Soul Gems
4 Ressaca
Notas iniciais
— Acontece que eu... – Anna tentava se explicar, as bochechas ardendo de constrangimento.
Todos estavam em silêncio, dando a ela o tempo que precisasse para contar tudo aos amigos (mesmo que Lucca não tivesse a mesma paciência que as outras duas, estava se contendo).
— O Christopher... é... o garoto do acampamento. – falou por fim, esperando exclamações de surpresa que nunca vieram.
— A gente já sabia disso gatinha. – disse Kaitlyn frente a confusão da amiga. – passei a tarde fofocando ao Lucca sobre seu “príncipe encantado” – e ambos riram.
Anna se perguntava como faziam isso sem que ela notasse, afinal passara a tarde com eles também.
— Você está muito tensa por algo que nós já sabíamos a metade, afinal você falou que ele estaria na festa. – comentou Lucca, fazendo com que o humor diminuísse.
— Não é por isso. – quem disse foi a garota ruiva, seu rosto agora estava contorcido em uma expressão de desagrado. – Você mentiu sobre alguma coisa.
Houve um momento de silêncio sufocante que pareceria que duraria uma eternidade.
— Não... Não houve “acampamento”. – murmurou ela, envergonhada sobre a própria mentira.
— COMO ASSIM NÃO? – disseram quase em uníssono.
Afinal de contas, a história do acampamento era aparentemente a mais emocionante que Anna tinha pra contar, sobre como conhecera seu príncipe louro em seus primeiros anos de adolescência e como ele dera seu primeiro beijo e prometera-lhe o próprio coração, mesmo que no futuro levasse anos para que se encontrassem novamente, ou que nunca ocorresse. Como toda história inventada, ela tinha muitos furos, mas por conta de ter se passado mais de cinco anos antes, as amigas ignoravam os fatos conflitantes, afinal, todo o resto da história era demasiadamente romântica e envolvente, e elas, mesmo que rissem internamente da inocência da amiga que tinha os olhos azuis brilhantes quando tocava no assunto, ficavam encantadas com o cometimento de Anna.
— Eu sinto muito por mentir. – disse ela agora entre lágrimas vigorosas, assustando todos os presentes, aquela estava longe da Anna de sempre.
Thália afagou a mão da amiga, e ela sabia que aquilo significava que estava perdoada.
— Agora você pode falar o que está faltando.. – adicionou suavemente, e ao invés de uma resposta apropriada como esperavam, Anna chacoalhou a cabeça negativamente. – Você sabe que pode confiar em nós. – insistia ela, mas a amiga parecia sufocar-se nas próprias lágrimas, com soluços balançando seus ombros violentamente e o rosto de sempre tão suave agora terrivelmente contraído, como se aquele segredo a causasse dor física.
— Não vamos julgar você Anna. – Kaitlyn tentava acalentar o pranto da amiga e fazer com que finalmente livrasse-se do enorme peso que parecia carregar.
As lágrimas pareciam incrivelmente dobrar seu volume e agora seu choro assemelhava-se ao de uma criança esquecida pelos pais, com muitos soluços e fungadas; Lucca não resistiu e a abraçou enquanto acariciava o macio cabelo louro, sussurrando palavras de calmaria para que aquela crise cessasse.
Todos chegaram à conclusão de que a história ficaria inacabada por um tempo.
[...]
Um pouco mais tarde naquele mesmo dia, Thália era quem derramava lágrimas dessa vez, com a cabeça ainda dolorida graças a ressaca da terrível (agora ela tinha noção das barbaridades que cometera) festa na noite anterior. Recebera uma ligação de sua amada mãe direto da França, as finanças da família iam de mal a pior, e se continuasse nesse ritmo de regressão, logo declarariam falência.
A mais recente decisão a tomara de súbito e provocara nela tanto tristeza quanto medo; já que morava com a amiga, as contas eram poucas e eram bancadas com a mesada da família, sem contar a universidade, que era tão cara que apenas por transferi-la novamente para França, a família poderia conseguir uma chance de salvar o negócio de pastry que era uma herança há gerações.
