Soulmate - Spideypool
4 "...qual seria a reação de Peter ao ouvir seu nome." W.W
— Uau, dá 'pra você parar de pensar besteira enquanto a gente está comendo? — Vanessa pede com tom repreensivo a Wade, ao notar seus chifres em preto.
Toda a mesa olhou para eles. Colossus é o único que tem coragem de perguntar.
— Como você…?
— O chifre dele. — Ela explica. — Fica dessa cor quando ele está pensando em pornografia e… — Ela vira o corpo, as asas negras se mexendo consigo. — Pelo visto é pelo anjinho.
A mesa solta um riso, trazendo Wade de volta para a realidade.
— O que? – Ele questiona para os amigos.
— Nada. – Ellie dá de ombros, enquanto Vanessa só rola os olhos. – Só você pensando no impossível de novo.
Wade fecha a cara. Sempre se perdia quando Peter estava por perto e por ter sentido a presença do pequeno tão perto, mesmo que por poucos segundos, o havia deixado fora de órbita. A cena de poucos minutos atrás ficava se repassando em sua cabeça, os olhos castanhos inocentes envoltos em cílios grossos e volumosos, a boca rosada e tão atrativa, até mesmo a voz doce e melódica de Peter. Wade sabia que estava perdido.
Aquilo era tão proibido que, sequer o pensamento de querer estar com Peter poderia ser perigoso se algum superior descobrisse. Wade sabia disso e esse era o único motivo de ainda deixar que os boatos de vingança não morressem. Ele poderia ameaçar a todos que não falassem mais sobre seus pais se quisesse, mas aquela era única forma de poder tornar plausível que o loiro pudesse observar Peter por horas a fio e não ser detido.
Era preferível que um demônio desejasse matar um anjo, do que ficar com ele.
Wade ainda tinha a sorte de que nenhum superior o havia questionado sobre sua obsessão com a “vingança” sobre seus pais. Mesmo que fosse verdade, que Mary e Richard fossem os responsáveis pela morte de seus pais, Wade sabia que jamais poderia matar Peter por pura vingança. Esse era o esperado de si, que o demônio ficasse cego de ódio e quisesse acabar com os responsáveis se deleitando em ser malvado e, o que seria pior para eles, do que ter seu precioso filho tirado de si? Isso era o que todos imaginavam, porém Wade nunca havia sentido essa necessidade.
Talvez fosse o coração gelado que deveria ter, ao ponto de ignorar a dor que as mortes de seus pais haviam causado, ou ainda, a criação ao qual havia sido submetida. Quem imaginaria, que um demônio poderia viver bem entre a humanidade? Wade com certeza era muito dócil, essa devia ser a resposta.
O garoto não ligava para o que pensassem que fosse o motivo. Ele estava bem com aquilo.
Seus pais sempre o alertaram sobre o perigo de ser um demônio, não somente pelo ódio ao qual eram submetidos, mas também pela facilidade com que gostavam de transformá-los nos malvados.
Com a chegada de Peter ao colégio, o primeiro boato a se espalhar havia sido sobre essa vingança e Wade nunca havia manifestado sinais de que um dia iria atrás de respostas sobre a morte de seus pais, mas mesmo assim, era natural que uma grande maioria ainda desejasse ver a rivalidade entre anjo e demônio acontecer.
Wade havia se despedido dos pais quando ambos foram a guerra. E ainda que, Mary e Richard fossem acusados de serem aqueles que acabaram com a vida de seus pais, ele não via sentido em perseguir Peter por isso. Porque ele sabia que nada se resolveria, seus pais nunca poderiam ser trazidos de volta, e ele estava de acordo com a verdade.
— Way, o que foi? – Vanessa cutucou seu pé por debaixo da mesa.
— O que? – Ele levantou a cabeça novamente.
— Seus chifres estão azuis. – Ela aponta.
— Não é nada. – Ele dá um sorriso simpático e se esforça para mudar a cor daquilo.
Os chifres de Vanessa empalidecem em um azul fraco, por solidariedade ao amigo. Wade recebe tapinha nas costas de Dopinder, diferente de demônios que podiam demonstrar suas emoções pelos chifres, lobos podiam sentir um cheiro especifico para cada emoção e nesse momento, apesar do ar ser condensado com todo tipo diferente de emoção, Dopinder conseguia sentir um cheiro único em Wade: Saudade, o cheiro mais intenso de todos.
— hu-rum, Ness, você já achou alguém pra me ajudar nas matérias? – Wade se esforça para mudar o clima pesado que havia se submetido.
— Ainda não. – Ela responde fincando o garfo em um tomate cereja. – Mas o dia ainda não acabou, então ainda tenho tempo para achar alguém.
— Só não escolhe a menininha ali, da última vez, só faltou ela arrancar minha asa a força. – Wade fala apontando para Ellie.
— Se você fosse menos distraído, eu não teria que te punir para prestar atenção. – Ellie se defende. – E eu não arranquei sua asa...foi só um pedacinho, e foi um acidente.
— Mas doeu do mesmo jeito! – Wade ralha fazendo um bico igual criança.
Como se para comprovar o fato, ele mexe a asa embaixo da jaqueta dando visibilidade para um pedacinho na altura da sua cintura que parecia ter sido cortado acidentalmente pela jaqueta ou como se o loiro tivesse esbarrado em uma parede. Ellie rolou os olhos.
— Nem dá para ver nada aí.
— Mas eu sinto falta do meu pedacinho de asa. – O loiro soa ainda mais dramático. – Eu devia ser recompensado pelo seu mau comportamento.
