O aroma sedutor de bacon frito e café fresco a acordaram pela segunda vez naquela manhã. Sem abrir os olhos, Joan respirou fundo e sorriu.

Mamãe estava de pé, pensou sonolenta, e a surpreenderia com ... Abrindo os olhos de repente, sentou-se na cama e balançou a cabeça para clarear as ideias. A mãe morrera três meses antes e, mesmo antes disso, estivera doente demais para sair da cama. Então, quem...?

As lembranças das primeiras horas do dia invadiram sua mente e ela gemeu, deixando-se cair no travesseiro. O que Sherlock Holmes estava fazendo em sua vida novamente? Que força do destino o arrastara de volta a New York, justamente agora quando partira para sempre? E como conseguiria lidar com os sentimentos que ele lhe provocava, se não podia nem ao menos ter certeza de que não tropeçaria com ele na próxima esquina?

Um som na direção da porta chamou sua atenção. Pensara no diabo e lá estava ele. Holmes empurrou a porta e olhou pela fresta, retribuindo o olhar contrariado com mais um de seus sorrisos devastadores antes de entrar no quarto.

– Seu café, Srta. Waston. Espero que esteja a seu gosto.

– Que horas são? – ela perguntou, erguendo-se na cama e estendendo a mão para a xícara sem encará-lo.

As manhãs eram sempre o pior período do dia, mas depois da noite que tivera as primeiras horas haviam se transformado numa verdadeira provação.

Joan vestia uma camiseta velha e uma calcinha-short. Nada sensual ou provocante. Mas ele não achava isso. Imediatamente reparou nas pernas dela quando o lençol escorregou.

– Pouco mais de onze. – respondeu, procurando desviar os olhos daquele corpo sedutor. – Lamento tê-la tirado da cama essa manhã. Devia ter chegado ontem à noite, mas enfrentei todos os tipos de problemas e atrasos no voo. Suponho que seria melhor ter ido para um hotel...

– Não precisa se desculpar, Sherlock. Você apenas me pegou num mau momento. – ela puxou o lençol novamente para cobrir as pernas. – Passei a maior parte da noite lutando contra um maldito vírus estomacal e, só havia dormido algumas horas quando você tocou a campainha. Desculpe pela terrível recepção, ok?

– Está doente? – ele perguntou preocupado, como se o resto do que acabara de ouvir não tivesse nenhuma importância. – Sabia que essa palidez tinha alguma razão. Chamou um médico?

– No meio da madrugada? É claro que não! Além do mais, nem tenho um médico para chamar. Normalmente sou forte e saudável como um cavalo.

Holmes observou-a por alguns instantes com evidente insegurança. Não queria perturbá-la comentando sobre sua palidez, o ar cansado e os quilos que certamente perdera. Watson sofrera muito com a morte da mãe, sabia disso, mas já deveria ter começado a recuperar-se a essa altura, não?

– Certo cavalinho asiático, mas se perceber que os sintomas persistem peça ajuda a algum amigo ou vizinho. Isso é perigoso, sabe? Pode acabar anêmica ou algo parecido...

– Bobagem! Devo ter comido alguma coisa que me fez mal. Fui ao cinema depois do trabalho com alguns amigos e decidimos jantar num desses restaurantes italianos. Acho que a comida pesada e gordurosa àquela hora da noite não caiu muito bem. Mas agora me sinto bem melhor. – concluiu.

– Joan?

Estranhando o tom sério e a súbita interrupção, ela parou para encará-lo. “Oh, céus, o que podia estar errado?”

– O que aconteceu? – ela preocupou-se. Conhecia-o há anos para saber que alguma coisa não estava bem com ele.

Sherlock sentou-se na beirada da cama e olhou para a xícara de café que tinha nas mãos.

– É possível que... – parou, limpando a garganta antes de erguer os olhos para fitá-la. – Estava apenas imaginando se está realmente bem. Quero dizer, quanto ao restante...

– Do que está falando?

– Francamente, Joan. Não pode fingir que não houve nada entre nós na última vez em que estive aqui.

Ela engasgou-se com um pedaço de bacon. Dentre todos os assuntos que imaginara discutir com ele nesse momento, os dois dias que passaram juntos há um mês eram sua última opção. Nunca falara sobre isso com ninguém e nem pretendia. Acontecera. O que poderia haver para ser dito? Tossiu, enquanto ele batia de leve em suas costas.