Ela não sabia o que fazer, queria poder chorar até que toda aquela pressão no seu peito e em sua cabeça desaparecessem, mas chorar não resolvia problema nenhum, ela aprendera isso tempo o suficiente para já ter tomado uma decisão.
Não iria embora da América, estava realizando seu sonho e permaneceria ali já que conquistara aquilo com seu esforço e dedicação... A qualquer custo (que ela esperava que fosse qualquer um mesmo, menos dinheiro).
Quem encontrou a menina encolhida e agarrada ao telefone foi Lucca, que ainda não tinha ido para sua própria casa, incerto se aquelas meninas ficariam mesmo “bem” sozinhas.
— E agora é você, — disse ele sentando-se próximo a menina ruiva de olhos inchados. – o que acontece queridinha?
Thália esfregou ambas as mãos nos olhos em uma tentativa inútil de se livrar de suas lágrimas impertinentes, e suspirou profundamente duas vezes antes de deixar que as palavras finalmente saíssem em voz alta:
— Minha mãe me ligou, querem me levar de volta pra França. – os olhos castanhos pareciam-se com pratos de chocolate derretido, e faziam com que Lucca sentisse uma profundidade e ao mesmo uma ternura que não era possível naquele momento cheio de choro e ranho.
— Mas por que isso agora gente?! – exclamou o loiro irritado, e a revolta dele já a deixava tão mais confortável que lhe parecia anormal.
— Eles estão falindo graças à péssima administração do meu tio é claro, e minha mãe acha que agora não é um momento em que eu deveria estar a gastar o pouco que nos sobra com coisas desnecessárias como estudos na América se posso apenas me formar na frança e continuar com o negócio da família.
— A sua mãe é bem burra, eu sempre digo isso. – disse ele casualmente, como se ofender a mãe de alguém fosse uma coisa que fazia com uma enorme freqüência.
— Eu preciso arrumar uma maneira de me manter aqui e parar de depender dela. – e recomeçou a chorar, pensara na solução, no entanto, não sabia como a realizaria.
— Se acalma meu amor, — Lucca agora procurava por algo em seu brilhante (realmente muito brilhante, cintilante, radiante e muitos outros adjetivos que se relacionem ao gliter) iphone 6s. – Eu tenho a solução para você pagar a faculdade, se chama meu tio Lorenzo.
— Como assim seu ‘tio Lorenzo’? – perguntou a menina agora receosa.
— Ele pode emprestar o dinheiro para pagar um bom tempo dos seus estudos, no entanto acho que você vai precisar arrumar um emprego para devolver o dinheiro a tempo. – e enquanto falava realizava a ligação que poderia mudar o destino da menina ruiva à sua frente.
Num estalo, Thália murmurou a ultima frase dita pelo menino antes que começasse a falar italiano entusiasmadamente.
— Devolver o dinheiro a tempo...?
[...]
O final de semana parecia arrastar-se, justamente porque a menina esperava ansiosamente para que fosse brevemente um dia útil e pudesse finalmente resolver os assuntos que a perturbavam. No final das contas, conseguira o empréstimo com Tio Lorenzo, o suficiente para que não precisasse pensar em ter pendências com a universidade por um belo período de tempo, mesmo que os juros fossem injustos (não que ela ousaria questioná-lo, era muito grata e tinha muito medo ao mesmo tempo); Mas, haviam muitas condições: O dinheiro precisava realmente ser aplicado na faculdade, usar estudos como desculpa poderia ter severas conseqüências; Ela tinha um prazo delicado para acertar as parcelas desse seu “financiamento” e tio Lorenzo queria por fim ver que tinha investido bem.
Supostamente, todas as condições ela conseguiria cumprir... Mas a parte do dinheiro a preocupava. Precisava de um emprego.
[...]
Na segunda feira, conseguiu através de Lucca, mais uma vez (isso a fazia lembrar porque o chamava de Lucky), uma entrevista em uma cafeteria próxima a faculdade, era um lugar muito popular entre os estudantes e com uma ótima fama. Eles precisavam de uma faz-tudo, alguém que tivesse uma boa agenda para fazer rodízios de horário e que pudesse se adaptar a diversas áreas em pouco tempo.
Ela estava completamente pronta para encarar o desafio.
Afinal agora ela devia a máfia.
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