— Aqueles bolinhos lunares parecem uma boa, você não acha? – Dopinder opina, sempre acabava ganhando algo quando Wade ganhava algo.
— Ah, nem me fala. – O loiro coloca a mão no estômago, sonhador.
Os bolinhos lunares eram uma especialidade de Ellie, já que, somente anjos tinham os ingredientes necessários para fazê-lo. Assim como diferentes comidas para cada região do mundo, cada raça sobrenatural tinha suas peculiaridades. Os bolinhos lunares eram tão doces e apetitosos, que podia facilmente ser comparado a comer um pedaço de nuvem. O tipo de coisa que Wade não conseguia comer – nem sonhando – dentro da Mansão dos Demônios, muito menos na Academia do Mal.
— Uma travessa de bolinhos da lua então? – Ellie oferece, com a mão estendida.
O loiro olha para a oportunidade com ganância. Podia não ser natural de si que quisesse vingança, mas se aproveitar de uma situação era quase inevitável.
— Comida por um pedaço da minha asa? – Wade fala como se aquilo fosse blasfêmia. – Estamos falando de um pedaço da minha carne, pessoal. Vai ter que ser muito mais que isso.
Colossus ri, entendendo o jogo do amigo. Enquanto nenhum deles saísse no tapa, ele estava bem em jogar um pouco.
— Uma travessa de bolinhos e uma semana fazendo suas tarefas. – Colossus aposta.
— Opa, como assim uma semana? Você que vai fazer? – Ellie pergunta franzindo a sobrancelha.
— É pelo bem da reparação de seus elos. – Colossus sorri como se aquilo não fosse mais do que seu trabalho de Pacificador acontecendo. – Como pacificador, eu posso ser o juiz, não posso?
— Sim! – Wade comemora.
— Não! – Ellie discorda ao mesmo tempo.
— Qual é, Ellizinha, você me fez sofrer tanto. – Wade finge chorar.
— Eu estava te ajudando, seu palhaço.
— E mesmo assim eu não passei na matéria e preciso de ajuda de novo.
— Ok, e se, a Ellie fizer a travessa de doces, mas ao invés de te ajudar com os trabalhos, ela me ajudar a chamar a melhor pessoa do mundo para poder te ajudar nesse momento? – Vanessa intervém.
— Tipo quem? – Dopinder pergunta confuso, mas só basta o olhar malicioso de Vanessa para a mesa de Peter, para ele entender.
Wade sente o coração perder uma batida. Aquilo seria perfeito.
Se Peter aceitasse – e quando aceitasse, Wade estava sendo otimista – ele poderia passar um tempo junto com o castanho, de verdade. Mesmo que fosse sofrer tentando apender as matérias para não deixar a reputação do anjinho na lama, seria o mais próximo que chegariam de ser.
Os olhos do loiro brilham e seus chifres passam do costumeiro roxo para um dourado. Ele junta as mãos como se fosse rezar e implora para Ellie.
— Juro que eu nunca mais comento sobre o incidente com a minha asa. – Ele promete.
A garota remexe as asas, desconfiada. Por ser e saber todas as regras dos anjos, sabia que colocar um anjo como Peter, perto de um demônio como Wade poderia ser o sinal dos fins dos tempos. Se eles fossem interpretados de maneira errada ou sequer se aproximassem demais, ambos poderiam ser condenados a punição e ela seria responsabilizada. Tudo aquilo cheirava a algo que ia dar errado.
— Não sei não. – Ellie faz uma careta. – Vocês sabem que isso não ia dar certo.
— Para de ser careta. – Wade reclama, mas logo retoma a posição de necessitado. – Eu prometo de pés juntos, por Deus, Lúcifer ou que você quiser, não vou tentar nada.
Ela o fita com seus olhos negros como a noite, claramente não acreditava que Wade ia manter a promessa de pé, entretanto, talvez por seu gene angelical ou por lá no fundo, querer que fosse possível ver o loiro feliz, ela concorda.
— Ok, eu ajudo a falar com o Pet. – Ela intervém Wade, antes que o mesmo faça uma festança. – Mas com uma condição.
— Qualquer coisa. – Wade concorda completamente feliz.
— Você vai pedir para ele te ensinar e se ele disser que não, você não pode insistir. – Ela fala sério com ele. – E vai deixar ele em paz.
Wade fica em silêncio, como se ponderasse sobre o que ela havia pedido.
— Se ele negar, eu posso pelo menos continuar encarando ele?
— Não, tem que passar para a próxima, superar. – Ela é firme.
Ele para pensando por mais alguns instantes.
Peter era o menino mais prestativo do colégio, as chances de ele negar eram praticamente nulas...para qualquer outra pessoa, mas o seu “demônio vingador” pessoal ia estar fazendo o pedido. Tudo isso podia ir para o ralo se Wade não soubesse falar corretamente com o garoto.
— Eu preciso mesmo falar com ele? – Wade fala mordendo o lábio em preocupação.
— Sim. – Ellie dá de ombros e olha para Vanessa. – Eu e a Vanessa falamos com ele primeiro, para então, se ele aceitar, você precisa ir até ele combinar os detalhes das sessões de estudos.
Wade avalia suas opções. Talvez se tornasse mais fácil de decidir, caso as meninas conseguissem convencê-lo a lhe ensinar, mas o loiro simplesmente não conseguia parar de imaginar, qual seria a reação de Peter ao ouvir seu nome.
— Ok. – O loiro confirma tentando parecer valente. – Eu concordo com isso.
Ellie sorri, enquanto os amigos parecem comemorar pela vitória.
— É tudo ou nada.
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