Spectrum - Vol.1 Sereena
2 Ameno
Notas iniciais
"Para almas barulhentas, a mudança pode apresentar-se nas mais diversas formas."
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Superficialidade era tudo que conseguia ver nas pessoas em volta da rua principal, até meus olhos pararem sobre os de uma desconhecida. Eram escuros, misteriosos e carregavam tristeza. Desvio o olhar para seus lábios que possuíam um tom rubro, já não escuto a melodia entediante do desfile. Minha professora de história, Sra. Suzanna Caamano, sorri e pisca para mim atrás da garota. Constrangido, miro o carro com a enorme imagem de São Domingues. Minha mãe, a organizadora do evento, adora o superlativo e exagerou no tamanho da estátua de isopor e papel machê. Imagino qual seja a real necessidade de uma festa dessas... Talvez fosse só mais uma oportunidade de concentrar toda cidade e as fofocas se espalharem mais rápido. Minha mãe é também a “Embaixadora dos bons costumes da cidade”, mas dentro da própria casa não conseguia manter uma conversa comigo por mais de dois minutos.
Todos eram superficiais como uma piscina rasa, mas minha família conseguia superar isso. Meu pai, o prefeito, havia fugido da cidade depois de ser ameaçado por seu próprio vice, que utilizou as fraudes e casos extraconjugais do superior para conseguir ocupar seu cargo.
Mesmo não sendo o melhor pai, eu sentia falta de sua presença, ele não esquecia minha existência de meia e meia hora como minha mãe. Ele parou de mandar correspondências há uns quatro meses... Eu simplesmente não tinha mais família há quatro meses. Desde então, tenho me refugiado na rebeldia.
Escuto os sinos da igreja tocando anunciando o fim do desfile; balanço a cabeça, afastando os pensamentos. Assim que o último carro passa, sinto um puxão no meu casaco. Minha mãe, com seu enorme sorriso perolado, puxa meu braço com força.
— Sorria e acene... — Ela fala com os lábios repuxados e congelados.
— Ninguém se importa com essa exibição. — Eu não conseguia acreditar na necessidade dela de chamar atenção. Puxo meu braço e atravesso a rua, caminhando em direção à família que agora brincava com uma criança.
— Olá Sra. Suzanna... — Digo cordial ao me aproximar dela. Todos viram-se para mim, a garota de cabelos pretos , tímida, vira o rosto para a garotinha.
— Só Suze, não precisa de tanta formalidade fora da escola, querido. — Minha professora de história sorri ao falar. — Essa é minha sobrinha, Sereena...
— Meu nome é Thomas, prazer. — Digo, observando a quantidade de cores que a garota possuía, contratando com meu jeans e casaco pretos.
— Olá. — Sereena diz, parecendo envergonhada.
— Esses jovens de hoje... — Suzanna semicerra os olhos, parecendo incrédula com a vergonha da sobrinha. — Bom... Esses são Matthew e Clara, meu marido e filha.
— Eu já o conheço, você é o dono da oficina da cidade, não é? Responsável pelos carros alegóricos de hoje... — Digo, oferecendo a mão para o pobre homem que serviu de capacho da minha mãe durante meses por causa do desfile.
— Eu mesmo. — Matthew diz orgulhoso ao estufar o peito e apertar minha mão. Escuto uma risada jovial, olho para Clara que parece achar algo engraçado. A menina possuía um sorriso único, que combinava com seu rosto em forma de maçã e olhos azuis.
— Prazer, Sr. Futuro namorado da Sereena. — Clara fala, estendendo sua pequena mão, parecendo convicta com o que falava. Escuto Sereena engasgar de vergonha ao meu lado. Rio com a hipótese, que não era nada má...
— Clara, acho que você pegou muito sol nessa cabeça loira. — Sereena fala, recuperando-se do choque, e então uma sonora risada preenche o grupo, fazendo todos rirem junto com ela. Era agradável estar com aquela família, eles parecem ser o pedaço da cidade que não é podre.
— Thomas! Querido! — Escuto o exagerado aumento de “o” e reconheço a voz de minha mãe, olho para trás. A mulher caminha apresada com seus sapatos bicudos em nossa direção. — Estamos atrasados para o almoço na prefeitura... Ah! Olá para todos — Minha mãe fala olhando para a família Caamano e Sereena. Era possível sentir o desprezo singelo em sua voz. — Agora, vamos...