– Ah... isso. – resmungou, certa de que o rosto brilhava como um luminoso de neon. Sem saber o que fazer ou dizer, bebeu mais um gole de café.

– Você não vai fugir de mim dessa vez, Watson. Não vai mesmo! Dessa vez vamos conversar. – ele a viu ruborizar e isso lhe causou um misto de prazer e espanto. Era a terceira ou quarta vez que a deixava vermelha na vida. – Está tudo bem nesse sentido? –Notando que ela demorava a responder, sentiu um estranho pressentimento, como se algo se contorcesse em seu estômago. Ela ficou mais ruborizada ainda. Sherlock jamais sonhara viver para testemunhar isso. – E então? – insistiu impaciente.

– Ainda é cedo demais. – foi a resposta apressada.

Constrangida, olhava em volta como se qualquer coisa fosse melhor que encará-lo.

– Não sei por que está tão embaraçada. Achou que eu não pensaria nisso, que não me preocuparia? É inútil fingir, Joan. – ele a encarou. – Um mês se passou e a essa altura já deve saber se...

– Nunca fui muito regular, e com a morte de minha mãe não sobrou muito tempo para prestar atenção em certas coisas – ela respondeu apressada. – Acontece quando tem que acontecer, só isso.

– E aconteceu nesse último mês?

Watson balançou a cabeça sem encará-lo.

– Não fez nenhum tipo de teste para verificar?

– Sherlock, por favor! Isso não tem importância. Se estiver, estou e pronto. O problema é meu, está bem?

Agora voltava a falar com a Watson que conhecia, a inatingível, a durona que não se deixava abalar por nada. Mas dessa vez seus olhos a traíram, como se só agora se desse conta da possibilidade. Era como se, até ouvi-lo abordar o assunto, jamais houvesse considerado uma provável gravidez. E o medo que se estampou em seu rosto era impressionante.

Sherlock aproximou-se e retirou a xícara das mãos dela, deixando-a sobre o criado-mudo antes de segurá-las entre as suas. Estavam geladas, especialmente para alguém que passara os últimos instantes segurando uma xícara quente.

– Joan, escute-me. Precisamos ter certeza, entende? Talvez tenha sido a comida gordurosa, talvez tenha sido o horário em que se alimentou, mas também pode ser seu corpo tentando dizer alguma coisa.

Os olhos grandes e castanhos pareciam ainda maiores no rosto pálido.

– Tenho uma ideia – ele prosseguiu. – Vou preparar uma omelete para o café da manhã e, depois, se estive melhor, iremos à farmácia e compraremos um desses testes que...

– Não. Não quero ir à farmácia alguma.

– Então me dê as chaves do carro e eu mesmo irei comprar o teste. – Há muito tempo Holmes aprendera a lidar com a teimosia de Joan. – Não me importo. O importante é que possamos ter certeza de que...

– Está falando sério? – ela o interrompeu com um fio de voz.

– Logo depois que parti, comecei a pensar nisso e compreendi que, se houvesse acontecido algo, não saberia onde me encontrar. Naquela noite eu não deveria ter permitido que as coisas fossem tão longe sem usar algum tipo de proteção. – Joan nem piscava, escutando ele falar. – Nós dois sabemos que não planejamos nada, mas aconteceu e não pude esquecer. Descobri que pensava em você o tempo todo e não consegui me concentrar em mais nada do que fazia. Por isso decidi voltar.

As mãos dela pareciam um pouco mais quentes, e ele interpretou a mudança como um sinal positivo.

– Não acha que um telefonema teria sido suficiente? – Holmes perguntou.

– Não. Senti sua falta e quis vê-la novamente.

– Hum. E provavelmente não teria acreditado no que quer que eu dissesse se não pudesse ver com seus olhos.

– Você acreditaria?

Ela baixou a cabeça.

– Suponhamos... Apenas suponhamos que eu esteja grávida. Que diferença isso pode fazer pra você?

Sherlock abraçou-a, apesar da tensão evidente no corpo debilitado pela noite de indisposição.

