Soul Gems
3 Reconhecimento
Notas iniciais
Era como se a batida da balada continuasse dentro de sua cabeça, uma festa que não termina nunca, com o estridente som de pessoas e provavelmente alguns animais, não podia duvidar de universitários bêbados. Embora soubesse que a festa tinha acabado há algumas horas, Thália ainda estava em transição do pós festa para a “Ressaca” (e sim, são momentos bem diferentes.)
— Você precisa tomar isso. – Ela se lembrava dele vagamente, parecia uma daquelas pessoas por quem você passa várias vezes e acha que conhece, no entanto não troca sequer uma palavra.
Pegou o copo com as duas mãos, no interior podia ver um liquido rosado, não tinha razão para não beber, na verdade, aquela era a bebida menos suspeita que tomava nas ultimas oito horas.
— Parece que você não está muito habituada ao ritmo deles.
Conseguia ver algo no fundo daqueles olhos tão escuros, parecia conter gentileza pura, mas a fachada séria do rapaz não deixava que aquilo transparecesse, a não ser por suas ações amáveis, afinal, quem largava da festa para cuidar de uma bêbada que nem conhece?
— Obrigada. – ela murmurou com dificuldade, e ele deu um meio sorriso, mas de alguma forma, aquele sorriso parecia valer por um daqueles em que as pessoas mostram os dentes e os olhos imitam os lábios expondo a alegria do momento. De repente ela sentiu como se ele não precisasse falar para que pudesse escutá-lo, como se houvesse um nível de entendimento sobrehumano entre os dois. Mas aquilo podia ser só o efeito do álcool. Depois de beber todo o líquido doce do copo, massageou as têmporas enquanto alguns pensamentos desconexos começavam a dar lugar a dúvidas coerentes. Porém, antes que proferisse a primeira, as amigas, a loira e a morena, que, aliás, não se lembrava de ver desde que chegara a enorme mansão adentraram o lugar onde estava (que ela julgava ser a cozinha, mas não tinha certeza).
— Você está se sentindo melhor? – Anna foi a primeira a falar, o rosto delicado contorcido em preocupação como sempre.
— Eu estou, não se preocupe – que era a mesma coisa de dizer a um esquilo para não comer as nozes.
As amigas falavam em voz baixa alguma coisa com o rapaz que cuidara dela enquanto Anna procurava por Kaitlyn, muito provavelmente em como levá-la pra casa.
— Eu entendo. – foi tudo o que ela escutou ele dizer antes de sair da cozinha.
O jato de vômito a seguir a pegou de surpresa assim como as amigas que saltaram ao ver ela preencher a lata de lixo mais próxima.
— Ela não está melhor coisa nenhuma. – disse Anna correndo para segurar o cabelo da amiga enquanto ela vomitava e se recuperava de mais um enjôo.
— Eu sempre esqueço que seu limite pra álcool é menor até que o da Anna. – resmungou Kaitlyn trazendo um copo de água para a amiga.
Os eventos se passavam como se Thália estivesse em um barco em alto mar, como se tudo estivesse levemente tremulando enquanto as pessoas em volta não se importam e ela não conseguisse fazer mais nada a não ser esvaziar seu estômago de novo e de novo.
— Você consegue andar? – e ela se virou para ver de quem era a voz dessa vez, grave e controlada, quem falava era um rapaz loiro com olhos tão azuis que parecia realmente aquele oceano em que ela estava navegando. Vomitou na lata de lixo mais uma vez, incapaz de responder a questão.
Parecia que o podia sentir franzir as sobrancelhas mesmo estando com o rosto enfiado naquela lata asquerosa.
Enquanto as pessoas discutiam coisas muito provavelmente ao seu respeito, Thália continuava a vomitar, e não acreditava em como ainda conseguia, seu estômago doía muito, a garganta ardia e o pouco equilíbrio que lhe restava parecia prestes a lhe abandonar, antes que tropeçasse nos próprios pés, sentiu mãos firmes segurarem sua cintura a mantendo de pé.
— Acho melhor você voltar para aquela cadeira. – disse Frederick totalmente além do limite de proximidade dela, apesar de naquele momento não saber dizer exatamente onde este ficava.
Depois de um momento sem mais vômitos, Christopher (aprendeu que aquele era o nome do rapaz loiro) a levou junto de suas amigas até sua amável casa, onde dormiu sem lembrar-se de como tomara banho.
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Quando a ruiva finalmente despertou, o corpo estava dolorido, as memórias estavam confusas e a casa estava silenciosa. Decidiu procurar pelas amigas nos lugares mais prováveis e não demorou para encontrar um bilhete cor de rosa com a fina caligrafia de Anna, explicando que ambas tinham saído para fazer compras.
