Soulmate - Spideypool

5 "E que amigo ficaria corado..." P.P.


O sinal da penúltima aula ressoa.

— Ok, não se esqueçam do trabalho sobre as proibições demoníacas para a próxima semana, pessoal. – O professor Scott Summers se despede da turma. – Sr. Parker, uma palavra.

Peter se retesa antes mesmo de passar pela porta. Um friozinho na barriga sempre o acompanha quando um professor pede uma palavra em particular, sendo o bom anjinho que sempre foi, até mesmo quando era elogiado conseguia-se notar que ele ficava sem jeito. Porém isso era diferente com o professor Summers, talvez por ser seu professor preferido, ou talvez pelo respeito que seus pais tinham com o demônio mestre.

Scott Summers havia crescido como um demônio especial. Suas habilidades oculares haviam chamado a atenção dos líderes desde o início, o que lhe trouxe a oportunidade de ascender de nível e chegar a ponto de ser permitido que lecionasse para os alunos do colégio sobrenatural.

Peter o conhecia por boa parte de sua infância, já que Scott era o estudo prioritário da Dr. Mary Parker. Os Parkers eram famosos pelos quatro cantos do universo, principalmente por sua colaboração em guerras e também em estudos de cobaias especiais. O castanho desde o início se via envolvido com a ciência, já que não só de fé viviam os anjos.

— Sim? – Ele se prostra a frente do amigo da família.

— Está tudo bem? – O professor arruma os óculos escuros no rosto, em sinal de preocupação.

— Hum...sim. – Peter se sente confuso pela pergunta repentina.

— Tenho ouvido boatos sobre você pelo colégio. – Summers usa o seu tom paterno, o que para um demônio podia chegar próximo ao tom de uma bronca. – Tem certeza de que está tudo bem?

— Ah, esses boatos. – Ele engole em seco, jamais imaginou que os boatos tinham se tornado tão grandes, pelo jeito o encontro no refeitório daquela manhã tinha rendido. – Não acho que tenha que se preocupar, professor. Wade não tentaria nada dentro do colégio...certo?

Scott não se contém em abrir um sorriso, mesmo tentando parecer confiante, Peter era como uma fonte de água cristalina. Não podia negar que tinha uma conexão como irmão mais velho com o castanho e acima de tudo queria vê-lo seguro dentro do colégio. Nunca entendeu o motivo da mudança repentina de Mary e Richard em retirá-lo de um colégio para anjos e agora, com os boatos, se tornava ainda mais esquisito que Peter tivesse ido parar no mesmo colégio que Wade Wilson.

— Certo. – Ele confirma escondendo todas suas dúvidas e preocupações atrás de um sorriso. – Espero que você esteja certo, porque a Srta. Carlysle e Phimister me pediram para lhe dar um aviso de 5 minutos de atraso para a próxima aula.

Um balde de água gelada foi jogado em cima do anjo. Porque as duas melhores amigas de Wade estavam lhe procurando? Todo tipo de cenário passou pela cabeça de Peter em questão de segundos.

Será que finalmente a vingança de Wade se concretizaria? Talvez ele tivesse ordenado que elas o dopassem e o levassem dali simplesmente por ter esbarrado em si no refeitório? Qual outro instrumento de tortura poderia ser usando contra um anjo? Era por isso que Ellie estava ali? Sendo um anjo, ela saberia o que fazer com ele, certo?

No mesmo segundo suas asas se reprimiram. Iam cortar suas asas, não iam? O castanho começou a choramingar dentro da própria cabeça antecipando o pior cenário possível para aquilo.

— Aqui. – Scott lhe estende o aviso de demora para ser entregue ao próximo professor. – Está tudo bem te deixar sozinho com elas?

Peter respira fundo se controlando. Sempre foi um anjo com imaginação fértil, previa coisas que nem mesmo seriam possíveis de acontecer, então naquele momento tentou se convencer de que todos aqueles cenários eram o medo lhe cravando no local.

— Tudo bem. – Ele sorri e então assiste o professor sair da sala.

