Sozinha No Escuro
2 22:00
Notas iniciais
Depois que ouço a porta de nossa casa fechando, desço as escadas com o meu computador para a sala de TV e pego uma barra de chocolate. É, eu sei, acabei de jantar, mas isso não importa. Ainda bem que amanhã é sábado, assim eu não tenho que me preocupar em acordar cedo. Meus amigos me convidaram para ir a uma festa hoje á noite, mas eu não estava com vontade. Olho no meu celular, e tem uma mensagem da minha melhor amiga, Isabelle.
‘Vem pra cá! Tá mó legal! A Malú e a Gabi tão aqui, e elas tão pedindo pra você vir! E o Fernando também ta aqui...! :P’
Fernando é o menino que eu gosto. Ou gostava. Não sei, não tenho certeza sobre os meus sentimentos. Ele não é muito bonito, mas eu gosto dele. Se alguém me perguntasse o motivo eu não saberia responder.
Todos os meus amigos estão nessa festa, e sempre quando estamos juntos, em qualquer situação, nos divertimos MUITO. Até fiquei tentada a responder que pegaria um táxi e iria pra lá agora, mas está chovendo e eu nem tenho dinheiro pro táxi, então eu só respondi: Ahhnn... Que pena! Eu queria muito ir! Mas eu estou na festa de aniversário da minha tia. :)’
Ok, é mentira que eu estou no aniversário da minha tia, também porque eu sempre uso essa mesma desculpa quando não estou com vontade de ir para algum lugar. Alguns minutos depois chega outra mensagem da Isabelle:
‘Ah, Lola! Você já usou essa desculpa da ultima vez! Quantas tias você tem? 57? Vem pra cá agora, eu exijo! Eu pago o seu táxi se for preciso!’
‘Mas a minha mãe me trancou em casa e tá chovendo... eu queria ir, de vdd, mas não posso! Manda um beijo pras meninas, e um beijo na boca pro Fernando...’
Mando essa mensagem para a Isabelle, esperando que ela não mostre pro Fernando.
‘Ui, sua safada! Tá bom, tudo bem... A gente marca alguma coisa amanhã! :) bj!’
Agora eu até estava empolgada pra ir pra essa festa, mas mesmo assim eu não conseguiria ir. Começo a comer minha barra de chocolate e a assistir TV. Está passando um programa bizarro sobre pessoas bizarras que fazem coisas bizarras. Fala sobre uma mulher que come papel higiênico, um homem que tem obsessão com bonecas e uma menina que adora se bronzear. Não estou com vontade de assistir esses programas estranhos, então mudo de canal. Está passando um monte de filme de terror, mas eu não tenho coragem de assistir sozinha. Eu adoro ver esse tipo de filme com o meu pai, é sempre muito engraçado. Deixo a TV ligada em um canal de musica só pra me fazer companhia e checo a hora no meu celular. São 22:00. Dou uma olhada na data só por curiosidade, e percebo que é 1 de novembro. Ah, esse é o motivo dos filmes de terror. É a semana do terror, junto com Halloween e dia dos mortos.
Depois de comer muito chocolate, acabo ficando com sede. Vou até a cozinha, encho um copo e bebo. Quando volto para a sala, percebo que a TV não está ligada no canal que eu deixei. Quando eu fui para a cozinha, estava no canal de música, e agora está ligada em um dos filmes de terror. Vou correndo pegar o controle para mudar, antes que venha uma cena assustadora, mas não o acho. Então vou até a TV e mudo o canal manualmente. Sento no sofá e continuo mexendo no meu celular. De repente a TV volta para o canal do filme de terror, e desliga sozinha. Meu coração dá dois saltos mortais triplos, e sinto o choque do susto percorrer o meu corpo. Fico imóvel, e não ouso me mexer. Lentamente levanto do sofá, pego meu celular, e saio correndo para o meu quarto.
Cara, que susto. Eu não acredito nessas coisas de fantasma, espírito, demônio, ou coisas do outro mundo, mas isso foi sinistro.
Entro no meu quarto, acendo as luzes, fecho a porta, e sento na cama. Fico olhando para os lados por um tempo, me certificando que não tem nada de errado, ou não tem ninguém me olhando. É nessa hora que meu cérebro começa a fazer essas coisas doidas, de ficar lembrando dos filmes de terror mais assustadores. Começo a pensar na Samara, aquela menina que sai da TV. Eu tenho fobia da Samara (Samarofobia). Só de pensar nela se contorcendo para sair da TV eu me estremeço.
Resolvo dormir agora mesmo, com as luzes acesas. Se eu ficar acordada o meu medo só vai virar mais sofrimento. Deito na cama, esperando o sono chegar. Começo a pensar em coisas felizes, em passarinhos, sol nascendo, banana split, disneylandia, e acabo dormindo, com as luzes acesas mesmo. Depois do que parecem alguns segundos, eu acordo. Nem tenho certeza se eu dormi de verdade, então olho no meu relógio. São 22:25. Eu vim para o meu quarto as 22:10, então eu devo ter pegado um pouquinho no sono. Olho para os lados e percebo que as luzes estão apagadas. Eu tinha deixado tudo aceso, não tinha? O desespero começa a subir pela minha garganta e minha vontade é de chorar. Pode ser um problema de energia. Isso explicaria a TV e a luz desligando. Começo a me acalmar, mas continuo com medo. Resolvo ligar para a minha mãe e pedir para ela voltar. Isso pareceria infantil, e talvez ela brigasse comigo, mas não importa. Eu estava com medo, mesmo por uma coisa boba. Pego meu celular e começo a discar o número dela, mas está sem sinal. Começo a levantar da cama para ligar para ela do telefone fixo, quando eu sinto alguma coisa me empurrando com uma força inacreditável.
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