— Bom, tchau... Até breve — Digo, seguindo minha mãe em direção à prefeitura.
— Dá para andar com pessoas da nossa classe, Thomas? — Minha mãe fala baixo ao meu lado, empinando seu nariz e batendo as luvas de renda contra o vestido, como se quisesse livrar-se de alguma sujeira.
— Como assim “da nossa classe”? Aqueles robôs superficiais que você chama de “amigos”? Não! Muito obrigado, não consigo ser falso como a senhora! — Faço aspas no ar, enfatizando o nojo que sentia por aquelas pessoas que seriam ideais aos olhos dela.
— Você não tem o direito de falar assim comigo! Não sabe o que aguento para manter nosso padrão de vida! — Ela aponta para mim, furiosa. Podia sentir sua raiva. Seu enfeite de cabelo bambaleava na cabeça a media que a raiva aumentava.
— Nunca pedi para fazer essas coisas! Então não cobre de mim. E eu nem me importo com esse “Padrão de Vida”! — Digo e dou as costas para minha mãe. Não pretendia ir a esse almoço, não aguentava o nível de falsidade que um lugar só poderia ter.
— Mais um passo, e você esta proibido de sair do seu quarto! — Ela grita atrás de mim.
— Você nunca mandou em mim mesmo! Não aja como se o que faço ou deixo de fazer te importasse! — Afasto-me, caminhando para casa.
As pessoas ainda estavam na rua principal. Homens infiéis, mulheres desesperadas, jovens bêbados e drogados, crianças rindo umas das outras, cachorros brigando pela salsicha que caiu do hot dog da criança mimada e birrenta. Todos pareciam completar-se, tudo que mais quero é sair logo dessa cidade. Não quero ficar preso aqui, não quero depender dessas pessoas hipócritas e mesquinhas que passavam por mim. As primeiras oportunidades de mudança, seja ela para melhor ou não, eu agarro. Tudo para me ver o mais livre dessa cidade, dessas pessoas, da minha mãe e dessa época da vida.
Caminho, agora, sem rumo. Estava próximo a escola, meu corpo já sabia onde eu precisava ir. O jardim abandonado ao lado da instituição era meu refúgio, um lugar onde eu fico em estrema paz, sem me estressar com mesquinharias e falsidades. Abro o enorme portão de madeira que a cerca possuía, já podia sentir a tensão sendo dissipada. As árvores preenchem o local, o chão repleto de folhas secas funciona como repouso, sento perto de um dos troncos caídos. A imagem dos olhos de Sereena e o som de sua risada continuam fixados na minha mente, fecho os olhos e não reprimo o sorriso que se abre em meus lábios ao imaginá-la.
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Bato a porta contra o nariz da mulher que dizia ser minha mãe. Suas reclamações enchiam a casa com o som estridente da sua voz. Já era tarde quando cheguei em casa, mas a paz ainda reinava, pois o almoço na casa do prefeito tornou-se jantar. Desde sua chegada tudo que tem feito é reclamar de mim e do novo prefeito.
— Vai embora! — Grito contra a porta, mas a onda de insultos aumenta. Ligo o rádio no último volume, na musica mais barulhenta que encontrei: “Gold — Imagine Dragons”. Não consigo escutar nada além da música, que faz as janelas do meu quarto tremerem.
O dia havia sido uma mistura de emoções. Quanto mais vivo em São Domingues, mais a vontade de mudança me sufoca. Agarraria a primeira chance que aparecesse para tudo a minha volta mudar. Talvez essa mudança estivesse junto a Sereena...
Abro a varanda, a noite se estende do lado de fora, mas não presto atenção na lua ou estrelas. Algo chama mais atenção, um vulto passa perto das roseiras.
—Ei! Quem está ai? — Grito para o vulto que parece paralisado de costas para mim, ele não devia estar me escutando por causa da música. Abaixo o som e corro para varanda novamente. O vulto já havia saído de perto das roseiras e agora corria pela rua. — Volte aqui! — Grito. Tento identificar quem é, mas a pessoa já estava longe demais e eu não ousaria sair do quarto; pois as reclamações, que agora cessaram, voltariam.
Jogo-me contra a cama e ligo o rádio novamente, dessa vez num volume mais baixo. Quem era aquele cara? Minha cabeça gira de curiosidade e excitação pelo desconhecido, até que adormeço.
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