Não demora para que poucas palavras sejam trocadas entre as duas meninas e o mais velho, fazendo com que a silhueta grande de Scott fosse substituída por duas menores, mas ainda assim assustadoras.

Ellie Phimister podia ser um anjo, mas claramente não era do padrão fofo e angelical que a maioria esbanjava por aí. A cabeça raspada, junto de olhos tão escuros que pareciam a noite, além da clara ausência de um sorriso amigável, lhe davam o aspecto sombrio que fazia a maior parte das pessoas ficarem longe, apesar da mesma moça esbanjar um par de asas brancas e brilhantes.

Vanessa Carlysle pelo contrário, vivia sorrindo pelos corredores. Os anjos mais ousados, até mesmo tinham a coragem de roubar alguma página dos jornais escolares onde a garota aparecia para ter algo para o que olhar pela madrugada, o pedaço de papel passava a valer outro dentre tudo o que podia ser colecionado. O corpo daquele demônio em específico parecia ser mais cobiçado do que o de qualquer outro anjo, até mesmo lobas – que são conhecidas por sua dominância matriarcal em relação a qualquer outra fêmea – por vezes se sentiam ameaçadas por aquela demônia em especifico.

— Peterzinho! – Vanessa chegou ao seu lado como se fossem amigos de grande data que não se viam a anos. – Fico feliz que você tenha concordado em se encontrar com a gente.

O castanho abriu um sorriso simpático como fazia para todo mundo.

— Olá meninas. Tudo bem? No que posso ajudar?

— Prometemos não tomar muito do seu tempo. – Ellie comentou sem nem um pouco da emoção de Vanessa. – Mas temos algo a pedir.

— Ah claro, se estiver em meu alcance farei de tudo para ajudar. – O anjo sorriu, fazendo o coração de Vanessa derreter.

— Eu vejo porque ele gosta tanto de você. – Ela murmurou levando uma cotovelada de Ellie.

— Perdão? – Peter pediu por não conseguir ouvir do que se tratava.

— Nada. – Vanessa balançou a cabeça. – Só estava elogiando o anjo mais prestigiado do colégio, suas notas do semestre passado foram impecáveis, até mesmo o professor de álgebra elevado a tortura te deu um A.

As bochechas de Peter ficaram rosadas na hora. Talvez fosse pela fama de Vanessa, mas o elogio dela parecia ainda mais especial, como se tivesse sido notado por uma celebridade.

— Por Lúcifer, ele ficou corado. – A morena coloca as mãos sobre o peito. – Você é um anjo muito precioso, estou quase desistindo de pedir para você ajudar ele.

Enquanto Ellie rola os olhos dentro do próprio crânio, Peter se atrapalha com as palavras.

— B-bem, obrigado. O professor de álgebra pode ser exigente, mas é para o nosso crescimento. – Ele sorri, tentando se recuperar.

Não só havia recebido um elogio, se sentia mal por ter pensado que elas estariam ali a mando de Wade Wilson para mata-lo ou tortura-lo.

— Enfim. – Ellie corta a melação dos dois. – Por ser o melhor aluno e também tutor, queríamos saber se sua agenda está livre para tutorar mais algum aluno?

Peter arruma os óculos de leitura no rosto, se sentia pior ainda agora que saiba que elas tinham vindo a si pedir ajuda. Mesmo se não tivesse mais espaço disponível em sua agenda, tentaria abrir um espaço para elas, sentia que elas mereciam.

Com um estalo, sua agenda flutuou de sua mochila para suas mãos. Ele a folheou e com os olhos de um técnico e viciado em controlar seu tempo e produtividade, Peter tentou achar algum horário vago.

— Minha agenda está cheia com as aulas regulares, extracurriculares e tutorias pela parte da tarde, seria incomodo nos encontrarmos pela noite? – O anjo ofereceu. – Sei que é proibido ficar no colégio depois do período da tarde, porém poderíamos tentar conversar com o supervisor nesse caso especial.

As duas garotas se olharam, como se conversassem sobre mil e uma possibilidades antes de tomar uma decisão.