Não tinha nada para fazer, e mesmo que tivesse, não conseguiria naquele estado de ressaca; Sentou-se no espaçoso sofá da sala e ligou a exagerada televisão em um canal qualquer, sem prestar realmente atenção ao que passava na tela, logo adormeceu mais uma vez.
Dessa vez acordava no susto, suas amigas vinham com Lucca que como sempre fazia um escândalo:
— Aquela vagabunda estava claramente me provocando!
— Lucca, você interpretou mal, a pobre moça fez um comentário infeliz – Anna tentava acalmar a histeria descontrolada do rapaz sem sucesso.
— Olha, você é uma puta hipócrita, depois que você explicar aquilo de “escova de dentes”, daí você tenta justificar os atos de outra puta hipócrita okay? – gritava indignado enquanto Kaitlyn era a única a notar que Thália havia finalmente recobrado os sentidos.
— O que é isso de “escova de dentes” ?– questionou, fazendo com que Anna corasse e sentasse cabisbaixa no sofá ao seu lado.
— Você se sente melhor? – a amiga desviava o assunto.
Era sempre assim, Anna quase nunca contava uma mentira, na verdade, ela e Kaitlyn sabiam que só tinham na pego mentindo uma única vez desde que se lembravam durante o período de convivência, e era sobre quem tinha comido a barra de chocolate que estava no armário; e daquela vez, desviava do assunto e tentava não demonstrar seu constrangimento firmemente, embora não funcionasse tão bem quanto tentava.
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Enquanto Anna tentava ajudar a amiga que vomitava sobre o pobre garoto desafortunado, Christopher notou o tumultuo e se apressou para chegar ao lugar onde estavam na esperança de que não fosse Diego surrando ninguém; para seu alívio, apesar da situação não ser boa, não era a pior também.
— MAS QUE CARALHO FOI ISSO!? – berrava Markus revoltado com os sapatos e calça coberto de vomito.
— O que está acontecendo aqui?! – perguntou desesperado ao ver a confusão.
Uma garota loira segurava a ruiva que agora ria descontroladamente, as coisas estavam muito fora de controle.
— Sinto muito, ela bebeu demais, eu realmente sinto muito, eu vo...- dizia ela enquanto ajudava a amiga a sentar, no entanto, quando se virou para encará-los, era como se visse um fantasma.
— ANNA?! – agora ele estava mais desesperado ainda, de todas as pessoas no mundo, ela era a ultima que ele esperava encontrar naquele momento e naquela situação.
— Vo-você... n-não... e-e-eu não... – gaguejava ela entre um riso nervoso.
— Anna? Sou eu, Christopher. – deu um passo em sua direção fazendo com que a garota retrocedesse dois e agarrasse a amiga ruiva pelo braço.
—Não – e ria, como se fosse muito engraçado – Você está se confundindo, eu sequer me chamo Anna. – e de repente ela parecia mais séria.
Mas mesmo que ela negasse, Christopher nunca confundiria sua melhor amiga de infância; não conseguia entender também porquê negava, talvez estivesse bêbada também. Não queria gerar mais problema, então resolveu concordar com ela para lidar com a situação adjacente:
— Sinto muito... você me lembrou de alguém, eu só...
— CARALHO EU VOU MATAR ESSA RETARDADA!
Antes que Markus desse mais um passo, Christopher parou-o e conseguiu arrastá-lo para longe dali. Depois de trocar a calça e livrar-se de todo o vomito que o cobria, o moreno não parava de resmungar e algumas vezes esmurrar objetos devido a sua fúria, porém seu amigo estava pensativo, muito mais que o normal e a curiosidade do outro se sobressaiu, não pode deixar de perguntar depois de passar duas vezes pelo loiro e as orbes azuis não moverem-se, fixas em um ponto infinito enquanto as sobrancelhas pareciam sussurrar segredos uma à outra.
— E agora qual o motivo pra você de todas as pessoas parecer drogado?
— Eu não me pareço com um drogado, estou preocupado. – respondeu simplesmente.
— Você vive preocupado, alguma coisa te intriga, o que é caro amigo que não foi vomitado?
— Eu vi a Anna.
Markus calou-se, não precisava perguntar “que Anna?” porque somente uma Anna deixaria o amigo tão chocado.
— Você tem tipo, certeza? – perguntou ele, finalmente esquecendo sua própria desgraça.
— Tenho, eu nunca ficaria incerto sobre a Anna, mas... – e deu um longo suspiro, ele detestava ter de se contradizer. – agora eu não sei mais.
— Porra Christopher, ou você sabe que era a Anna ou não sabe!
