tenho duas coisas para te explicar. A primeira é sobre Clara e a segunda, sobre os espíritos que andam visitando-a. Bom, ontem um pemungut visitou Clara. Pemungut significa coletor em um malaio; não estranhe o idioma, a magia é a formadora de varias culturas e recebeu delas muita influência, por exemplo, o encantamento que fez ontem a noite era em latim. Pemungut é uma criatura magica que rouba desde lembrança até sentimentos, mas a prioridade deles são visões.
– O que acredita que ele estava roubando de Clara? – Pergunto. Rosana abre o livro e mostra um desenho muito parecido com a figura que vi sobre Clara.
– Bom, então entramos em outro assunto. Acredito que Clara seja um tipo de vidente, eu sei que é difícil acreditar que aquela doce menina pode ver o futuro nos seus mais complexos desfechos. Agora você pode estar se perguntando o porquê ela nunca mencionou suas visões, a resposta é a idade dela. Clara tem apenas sete anos, seus poderes são muito limitados, ela nunca teve uma visão propriamente dita, apenas sensações ou sonhos. – Rosana começa a folear o livro, até parar e empurra-lo para mim. A pagina que me mostra tinha uma borda trabalhada em dourado, uma mulher com capuz era desenhada na primeira pagina sobre ela o nome “Siener”, no rodapé havia vários outros nomes. – Siener é o mesmo que Vidente, só que em um dialeto africano. As primeiras videntes tinham visões assim que se comunicavam com espíritos na África. Videntes são muito almejadas em guerras, tanto humanas quanto magicas, assim muitas foram mortas ao decorrer dos anos. Séculos atrás, um grande ditador turco chegou a matar varias crianças que possuíam algum tipo de visão. Para defesa, os videntes só começam a desenvolver visões depois dos oito anos de idade, quando têm certa consciência do que é certo dizer ou não.
– Então Clara até o fim do ano terá sua primeira visão? Como pode ter certeza que ela é uma vidente ou sei lá o que? Ela é só uma criança! – Fecho o livro com um ruído alto, era revoltante saber que a inocência de Clara brevemente seria tirada, que ela teria uma vida diferente. Ela não podia participar daquela loucura também, não era justo.
–Sereena, calme-se... Vai ficar tudo bem com Clara! – Rosana abranda a voz, sinto uma onda de calma tentar me alcançar, mas empurro-a de volta para Rosana.
– O que espera que eu fizesse? Agradecesse?! Ah sim, obrigada por explicar tudo, agora tudo faz mais sentido! – Cuspo irônica as palavras contra Rosana. Mas a culpa não era dela, a culpa não era dela se eu fora duas pessoas no passado, se Clara é uma vidente. Não é culpa dela se estamos aqui. Tudo que queria era sair dali, gritar alto. Mas resolvo por encarar Rosana. –Desculpe, a culpa não é sua. Eu só preciso manter Clara a salvo, não é justo com ela, nem comigo. Mas se acontecer algo com ela, irei me culpar para sempre.
– Eu não falei a pior parte. É uma coisa boa Clara ser vidente, desde que ninguém mais saiba disso. Mas esse Pemungut já a encontrou, não sabemos as intenções dele ou se ele trabalha para alguém. Sereena, alguém pode estar preparando uma guerra... E sua existência pode ser a causa dela. Os outros clãs podem já saber da sua existência... Quando um feiticeiro é descoberto, um sinal é acionado. Como uma nova estrela aparecer no céu, ou uma onda de energia ser emanada. Algo pode ter acontecido... Não sabemos! Mas é preciso que fique calma, nossa prioridade é encontrar esse Pemungut. – Rosana fala rápido, como quem quer fugir logo do assunto ou está muito tensa.
–Guerra? O que poderiam querer comigo através de uma guerra? Mas independente disso, Clara ficará bem, não é? – Era demais para relacionar, eu precisava que algo me absorvesse daquele lugar.
– Clara ficará bem. Mas quanto à guerra, não se esqueça de que você é a Reincarnation. Tudo ficará... – Rosana não teve tempo de terminar a frase, falar que tudo ficaria bem, pois a campanha toca. Viramos para porta, Rosana olha-me com uma expressão de cólera. Ela levanta e gira a maçaneta relutante. – Boa tarde, Rodrigo. O que veio fazer aqui? – Nunca vira Rosana tão rígida.
– Estou aqui porque fique sabendo que você encontrou a... – Não tinha visto o dono na voz até o momento que ele pôs a cabeça para dentro da sala e fitou-me. Tudo que pude notar, fora seus profundos e negros olhos – A reincarnation... – Rodrigo abre um grande sorriso.
Rosana não terminou a frase; não porque fora interrompida, mas porque nós duas sabíamos que demoraria até que tudo ficasse bem...
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