— Seria muito ruim você ir até outro local parar dar a tutoria? – Vanessa perguntou como se não quisesse nada demais.

— Acho que não, mas as aulas teriam que ser menores pelo tempo de viagem. É muito longe? – O inocente anjo questionou, querendo ao máximo ajudar as meninas.

— Eu não diria muito longe. – Vanessa gesticulou teatralmente com as mãos e os ombros. – Não é, Ellie?

— É só na... cof... Mansão dos... cof... Demô...cof...nios. – A garota fingiu tossir, tornando quase impossível que Peter entendesse.

— Perdão, você disse Mansão do que? – Ele quis confirmar se não tinha ouvido errado.

Vanessa suspirou se dando por vencida, não tinha como dar aquela notícia de forma gentil.

— O aluno vive na Mansão dos Demônios.

— O aluno? – Peter sentiu o sangue do seu corpo congelar enquanto as observava por cima dos óculos.

Vanessa fez um biquinho como se não quisesse revelar mais e estragar as chances do amigo, porém Ellie se irritou com a tentativa. Wade teria que falar com o próprio anjo mais tarde mesmo.

— É o Wade. – Ellie revelou. – Ele é o aluno que precisa de tutoria.

Peter precisou de toda a força do mundo para não corar. Seus dentes se apertavam tanto que ele sentia o gosto do cálcio e com a força, lágrimas se formaram em seus olhos. Ele forçou um sorriso gentil e pequeno a se abrir.

— Ah sim. Ok, o Sr. Wilson. – Peter nunca teve tanta dificuldade em controlar suas emoções quanto nesse momento. – Ele pediu para que vocês viessem?

— Não exatamente. – Vanessa avaliou a situação. – Eu normalmente o ajudava, mas vou estar ocupada e juro que não pediria se não fosse urgente, sei como vocês anjos se sentem sobre ir até a Mansão Demoníaca.

Peter queria negar e dizer que não era como a maioria dos anjos, mas nunca havia pisado os pés na Mansão dos Demônios, nem mesmo sabia como iria reagir a isso. O castanho nem mesmo sabia como havia parecido para elas ao reagir ao nome do Wade.

Ninguém poderia saber que ele, o anjo mais condecorado da escola, nutria qualquer tipo de afeição pelo demônio mais cruel, frio e vingativo que podia se pensar, retirando Lúcifer.

Havia se forçado a não parecer muito feliz com a ideia de passar um tempo a sós com o loiro, nem mesmo tentar demonstrar medo, nojo ou raiva, Peter sabia que demônios também tinham sentimentos e quem sabe, se Wade ouvisse sobre essa reação se aquilo não poderia se adicionar a pilha de motivos para mata-lo.

— Não tenho problema em ensinar qualquer pessoa, é meu trabalho como tutor, mas acho que nesse caso Wade deveria falar comigo. – Peter tenta soar o mais profissional possível.

Agora não era hora de pensar sobre suas fantasias com Wade, o loiro precisava de ajuda e Peter sempre ajudaria qualquer um que estivesse a seu alcance, fosse ele quem fosse.

— Ótimo. – Ellie comemorou sem entusiasmo. – Ele deve falar com você amanhã ou no fim do dia. Vamos, Vanessa? Os 5 minutos já passaram.

— Ah, claro! Obrigada, Peterzinho. – A morena sorri. – Não se atrase para a aula.

E com isso, ambas saem do local. Peter sente que finalmente pode respirar, seu rosto fica rosado. Raras eram as vezes que conseguia controlar suas emoções, mas quando se tratava de Wade, ele sabia que precisava ser discreto com a forma que reagia.

Não por medo de que talvez isso fosse mais um motivo para Wade querer mata-lo, mas porque simplesmente era proibido que qualquer conexão entre os dois fosse formada além de uma amizade. E que amigo ficaria corado ao simplesmente ouvir seu nome?

O castanho recostou a testa na lousa respirando fundo.

Aqueles com certeza haviam sido os 5 minutos mais perigosos de sua vida, até agora.