Sou melhor com você
1 Capítulo 1º
O som persistente da campainha eventualmente penetrou na mente sonolenta de Joan Watson. Tonta, conseguiu abrir os olhos e fixá-los no relógio digital ao lado da cama.
Menos de seis da manhã! De uma manhã de sábado! Uma manhã na qual, em vez de trabalhar, as pessoas costumavam dormir.
Quem quer que estivesse em sua porta certamente decidira fazer carreira apertando campainhas, porque mantinha o dedo sobre o botão como se o fato de ninguém responder não fosse suficiente para diminuir seu entusiasmo.
Joan não sabia se poderia responder, mesmo que quisesse saber que tipo de idiota podia ser tão grosseiro. Seu corpo recusava-se a obedecer as ordens enviadas pelo cérebro.
O visitante inoportuno não parecia sentir o menor remorso por perturbar alguém em tão lastimável estado físico, pois a campainha ecoava pela casa, com persistência irritante.
– Já vou. – resmungou, sentando-se e apoiando o corpo nos braços trêmulos.
Passara quase a noite inteira no banheiro, exibindo os horríveis sintomas de algum tipo de vírus estomacal, e só conseguira deitar-se depois das quatro, quando o organismo descobrira que não havia mais nada para expulsar. Os músculos sobre suas costelas doíam, e sentia-se fraca e esgotada.
E a campainha continuava soando. Nitidamente embriagada de sono, procurou o robe nos pés da cama. Quem quer que fosse ouviria poucas e boas. Pelo menos era o que pretendia, se tivesse forças para isso. A mente parecia ter saído de férias, sem dúvida movida pela certeza de que o corpo passaria muitas horas na horizontal.
Uma dedução sensata, considerando a noite horrorosa que tivera. Pena que o imbecil na porta não compreendesse que uma campainha que não obtinha resposta devia ser tratada com um pouco mais de respeito e ignorada depois de certo intervalo de tempo.
Pensamentos sombrios e assassinos a acompanharam pela escada, através do corredor e até a porta. Quando conseguiu abri-la, sem remover a corrente de segurança, já havia pensado em uma dúzia de métodos de tortura, todos voltados para o indivíduo que tivera a infeliz ideia de tocar sua campainha a essa hora da manhã.
– Será que não tem nada melhor para fazer a essa hora? – a voz desapareceu quando encarou o visitante madrugador, os olhos arregalados e a boca aberta numa expressão incrédula.
O sujeito apoiado no batente mantinha o dedo sobre o botão da campainha e parecia tão elegante quanto um sem teto, com exceção do equipamento de vídeo e imagem de última geração pendurado no pescoço e a mochila de marca colocada displicentemente em um dos ombros, os quais contrastavam com a imagem miserável.
O cabelo castanho e rebelde precisava de um corte e as mandíbulas fortes estavam cobertas por uma barba de dois ou três dias. Os olhos cor de azuis pareciam cansados e estavam congestionados.
Joan fechou os olhos e respirou fundo, esperando estar sofrendo uma alucinação ou enfrentando um daqueles terríveis pesadelos que, às vezes, sucedem uma virose.
Infelizmente, o homem continuava lá quando abriu os olhos. Pelo menos tivera a decência de remover o dedo da campainha antes de enlouquecê-la.
– O que está fazendo aqui? – ela questionou, constatando que nunca mais conseguiria ficar zangada com ele. – Você não tinha voltado para Londres?
Odiava-se por ter notado que, apesar de magnífico, o sorriso parecia cansado. O problema não era seu, era? New York estava repleta de hotéis e pousadas, ele não precisava ter vindo até sua casa para.
– Isso é jeito de cumprimentar seu parceiro?
– Não me lembro de ter sido sua parceira, Sherlock e, se um dia aceitei isso, tive motivos de sobra para rever essa opinião nos últimos três anos.
Os dois sabiam que ela não falava a sério, pois sempre puderam contar um com o outro ao longo desses anos, mas ele foi gentil o bastante para deixar o comentário atravessado sem resposta. Afinal, já a conhecia o suficiente para saber que considerava o próprio sono sagrado e, no entanto, viera bater em sua porta às seis da manhã de um sábado, um severo teste até para a mais sólida das amizades.
Holmes levou os braços acima da cabeça e espreguiçou-se.
– Sei que ainda é muito cedo. Não pretendia chegar a essa hora, acredite. Tenho a sensação de que passei dias dentro daquele avião para chegar aqui. Precisamos conversar, Joan. Não vai me convidar para entrar?