Recebeu um longo olhar, e sabia que aquele era um dos piores possíveis.
— Eu sei. Era a Anna, no entanto ela negou a própria identidade.
E ficaram em silêncio. Markus não sabia o que dizer, aquilo não condizia com a Anna que se lembrava. O corredor em que estavam ficavam na parte da casa que Christopher proibia que a festa alcançasse, ele já oferecia muito espaço, existiam limites.
— Eu não sei de mais nada, depois que aquela porra de menina apareceu...- e bagunçou os cabelos negros, velho habito de nervosismo.
— Você gosta dela. – afirmou o amigo com um sorriso debochado, não muito usual para o rosto do doce médico aspirante, mas como naquele momento muitas coisas não faziam muito sentido.
— Vai se foder. – Markus falou enquanto partia, revoltado demais para discutir a acusação.
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Quando encontrou Anna novamente, e ele tinha certeza absoluta que era ela, estava desesperada, pois a amiga passava mal, ele logo disse que ajudaria, não só porque ela era a Anna, mas porque ele sempre era o bom rapaz que ajuda quando alguém precisa, pediu apenas para que esperasse para que fosse buscar a chave do carro, afinal ele era a única pessoa que não bebia naquela festa; Não que fosse contra o álcool, é que sempre que os amigos usavam sua casa para organizar qualquer que fosse o evento, preferia manter se sóbrio, a experiência lhe ensinara coisas.
Mas era inevitável não demonstrar sua dúvida, não conseguia parar de tentar entender o motivo da mentira, aquilo sim não condizia com Anna, ela era sempre tão pura e ridiculamente sincera, não conseguia entender porque tanto nervosismo com o reconhecimento; tinha que considerar que não era um momento favorável, com tudo o que estava acontecendo, ela estava constrangida, óbvio, como poderia ser reconhecida como aquela garota integra numa situação maluca daquelas. Notou como ela não parecia ter mudado a sua maneira de se desesperar mais pelas outras pessoas que por si própria. Só conseguia chegar a conclusão que ela era muito parecida com a Anna para não ser a “Anna”.
Durante todo o tempo em que passou perto da “ex” melhor amiga (embora não soubesse se deveria nomeá-la assim a partir de agora) ela esteve tão concentrada em ajudar a colega ruiva que parecia ter esquecido que tinha sido reconhecida ou confundida como tentou fazê-lo acreditar naquele momento.
No carro, a viagem foi silenciosa, as garotas dormiam, e ele teve realmente pena de ter de acordá-las quando finalmente chegou até a casa onde diziam morar.
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— Obrigado. – agradeceu Anna na varanda da casa, ele a tinha auxiliado e colocar as amigas em segurança, cada uma em seus respectivos quartos; finalmente em paz. Christopher esperava que ela tentasse se explicar. – não sei nem como te agradecer, de verdade, você fez tanto por nós apesar de nem te conhecermos, estou com bastante vergonha, por mim e por elas.
Ele estava muito confuso, ela parecia bastante resoluta, queria questioná-la, mas a cada momento ficava mais difícil.
— Anna! – gritou um garoto loiro correndo pela calçada até alcançá-los.
Naquele momento, ele chegou a pensar que talvez ela fosse entrar e bater a porta na cara dele, tamanho o medo da garota a sua frente.
— Pensei que você sequer se chamasse Anna. — Ela não conseguia responder, estava em estado de choque talvez.
— Meu Deus o que aconteceu!? – gritava o menino agora a sacudindo pelos ombros, mas ela não conseguia desviar seus olhos azuis dos de Christopher, estava perdida e parecia tentar se encontrar ali.
— Eu sinto muito. – ela murmurou, e se ele não soubesse exatamente porque, pensaria que estava falando sozinha. Lucca os encarou notando o clima pesado.
— Sei disso, você sempre sente muito. – Ele só queria entender, a dúbia o deixava irritado.
— Eu posso explicar, mas não hoje. – e ele estava pronto para perguntar a razão, mas ela sabia que ele a perguntaria, então resolveu responder antes que o fizesse. – é uma longa história, eu preciso cuidar das meninas e – nenhum dos dois rapazes lembravam-se de vê-la tão vermelha antes. – lembre-se da história da escova de dentes, não julgue precipitadamente, você vai entender no tempo certo.
E depois ele estava sozinho encarando a porta.
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— Você não explicou a coisa da escova de dente. – disse Kaitlyn dessa vez, juntando-se ao grupo que requeria esclarecimento.
Ana soltou a mesma risada nervosa da noite anterior, quando Christopher a reconheceu.
— Parece que fiquei sem saída, não é?
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