– Se estiver grávida, então terei que ficar por aqui.

– Não. Minha mãe cuidou dela mesma muito bem, sem jamais precisar de qualquer tipo de ajuda de meu pai. Se estiver grávida, saberei cuidar de tudo sozinha.

Talvez nem houvesse percebido, mas Watson tremia como uma criança assustada. A situação era muito mais difícil do que Sherlock pensara a princípio. Esperava que ela não estivesse grávida. Não agora. Ainda não. Queria ter a chance de revelar seus sentimentos primeiro e descobrir o que ela sentia, se havia alguma chance de construírem um futuro juntos. Eventualmente gostaria de ter muitos filhos com ela, mas depois de terem tido tempo.

– Não sou seu pai, Joan. – ele finalmente respondeu. – Não vou virar um sem-teto, e nem deixa-la desamparada. Pretendo estar por perto para ajudá-la em tudo que for possível. Não conseguirá livrar-se de mim mesmo que tente, sabia?

Ela o empurrou e o fitou nos olhos.

– Não estou grávida. – disse.

– Tem certeza disso?

– Acabei de dizer que não sou regular e...

– Então faremos um teste para descobrir, certo?

Nós faremos um teste?

– É só uma maneira de dizer. Irei comprar o teste e você o fará.

Joan emitiu um suspiro exagerado que não o enganou.

– Oh, está bem, Sherlock Holmes! Farei o tal teste só para você deixar de me importunar. Afinal sei o quanto pode ser impertinente e desagradável quando decide insistir num determinado assunto.

– Tive uma excelente professora. – ele riu, marotamente, enquanto se levantava, sentindo que havia vencido uma batalha crucial, embora tivesse consciência de que a guerra estava muito longe do fim. – Vou fazer aquela omelete. Estarei esperando lá embaixo.

Era um bom momento para retirar-se e deixá-la sozinha e à vontade para lidar com as recentes alterações no antigo relacionamento e com as novas probabilidades.

Watson viu Holmes sair do quarto e esperou estar sonhando.

E agora, o que faria?

Não havia considerado a possibilidade de estar grávida. Como pudera ser tão ingênua? Havia tentado bloquear as lembranças da última visita de Sherlock, pois muitas coisas aconteceram e não se sentira pronta para lidar com o assunto.

Havia ignorado tudo o que aprendera sobre homens por ser ele, Sherlock, era seu melhor amigo a quem confiaria a própria vida. Ainda sentia vergonha ao lembrar como tinha se atirado nos braços dele e praticamente suplicara para que a amasse.

Não. Definitivamente, não estava preparada para isso.

A única coisa que podia fazer era rezar para que o resultado do teste fosse negativo, pois então poderiam esquecer tudo isso e seguir em frente. Holmes voltaria a cuidar da própria vida e a deixaria em paz para fazer o mesmo. Então se esforçaria para esquecer aquela única noite quando Sherlock Holmes a fizera entrar em contato com um lado dela que jamais sonhara existir, um lado que poderia vir à tona com um mínimo de estímulo. E só em olhar para ele já se sentia estimulada...

Resignada, levantou-se e constatou que o estômago permanecia dócil. Na verdade, estava até com fome. Seria esse um bom sinal?

No banheiro, olhou-se no espelho e constatou que estava pior do que se sentia. Os olhos fundos pareciam querer saltar do rosto pálido e círculos escuros em torno deles era a única cor que possuía.

Oh, Deus!

Adoraria voltar para a cama e cobrir a cabeça para esperar que Sherlock a esquecesse e voltasse para o lugar de onde viera, mas sabia que isso não aconteceria. Conhecia o amigo a tempo suficiente para saber que nada o fazia mudar de ideia, uma vez tomada uma decisão. Quanto mais cedo fizesse o tal teste, mais cedo conseguiria livrar-se dele.

Era o que esperava.

Suspirando, abriu o chuveiro e deixou um jato de água morna cair sobre sua cabeça, tentando não pensar em nada além das sensações deliciosas que começava a experimentar.

Quando voltou ao quarto para vestir-se, Joan sentia-se voltando à vida. Ainda estava preocupada com a nova possibilidade aberta diante de seus olhos, mas Sherlock sempre fora responsável. Por que mudaria justamente agora?