– Tenho outra escolha? – ela perguntou mal-humorada, empurrando a porta para soltar a corrente de segurança e abri-la completamente. – Entre, mas não espere que eu fale com você tão cedo. Voltarei para a cama, onde pretendo passar as próximas horas e, mais tarde, conversaremos. Sinta-se em casa.
A batida da porta do quarto ecoou por toda a sala. E ele ficou plantado lá por alguns minutos. Balançou a cabeça. Algumas coisas não mudavam nunca. Sherlock tirou a mochila das costas e jogou-a no chão, aliviado por ter conseguido chegar, apesar de exausto.
E Watson falara com ele, o que era um bom sinal. Sabia que ela não se mostraria eufórica por recebê-lo às seis da manhã. Conhecia a amiga há muitos anos e sabia como era mal-humorada nas primeiras horas da manhã. O presidente do país ou o seu cantor de rock favorito teriam sido recebidos com o mesmo tipo de tratamento, em iguais circunstâncias, e, por isso, não se importava.
Eventualmente ela desceria e, então, discutiria com ela as revelações que tivera no último mês. Sobre ela. Sobre ele. Sobre os dois.
Nunca se sentira tão nervoso em relação a qualquer outro assunto em toda sua vida, como agora quando se preparava para dizer coisas tão importantes. Qual seria a reação dela?
Parado no meio da sala, tomou consciência do silêncio que o cercava. Podia ouvir o refrigerador na cozinha, o relógio de parede na sala de estar e a própria respiração.
E agora, o que faria? Um banho quente parecia ser uma boa ideia. Sim, um banho e uma xícara de café fresco. Estava farto de café requentado e pão duro.
Holmes dirigiu-se à cozinha e procurou nos armários até encontrar o que queria. Depois, dedicou-se à conhecida rotina de preparar o café. Enquanto esperava que a água fervesse levou a mochila para a sala íntima, cuja parede do fundo, quase inteiramente de vidro, dava para o quintal cercado por um muro muito alto. Esvaziando a mochila no chão, vasculhou o conteúdo em busca das roupas menos sujas e depois se dirigiu ao banheiro social, entre a sala e a cozinha. Enquanto esfregava o rosto e os ombros com um sabonete, cuja fragrância feminina lhe era bem conhecida, ele tentou esvaziar a mente de tudo que não fosse relacionado ao momento presente. Recusava-se a ensaiar o que queria dizer, porque esse tipo de coisa nunca dava certo com ele.
Depois de enxaguar toda a espuma, permaneceu sob o jato de água quente na esperança de oferecer algum conforto ao corpo castigado. Desligou o chuveiro e, usando uma lâmina descartável, barbeou-se.
Quando terminou de se vestir e jogou a primeira porção de roupas sujas na máquina de lavar instalada na área de serviço, Sherlock estava mais que pronto para tomar o café. Serviu-se de uma xícara e voltou à sala íntima, onde se acomodou no sofá com os pés sobre a mesa de centro.
Havia sido um tolo em sua última visita. Voara de Londres para New York, com a intenção de rever alguns amigos, com quem não se encontrava desde que seu pai o obrigara voltar para Inglaterra. Reservou um quarto num daqueles hotéis perto do aeroporto e depois telefonara para ela. E fora então que descobrira o que ela havia sido obrigada a suportar desde a última vez em que se viram.
Joan perdera a mãe há alguns meses para um câncer que parecia querer devorá-la viva. Quando descobriram a doença, já não havia mais nada que pudesse ser feito. Ela tinha se afastado do trabalho para cuidar da mãe doente. Fez tudo sozinha, já que seu irmão estava morando na Noruega.
Naquela mesma noite ele levou-a para jantar e haviam conversado como jamais fizeram antes. Tivera oportunidade de conhecer um lado de sua personalidade que nunca sonhara existir, já que sempre a considerara uma garota forte e independente, diferente da mulher desamparada e vulnerável que vira naquela ocasião.
Vê-la tão sozinha e insegura o abalara profundamente, mas decidira mesmo assim voltar para Londres. Esse havia sido o primeiro engano. Não devia tê-la deixado naquele momento, mas insistira e, uma vez longe dela, não conseguira tirá-la da cabeça.
Tudo o que sabia era que, depois de sua última visita, há um mês, nada mais voltara a ser como antes em relação a Watson. O que fazer com essa certeza era mais um de suas dúvidas e indagações. Então, quando seus sentimentos por ela haviam mudado? Não saberia dizer. E talvez jamais descobrisse. E que importância tinha isso agora? E só ela poderia oferecer uma resposta.
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